Dragão Chinês

Pessoas e fatos passados, presentes e futuros estão sempre conectados.

Cheguei de viagem há um dia. Hoje, sexta dia 31 de maio de 2013, uma amiga pediu que eu assistisse a um vídeo porque o entrevistado havia dito que nascera no meu dia e mês, 28 do 8. Era o depoimento de um senhor judeu, dado no Rio de Janeiro em 1997, sobre a família, campos de concentração e os horrores da segunda guerra. Além da data de nascimento, percebi na sala do entrevistado um dragão chinês azul (ver foto), o mesmo que há aqui na sala de casa há mais de uma década.

senhor

A mãe de um jovem aluninho meu tinha um desses dragões (na verdade uma dupla) na sala. Uma vez o menino, então com 9 ou 10 anos se não me engano, me disse rindo que o maior homem do mundo era Hitler mas que ele não havia terminado de matar os judeus. Ele me disse que tinha aprendido isso no History Channel. Conversei com a mãe dele sobre isso. Dali em diante, soube que avó dele é minha vizinha, separada por um quarteirão e que ele havia nascido no mesmo dia e mês da minha sobrinha.

Voltando ao senhor judeu, de quem nunca havia ouvido falar, decidi pesquisar sobre ele hoje. Descobri que ele foi morto, dez anos após a entrevista, em um assalto ocorrido no centro do Rio, no dia  27 de maio de 2008. No mesmo 27 de maio, só que em 2013, eu estava em outra cidade vivendo dias emocionantes. 2008 é claro, dá 28…

Viajei no domingo dia 26 de maio de manhã em um voo previamente comprado em tarifa promocional. Um dia antes, no sábado, havia me despedido de um bom amigo que decidira voltar para o seu Estado natal, após uma temporada vivida no Rio. A partida dele seria na quarta dia 29, no mesmo instante em que eu estaria retornando à cidade. No astral, nossos caminhos provavelmente se encontraram e deve ter sido bonito. Durante sua temporada carioca, ele residiu com uma amiga, que raras vezes vi. Quando me preparo para embarcar no dia 26 de maio, quem aparece do nada? Essa mesma amiga, que me disse que havia comprado o bilhete um dia antes, por um valor alto, é claro. Mais surpresos ficamos, quando ela sentou no banco atrás de mim. Incrível… Se fosse só essa coincidência, já seria “alarmante”, mas pior foi que ao me levantar, vi que ao lado dela estava um radialista de um programa de esportes que assisto e o cara é botafoguense, o mesmo time que eu torço.

Para não aumentar este texto desconsiderei as pequenas sincronicidades diárias tais como ouvir determinada música por opção e ouvi-la um dia depois na TV; falar sobre algo e na rua alguém repetir a mesma coisa em seguida…

No dia 28 de maio, após vários atrasos, olhei para o relógio ao entrar “atrasado” no hotel: era 8 e 28 da noite, o inverso de 28 do 8. E durante o trajeto vi dois relógios de temperatura quebrados, que exibiam o misterioso 28 do 8! Podiam estar “quebrados”, mas para mim estavam conectados com a viagem no tempo e no espaço, além do mundo físico.

Ah… meu único irmão nasceu no dia 31, mesma data de hoje quando fui avisado sobre o vídeo/depoimento.

Vivi dias emocionantes nesta semana, a última de maio, verdadeiras conecções entre o passado e o futuro, tão bem explicitados na história do senhor judeu.

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Os Calceteiros e o nosso Tempo

Calceiteiro é o operário que faz empedramento de estradas, ruas e praças.

Calceteiro

Há alguns dias, desperto ao barulho de uma ferramenta que bate e encaixa pequenas pedras portuguesas na calçada. Há dias, me encanto com o trabalho de um ou dois homens solitários que constroem o seu próprio tempo, que tratam com carinho cada uma das pedras de um grande quebra-cabeças, que todos pisam e não dão o devido valor, sem lhes perceber a sutileza dos traçados, a conformidade dos blocos encaixados com esmero.

O Tempo Não Passa

Os homens trabalham cercados por uma simples rede de plástico, apenas isso, que mais do que os separar dos transeuntes, na verdade os separa no tempo e no espaço da realidade que todos querem acreditar como única. Os calceteiros pertencem a um mundo distante, de ternos, bengalas e chapéus para cavaleiros e damas. Meu avô vinha nos visitar, quando eu e meu irmão éramos pequenos, com belos chapéus e sempre beijávamos a sua mão, era a tradição do “benção, vovô”. (obs: inclusive incluí neste texto, várias gravuras do artista francês Jean-Baptiste Debret ou Debret (Paris, 18 de abril de 1768 — Paris, 28 de junho de 1848) que ao retratar o Rio de Janeiro Imperial, me fizeram amar ainda mais a arte do desenho-documental – aquarelas ágeis feitas para retratar momentos fugazes, mas prenhes de significado). Entre as gravuras, incluí “Costumes dos ministros e secretários de Estado (1826)”, obra na qual surge Pedro I conversando com algum ministro sem dar a atenção a um outro que lhe beija a mão!), a cena dos barbeiros e uma geral da Praça XV, perto do Paço Imperial. Comparem-nas com as fotos que fiz do amigo calceteiro, “o tempo não passa, meu amor”, a gente acha que passa, porque envelhecemos, porque desencarnamos, porque modas e costumes mudam.

Costumes dos ministros e secretários de Estado (1826)

Barbeiros, sangradores, muito calor e doceira.

Praça XV

Fiquei minutos que viraram meias horas, admirando o lento labor do encaixe, parcimonioso, cuidadoso, honrado, digno e mais afeito à tradições do que a modernidades. Ali havia apenas homens e ferramentas, e não doutores e máquinas. Atemporais pedras portuguesas transformadas em calçadas cariocas e não em ons e offs, XPs, Vistas e Blockbusters. Vivenciando a cena quase mágica, retirada de um livro de gravuras de Debret, viajei no tempo, voltei à infância: a um tempo de galinheiros em plena Visconde de Pirajá em Ipanema; na lentidão dos ônibus elétricos que seguiam seu destino sem a tresloucada correria pelos prazos e nunca esquecerei das notas perfeitas de Asa Branca, tocadas por um amolador de facas em uma pedra girante, movida pelos movimento dos seus pés.  Me recordo do som da rádio da mamãe antes da vitória inexorável da Televisão e hoje do computador.  Enlevado, o calceteiro me lembrou que o tempo em que vivo não é o único, que  a realidade não é o que é, é apenas o que fazemos dela.

Ao acordar com os toques precisos daquele homem em seu labor, me senti honrado por pisar – com todo o respeito – em sua obra. Os passantes, ao contrário, nada veem, nada querem ver, não captam a magia do sonho, a fantástica fábrica das possibilidades. Quantos cegos relutantes sem coração.

Obrigado amigo calceteiro por me fazer ver, mais uma vez, que não preciso viver a vida dos outros, que não necessito correr em uma velocidade que não é minha, que não preciso acreditar em verdades absolutas, óbvias e concretas.

Obrigado amigo calceteiro por me provar que é possível acreditar na vida.