Premonição

premonicao

Um amigo lembrou do seu antigo professor de educação física da época do colégio, que não via há várias décadas.  Ele me perguntou se uma lembrança, sem motivo aparente, poderia significar algo. Disse que dependia do caso, mas que provavelmente haveria alguma ligação, de alguma espécie, com o professor. “Mas eu nem me dava com ele!”, o amigo exclamou. “A gente nunca sabe…”, respondi.

De onde acessamos essas lembranças e por quê? Por qual motivo? A memória inconsciente pode não fazer parte do HD que carregamos conosco (o cérebro físico). Se guardássemos todas as memórias, alegrias e tristezas em nosso cérebro, talvez este HD interno explodisse. Então, o cérebro parece servir mais a propósitos próximos e práticos, para que lembremos e acionemos os dados mais pertinentes e necessários a nossa sobrevivência. As outras memórias – conscientes ou não – ficam gravadas em um HD universal externo ilimitado que pode ser acessado em determinadas circunstâncias.

O amigo nunca parou para se preocupar com essas coisas, sempre me diz que quando eu falo sobre isso, ele se assusta um pouco e que “é demais para a cabeça dele.”

Menos de uma semana depois de nossa conversa, o amigo me liga desesperado: ele havia recebido uma carta enviada pelo colégio comunicando a todos os ex-alunos, o falecimento do professor de educação física.

A CARTA DA MORTE

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Tenho por hábito tirar uma carta (dos arcanos maiores) de tarot, de manhã cedo, para que no final do dia, eu possa estabelecer uma correlação entre o arcano e o “resultado” (e a devida compreensão) das 24 horas. Muitas vezes, fico semanas sem tirar uma carta, ainda sentindo que a leitura dada pelo arcano, ainda não se desfez.

Esta postagem comenta uma carta do jogo de tarot, tirada “ao acaso”, e que me fez pensar mais uma vez sobre a vida. E a morte.

A partir dos 20 anos, realizei muitas coisas, e apesar dos conflitos internos, e das divergências. Ainda desejava realizar algo “dentro” deste mundo, realizações mais externas do que internas, por assim dizer. A década de 90 foi um período de estudos esotéricos, fenômenos e participação em  fraternidades e grupos espiritualistas. E comparativamente, o eu de hoje, ao analisar o eu do passado, “o vê” como um “produto do seu tempo” ou do tempo “dele”.  A cada nova década de vida, e principalmente após os 40 anos, deixei de acreditar em muitas coisas, e incrivelmente o mundo se tornou mais mágico.

Hoje, espero menos do mundo e das pessoas. Essa grande diferença – aprendida a duras penas, não nego  – é um dos caminhos para o desapego.

Esqueci de falar… Tirei a carta da morte.

Para quem a vivencia, a carta da morte é mais do que uma chance para mudar: é simplesmente a morte do que já não tem vida, é o fim do que não é mais necessário, do que não existe. Se recebemos a morte de braços abertos, ela apenas se comporta como um farol que alerta os navios para que não se percam no mar. Caso, se deseje correr da morte, aí sim, talvez o seu navio se choque nas rochas e afunde.

XIII-Morte

O alcance da morte é inusitado, pode não ter nada a ver necessariamente conosco, mas com as escolhas que fazemos e o universo criado – por nós – a nossa volta.

Vivenciei várias “mortes” nesta última semana, após a leitura da carta.

1 – Na última postagem falei sobre um parque público, no qual fui meditar há uma semana. Há uma belíssima mansão no local, cujo proprietário a mandou erigir na metade do século XX, para a mulher, uma cantora de ópera italiana. Ao estudar a história do parque, e da casa, encontrei o seguinte trecho:  “A escritora Marina Colasanti é sobrinha-neta de Gabrielle, a dona da casa.”  Marina é irmã do ator Arduíno Colasantique faleceu há 3 dias.

2 – No final de semana, assisti a uma entrevista do cantor Alceu Valença, na qual ele citava o violonista Paco de Lucia. Hoje, 3 dias depois, Paco falece no México.

3 – Há um vídeo na internet sobre o bate-boca entre um cineasta e um manifestante vestido de Batman, na porta de um shopping no Rio de Janeiro.

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O encontro ocorreu há mais ou menos um mês. Há duas semanas encontrei esse cineasta na esquina de casa e batemos um papo. Anteontem, antes de dormir, dei uma zappeada nos canais e vi que iria ser exibido um filme bem conhecido desse cineasta. Decidi assisti-lo. Um dos personagens era um vovó que não falava e que estava sempre em sua cadeira de rodas, assistindo a TV. Certa noite, os netos o encontram morto na sala: havia falecido em frente à TV… Um dos atores deste (grande) filme era o (também grande) Guará Rodrigues, que trabalhou em várias produções do cinema novo.

Guará Rodrigues
Guará Rodrigues

4 – Semana passada fui assistir à restauração do filme “Copacabana Mon Amour” de Rogério Sganzerla. Um dos atores que participaram do filme era o Guará Rodrigues.

Helena Ignez e Guará Rodrigues
Helena Ignez e Guará Rodrigues

Fiquei com a pulga atrás da orelha, nem sei direito o porquê e me meti a pesquisar ontem sobre o Guará. Para meu espanto, descobri que há alguns anos, ele foi encontrado morto, assistindo à TV… 

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UMA MORTE PODE SER ANUNCIADA? Eduardo Coutinho e Philip Seymour Hoffman

Dia 2 de fevereiro de 2014.

 “As pessoas não morrem, elas se encantam.”

 Agora às 16h vejo na internet que o documentarista Eduardo Coutinho acaba de ser assassinado pelo filho esquizofrênico. Senti um estranhamento muito grande pois nesta semana assisti ao programa Observatório de Imprensa na Tv Brasil, com a reprise da entrevista com Coutinho. Poderia nem ter ligado a TV, mas a revi. Fora que houve um período de minha vida onde “morei” em 2007 no Edifício Master, tema de um dos documentários de Coutinho, lançado em 2002.

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Em seguida, vi em outro link no mesmo jornal que o ator Philip Seymour Hoffman (Truman Capote) de 46 anos foi encontrado morto hoje em seu apartamento no bairro de Greenwich Village. Meio horrorizado, fiz uma pesquisa breve e descobri que a sua morte foi anunciada no facebook há dois dias…  http://en.mediamass.net/people/philip-seymour-hoffman/deathhoax.html

 “At about 11 a.m. ET on Friday (January 31, 2014), our beloved actor Philip Seymour Hoffman passed away. Philip Seymour Hoffman was born on July 23, 1967 in Fairport. He will be missed but not forgotten. Please show your sympathy and condolences by commenting on and liking this page.”

 2010 Sundance Film Festival - "Jack Goes Boating" Portraits

Essa notícia me faz recordar do Presidente Juscelino Kubitschek, cuja morte em um acidente de carro foi divulgada antes mesmo de sua morte verdadeira, também em um acidente de carro, só que em outro Estado…

Tragédia anunciada (Santa Maria e Niterói)

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A tragédia na boate em Santa Maria, Rio Grande do Sul, com 231 vítimas no domingo dia 27 de janeiro, expõe mais uma vez a nossa desorganização. Parece incrível, mas o corpo de bombeiros local havia autorizado o funcionamento da casa noturna, conhecida como “arapuca”. Mas esta postagem se refere a outra tragédia: a do Gran Circus Norte-Americano em Niterói em 17 de dezembro de 1961, na qual morreram cerca de 500 pessoas. Na maior parte, as matérias jornalísticas sobre o incêndio em Santa Maria citaram essa outra tragédia, ocorrida há um pouco mais de 50 anos.

Um antiquário veio aqui em casa em novembro de 2010, comprar um antigo quadro sobre o incêndio do Circo em Niterói. O quadro ficou parado no mesmo lugar por mais de 3 décadas, só saindo daqui em função dessa venda. Conversando, soube que o antiquário estudara na mesma faculdade que eu, nos mesmos anos. Logo depois, ele me contou sobre o irmão, que tocava violão e que havia acabado de comprar um instrumento novinho.

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“Não existem coincidências”…

2 dias depois que o antiquário esteve aqui, exatamente no dia 30 de novembro de 2010, fui ao show de um amigo. Na entrada, ganhei uma revista de História da Biblioteca Nacional de brinde. Ao folheá-la, vi uma matéria sobre o incêndio em  Niterói, exatamente o mesmo tema do quadro. A coincidência me chamou a atenção. A primeira sensação que tive é que o quadro “se foi” na hora certa. Não era mais para estar comigo. Porém, refletindo um pouco mais, achei que havia algo nessa partida relacionado à morte.

No  primeiro dia de dezembro de 2010, logo depois do show, o antiquário me disse que o seu jovem irmão havia morrido em um acidente de carro.

Matéria da Revista de História sobre o incêndio no Circo em 1961.

Os Mortos Falam

Sonhos, ou projeções inconscientes, são armas poderosas de contato entre o mundo tridimensional e o lúdico. Nas últimas semanas, tive alguns sonhos com desencarnmados. Pessoas próximas, de outros Estados inclusive, me ligaram para relatar seus sonhos comigo, sonhos esses de quem não conhece minhas intimidades, mas que foram descritas com minúcia.

Dois mortos entraram em contato comigo, um de forma mais direta, me avisando sobre sua morte e outro, de forma indireta.

1 – Primeiro foi o artista chileno Jorge Selarón que ficou famoso mundialmente por ter enfeitado uma escadaria do bairro da Lapa no Rio de Janeiro com ladrilhos e ter feito o dia-a-dia das pessoas mais feliz. No sonho, ele conversou comigo, um pouco assustado, olhando para os lados, como que temendo a presença de alguém. Dois dias depois do sonho, o seu corpo apareceu queimado – e eu não o conhecia. Até agora não sabem se foi “suicídio” ou se “ele se matou”, desgostoso da vida. O único link que poderia haver entre ele e eu é a arte, pois eu nunca conversei com ele pessoalmente e nem frequento a Lapa, que sinto como um local de vibrações muito baixas. O único recado que ele me deu durante o sonho foi a antecipação de sua morte ou o temor de que ela poderia ocorrer. Mas, o que eu poderia ter feito? Ter ido a Lapa conversar com ele?… Me pareceu que no sonho, ele já dava a sua morte como certa. E a última vez que fui à Lapa, tive uma experiência no mínimo surreal: algo para se pensar durante um bom tempo. E quanto à premonição, como se diz, de que adianta avisar alguém sobre um eminente perigo, se ele já está “aqui”; se ele, o perigo, é parte de um processo necessário?

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2 – Há pouco tempo, o ator Walmor Chagas se matou… Não importa as razões, catarata, abandono ou depressão, ele se desfez da vida neste plano. E caso ele tenha sido “suicidado”, isso não importa mais para um corpo cremado. Chagas nasceu em 28 de agosto – o mesmo dia que eu – e morreu com 82 anos (28 ao contrário). Só isso já me chamaria a atenção, ainda mais para quem, como eu, praticou um ritual de morte antes da passagem de 2012 a 2013.

Morte, mesmo que não seja física, é algo que eu objetivo: morte do EU, morte de um passado que já não me serve… Walmor não falou comigo em sonho, a  ligação foi a data de nascimento e uma informação – indireta – que soube dois dias depois. Antes de se matar, ele havia pedido para que as suas cinzas fossem jogadas na Serra da Mantiqueira. Na verdade, as cinzas foram depositas em seu sítio em Guaratinguetá, um município do Estado de São Paulo, localizado na região do Vale do Paraíba. Dois dias antes da morte do Walmor, assisti “sem querer” a um programa na TV Brasil sobre o vale, um programa instigante, diferente, lúdico. O programa Caminhos da Reportagem me chamou tanto a atenção, que o assisti na íntegra. Há pessoas residindo no vale, umas deprimidas, fora de sintonia, outras totalmente adaptadas ao mato, à falta de médicos, a falta de condições, mas cheias de vida. Uns disseram no programa que “tudo ali estava morto“, outros que “ali estava tudo bem”. Uma psicóloga falou sobre fantasmas de escravos em uma antiga Casa Grande da região. Depois, outro personagem falou sobre lobisomens. Enfim, talvez o programa tenha me encantado pela sua diferença de propostas, para quem como eu, vive em uma cidade grande. talvez tenha gostado pois estou cansado dessa correria e barulho, e mais conectado à simplicidade e a um ritmo mais lento, em que se desfruta mais a vida.

Mas havia outra informação, essa subliminar, e antecipada: que “alguém” nascido no meu dia e residindo no vale tomaria  a última das decisões, pelo menos NESTA vida.

walmor

Martin Luther King em seu mais famoso discurso em 28 de agosto de 1963 disse: “Eu tenho um sonho que um dia todo vale será exaltado, e todas as colinas e montanhas virão abaixo, os lugares ásperos serão aplainados e os lugares tortuosos serão endireitados e a glória do Senhor será revelada e toda a carne estará junta.”

Caminhos da Reportagem (vale do paraiba)

Em 10 minutos a mais antiga farmácia do Brasil que necessita ser restaurada e não há dinheiro
“Mares de morros” em 19 minutos (o desenvolvimento não chegou lá).
28h30 – ex-atriz que virou doceira e vive em um sitio no qual ela vende doces e aluga para pessoas que acampam as pessoas são mais felizes.
40h30 – escravos.

Steve Jobs. Continue com fome, continue bobo.

Não há razão para não seguir seu coração.

O seu tempo é limitado, então não o gaste vivendo a vida de um outro alguém. Não fique preso pelos dogmas, que é viver com os resultados da vida de outras pessoas. Não deixe que o barulho da opinião dos outros cale a sua própria voz interior. E o mais importante: tenha coragem de seguir o seu próprio coração e a sua intuição. Eles de alguma maneira já sabem o que você realmente quer se tornar. Todo o resto é secundário.

Na contracapa do Whole Earth Catalog havia uma fotografia de uma estrada de interior ensolarada, daquele tipo onde você poderia se achar pedindo carona se fosse aventureiro. Abaixo, estavam as palavras: “Continue com fome, continue bobo.”

(Steve Jobs)

Lendo hoje “Steve Jobs, um homem paradoxal” de Pedro Doria de O Globo, várias
sincronicidades, contradições e humanidades me chamaram a atenção sobre o recém desencarnado Steven Paul Jobs (São Francisco, Califórnia, 24 de Fevereiro de 1955 — Palo Alto, Califórnia, 5 de Outubro de 2011) inventor, empresário, magnata americano no setor da informática, co-fundador da Apple Inc, e diretor executivo da empresa de animação por computação gráfica Pixar.

O texto de Dória está entremeado pelo famoso Discurso na Universidade de Stanford de Steve Jobs (Você tem que encontrar o que você ama).

“Steven Paul Jobs era um homem pacato. Budista, seguia desde muito jovem a linha zen. Era também um homem agressivo, capaz de demissões sumárias por motivos fúteis. Fez muita gente chorar por broncas duras. Estourava mesmo. Nos corredores, os funcionários se desviavam dele. Falavam o menos possível, ninguém queria se expor à demissão repentina sem pista do porquê. Em alguns depoimentos, porém, alguns sugerem que a idade e os filhos o amaciaram. Quando fazia produtos pensando em famílias, aquilo lhe era natural. Steve Jobs gostava de família. Foi um pai amoroso quase toda a vida mas se recusou a reconhecer a primeira filha em seus primeiros anos. Foi um homem ímpar, paradoxal, que marcou profundamente o mundo.”

Eu não tinha ideia do que queria fazer na minha vida e menos idéia ainda de como a universidade poderia me ajudar naquela escolha. E lá estava eu, gastando todo o dinheiro que meus pais tinham juntado durante toda a vida. E então decidi largar e acreditar que tudo ficaria ok. Foi muito assustador naquela época, mas olhando para trás foi uma das melhores decisões que tomei. No minuto em que larguei, eu pude parar de assistir às matérias obrigatórias que não me interessavam e comecei a frequentar aquelas que pareciam interessantes. Não foi tudo assim romântico. Eu não tinha um quarto no dormitório e por isso eu dormia no chão do quarto de amigos. Eu recolhia garrafas de Coca-Cola para ganhar 5 centavos, com os quais eu comprava comida. Eu andava 11 quilômetros pela cidade todo domingo à noite para ter uma boa refeição no templo hare-krishna. Eu amava aquilo. Muito do que descobri naquela época, guiado pela minha curiosidade e intuição, mostrou-se mais tarde ser de uma importância sem preço.

“Quando jovem, gostava de ternos caros. No fim, adotou o jeans velho e rasgado,
sempre Levi’s 501, e camisa preta com gola alta, tênis. Quando, no verão, o calor
passava dos 40C, bermudas. Conhecia os vizinhos pelo nome e os cumprimentava, seus filhos estudam na escola pública a poucas quadras dali. Jobs não perdia as reuniões de pais e mestres. Ia também a pé fazer compras no supermercado Whole Foods, de comida orgânica. Era vegetariano, mas comia peixe cru.”

“Quando jovem e solteiro, viveu numa mansão na vizinha Woodside. Quem o visitou na época dizia que só tinha um móvel: a cama. Nas paredes, fotografias do americano Ansel Adams. No meio da sala, mantinha uma motocicleta BMW, um piano Bosendorfer, um abajur Tiffany’s e um aparelho de som Bang & Olufsen. Os objetos não o atraíam pela utilidade e sim pela elegância do desenho. Era muito rígido com esta busca por elegância e equilíbrio nos objetos. Foi esta busca que quase o desviou de fundar a Apple. Quis, antes, ser monge Zen. Foi dissuadido pelo sensei de toda sua vida, o japonês Kobun Chino. Criou a Apple e criou produtos seguindo os preceitos rigorosos da arte Zen. Foi Kobun Chino que o casou, muitos anos depois, com a economista Laurene Powell. Casaram-se em 1991 em Yosemite, o primeiro parque nacional dos EUA. É um paraíso de sequóias centenárias na Sierra Nevada, a quatro horas do Vale do Silício. O cenário das fotografias de Ansel Adams.”

O Reed College oferecia naquela época a melhor formação de caligrafia do país. Em todo o campus, cada poster e cada etiqueta de gaveta eram escritas com uma bela letra de mão. Como eu tinha largado o curso e não precisava frequentar as aulas normais, decidi assistir as aulas de caligrafia. Aprendi sobre fontes com serifa e sem serifa, sobre variar a quantidade de espaço entre diferentes combinações de letras, sobre o que torna uma tipografia boa. Aquilo era bonito, histórico e artisticamente sutil de uma maneira que a ciência não pode entender. E eu achei aquilo tudo fascinante. Nada daquilo tinha qualquer aplicação prática para a minha vida. Mas 10 anos mais tarde, quando estávamos criando o primeiro computador Macintosh, tudo voltou. E nós colocamos tudo aquilo no Mac. Foi o primeiro computador com tipografia bonita. Se eu nunca tivesse deixado aquele curso na faculdade, o Mac nunca teria tido as fontes múltiplas ou proporcionalmente espaçadas. E considerando que o Windows simplesmente copiou o Mac, é bem provável que nenhum computador as tivesse. Se eu nunca tivesse largado o curso, nunca teria frequentado essas aulas de caligrafia e os computadores poderiam não ter a maravilhosa caligrafia que eles têm. É claro que era impossível conectar esses fatos olhando para frente quando eu estava na faculdade. Mas aquilo ficou muito, muito claro olhando para trás 10 anos depois.

“Jobs teve quatro filhos. A mais velha, Lisa, nasceu de um namoro fugaz, em 1978. Ele foi à Justiça negar paternidade. Se recusou a visitá-la, a vê-la. E, enquanto agia assim, batizou de Lisa um computador da Apple na homenagem ao bebê a quem negava o sobrenome. O período passou, registrou-a. Viveram juntos quando Lisa era adolescente e, Jobs, recém-casado. Jobs foi ele próprio um bebê rejeitado, oferecido a adoção pelos pais que se recusou a conhecer até o fim. Reed, seu primeiro filho com Laurene, nasceu em 1991, seguido de Erin, em 95, e Eve, em 98.”

De novo, você não consegue conectar os fatos olhando para frente. Você só os conecta quando olha para trás. Então tem que acreditar que, de alguma forma, eles vão se conectar no futuro. Você tem que acreditar em alguma coisa – sua garra, destino, vida, karma ou o que quer que seja. Essa maneira de encarar a vida nunca me decepcionou e tem feito toda a diferença para mim.

“Tinha preferência pelo design alemão e dirigia carros alemães. Quando jovem
milionário, Porsches. Mais velho, Mercedes. Dirigia rápido ignorando qualquer lei. E tirava as placas do carro para evitar multas. Quando não havia vaga, mesmo saudável, estacionava no espaço para cadeirantes. Pegou hábito e começou a fazê-lo mesmo quando havia vagas. Que ninguém reclamasse, pois estourava.”

Lentamente, comecei a me dar conta de que eu ainda amava o que fazia. Foi quando decidi começar de novo. Não enxerguei isso na época, mas ser demitido da Apple foi a melhor coisa que podia ter acontecido para mim. O peso de ser bem sucedido foi substituído pela leveza de ser de novo um iniciante, com menos certezas sobre tudo. Isso me deu liberdade para começar um dos períodos mais criativos da minha vida.

“No Vale do Silício, principalmente após Bill Gates criar sua fundação, virou praxe para os grandes milionários doar um bom quinhão de suas fortunas para boas causas. Não Jobs. Suas únicas doações conhecidas são para o Partido Democrata.”

Às vezes, a vida bate com um tijolo na sua cabeça. Não perca a fé. Estou convencido de que a única coisa que me permitiu seguir adiante foi o meu amor pelo que fazia. Você tem que descobrir o que você ama. Isso é verdadeiro tanto para o seu trabalho quanto para com as pessoas que você ama. Seu trabalho vai preencher uma parte grande da sua vida, e a única maneira de ficar realmente satisfeito é fazer o que você acredita ser um ótimo trabalho. E a única maneira de fazer um excelente trabalho é amar o que você faz. Se você ainda não encontrou o que é, continue procurando. Não sossegue. Assim como todos os assuntos do coração, você saberá quando encontrar. E, como em qualquer grande relacionamento, só fica melhor e melhor à medida que os anos passam. Então continue procurando até você achar.

Não sossegue.

A SINC DO ANIVERSÁRIO

 

Posso contar qualquer história, com maior ou menor intensidade, posso contá-las todas, sobre esse mundo e sobre os outros, mas a verdade é que nem sempre há inspiração para tanto.

Mas não posso reclamar, pois bem conheço as minhas fases, mais e menos inspiradas. E graças a Deus estou grávido de ideias, mas não farto delas.

Por que começar o texto assim ao invés de ir direto aos finalmentes?

Engraçado… Mas não é isso o que todAs querem: as preliminares?

Minha amiga Garça

 

Contei na postagem anterior que a minha mãe faz aniversário de desencarne hoje, exatamente quando decidi dar início à uma página sobre essa coluna no Facebook. Ela só tem quatro aninhos hoje. Estou feliz por ela ter se libertado das amarras do corpo físico e por estar tão novinha. Oxalá.

Já estava muito satisfeito por ter postado o texto anterior e pensei: “Agora só vou pegar no blog daqui a uns dez dias.”

Lêdo “Ivo” Engano.

Por mais que inventasse a mais inventada história do mundo não conseguiria inventar o que vou contar.

Mas antes de prosseguir, por favor preciso dar os parabéns à mamãe, a meia-noite chegou.

“Te amo mãe, feliz quatro anos! Obrigado por tudo.”

… (intervalo para engolir seco)

Vamos em frente.

 

Meia Noite.

Ontem, há uma hora atrás, às 23h estava assistindo ao episódio dessa ótima série sobre jovens atores chamada “Clandestinos” da Globo.  A história de hoje era sobre uma jovem de Olinda que vem ao Rio tentar a carreira artística e que para pagar as contas, tem que trabalhar em um restaurante português.

Minha mãe, que faz anos hoje, repito, é de Olinda e meu pai, filho de portugueses. Voilá. O instinto aguçou.

Mais uma curiosidade: um velho amigo de Manaus, que não via há uns 15 anos, decidiu “sem saber porquê” vir ao Rio. No último dia de sua breve estadia na cidade, decidimos almoçar em frente ao Theatro Municipal reformado, lindo como ele só, em um sábado se não me engano. Raramente vou à Cinelândia, no centro do Rio de Janeiro, mas quis mostrar-lhe o Municipal com seus detalhes dourados lindíssimos e sua águia majestosa sob o sol. O filho do garçom que nos atendeu tinha trabalhado ou feito um curso, desses na selva, em Manaus.

 

A Águia

Sentados à mesa, vimos que havia uma pequena confusão na rua do restaurante,  em frente a um cinema pornô. Parecia que estavam filmando algo, pois dava para ver que os jovens que fechavam a rua estavam caracterizados de jovens. Eram jovens cenográficos. E ao ver o “Clandestinos” na TV, lembrei que a filmagem que vimos, era desse seriado, que estaria vendo, no aniversário da mamãe, meses depois.

O outro personagem do episódio era um menino baiano, e como todo baiano é encantado. Tenho poucos amigos, não sou de multidões, friso. Há um mês dei início a uma boa amizade com uma alma genuinamente baiana, filho da terra, um jornalista pensador , mas não nos conhecíamos pessoalmente, só virtualmente.  Em uma segunda-feira à noite,  decidimos assistir a um filme, pois um outro amigo havia “posto uma pilha”. O bom baiano até tentou fugir, mas insisti, apesar da garoinha chata. Logo na fila da entrada, um grupo de três meninas reclamava por não conseguir entrar pois não tinham idade para assistir ao filme. Por mais esdrúxulo que pareça, uma das meninas era a sobrinha carioca do novo amigo baiano e é claro que não tínhamos combinado nada com as moçoilas.

O filme era sobre uma banda de rock, cujo personagem principal foi interpretado por Kristen Stewart, a atriz do filme Crepúsculo. Por acaso, na semana passada, ela esteve no Rio de Janeiro filmando.

Coincidências?

Logo após o “Clandestinos”, estreou o seriado “Afinal, O Que Querem As Mulheres?” à meia noite em ponto.  Vejo a portaria do prédio do personagem , que mesmo de relance, e sob uma chuva cenográfica, soube qual era: a mesma em frente ao estúdio em Copacabana onde gravei o meu último trabalho. Esse estúdio, que estava fechado, reabriu após alguns anos para gravarmos o disco. Um dia antes da gravação, para espairecer, vi em casa o filme “A Mulher Invisível”, cujo personagem principal morava no mesmo prédio do personagem do seriado da Globo.

Um amigo de Buenos Aires me ligou na época da gravação para dizer que estava no Rio em um hotel em frente ao estúdio (ele não sabia que estávamos gravando e nem onde) e o baixista da banda, que nunca tinha saído do país, estava em… Buenos Aires.

E por último, pelo menos por enquanto:  o seriado “Afinal…” foi escrito por um ex-aluno meu.

Só rindo, mesmo.

Obs: toda sincronicidade se desmembra, se desdobra, se expande. Apesar de não ter relatado, pelo menos por enquanto, cada ação ocorrida hoje está ligada a fatos transcorridos há décadas que neste momento, nos estão conectando a fatos futuros, que se desdobrarão em muitos outros, ligados ao ontem de hoje.

E o que isso quer dizer?

QUE NÃO HÁ NADA A TEMER.

CONFIE.


“Que me deixem passar – eis o que peço
diante da porta ou diante do caminho.
E que ninguém me siga na passagem.
Não tenho companheiros de viagem
nem quero que ninguém fique ao meu lado.
Para passar, exijo estar sozinho,
somente de mim mesmo acompanhado.
Mas caso me proíbam de passar
por ser eu diferente ou indesejado
mesmo assim passarei.
Inventarei a porta e o caminho.
E passarei sozinho”.

(A Passagem – Lêdo Ivo)