Pai Nosso no metrô

No último dia útil de 2014, os operários e engenheiros se reuniram nas obras do metrô carioca para rezar um Pai Nosso. Nesse momento não importa a luta de classes, a religião, o time de futebol ou o governo. Terminar o ano, inteiros, é uma espécie de missão para todos. Entre conquistas, aprendizados e dificuldades lá vamos nós para mais um ano, sem mágoas e culpas. Agradeço a Deus todos os dias por mais um dia. Peço sempre menos e agradeço cada vez mais.

 

A SINCRONICIDADE DA INCORPORAÇÃO (em uma festa)

Alejandro, um amigo argentino voltou à cidade do Rio de Janeiro. Decidimos organizar um encontro com todos os seus conhecidos cariocas para recepcioná-lo. Escolhemos uma pizzaria e marcamos para o início da noite. Por mais que um ou outro convidado não se mostrasse disponível, onze compareceram ao encontro, incluindo um, o décimo-primeiro, que teve que ser retirado de casa à força (quase sem resistência). Com três carros, recolhemos os participantes para a noitada e lá fomos nós. No restaurante, três mesas foram reunidas para receber os convidados. Reservamos o lugar no meio para nosso amigo argentino e sua esposa.  Fizemos de tudo para deixá-los à vontade. O portunhol era a língua oficial da noite.  O ruído dos talheres e dos copos, sorrisos e camaradagem davam a tônica.


No meio da festa, uma surpresa: uma conhecida que eu não via há anos, com quem eu não me dava bem, e que nem era amiga do argentino, deu as caras, sem ter sido convidada. Essa “amiga” foi a décima-segunda a chegar. Os onze viraram doze. A “décima-segunda” (vamos chamá-la assim) me viu, obviamente sabendo que eu era o anfitrião, fez um gesto meio incomodado, na obrigação de me cumprimentar, desviou o olhar e falou com um dos convidados, que levantou da mesa principal para papear com ela em uma mesa ao lado. Ficaram lá, os dois, no papo bem baixinho, para ninguém ouvir. E na minha frente. Lógico que rolou um climão, mas não era exatamente problema meu. Eu prossegui na minha. Ela não estava à vontade e nem eu, mas deixei para lá, só que ela estava no meu ângulo de visão. Para evitar maiores constrangimentos perguntamos aos dois exilados por que não sentavam conosco.  O convite foi aceito na hora, mas as mesas permaneceram em três com o acréscimo de uma cadeira. Nem é preciso dizer que ela escolheu ficar na minha frente, os dois frente à frente.

Conversa foi, conversa veio e, em um momento de trégua, não sei dizer se ela ou eu, um dos dois tentou iniciar uma conversa amena. Porém, em uns trinta segundos os ânimos se exaltaram. Alguns dos participantes, notando o aumento do tom de voz da dupla, tentaram apaziguar os ânimos.  “Ninguém é inocente”, já dizia o dito popular e os apaziguadores foram alvejados também – quem manda ficar na linha de tiro?  A terceira guerra estava declarada. Não havia mais argentino para exigir nosso bom comportamento. Então ocorreu o impensável parte um: meu corpo foi tomado por uma cãibra aparentemente sem função. Ou pelo menos, bem no comecinho, eu achava que era isso. Depois percebi que era incorporação. Eu, que não acreditava nessas coisas, fui tomado por uma onda gigantesca de energia.  Cobriu-me da cabeça aos pés, chacra após chacra.  Subitamente, já não era mais eu o único dono do corpo.  Senti-me pela metade, se é que é possível sentir-se assim.  Para os médiuns e afins, esse é um acontecimento trivial: incorporar, mas em público e cercado de testemunhas era uma situação estranha. Estava incorporado por algo, ou por alguém pela metade, como se tivessem dividido meu corpo em regime de comuna. Socializaram-me no nível espiritual.  Só faltava a placa: “Sob nova direção”.


É uma sensação estranha, como se o “convidado espiritual” (fosse um espírito, alguém ou você mesmo projetado, em outro nível de consciência) passasse a mandar na sua casa – sem ter lhe sido apresentado. Assim que recuperei a direção do olhar, fitei a “décima-segunda” olho no olho. Entrei dentro dos olhos e a partir daí, lhe escaneei a alma, o antes e o durante. Pude acessá-la por completo, com os dados entrando em meu HD sem interferência. Seus olhos eram como vitrais em profusão de revelações.  Pupilas, córneas e íris não eram empecilhos para chegar ao seu âmago. Tornou-se translúcida. Juntamente com a nova visão, chegou um brinde: uma redentora compreensão “técnica” do objeto estudado. Se é que posso explicar assim. Era possível lhe decifrar os pensamentos, lhe compreender o espírito assim como era possível saber sobre seus erros, acertos, conceitos, vontades, verdades e mentiras.  Haviam me dado passe livre para a mente da “décima-segunda”

Sem autorização, minha ou dela, ou dos outros envolvidos na contenda, comecei a relatar o que lhe ia à alma. Os onze ficaram em silêncio (menos eu que falava). Os talheres cessaram.  O restaurante parou para ver e ouvir aquilo. A Décima-segunda tentou reagir, mas já era tarde.
– Você mente pra si – “nós” (eu e ele) dissemos.
– Como assim “mentir”?  Quem é você pra saber da minha vida?!
– Eu posso ver através dos seus olhos.  Você pode mentir para si, para todo mundo mas não pode enganar todos durante todo o tempo.  Você não é uma pessoa feliz.
– Pare de falar besteira – você por acaso é o dono da verdade?!
– Pense bem sobre a vida que você tem levado. Não pense sobre a minha. Nesse momento não é o Carlos que está aqui falando. Ele está tão ou mais surpreso do que você. Há um convidado dividindo o corpo: eu.  Ele queria te ajudar há muito tempo mas não tinha como. Imagine o grau de dificuldade que foi arrumar esse encontro para colocar vocês dois, frente e a frente. Há muita coisa envolvida nessa história. Julgue, reflita e prove se eu estou errado.
– Eu sou muito feliz!  Reagiu enfaticamente. – Você não tem noção do que está falando!  Eu sou a pessoa mais feliz deste mundo!
– Vamos ver. Se você reagir saindo desse círculo vicioso, ficará mais fácil sentir a diferença entre quem está sentada aqui e a nova pessoa na qual você se tornará daqui a seis meses. O caminho será difícil, mas extremamente produtivo.  De todos nesta mesa você é a maior necessitada e a maior esperança de mudança.

Assim que “terminamos” o linchamento, o clima foi de consternação.  Até o maitre havia parado para escutar.  Lentamente o “convidado” que tomara conta do meu corpo, se retirou.  Imagine a minha cara quando ele me deixou sozinho…  Sejamos francos, você convidaria o imponderável para a sua festa?  Você faria uma rega-bofe em centro espírita? Vaticínios respeitam a etiqueta?


Conviver com alguém assim (ou seja: pessoas que incorporam em eventos sociais) dá um certo receio. Os que não me condenaram, consideraram-me caso para internação.  Aquela foi a primeira e última reunião do grupo dos doze.  Não sei se o acontecido foi a gota d’água ou se ali uma nova fase teve início. Ainda é cedo para maiores conclusões.  Tenho de chegar aos cem para ter certeza. Não poderia pedir que me compreendessem, até isso eu entendia, eu deveria ficar, como fiquei, calmo com o linchamento: “Que absurdo o que VOCÊ (obs: EU?) falou para a menina!” e coisas desse tipo. Situaçãozinha surreal, hein?

Não se passou um dia sem que os telefonemas de reprovação recomeçassem: “Por que você fez isso com a coitada?”, “Você está perdendo o controle”, “Por que você não tira umas férias?”.  Fui soterrado por críticas e respondi com sorrisos.


Os meses se passaram.  O eclipse descrito na postagem anterior deste blog chegou (Operação Espiritual e Fim do Mundo – um testemunho). Aconteceu o que aconteceu.  Um tempo depois, em uma dessas “sincronísticas” viradas de uma esquina para a outra, onde nunca se passa, onde nunca se pensa em passar, a “moça do outro lado da mesa”, a “décima-segunda” esbarrou comigo na rua.  Eu a caminho de casa, ela vindo da praia.
– Eu queria te pedir desculpas por aquela noite… – comecei.
– Não, não, não, sou eu quem te deve desculpas. Você tinha razão. Eu era muito infeliz mas não queria assumir. Quando parei para pensar vi o quanto eram equivocadas minhas últimas decisões. Meu casamento estava um tédio. Eu não evoluía profissionalmente e resolvi dar um fim nisso.
– De qualquer jeito, me desculpe pela forma como falei contigo.  – Me desculpei pelos “dois”.
– Deixa pra lá, já passou – disse, erguendo o rosto.

Quando mirei em seus olhos vi uma pessoa tentando seguir um rumo diferente, mesmo que novos problemas surgissem. A implicância que eu nutria por ela havia desaparecido. Nada como um dia após o outro. Alimentar essa bobagem por tanto tempo… Nada a ver.  Nos abraçamos.  Pedi mais desculpas pelas perseguições ao longo da década, o que, colocando em miúdos, já contabilizava bastante tempo e perda de energia.  Ela sorriu.  Sua voz estava mais branda.  Desejei muito boa sorte e coragem.  Nada como a sensação de amar indiscriminadamente. Amadurecimento tem a ver com algumas mudanças, ajustes e perdas. Estamos em constante evolução, analisando conceitos e ideias. Não dá para ficar perpetuando o que já mofou.  Fiquei feliz por ela e por saber que podemos dar um rumo novo às nossas vidas.


O “convidado” (do além) sem convite era dos bons, ele sabia das coisas.  Às vezes fico preocupado dele baixar em outro – não por ciúme, mas para ficar vigiando meus passos.  Fico imaginando o vexame que passei aquele dia – imagina se eu entro em um supermercado e a balconista começa a me dar um pito histórico, falando dos erros cometidos nas encarnações anteriores?  Coisa de louco.

Curiosamente, soube algum tempos depois, que a “Décima-segunda” havia decidido separar-se do marido americano durante o mesmo eclipse, que mencionei acima (Nostradamus). Ela simplesmente fez as malas, deixou o apartamento em Nova Iorque onde era bancada e se entorpecia, sofreu os efeitos do eclipse, entrou no avião, sem dar adeus ao gringo e voltou ao Rio.

Anos após esse encontro na rua, soube que ela havia voltado a viver com a mãe no interior e que ela havia se machucado, caindo de uma janela, ou ferido a mãe, já não lembro bem, mas o fato é que ela voltara a se drogar, a beber sem parar. Tivera a chance, e por um momento compreendera que dava para ter uma vida diferente, sem drogas e sem energias negativas, mas ela simplesmente não quis.

Nesse momento, o espírito se retira. Ele fez a parte dele.

Essa é uma das lições que aprendemos na vida: que as pessoas que nos tentam fazer mal, na verdade não são nossos “inimigos”: elas são importantes em nosso processo de amadurecimento; são mestres na arte de nos depurar para nos tornarmos mais tolerantes e nos ensinam a perdoar.

Me sinto muito feliz quando vejo o Cruzeiro do Sul sobre minha cabeça – por mais longe que ele esteja -, o que me dá muita segurança.  Costumo sorrir para o Cruzeiro.  E ele me dá uma piscadela de volta. Agimos como confidentes. Segui o meu caminho. Décima-Segunda seguiu o dela.  Nunca mais nos vimos. Décima-Segunda era indispensável àquela noite.  A festa, na verdade, não era para o argentino mas, sim, para ela.  Esse pessoal do “outro lado” tem cada uma…  

Cada um dos doze convidados leva a sua vida agora. Muitos não estão mais no Rio, outros separaram-se, alguns trocaram de amizade, de profissão, mas todos estão vivos.

E a vida continua…

O Eclipse da Lua

Riso da Lua

Desci para ver a lua sorrir.

Explicando: hoje, dia 15 de junho haveria um eclipse total que realmente ocorreu. Certamente, não foi um eclipse inglês, mas um brasileiro, pois nenhum dos horários oficiais “bateu” com o que vi no céu. Antes de descer para tomar o banho de lua conferi os horários. Segundo o prognóstico, o ápice do eclipse ocorreria às 17:12, horário de Brasília. No Rio começa a escurecer as 17:30. Na rua, no céu de dia, não vi lua alguma. Pensei, ela deve ter se refugiado, está preparando alguma surpresa.

Assim que desci às 17:15 me perguntei, que surpresas a lua me reserva hoje?

Deixei o destino responder.

Perto de casa, uma pessoa passa de bicliceta ao meu lado e grita: “Grande, Carlos!”

Fiquei matutando um pouco para saber quem era pois não vi seu rosto direito, porque o bicicletante estava à toda. Mas o cérebro capta imagens em velocidade e a checa com o banco de dados mental até obter a resposta: uma baita resposta! Era o Betinho, jogador de vôlei, amigo meu e do meu irmão no colégio. E o que significa esse encontro? A única vez que eu, meu irmão e ele andamos de bicicleta na Lagoa, aqui perto de casa, foi há mais de 30 anos e eu não precisei ver o seu rosto para ter certeza de que era ele. Importante mesmo era a simbologia do encontro, mesmo em velocidade. Encontrá-lo em uma bicicleta, após tantos anos, significa em meu coração que, após pedir muito por isso, o sonho se realizou. Clamei em meu íntimo, a Deus para que me fosse devolvida a pureza dos tempos de criança, para que fossem desfeitos os descaminhos da dor, da traição, do erro, das escolhas imaturas e vê-lo passando por mim, após 30 anos, me respondeu: “Está feito!”

“Grande, Carlos!”

Quando era 18:15 lá estava ela, brilhando no escuro do céu como o sorriso do gato da Alice do País das Maravilhas. Em segundos a bocarra se fechou e  só fui vê-la escancarada às 19:15, completinha, redondinha. Segundo os cientistas e astrônomos a saída completa da penumbra seria as 20:00, porém a lua, antes atrasada, estava adiantadinha, uma hora antes, querendo tirar o pai da forca!

Sob o riso da lua com sua manha de gato, não apenas me senti coeso, em paz com o universo, mas o ganhador da grande mega sena espiritual: o maior dos prêmios: UMA CHANCE DE RECOMEÇAR COM A ALMA E AS MÃOS LIMPAS!

A Sincronicidade do Natal

2010 já acabou, viva 2011.

Viva? Bem, se melhorarmos como indivíduos, ótimo, mas se é para continuar com a alma sedenta por poder, bens materiais e bajulação, então o cenário é negro…

A vida é muito maior, a vida é muito mais bela, ainda mais quando vivemos a mágica.

Nunca esquecerei de ter visto, em pleno Natal, as botas do Papai Noel.

Foi exatamente isso que vi: um par de lustrosas botas que brilhavam no escuro, encostadas à cama dos meus pais, bem em frente à porta do quarto deles no final do corredor do apartamento. E antes que alguém pergunte, a resposta é “não”. Meu pai nunca se vestiu de Santa Claus. Os presentes surgiam ao lado da árvore todas as manhãs na data certinha, era barbada. Nunca questionei se o bom velhinho era real ou não. A felicidade que me assombrava quando eu recebia os presentes era tanta que não me cabia questionar o inquestionável. Hoje, crianças com dez anos vivem na internet, eu lia Monteiro Lobato e não pensava em mulheres, apesar do meu pai tentar me transformar em um garanhão insensível, mas graças a Deus, não obteve sucesso.

Elas, as botas, pareciam enormes, gigantes, ainda mais para o meu antigo tamanho de anão de jardim.

Fiquei tão assustado que nem consegui escancará-las, me pareceu proibido ousar além dos meus limites, atravessar uma ponte intransponível entre o mundo real e o da imaginação. Como eu, um pequeno ser, poderia se atrever a ver Papai Noel em toda a sua majestosidade? O pouco de luz – vinda da lâmpada do corredor – me permitiu vê-las, inclusive os pon-pons, não me encheu de coragem para ver o ser mágico na íntegra. Desculpem-me, não me arrisquei a olhar para cima e vê-lo em sua plenitude de ser físico, barrigudo e sorridente. Saí correndo gritando: “Eu vi Papai Noel!”.

Esse encontro me deixou tão perplexo, entre botas e crianças, que quando eu e meu irmão, que dormíamos em um só quarto, tivemos que escolher quem ficaria na janela ou ao lado da porta, eu pedi para ficar com a porta, pois se Papai Noel tentasse entrar pela janela, daria tempo para eu me escafeder como o Leão da Montanha.

Os adultos tem o hábito de culpar o velho Noel por decisões que não são da sua alçada, ligando a sua ausência ao nosso mal comportamento: “Papai Noel ainda não chegou” ou “Esse ano ele não vai trazer o seu presente porque você não foi bonzinho para a mamãe”, diziam. Certamente, a pouca produtividade do salário, incapaz de atender a todos os pedidos dos filhos, era o real motivo da ausência dos presentes natalinos em alguns momentos de nossa história familiar. E olha que éramos apenas dois irmãos. Mas nossos pais se esforçavam para nos atender, isso não posso negar. Se o par dos fantásticos pés pertencia a alguém de fato, não vem ao caso.  O importante é que o cheiro do Papai Noel estava lá; eu mesmo o sentira.  Esbaforido, voltei à sala, em extâse.

 

“Papai Noel está no quarto!”

 

Comuniquei aos adultos que o velhinho estava no quarto no final do corredor, porém o máximo de admiração que me ofertaram foi bem menor do que meu coraçãozinho esperava. Talvez uma das minhas primeiras frustrações.  Ninguém se deu ao trabalho de me acompanhar para tirar a prova dos nove: foi uma lástima.  Me deu vontade de chorar. Até hoje me sinto um pouco assim, como aquele garoto que ninguém escuta, quando afirmo existir mágica no mundo.  Fato relevante que praticamente ninguém vê, ou finge que não vê. Pior ainda foi o dia em que nossa mãe nos comunicou laconicamente que Papai Noel não existia, que ela e meu pai colocavam os presentes na árvore de natal e que devíamos parar de acreditar nessas bobagens de Noel, Boitatá e Curupira. Foi assim mesmo: um comunicado meio amargo, nos arrancando impiedosamente a prótese da pureza. Só de  birra, até hoje não acredito em uma só palavra do que ela disse. Veja lá se vou cair nessa…

Acredito em mágica, porque eu vivo a mágica. Não preciso implorar por amor ou reconhecimento e nem puxar adultos bêbados pelas mangas para verem o que não querem ver.

Passados vários anos, o mesmo quarto de mamãe serviu de palco para peças para as quais fui escalado à força. Vivi aquilo que chamam de experiência Crística para o nível da minha compreensão e idade. Uma espécie de iniciação, ou primeira crucificação, simbolicamente falando.

Ainda era bem pequeno e todos os sentimentos tornavam-se gigantescos em comparação. A cabeça de uma criança de 13 anos nos anos 70 era bem diferente das de hoje. A história é essa: O pai de minha mãe era um jornalista que almoçava semanalmente em nossa casa e, em uma de suas visitas, mamãe estava muito nervosa porque eu não havia cortado o cabelo – segundo ela, para agradar o meu avô (ou seria para agradá-la?). A solução encontrada, unilateralmente, foi me obrigar a permanecer escondido sob a cama do seu quarto, a mesma das botas de Noel, para que vovô não visse o neto com a aparência “suja”. Mamãe estava tomada por um horror estranho, como se pudesse ser repreendida por ter falhado e preferiu me dar em sacrifício do que encarar o pai. Apesar de não entender muito bem o que estava acontecendo, estranhei muitíssimo o fato de minha mãe, que era tão poderosa aos meus olhos, transformar-se em alguém tão amedrontada na presença de outro ser humano, afinal, para mim, eram apenas pessoas.  Nada mais. Meu irmão, por ter cortado os cabelos, teve permissão para participar do almoço na sala de jantar. Eu que comesse depois. Do chão do quarto, dava claramente para ouvir mamãe inventando as mais estranhas desculpas pela minha ausência. Ela exigira meu silêncio de morto sob o estrado da cama. Meu avô, muito mais esperto do que a filha, apenas ouvia e duvidava. Assim fiquei sob o colchão e o estrado, sem julgá-la, apesar de ser bem incômodo tentar não demonstrar minha presença.  Fiquei apavorado até de respirar!  O chão não havia sido varrido e estava difícil sentir-me confortável.  Poeira, pouco espaço e minha cabeça encostada no chão gelado.

Quando os sapatos do meu avô – os sapatos, sempre os sapatos – adentraram o quarto, ficando imóveis por alguns segundos que mais pareciam horas, meu coração pareceu saltar da boca.  Tinha certeza de que ele sabia que havia um neto embaixo da cama, pois ele nunca havia ido até o quarto no final do corredor. Ele sabia, eu sabia, meu irmão sabia e mamãe sabia. Eu só não queria decepcionar mamãe duas vezes. E lá, amedrontado e humilhado, lembrei das botas natalinas ao ver os lustrosos do vovô. Sapatos de horror, todos.  Meu maior medo era que meu avô se abaixasse e fitasse meu rosto espremido contra o chão. Cheguei a rezar.

E lá continuava meu avô, em posição de sentido à procura de um neto escondido sob o colchão.

Mas todos se assemelham na velhice, onde todos os pecados são pagos.

Paulatinamente, meus pais foram “morrendo” ainda em vida, um para o outro e posteriormente para mim, metamorfoseando-se de mitos em seres comuns.  Além da idade avançada, havia o pior sintoma da velhice: manter estruturas carcomidas.  Ambos não se entendiam mais. A relação se desgastara e era clara a vontade dele em escapar e a dela em manter o casal à força. Nunca me pareceram melhores do que qualquer outro casal, apenas mais um. A diferença é que eram meus pais.

O tempo passou e meu avô, até mesmo pela idade avançada, perdeu os sentidos e, a partir daí, a própria memória. Durante uma das visitas aos sábados à tarde, impostas por minha mãe para assistirmos nosso avô sendo destruído pelo tempo – senhor implacável de todos nós -, na Tijuca, ele fez a grande pergunta que marcou época: “Quem são essas duas moças?” Eram eu e meu irmão.

Após o falecimento do vovô foi necessário desocupar o apartamento – esses sim, não morrem nunca a não ser a marretadas -, que como o destino, observam o rodízio dos novos locatários de suas repintadas paredes. As cores e as pessoas se vão, as paredes ficam. Para surpresa de minha mãe foram encontradas exatas cem enferrujadas lâminas de barbear, usadas, porém nunca jogadas fora; hermeticamente preservadas em uma gaveta com restos de creme de barbear e pelos antigos. Sempre que penso em jogar algo fora, – e decido fazê-lo -, lembro das lâminas que nunca conheceram o fim durante a existência do meu avô. Penso na inutilidade de coisas como livros nunca relidos que só se amontoam nas estantes – quando não, em caixas.  Meu avô, sem querer, acabou por ofertar-me uma das maiores lições que poderia esperar de alguém.  Atuou em silêncio como um mestre esperando o tempo necessário para que eu crescesse e pudesse compreender a grandeza das pequenas coisas.

 

A Sincronicidade da Maçã (da Sincronicidade ao Insight)

 

A maçã, que simboliza a transgressão praticada por Adão e Eva no Jardim do Éden, também está ligada ao simbolismo da árvore, o eixo do mundo. As raízes da arbor inversa (árvore inversa) estão no céu, sendo Cristo o mais belo fruto enviado pelo céu à terra, representada por Maria. Na mitologia céltica, essa fruta simboliza a magia, a imortalidade e o conhecimento. Para o povo da Idade Média, a maçã possibilitava o acesso dos indivíduos à Ilha dos bem-aventurados. Já segundo a Igreja católica, somente depois da morte e da passagem pelo purgatório, os indivíduos purificados podem aspirar à felicidade eterna.

Eva, a companheira de Adão, ouviu os conselhos sussurrantes da serpente e passou a cantilena adiante. Alguns interpretam Eva como uma inocente útil, outros como uma dissimulada, que empregou o seu poder de persuasão para convencer a sua metade, para desvirtuar a sua consciência, iludindo-a com bonitas palavras.

Conscientemente ou não, todos são culpados: Adão por se deixar seduzir e Eva por encarnar o pecado.

Em latim as palavras mal e maçã, malum, são escritas da mesma forma. A maçã simboliza o pecado original, já o pão (corpo de Cristo), a redenção. A Virgem é considerada a segunda Eva, redimindo o pecado da primeira.

Adão, Eva, Maçã, Serpente, Árvore

A alegoria bíblica da mordida na maçã mostra que a raça humana optou por refazer o caminho – já feito – à luz. Adão e Eva simbolizam a inocência e o egoísmo das crianças, que dão as costas ao paraíso. Esse é o princípio do livre-arbítrio, algo que poucos falam: o princípio do egoísmo. A escolha pela maçã, pela liberdade, é também a opção pelo “erro”, falando rasteiramente, e pelo mal, que hoje assume várias formas dissimuladas e superficiais.

O mal tem muitas faces, tão delicadas e singelas como o bem. Se muitos odeiam em silêncio, por que parece ser tão difícil amar em paz? Aprendi a aceitar que certas coisas só podem ser modificadas com o tempo, que não posso convencer ninguém que não queira ser convencido, sei que muitas verdades não podem ser compartilhadas… Enfim, aprendi a aprender, não a prender, a não apreender.

Quando algo vai “mal” comigo, quando não consigo compreender com clareza porque ocorrem certas coisas, paro de pensar. E a reza me ajuda muito, pois basta começar a rezar em um local no qual possa expandir minha consciência, que tudo fica mais sereno e fácil de entender. É como se um peso saísse das minhas costas, tudo fica muito mais leve. Sou tomado por uma serenidade inexplicável, quase dopante, na qual minha mente entende tudo, sem julgamentos, em um local no qual posso conversar sem amarras e trocar ideias com o invisível. E geralmente o conselho é o mesmo: equilibre e prossiga. Alguns podem achar que eu rezo demais, mas cá entre nós, é melhor rezar do que amaldiçoar, é bem melhor rezar do que fofocar e é maravilhoso rezar ao invés de perder o seu tempo praticando o mal. É bem mais fácil assistir TV, todos sabemos, mas tudo é questão de prática. Se os jornais parassem de publicar notícias ruins, nós pararíamos de comprá-los, simplesmente porque as notícias ruins somos nós. Elas existem porque nós existimos. Nós somos atraídos pelo mal, que age como um imã e está em todos os lugares, no seu local de trabalho, na sua família, em você mesmo.

 

Por dentro tá que tá, mas como ninguém vê...

Quando há a necessidade de depurarmos uma história pregressa ou de depurar a nós mesmos, a dor ou a queda nunca estão descartadas. E só dói porque somos apegados, inclusive porque a sociedade, esse grande ser metamorfo, nos cobra uma atitude “social”, um procedimento de aparências. Para se tecer uma rede harmoniosa é necessário esclarecer as regras do jogo antes de jogarmos, é necessário expôr as coisas claramente sem altercações, sem alterações e certamente negociar. Se cada um de nós, não souber aceitar o pedido do outro, se considerarmos que todo pedido é uma ofensa, aí o negócio fica feio. E o mal está associado à palavra liberdade.

Quando os mais próximos me contam os seus problemas, de cara dá para perceber que a maioria só sabe culpar os outros e que não está pronta para abrir mão dos seus temores, de suas “liberdades” e principalmente dos seus prazeres. O mundo funciona em um equilíbrio no qual reina uma alternância de poder: se há sol, há chuva; se há noite, há dia; se há dias péssimos, há dias maravilhosos, mas nós não parecemos prontos para parar de ter prazer um dia sequer ou pelo menos, de intercalar as estações dos nossos prazeres. E quando falo em prazer, não falo em sexo apenas, mas em fumar um cigarrinho, em nunca elogiar, em nunca deixar de “pular o muro” para não perder oportunidades, em ser um tremendo egoísta puxa-saco, em criar fantasias que não existem, etc, etc e etc. Não dá para a gente estar certo o tempo inteiro, mas dá para se manter uma certa coerência, moldada pelos seus valores. Isso é, se você realmente compreende o que é ter valores. A grandeza dos atos não está na exibição, está na ação engendrada silenciosamente e os valores nunca são entes externos, eles se manifestam no dia-a-dia, em situações corriqueiras.

O lugar comum prega que toda sincronicidade é boa e só traz o bem. Isso é uma meia verdade. É verdade quando se diz que toda sincronicidade só traz o bem, mas a assertiva é falsa quando alardeia que todo bem é idôneo.  A sincronicidade te dá um toque, te empurra pra frente e te aconselha a encarar o desafio, isso ela faz bem. Agora, se você vai gostar de encarar a medusa, aí já são outros 500. A maçã pode ser linda externamente,  mas pode estar podre por dentro, envenenada com a mordida da cobra, com o toque da dúvida, da sugestão, da ilusão.

à espreita

Há um pensamento associado aos traficantes que diz: “Melhor reinar durante algum tempo do que ser escravo a vida inteira.” Agora altere a frase para: “Prefiro reinar no Inferno do que ser servo no céu.” Algo estranho? Pois é… tanto faz. Seja traficante, diabo ou um grande empresário, a mentalidade é a mesma: a pessoa que se hiper valoriza, que não aceita ser contrariada, que não vê os outros igualmente, que despreza o diferente e que só gosta de quem foi moldado à sua imagem e semelhança não depende de educação ou estudo.

O  anjo caído, aquele mesmo que rompeu com Deus, lutou contra quem ele considerava “tutelador”, para ser livre. A palavra liberdade pode significar muitas coisas, algumas bem estranhas. Então se liberdade é o desejo da maioria, por que há tanta demonização do anjo rebelde? Ninguém aqui está propondo que não podemos ser bonitos, nos vestir bem, comer bem, e nem amar bem, mas não se deve confundir alhos com bugalhos. A questão é simples: basta refletir e julgar o que é importante em sua vida e decidir. E as escolhas estão sempre ligadas a valores. Nesse caso, não dá mesmo para acender uma vela para Deus e outra para o diabo.

A alegoria da maçã sempre me remete ao casal, e nem tanto ao pecado, mesmo com todo o peso que a palavra carrega. Não acredito em pecado, que é a ação, porque quem o pratica, o agente, é acima de tudo um inconsciente, não exatamente um “pecador”, mas um ignorante que acredita no próprio egoísmo e não se sente culpado por isso.

A imagem do casal simboliza a união dos extremos, a não dualidade, o compromisso e a cumplicidade, a coesão que harmoniza, ou seja o ser uno que alavanca o poder das grandes sincronicidades. Mas o entendimento do significado da coesão não pode ser imposto a quem quer que seja porque não funciona. É como a palavra que se dá, mas que não se cumpre com milhares de desculpas. Toda desculpa parece ser boa o bastante para explicar a impossibilidade de cumprir a palavra empenhada.

Vivi histórias de família e de relacionamentos que me fizeram sofrer bastante, pessoas amadas que decidiram morder a maçã, mesmo sabendo que trariam sofrimento a todos, e posso afirmar que não deram a mínima. E não adiantava falar, eram palavras soltas ao vento. Só aprendemos essa dura lição na pele e se quer saber, dói e muito. E quem pode te ferir é exatamente quem mais você ama, porque está próximo. Essas pessoas que mais amamos e que decidem se trair, mais do que nos trair, embarcam em uma viagem ególatra, amparada por amigos do alheio, que também pregam o direito à liberdade, e como seres sociais que são, se apóiam mutuamente, até mesmo nas piores escolhas, acobertando os erros e expondo qualidades. A mordida dos nossos entes queridos ocorre por egoísmo, teimosia, ou por ignorância mesmo, mas não poupa ninguém.

A Melhor Descrição Do Que Vi Ao Me Deparar Com O Mal

Durante esses momentos de tensão, que duraram de meses a anos, as sincronicidades se recolheram, aguardaram para que mais luz entrasse no quarto escuro. Nessas fases, a sincronicidade deu mais espaço aos insights, percepções profundas sobre a realidade, um entendimento agudo sobre todas as coisas. E o que os insights me recomendaram é que eu deveria colocar a viola dentro do saco e dar tempo ao tempo. Isso foi muito difícil, porque a aceitação do inaceitável deixa marcas. Mas optei por me recolher, aceitei que o mundo é ilusão e que não se combate as trevas no campo delas. E a maior lição que tive que aprender é que eu não precisava me defender, eu simplesmente me calei, silenciei. Alguns anos depois, as sincronicidades voltaram firmes e fortes, lindas como a mais bela das maçãs, linda por fora e saborosa por dentro.

E o que aconteceu com essas pessoas que a morderam impunemente?

Como eu, todas cresceram por bem ou por mal.

 

A Maçã

(Composição: Raul Seixas / Paulo Coelho)

Se esse amor
Ficar entre nós dois
Vai ser tão pobre amor
Vai se gastar…

Se eu te amo e tu me amas
Um amor a dois profana
O amor de todos os mortais
Porque quem gosta de maçã
Irá gostar de todas
Porque todas são iguais…

Se eu te amo e tu me amas
E outro vem quando tu chamas
Como poderei te condenar
Infinita tua beleza
Como podes ficar presa
Que nem santa num altar…

Quando eu te escolhi
Para morar junto de mim
Eu quis ser tua alma
Ter seu corpo, tudo enfim
Mas compreendi
Que além de dois existem mais…

Amor só dura em liberdade
O ciúme é só vaidade
Sofro, mas eu vou te libertar
O que é que eu quero
Se eu te privo
Do que eu mais venero
Que é a beleza de deitar…

 

Sincronicidade da Proteção

Frequentei uma Fraternidade Mística nos anos 90, na qual aprendi a importância dos rituais. Em nossa vida diária, praticamos muitos deles: batizado, festa de 15 anos, aniversários, primeira comunhão, vestibular (Enem hoje), primeira namorada, primeiro emprego, etc. O ritual significa a passagem de uma fase para a outra, sempre superior e fartamente celebrada em conjunto pela sociedade. Mas o ritual só nos exprime a sua real importância quando você se conecta a ele, entendendo algo do seu significado. A superficialidade e o não entendimento te afastam do que o ritual tem de mais encantador, que é te fazer entender o fluxo e refluxo da existência.

 

Como Se Vê

Em 1995 me desliguei dessa Fraternidade, não por discordar totalmente dos seus métodos, mas por sentir firmemente que era chegada a hora de partir. Quando esse impulso de mudança toma conta de você, não se discute, não se pensa duas vezes. Mas é claro, toda mudança deve ser realizada com o maior respeito e transparência com todos os envolvidos diretos e indiretos. Toda ação gera uma reação, isso é básico e toda mudança gera oportunidades, “desperdiçáveis” ou não. Com o tempo aprendi que o mundo te empurra para a frente, sempre. Quem te empurra “para trás” é você e mais ninguém. Assim como a vida, o entendimento sobre os rituais, surge com o tempo, com a experiência e a maturidade. Você pode ter 80 anos e continuar sendo completamente cego, não há nada de novo nisso. Por isso, quando decido que a mudança é inevitável, a realizo às claras. Nunca fiz e nem faço nada na sombra, mesmo que socialmente se pague um preço caro por ser independente.

Subi ao escritório do fundador da Fraternidade para comunicar a minha saída e ouvi de sopetão: “Você veio dizer que está saindo, não é?”. Meio surpreso, pois não havia comentado sobre o assunto com ninguém, respondi que sim. Ele me disse: “Seu trabalho não é mais entre quatro paredes, o seu trabalho é no mundo.”

O que ele quis dizer com mundo? Refleti sobre esse assunto várias vezes, mas antes mesmo de chegar a alguma conclusão, o mundo me tragou inesperadamente. De uma maneira surreal, fui empurrado para uma viagem à Europa no ano seguinte. Havia ido no máximo à Argentina, nunca para outro continente, e nem tinha dinheiro para isso, mas as coisas foram ocorrendo em um frenesi de “coincidências” que desde o primeiro momento, deixaram claro que era para ir e ponto final. Você segue o fluxo ou não, a decisão é sua. Há que confiar, mas sem as amarras da ilusão. Quando você “se deixa levar” e segue o seu “destino”, nada de ruim pode te acontecer, pois esse é o seu caminho e o de mais ninguém, porém isso também não quer dizer que problemas não ocorrerão. A sincronicidade te diz para seguir adiante, para viver a sua história e o melhor aspecto de todos: para finalizá-la. Porém a sincronicidade não te diz que a experiência será um mar de rosas, ainda mais que você lidará com pessoas que não te entendem, ou respeitam e elas, apesar de tudo, são necessárias para te testar, são os teus testadores, os teus sparrings e você deve agradecer por isso. A viagem à Europa não foi um mar de rosas, mas era a oportunidade de visitar a Lusitânia, a terra dos meus avós paternos. Soube, de coração, que não deveria abrir mão da oportunidade. Entre vários pontos altos e baixos, tive um encontro muito bonito e inesperado em Portugal não com uma pessoa, mas com a mãe simbólica de todos nós, a Virgem, que se tornaria, de certa maneira, uma grande amiga. Não me estenderei sobre esse encontro agora, mas o farei brevemente. É realmente uma história muito bonita que espero compartilhar de coração.

Antes de aterrissar em Portugal, estive um mês em Londres. Relato isso porque as histórias que conto agora, ocorridas em 2010, 14 anos depois, provam que não há ponto sem nó nessa vida. Estamos sempre sendo protegidos e acarinhados, mesmo que achemos que não.

 

O Valor do Gesto Interno

Entre julho e início de agosto de 2010, fiz uma novena. Como o silêncio é bom companheiro faço algumas meditações caminhando e costumeiramente rezo de madrugada. Escolhi como local para a novena, a imagem da Virgem que há em Ipanema na Praça N. Senhora da Paz, que fica do lado de fora da igreja, o que facilita o meu trabalho. Os irmãos evangélicos não adoram imagens, eu também não, por mais estranho que pareça. Explico: quando rezo em frente a uma “imagem”, não penso nela como um objeto físico, mas como um “facilitador”, ajo nos moldes de uma “técnica” que me permita projetar meus pensamentos ou minha consciência para um patamar superior, um mar de energias mais livre, onde os pensamentos possam fluir sem amarras, mais conectados com o todo, o que me permite ter uma noção mais clara do que “eu quero”, do “eu posso” e do que “é possível”. Não penso na imagem como um ser “vivo”, mas também não a desrespeito, como não desrespeito a bandeira nacional, que por sinal é uma imagem e um símbolo.

Muitos creem que rezar não vale a pena, mas desejar a mulher dos outros também é uma espécie de “reza” (que é ativada como um mantra), assim como ambicionar um emprego melhor ou invejar alguém. Reza é apenas um nome. Troque essa palavra por conversa, diálogo, pedido, reflexão e tire o valor “negativo” – se houver – da mesma. No final das contas, rezas são conversas entre você e o Eu Superior e tudo se resume a diálogo e esperança. Há que experimentar para compreender, testar o erro e o acerto para seguir adiante, optar com razão e emoção pelo o que é importante em nossas vidas.

Essa é a história.

Me dirigi à imagem às 1h30 de uma sexta para sábado para dar início à novena. A imagem da Virgem fica do lado de fora da igreja, em frente a um velário externo.

Apesar da hora, sexta é sexta e vários jovens caçadores, levemente alcoolizados e com uma energia sexual palpável passavam de tempos em tempos perto de mim, a alguns metros, sem se aproximarem. Todos gritavam ou gargalhavam, sem dar a mínima para o estranho que rezava, pois afinal de contas, a rua é de todos. Dentro de uma igreja se comportariam condignamente, do lado de fora é a lei do cão, que cada um brigue pelo seu espaço. Alguns minutos depois, um grupo de três se aproximou, enquanto eu acendia uma vela no velário. Eram 2 meninos e 1 menina. Pelo jeito que se aproximaram era óbvio que não eram daqui, refleti. Ainda mais a essa hora. Começaram a falar entre si e eu perguntei: “Vocês são ingleses?” Eles disseram que sim. A menina disse que gostaria de deixar um donativo na igreja e eu respondi que o local estava fechado.  Eles me perguntaram algumas coisas, se eu tinha religião, para que estava acendendo uma vela, enquanto eu tentava colocá-la em pé. Disse que o Brasil ainda era um país católico “parecido com a Irlanda”. Um dos meninos disse: “Minha mãe é irlandesa”. “Então você entende o significado da palavra FÉ?”, perguntei e ele respondeu “yeah”. Conversamos mais um pouquinho e eles se despediram. Agradeci a gentileza de terem conversado comigo, completando: “Nenhum brasileiro faria isso às 2 da manhã”.

 

Proteção

Após mais alguns minutos, me recordei da viagem à Inglaterra e Portugal. Só estive nesses dois países na Europa em 1996 e naquele momento, em Ipanema às 2 da manhã eu me senti novamente na Inglaterra através dos meninos e em Portugal através da imagem, vestida de azul e branco, posicionada atrás de mim. Apesar de nunca mais ter estado fisicamente nesses países, compreendi intensamente que a presença física não é de todo necessária, pois a energia da viagem há 14 anos, e o que eu havia aprendido com ela, estava ali de novo, mais física do que nunca, mais real do que poderia imaginar. Me arrepiei todo e meus olhos marejaram. Pensei “O elo daquela época não se desfez, está mais firme do que nunca e não é uma prisão, é uma benção”.

Ingenuamente, acreditamos mais na realidade física, dando testemunho ao TER do que ao ESTAR, em detrimento das entrelinhas da vida. O fato É, não precisa de julgamentos ou provas. Não é mágica que ilude a plateia, não é algo físico que precisa ser visto, tocado, só necessita ser vivido sem teorias. E a experiência é para sempre, não se desfaz, ela permanece se desenvolvendo, acrescendo. Nenhum elo do bem se rompe, se une a outro construindo uma corrente que se metamorfoseia, que não é sólida, é mutável, feita de elos coloridos, que se completam em si mesmos e se desdobram para muito além.

Não estamos sozinhos.

O encontro com os três jovens viajantes ingleses foi sentido como um evento sincronístico singelo e acarinhador. A mesma energia da viagem de 1996 estava ali e está aqui agora em 2010 me dizendo que o casamento íntimo é mais importante do que o casamento no papel, que o que se sente é mais importante do que o que se fala, que o real é íntimo e comumente não é expresso pois teme-se o julgamento. Mais vale enfrentar o perigo com verdades do que se poupar com mentiras. A verdade é perene, a mentira tem prazo de validade, assim como o tempo é senhor da razão. O tempo físico é uma quimera. A experiência é única e atemporal, não sofre influência do relógio, do mundo externo, nem das exterioridades.

E a Virgem me referendou em silêncio, após a vela ser acesa: “Eu continuo aqui com você, sempre”.