SINCRONICIDADE DO CARNAVAL E DO TSUNAMI

Marolas?

O efeito cascata funciona como uma fruta que cai de um galho na água parada de um lago. As pequenas ondas, marolas que nascem, seguem em frente sem questionamentos: elas nascem de um movimento, de uma ação e agem sem intenção de causar qualquer mal.

O ser humano joga uma pedra intencionalmente no lago. As marolinhas aparentemente têm a mesma direção, seguem o mesmo caminho, mas há uma grande diferença: a intenção.

Entre a fruta, a pedra e a água sempre há uma relação. Se a fruta causa o movimento no espelho d’água sem intenção, a partir do fluxo e do ciclo da vida, o resultado é sincronisticamente natural. A pedra, diferentemente, causa uma consequência sincronística diversa, pois depende, e muito, da intenção: se a pedra é jogada com raiva causa um determinado e invisível estrago, se é jogada por imaturidade causará outro mais leve, mas sempre causará algum. Não dá para infantilmente não assumirmos as consequências dos nossos atos, por considerarmos essas mesmas ações sem importância.

“Eu sou livre”.

“Eu faço o que quero”.

“Ninguém manda em mim”.


Mais ou menos, não é?

Somos ocidentais, temos valores ocidentais e alguns bem dolorosos sendo como somos, filhos do mundo judaico cristão, bem diferentes dos orientais. Os do oeste são mais ativos, diríamos assim e os do leste mais passivos. Tudo isso dito em tese, partindo do fundamento das religiões e das filosofias reinantes de cada lado do globo. Ocidentais agem, orientais contemplam.

Carnaval

Hoje, em março de 2011, enquanto os brasileiros pulam carnaval, os japoneses choram. Uma grande pedra foi jogada na água e inundou o Japão, provavelmente causando um desastre nuclear. Mas para falar a verdade, choramos por nossa própria culpa, e choramos bem mais do que os japoneses. Mas deixa isso pra lá, esse blog não versa sobre política…

Ondas

Esse novo desastre nuclear ocorreu com o mesmo povo que foi dilacerado pelas primeiras bombas atômicas em 1945; com o mesmo povo que tratou cruelmente seus prisioneiros na Segunda Grande Guerra; exatamente com o pequeno país que invadiu a gigante China e tratou os prisioneiros chineses como escravos e seres inferiores.

Este texto não é uma crítica aos japoneses, amo a cultura japonesa clássica (menos a parte mais ocidentalizada) e não misturo as coisas, mas estou um pouco impressionado – e não surpreso – pelas sincronicidades, ainda mais as que se referem a acidentes “naturais” como os da Região Serrana no Rio, na Nova Zelândia e agora no Japão.

Tsunami

Essa é uma constatação de que toda ação gera uma reação. Não existem povos ruins ou bons, todos nós somos tudo do pior e do melhor e muito mais. Aqui destaco uma notícia recente para que não vejamos as pessoas, ou um povo, como coitadas. A intenção dos Estados Unidos em ajudar o Japão não é humanitária, é estratégica: para que seus navios de guerra aproximem-se da Coreia do Norte e da China. Mas para isso eles precisam de um pedido de ajuda formal do Japão. Tudo feito muito educadamente, por baixo dos panos. E que se danem os mortos. Cuidem-se os futuros mortos de qualquer rusga militar que ocorra, seja no Japão, no Egito, no Iraque ou no Líbano.

Quantas vezes você não se perguntou, vociferando aos céus: “Por que isso aconteceu comigo? Eu não fiz nada!”

Alterações kármicas e genéticas precisam ser feitas urgentemente  e para isso o mundo físico se contorce, mexem-se as placas tectônicas, sobe o nível do mar.

O Brasil deve se preocupar mas creio que os mais preocupados mesmo estão no leste. Que a Austrália e a Nova Zelândia se cuidem.

O carnaval termina agora. A cidade está cheia de turistas, nunca se viu algo assim. E penso o que será depois da estreia do desenho do diretor Carlos Saldanha (“Rio”) a tendência é triplicar, inclusive em número de araras azuis.

Na semana passada,  ouvi uma casal branquérrimo falando inglês com um rapaz de pele morena e cabelo escuro, tipo indiano, no supermercado. O inglês era engraçado. Ontem liguei a TV e à tarde, o rapaz moreno do supermercado estava dando entrevista no mirante do Leblon sobre o carnaval do Rio (era turista) e ele disse: SOU DA NOVA ZELÂNDIA.

Na mesma semana, ouvi uma menina com sotaque paulistano falar com alguém:

“A primeira pessoa que conheci no Rio foi um carioca que mora em São Paulo. Ele me perguntou onde eu morava e respondi Higienópolis. Ele ficou surpreso e falou que também mora lá. Qual é o nome do seu prédio?, perguntei. Ele disse: Joia. Fiquei impressionada: É O MEU PRÉDIO!”

Cachorro velava túmulo da dona

Essa sinc é uma daquelas que referendam o que você faz, que te dizem que você está em sintonia e que tudo está bem. A vida é assim: enquanto uns choram, outros riem, conforme famosa música de Tim Maia.

Estou escrevendo um livro. Decidi chamar um personagem de muriqui, um macaco vegetariano. Enquanto escrevia, foi exibida na TV uma matéria sobre muriquis. Hoje, terminei o livro e na TV vi o caso do cachorro, um vira-latas que não saiu do lado do túmulo da dona. Caramelo é o nome do cão. Um personagem do meu livro se chama Caramelo e é um cão vira-latas, que luta contra o muriqui. Na cruz, a soma de 3 mais 5 dá 8, número que me acompanha e o mês em que nasci.

Tudo está conectado: onde há dor, há esperança, onde há trevas, há luz, onde há inspiração, há sofrimento. Partes do todo.

Reproduzo matéria do jornal:

CACHORRO que velava túmulo da dona é resgatado em Teresópolis

(Fonte Jornal Extra)

A Comissão Especial de Proteção Animal da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) conseguiu resgatar na sexta-feira um cachorro que estava a dias ao lado do túmulo de sua dona, Cristina Maria Cesário Santana, morta em decorrência das fortes chuvas que atingiram a Região Serrana do Rio.

Caramelo, como o vira-lata foi apelidado pelos moradores, estava perambulando pelas ruas do bairro Caleme, um dos mais atingidos pelo temporal, quando foi encontrado.

Segundo a veterinária Andrea Lambert, membro da comissão, Caramelo estava sem ferimentos, mas muito assustado. A equipe teve que colocar uma focinheira no animal para conseguir dominá-lo.

– Geralmente nem colocamos a focinheira, mas ele estava tentando morder. O animal normalmente fica assustado, mas conseguimos fazê-lo andar. Já ele ficou pulando, girando, não queria sair dali. Os moradores nos contaram que ele ficava cavando o local onde a dona foi enterrada – relatou Andrea.

A equipe da comissão, formada por oito pessoas, já resgatou mais de 180 animais em Teresópolis e em Petrópolis com a ajuda do Instituto Estadual do Ambiente e de ONGs. Os animais foram levados para um galpão no bairro Melbon, que está servindo como abrigo em Teresópolis, e para um Ciep, em Itaipava.

– Fizemos um esforço grande para que os animais também fossem colocados em situação de resgate, de esforço, porque no início ninguém estava se preocupando – alertou Andrea.

Segundo o presidente da comissão, deputado André Lazaroni, os animais que não forem recolhidos pelos donos nos abrigos serão colocados para adoção:

– Os animais estão sendo cuidados para que, passado tudo, os donos voltem para recolher seus animais. Os que não forem reclamados serão encaminhados para a adoção.

Na segunda-feira, a comissão vai resgatar animais em Nova Friburgo.

A SINCRONICIDADE DA TRAGÉDIA

Vi o nome da família de um amigo ligado à tragédia das chuvas, logo no primeiro dia, tragédia essa que ocorreu em janeiro de 2011 na região serrana do Rio. Enquanto escrevo, até esse momento já são 550 mortos. Amanhã serão mais e mais desenterrados dos escombros e da lama. Vítimas e algozes. Conheço várias pessoas que moraram e moram em Friburgo, pessoas que têm uma forte ligação kármica comigo, com fatos fundamentais em minha vida e em minha formação como indivíduo. Sempre ouvimos que no Brasil não há guerras, mas em compensação vivemos tragédias naturais que se repetem todos os anos, resultado de responsabilidades pessoais e públicas, além das espirituais.

No dia seguinte à morte de uma família de conhecidos do meu amigo, fui ao centro da cidade e entrei – por instinto – em uma igreja na qual rezei por uma hora. Uma das condutoras da missa disse ser de Nova Friburgo e afirmou que a tragédia ocorreu por questões espirituais, que a lama simboliza uma cobrança, que a lama simboliza a lama da alma, de muitos que se foram. Se o que ela falou foi duro, não me compete julgar, mas todos sabem, ou não querem saber, que há mais lama na alma humana do que as aparências mostram. Como disse, não me cabe julgar e nem afirmar que toda morte é um acerto de contas.

Após meditar na igreja, ficou claro que a tragédia que se abateu sobre centenas de famílias me libertou de alguns compromissos kármicos. Para o novo vir, o velho tem que passar e os senhores do karma não cedem aos desejos e amores humanos, desejemos ou não, rezemos ou não. Deus não é seu, não é meu, não é nosso.

A palavra lama – dita na igreja –  ficou na minha cabeça: um anagrama (do grego ana = “voltar” ou “repetir” + graphein = “escrever”), um jogo de palavras, que rearranja as letras de uma palavra ou frase para produzir outras.

Depois segui para o Centro Cultural Banco do Brasil, onde havia uma exposição sobre a poetisa e doceira Cora Coralina. “Sou uma recriação da vida”, disse e completou: “Tenho comigo todas as idades!”. Rimou com sincronicidade. Coralinado, chorei, sentei e escrevi o poema abaixo sobre a tragédia do Rio.

 

A notícia entrou em casa, foi só ligar o computador

Quanta dor, quanta dor

Não há chão, só lama

A todos iguala, quem odeia também ama

À luz, seguem as almas, vêm e vão

Me atravessam como se nada fosse ou um caminho, então

Passam por mim para fechar uma ou várias portas

Almas perturbadas, mortas

E como dói me atravessar

Lembrei do amigo, “me liga”, ligação perdida, tenho que te contar uma

Me conte duas, me conte mais

Se está vivo há o que contar, quando se morre, contam por ti

De Nova Friburgo, o burgo que Deus soterrou, à terra do Imperador

Teresópolis, de Teresa Cristina, a Imperatriz, o seu amor

Contem os mortos, quantos há, há que ter força pra reiniciar

Andei, voltei, retrocedi, adiantei como fita, não sabia pra onde ia

Rodrigo Silva, nem vi, virei, entrei

O negro cantava na igreja, a pomba amarilla no vitral, brilha, rija

Quem entrou? Eu e as almas

Quem errou? A moça da igreja falou que foi castigo

Terá sido falta de amor?

Uma família inteira morrer é ciência ou coincidência?

Na manchete de jornal, a morte, muita pouca sorte

Olho por olho dente por dente

Católico, crente, todos indigentes

Rico e pobre que nasce e morre, que ama e trai

Há que enterrar, há que crismar

Andei para não pensar, para o meu Banco do Brasil amado

E quem lá me esperava? Jorge Amado e Coralina de Goyás, que alíás

É como minha mãe que não morre jamais

Em Goyás de Friburgo

Em Portugal e Pernambuco

É sim, amigo Paulo

Ao homem, não cabe julgar

Do ônibus, vi o mar que tanto amo e só me doía

Minha boca só falava em silêncio, que tudo que é belo, é horror

É agonia