Waldo Vieira e Mágica Vida Mágica.

Waldo Vieira e livro Mágica Vida Mágica de Carlos Lopes – CEAEC – 25 / 09 / 2011.

A Verdade e a Espada.

Jesus apresenta as suas armas: a espada também é amor.

Na semana passada fui questionado sobre o meu livro recém-lançado: “Por que devo acreditar que você fala a verdade?”

Não deveria me surpreender com a pergunta, de tantas vezes que a ouvi, mas ela sempre me causa um impacto, “ter que provar que falo a verdade”… Como provar? Por que provar? Minha necessidade ao escrever o livro, em primeiro lugar, foi contar o que vivenciei e como aprendi a lidar com as informações e os resultados alcançados após as escolhas. Meu caminho foi muito próprio, muito particular, mas tudo que é particular é coletivo. É assim que funciona: no neutrino há o universo sob a ponta da agulha.

Confesso: nunca me dei muito bem com religiões e grupos sociais. Há quem adore grupos, há quem precise fazer seu caminho em silêncio.  Todos os caminhos levam a Roma.  Será?

Acredito, de coração, que todos os caminhos são dignos, você só precisa tomar uma decisão, ou encontrar o “seu”, que pode ser coletivo como uma religião (e ao mesmo tempo individual) e ou individual, como percorrer o caminho de Santiago de Compostela (que ao mesmo tempo é um caminho coletivo). A sincronicidade mostra que, se você estiver sincronizado, tudo o que você necessitar será posto em seu caminho. Parece mágica e é.

Provar que falo a verdade Provar que as sincronicidades falam a verdade. Nossa…

Em primeiro lugar, as pessoas são levadas a sério quando se comportam como o público espera que elas se comportem.  Todo sambista deve ser alegre (Nelson Cavaquinho é exceção), todo político corrupto, todo policial sujo, todo roqueiro muito louco e todos religiosos “certos”…

As escolhas são mentais e referendam valores, quem acha que minto ou estou contando histórias para boi dormir, já fez uma opção: não me levar a sério. Levar minhas escolhas a sério,  implicaria em destruir outras verdades fossilizadas. É uma guerra e não é uma guerra. Verdades, ó verdades. Há quem se ligue a religiões pela sensação coletiva de pertencimento. Muitos veem Jesus como um cara muito humano, mas humano mesmo ele foi quando deu um bom tapa nos vendilhões do templo e ergueu a espada.  Há tempo de paz, há tempo de guerra, como há dia e noite, saúde e doença, fidelidade e traição.

Releia e reflita sobre essa passagem, uma de minhas favoritas da Bíblia, em MATEUS 10:34-39.

“E até mesmo os cabelos da vossa cabeça estão todos contados.

Não temais, pois; mais valeis vós do que muitos passarinhos.

Portanto, qualquer que me confessar diante dos homens, eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus.

Mas qualquer que me negar diante dos homens, eu o negarei também diante de meu Pai, que está nos céus.

Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada;

Porque eu vim pôr em dissensão o homem contra seu pai, e a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra;

E assim os inimigos do homem serão os seus familiares.

Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim.

E quem não toma a sua cruz, e não segue após mim, não é digno de mim.

Quem achar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a sua vida, por amor de mim, achá-la-á

Quem vos recebe, a mim me recebe; e quem me recebe a mim, recebe aquele que me enviou.

Quem recebe um profeta em qualidade de profeta, receberá galardão de profeta; e quem recebe um justo na qualidade de justo, receberá galardão de justo.

E qualquer que tiver dado só que seja um copo de água fria a um destes pequenos, em nome de discípulo, em verdade vos digo que de modo algum perderá o seu galardão.”

Por que dar atenção à Bíblia? Porque somos ocidentais. Essa mesma verdade poderia estar descrita em uma revista popular? Sim. Isso ocorre a todo instante. A sincronicidade prova isso.

Analise as imagens abaixo e pense em questões sócio-culturais.

(clique na imagem acima para ampliar e pense no assunto, como as religiões oficiais se dividem no mapa-múndi.)

A verdade está aqui e agora, em nossas mãos?

A verdade é uma questão cultural?, é ter paz de espírito? Sim e não. A verdade é compreender história? NÂO! A verdade cessa toda dor e angústia? TALVEZ.

Assim como muitos leitores, não vivo em um mundo interno e perfeito de harmonia e paz, mas a minha busca é sincera e se tornou mais concreta ao ter me tornado amigo das sincronicidades. Hoje, compreendo, muito mais, as questões da minha vida, por incrível que pareça. Entendo as decisões que fui obrigado a  tomar, desde minha fase criança. Questões pessoais, de família, do prédio, do bairro, da cidade, do país, do mundo, do universo. Comecei a entender a sequência “opção-escolha-ação-resultado” e fiquei cada vez mais surpreso, admirado, mas intensamente feliz. E o melhor de tudo: mais sereno com meus “erros”.

Compreendi que os erros são acertos quando você está pronto para crescer.

Entendo, como posso, o que está ocorrendo agora entre 2011 e 2012, que as sincronicidades guiam e indicam um caminho sobre o que podemos fazer. Mas as respostas, vindas de fora, estão dentro de nós, mas por causa da gritaria do mundo, por causa da nossa gritaria interna, não conseguimos ver e ouvir nada e nem receber a carta do nosso carteiro interno.

Quem fala a verdade? Jesus, Kryon, Saint Germain , Waldo Vieira, Trigueirinho, Edir Macedo, Marcelo Rossi, Elizabeth Clare Prophet, Divaldo Franco, Quem Somos Nós, A Profecia Celestina, os Maias?

É muita informação, a cabeça chega a doer.

Conto uma história que exemplifica esse dilema entre o externo e o interno, entre fato e imaginação, sobre a necessidade de acreditar: eu trabalhava em uma fraternidade como médium de cura e naquela época eu tinha cabelos compridos e bigode. Os médiuns trabalhavam com roupas brancas, e parecido com os rituais da doutrina espírita, o trabalho era uma espécie de “desobsessão”. Ao doarmos o “nosso” tempo aos outros, que não conhecemos, para que todos cresçam, devemos aprender a nos diminuir para crescermos, doar para receber, sem que isso queira dizer que todo médium saia milionário de cada sessão de tratamento. Pois bem, nessa época estava andando perto de casa, quando encontrei um casal de idosos, que o nosso grupo tratava. Eles se aproximaram e a velhinha beijou minha mão e disse: “Meu filho, gosto tanto de você. Você parece Jesus Cristo.”

No dia seguinte, cortei o bigode, não com a espada mas com uma tesoura mesmo. O bigode se foi porque me pareceu responsabilidade demais ser comparado logo a quem. Aprendi mais uma vez como a questão da imagem é poderosa. É como o primeiro encontro, uma entrevista para um emprego. Eu aparentava ser Jesus Cristo, mas eu não era. Tiradentes foi enforcado de cabeça raspada, o quadro famoso conta outra história. E quem o condenou à morte foram cristãos frequentadores de missa.

A minha espada é a minha pena, a minha verdade é interna.

 E a sua?

Não tenho mais tempo a  perder.

E você?

JUNG era MÉDIUM? “Não necessito crer em Deus. Eu sei”.

“Eu considerava os fenômenos ocultos fascinantes. Eles acrescentavam uma nova dimensão à minha vida: o mundo ganhava amplitude e profundidade”

 Carl Gustav Jung (1875 – 1961) e Freud (1856 – 1939) começaram a se corresponder em 1906. “Jung viu nos conceitos psicanalíticos de Freud um arcabouço para suas próprias ideias, incluindo as que pretendiam explicar o `oculto´ ”, bem explicado nas palavras de Martin Ebon.

Freud, o pai da psicanálise, ficou muito impressionado com o jovem de Zurique, que àquele momento representava mais do que um estudante interessado. Jung era uma resposta à pressão dos psiquiatras ortodoxos contra o grupo de Viena (Freud fundou a “Sociedade das Quartas-feiras” em 1902 a qual veio a se tornar a Associação de Psicanálise de Viena, em 1908). Em 1907, Jung, Freud e Eugen Bleuler (psiquiatra e diretor do Hospital Psiquiátrico Burgholzli de Zurique onde Jung iniciou sua carreira em 1900, como assistente de Bleuler) coordenaram a publicação do anuário psicanalítico. Em 25 de março de 1909, houve um encontro em Viena, após Jung ter deixado o hospital. O jovem Carl perguntou a Freud o que ele achava de precognição (faculdade parapsicológica. Conhecimento espiritual direto do futuro) e parapsicologia. O mestre classificou como um absurdo todos os fenômenos ocultos. “Eu tive que me conter para não retrucar com certa violência”, revelou Jung. E não parou aí. O conflito entre os dois progrediu.

Jung escreveu: “Enquanto Freud quase gritava para me convencer de que os fenômenos parapsicológicos não existiam, tive uma sensação curiosa: meu diafragma parecia feito de aço e um estranho calor começou a subir pelo meu peito, como se algo fosse explodir. Nesse exato momento escutamos um estrondo na estante que ficava logo atrás de nós. Levantamos assustados, temendo que ela fosse cair. Entendi tudo e expliquei a Freud: “Aí está um bom fenômeno de exteriorização catalítica”. Furioso, ele disse que tudo aquilo era uma bobagem. Insisti: “Não é besteira e o senhor está totalmente enganado, professor. Para provar o que estou dizendo, afirmo que vamos ouvir outro estrondo daqui a pouco”. Mal acabei de falar, a estante voltou a produzir aquele ruído. Não sei o que me deu aquela certeza, mas eu sabia que o ruído ia se repetir. Freud limitou-se a olhar desconfiado para mim. Não sei exatamente o que significou aquele olhar, nem o que passou por sua mente naquela hora. O fato é que ele se sentiu agredido”.

FREUD & JUNG

Três semanas depois, uma longa carta de Freud acusava Jung de ter forjado o incidente para humilhá-lo. Freud escreveu: “É muito sintomático que, àquela noite em que eu definitivamente paternalmente o adotava como meu filho mais velho, e em que eu lhe transmitia o desejo de que fosse meu sucessor, você tenha tentado ferir minha dignidade paternal. E parece que me agredir deu-lhe tanto prazer quanto deu a mim deu livrar-me de você. Minha eventual disposição em considerar seus pontos de vista desapareceu completamente diante de sua atitude visivelmente comprometida. Continua me parecendo muito implausível que qualquer coisa daquele gênero possa ocorrer. A estante permanece à minha frente, fria e muda. Eu ainda me permito advertir meu caro filho de que é preferível não entender alguma coisa do que sacrificar a própria lucidez no esforço de entender a qualquer custo. Enfim, compreendo que os jovens são assim mesmo: eles gostam das caminhadas difíceis e ousadas, em que o nosso fôlego já curto e nossas pernas cansadas não nos permitem acompanhá-los. Ainda assim aguardo notícias sobre suas pesquisas, com o interesse de quem aprecia uma bela alucinação”.

FREUD não acredita em fantasmas

No ano seguinte, Freud lhe deu-lhe o definitivo ultimato em 1910: defender a teoria freudiana da sexualidade e abandonar as idéias ocultistas. Em 1911, Jung assumiu a presidência da Sociedade Psicanalítica Internacional, – também por influência de Freud -, mesmo ano que teve um sonho onde participava de uma assembléia com os espíritos ilustres da antiguidade.  Em 1912, o livro “Metamorfoses e Símbolos da Libido” de Jung estremeceu ainda mais a relação dos dois até romperem definitivamente no ano seguinte, após Jung ter escrito uma dura crítica a respeito do livro de Freud, “A Psicologia do Inconsciente”. Em uma última carta a Freud, Jung se demite do cargo de editor do Jornal Internacional da Psicanálise.

 

A família de JUNG, a real, não a fantasma.

A Família Fantasma

 De acordo com Amiela Jaffé, assistente de Jung durante muito tempo, a avó de Jung, Augusta Preíswerk via fantasmas. Sua família atribuía essas tendências mediúnicas ao fato de que, quando menina, Augusta sofreu um ataque, que ninguém sabe explicar de quê, a deixou virtualmente morta por 36 horas. Emilie, a filha dela e mãe de Jung registrava visões e premonições em seu diário. Ela escreveu que quando criança “protegeu” o pai contra fantasmas que o rondavam quando ele se sentava para escrever seus sermões para a Congregação dos Reformados da Basiléia. No verão de 1899, passou o verão com a mãe, já viúva, e a irmã. Um dia, uma enorme mesa de nogueira que pertencera a sua avó Augusta partiu no meio emitindo um ruído semelhante a um tiro de pistola. Duas semanas depois, ele ouviu exatamente o mesmo ruído, vindo do armário de guardar louças. Dentro dele, Jung encontrou uma faca de pão, cuja lâmina tinha se separado do cabo e partida em 4 pedaços. Amiela Jaffé escreveu em “Vida e Obra de Carl Jung”, que, em seu primeiro dia de trabalho com Jung, ele abriu uma espécie de cofre no escritório, e dele retirou os pedaços da faca quebrada. Jung pediu-lhe que os juntasse. Quando Amiela reconstituiu a faca, Jung lhe disse que era só, para o primeiro dia. Isso demonstra que aquela experiência o tinha marcado profundamente.

Naquele verão de 1899, um grupo de parentes estava realizando sessões espíritas na casa da mãe de Jung. Ele participou de algumas. A jovem médium com 15 anos era prima de Jung. Ela incorporava duas entidades: o próprio avô, que não conhecera vivo, e uma menina de nome Ulrich Gerbenstein. Segundo ele, o que o avô dizia não passava de conversa fiada e o que a menina – que só tinha de interessante o nome masculino – só falava bobagens. A médium, que Jung chamava de S.W., eventualmente recorria a pequenas fraudes para renovar a atenção. Em sua autobiografia “Memórias, Sonhos e Reflexões”, Jung escreveu: “Depois de muitas experiências todos nós nos cansamos. O que me fez acabar de vez com as sessões foi constatar que a médium lançava mão de truques para produzir falsos fenômenos. Hoje me arrependo de não ter prosseguido com a experiência, só para observar o comportamento de S.W., que segundo descobri mais tarde, era uma dessas pessoas que amadurecem muito precocemente e possuem uma personalidade misteriosa e extraordinária. Ela morreu de tuberculose aos 26 anos”.

O Velho do Sonho

Sonhos e espíritos

 Entre 1913 e 1917 visões e sonhos com seus ancestrais exerceram papel fundamental na vida de Jung.

No outono de 1913, Jung começou a ter visões repetitivas e proféticas com imagens sangrentas e de morte envolvendo uma grande catástrofe. Uma voz lhe dizia que tudo aquilo iria acontecer. Ele achou que era alguma espécie de psicose. As visões duraram quase um ano. No ano seguinte teve início a Primeira Grande Guerra.

 Nesses quatro anos ocorreram comunicações telepáticas e precognições. Os colegas, obviamente diziam que o coitado sofria de alucinações. É desta safra uma história fascinante: Jung sonhava com Philemon, o “velho” cuja morte foi causada por Fausto no drama escrito por Goethe e nessas “aparições” conversavam durante horas. Era um velho com chifres e asas de martín pescador, que carregava 4 chaves. Philemon ensinou a Jung a “objetividade psíquica”, a distinção entre o si mesmo e os objetos dos seus pensamentos.

Philemon e outras figuras de minhas fantasias me provaram que existem coisas na minha psique que não produzo, mais que se produzem sozinhos e que têm vida própria. Philemon representava uma força que eu não conhecia. Em alguns momentos, ele me parecia real, principalmente quando andávamos pelo jardim, lado a lado conversando. Nesses momentos ele fazia o papel de um guru e me dizia coisas nas quais não havia ainda pensado conscientemente”.

Outra dessas grandes figuras, era Ka um sábio egípcio. Jung o entendia como uma espécie de demônio, um espírito da natureza, um elemental em outras palavras. Nessa época, Jung se despreendeu do corpo físico e voou conscientemente. Mas não levou essa experiência ao “pé da palavra”. Ele começou a ser dominado por uma intensa inquietação; dizia que os mortos queriam alguma coisa dele que ele não sabia o que era. A descrição de dois dias dessa fase: “A casa inteira parecia tomada pelos espíritos dos mortos. A atmosfera ao meu redor me oprimia. Minha filha mais velha viu uma figura passar pelo quarto; minha segunda filha contou que por duas vezes `alguém´ arrancou suas cobertas, e meu filho de 9 anos, na mesma noite, teve um sonho inquietante. Isso foi em um sábado. No dia seguinte, a situação chegou a um clímax. Por volta de 5 da tarde, a campainha da porta da frente tocou com insistência. Todos em casa ouvimos. Quando fomos ver, não havia ninguém. O clima era o mesmo da véspera, denso, sufocante, opressor. Falei em voz alta: “Pelo amor de Deus, o que significa isso tudo? Então ouvi vozes respondendo em coro: `Voltamos de Jerusalém, onde não encontramos o que procurávamos´ ”. Esse episódio deu origem a um documento importante: “Septem Sermones ad Mortuos” ou “Sete Conversas com os Mortos”, para “satisfazer as persistentes exigências dos mortos” segundo Jung. Depois disso nada mais ocorreu. “A paz voltou à casa. O mais interessante é que eu não tinha muito controle sobre o que escrevia; o fato é que escrevi durante três noites seguidas. É claro que toda essa experiência esteve ligada ao meu estado emocional da época, favorável aos fenômenos parapsicológicos.”

 

Entre os anos de 1918 e 1919 começou a desenhar mandalas, pequenas figuras circulares. Após refletir muito, chegou à conclusão que “tudo tende para o centro”. O Budismo diria “o caminho do meio”.

 Em 1920, passando os fins de semana do verão na casa de campo de uns amigos ingleses, Jung ouvia sons inexplicáveis à noite: batidas nas portas, zumbido de ventania, água caindo. E tudo isso acompanhado com um cheiro peculiar. Numa dessas noites, sem conseguir dormir devido ao barulho, Jung estava na cama olhando o teto quando notou, no travesseiro ao seu lado, a metade de uma cabeça de mulher, com o olho aberto, fitando-o. Jung acendeu uma vela e a cabeça desapareceu. O resto dessa noite ele passou em uma cadeira de balanço, naturalmente interpretando a visão como uma exteriorização de elementos existentes em seu inconsciente. Mas, coincidentemente ou não, a casa tinha fama de mal-assombrada – vários de seus inquilinos a haviam abandonado. A casa foi demolida logo após aquele verão.

 Jung percebeu que a maioria de suas visões estava relacionada com o temor da morte. Um dia, retornando do enterro de um amigo que morrera de repente – e pensando nas circunstâncias daquela morte -, sentiu nitidamente a presença do amigo no quarto. Jung não soube dizer se era uma aparição ou uma “imagem visual interior”, mas assim mesmo seguiu-o até o jardim, depois até a rua e finalmente até  a casa do amigo. Lá dentro, a figura mostrou à Jung o segundo dos cinco livros com lombada vermelha que ficavam na segunda prateleira, de cima para baixo, da estante. No dia seguinte, visitando a viúva, Jung pediu-lhe para visitar a biblioteca e lá encontrou os cinco livros vermelhos que “vira” na noite anterior. Eram livros de Emile Zola e o segundo dos cinco era A Herança dos Mortos.

 

Dúvidas sempre houve, explicações também. “Propositalmente em uma conferência sobre espíritos em Londres evitei a questão de se os espíritos existem por si próprios e se são capazes de produzir fenômenos visíveis materialmente. A única atenuante para tal atitude é que é extraordinariamente difícil encontrar provas creditáveis da existência de espíritos, uma vez que as comunicações espiritualísticas em geral não passam de produtos comuns do inconsciente do médium”.

 

Em 1927 desenhou a mandala “Janela para a Eternidade”. No sonho, que originou esse desenho, Jung estava em uma cidade de forma circular. O ambiente escurecido e nublado à sua volta. Havia um lugar com uma pequena ilha no centro da cidade onde se encontrava uma árvore de magnólias com luminosidade própria. Apesar de haver outras pessoas com ele, somente Jung percebeu a luz. Mais tarde escreveu: “O centro é a meta e tudo se dirige para o centro. Graças a este sonho compreendi que o “Self” é o princípio e o arquétipo da orientação e do significado… reconhecê-lo para mim quis dizer ter a intuição inicial de meu próprio mito”. No ano seguinte desenhou outra mandala: era um castelo de ouro no centro, com forma e cores que lhe sugeriam um toque chinês. No mesmo período, R. Wilhelm lhe enviou uma carta com um manuscrito de um tratado de alquimia taoísta titulado “O Mistério da Flor de Ouro”. A coincidência chamou a sua atenção para fatos correlacionados, sem aparente explicação. Isso foi chamado de sincronicidade. Por causa de “coincidências” como essa, Jung sentiu-se menos sozinho, o que lhe comprovou que existem pessoas com as quais temos afinidade para compartilhar idéias e sentimentos. Freud estava realmente ficando para trás.

Porém no volume 8 de suas Obras Escolhidas reviu a antiga explicação psicológica sobre os mortos: “Depois de 50 anos em contato direto ou indireto com experiências parapsicológicas de milhares de pessoas de diversos países, ponho em dúvida minha afirmação de 1919 sobre o caráter eminentemente psicológico das manifestações mediúnicas”.

 

No final de suas memórias escreveu: “Estou perplexo, desapontado, contente comigo mesmo, estou arrasado, deprimido, radiante. Estou sentindo tudo isso ao mesmo tempo, e não consigo obter o resultado da soma. Não sou capaz de determinar o que é ou o que não é, o que vale a pena e o que não vale. Não tenho qualquer julgamento a meu respeito ou a respeito de minha vida. Não existe nada de que eu tenha certeza absoluta”.

 Curiosidades:

Durante a primeira guerra, Jung serviu como comandante do campo de prisioneiros de Chateau d´Oex. A partir de 1933 especulou-se que Jung era simpatizante do nazismo, mas o próprio interpretava o social-nacionalismo como um fenômeno patológico. Em 1940, com a publicação do livro Psicologia e Religião, os nazistas proibiram e queimaram sua obra.

 

Jung construiu sua própria casa de campo em Bollingen, para local de meditação. O trabalho teve início em 1923 terminando em 1955. Nenhum pedreiro foi chamado. Alguns parentes o ajudaram no início, mas assim que a obra foi se tornando mais transparente ele não pediu mais ajuda a ninguém. A famosa torre da construção foi inspirada na arquitetura africana, continente que conheceu em 1920. Para ele a casa era “a representação em pedra dos meus mais íntimos pensamentos e dos conhecimentos que adquiri”. Está aí o processo de individuação. Não havia luz ou água encanada. O fogão era à lenha e só havia uma única e encardida panela de ferro para fazer toda a comida. E Jung era conhecido como um grande cozinheiro.

 Para Jung a religião era um fenômeno genuíno, uma função psíquica natural com múltiplas manifestações e sua importância no funcionamento da psique. Freud dizia que a religião era um derivado do complexo paterno e uma das sublimações do instinto sexual. Jung escreveu: “Entre todos os meus doentes, na segunda metade de suas vidas, isto é, com mais de 35 anos, não houve um só cujo problema mais profundo não fosse a questão religiosa. Todos, em última instância, estavam doentes por ter perdido aquilo que uma religião viva sempre deu em todos os tempos a seus adeptos, e nenhum curou-se realmente sem recorrer a atitude religiosa que lhe fosse própria”.

 Sobre Deus: “Como cheguei a minha certeza sobre Deus? (…) Não se trata de uma idéia, de algo que fosse fruto de minhas reflexões. (…) Por que certos filósofos pretendiam que Deus fosse uma idéia? É perfeitamente evidente que Ele existe. (…) Para mim Deus era uma experiência imediata das mais certas”. Em uma entrevista para a BBC de Londres às vésperas de completar 80 anos declarou: “Não necessito crer em Deus. Eu sei”.

 Na casa em Küsnacht, onde morou de 1909 até o fim da vida, está gravado em pedra no alto da porta o oráculo de Delfos: Invocado ou não, Deus está sempre presente.