AQUARIUS

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Aquarius é o novo filme do meu “novo” diretor favorito, o recifense Kleber Mendonça Filho. Cercado de polêmicas, até mesmo em função do momento político, suas incansáveis 2 horas e meia de projeção exibem um dos mais profundos retratos já feitos sobre o Brasil. De sempre e o atual.

Há 3 anos, assisti ao meu primeiro Mendonça: O Som Ao Redor. Um dos meus filmes brasileiros favoritos. O diretor de Recife toca em assuntos delicados aos patrícios: a mal resolvida questão escravocrata, o clientelismo, o poder das oligarquias, uma secular hipocrisia familiar e a luta de classes. Mesmo espinhosos os assuntos são tratados com tanta maestria que até sincronicidades suscitam.

A única menção ao roteiro, que precisa ser feita, é que a escritora e crítica musical Clara (Sonia Braga, maravilhosa) reside no antigo edifício Aquarius na orla de Boa Viagem. A moradora é assediada para vender o imóvel com argumentos conhecidos:  receber mais do que vale o apartamento para viver em um outro novinho em folha com segurança, porteiro, academia, piscina.

Especulação imobiliária, gentrificação.

Clara se recusa a vender. Ela pensa, por que abrir mão da história de sua vida, de suas memórias, do espaço físico onde os filhos foram criados, dos seus móveis, das dezenas de álbuns de fotografias, de seus antigos LPs, etc… ?

Tendo dito um não à construtora, tem início o martírio pessoal de Clara, a cada dia mais pressionada e isolada.

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Seria apenas teimosia e apego não se desfazer do imóvel ou é nosso direito viver de uma maneira aparentemente não prática em um mundo onde todos são práticos? Onde o Deus dinheiro reina e pode tudo? As vantagens que nos oferecem são realmente vantagens? É melhor para o indivíduo se perder na multidão e ser igual a todo mundo? Seria um melhor profissional por ter um diploma ou por ter estudado no exterior?

Aqui reside a grande questão do filme e também do por quê eu ter escrito sobre ele em um blog sincronístico.

Não vou a uma exibição esperando encontrar respostas para a minha vida mas geralmente é o que ocorre, como que me dizendo siga em frente, nada tema, tá na boa. Ambas as profissões de Clara são ou foram as minhas, escritor e crítico musical e ao entrar na sala escura eu não sabia disso pois evito ler resenhas sobre filmes antes de assisti-los. Durante uma entrevista que Clara dá a um jornal local fica clara a distância entre o mundo profundo da entrevistada e os rasos comentários da repórter e da fotógrafa. Nesse momento, Clara comete duas sincronicidades em pleno filme: cita o disco Double Fantasy, o último de John Lennon antes de ser assassinado e relata uma baita história sincronística (que não posso contar) e puxa do meio de sua coleção o álbum de uma banda local dos anos setenta que poucos conhecem e sobre a qual eu havia escrito no dia anterior. Quando começo a duvidar, tipo deixa disso, é apenas “coincidência” surge na tela, durante um bom tempo, uma placa de carro com o dia e mês do meu aniversário, ocorrido há menos de uma semana. Aí me digo, pode parar e surge outra placa de carro com a data, dia e mês do aniversário do meu único irmão. Fora, as correlações sentimentais que fiz com o ambiente familiar retratado no filme, a doença, as separações, as mudanças, as “ingratidões”, a estocada final foi ter ouvido em alto e bom som (ao redor) o nome do bairro carioca onde faço um trabalho muito importante e de um próximo objetivo. Como se em um roteiro escrito há muito tempo estivessem falando sobre o meu momento atual e dizendo o que ainda acontecerá.

Fora a beleza do filme, fora as sincronicidades, a mensagem de Aquarius é ser forte.

Seja quem você é e aprenda diariamente com as suas escolhas. Aprenda com seus erros, não somos perfeitos, não seja intransigente, e nem seja burro. Mas seja você. Não se devote ao dinheiro, ao status, à hipnose coletiva. Encontre em seu âmago a sua verdade. Se for preciso lutar, lute. Se for preciso mudar, mude. Se te derrubarem, erga-se. Enfrente a mentira com a verdade. Não deixe que te deixem doente. Seja consciente. Não vilipendie a sua alma. Não se venda. Não ceda a chantagens. Não deixe que pisem em você. Não fuja da batalha se houver uma.

E persista acreditando que há sim heróis vivos.

Então, Viva!

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Nossa vida é um filme

Meu irmão me deu convites para um festival de cinema brasileiro. “Por acaso” o cinema é ao lado de casa, o que facilitou a vida. Como ele mora longe, doou os ingressos ao irmão fissurado em sétima arte. Os filmes foram escolhidos aleatoriamente. Ele apenas “saiu pegando” os convites que via pela frente antes que acabassem. Eu também não procurei muitas informações sobre as películas, apenas administrei meu tempo para assisti-las. Em um dos filmes, o escritor Ariano Suassuna disse qual foi o primeiro filme que ele havia visto na vida: o mesmo desconhecido filme dos anos 1930, que eu havia descoberto na internet há uns 6 anos para utilizar na edição de um vídeo. Ariano havia assistido a um filme “por acaso” para 70 anos depois, eu descobrir o mesmo filme “por acaso”. No momento, estou bem dedicado a escrever sobre o Brasil. Literatura e Brasil parecem uma forte e amorosa conexão com Suassuna.

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Em outro dia do festival, um documentário citou um jornalista, famoso por textos virulentos e matérias polêmicas no século XX: David Nasser.  Lembrei que o mesmo havia tentado polemizar com o médium Chico Xavier. Não sei se todos conhecem a história, relatada no filme de 2010 sobre o espírita, mas Nasser se passou por um jornalista estrangeiro, para entrevistá-lo. Ao fim da entrevista, Chico brinda os dois “gringos” (incluindo o cineasta/documentarista Jean Manzon) com livros autografados. O objetivo da entrevista era desancar o médium, acusando-o de charlatanismo por não ter desconfiado que os jornalistas o haviam enganado. Um tempo depois, Nasser recebe uma ligação telefônica de Manson que pede para que ele leia a dedicatória na primeira página do livro presenteado por Chico. Ao abrir o livro lá estava: “Ao meu irmão David Nasser, do espírito Emmanuel.” O mesmo havia ocorrido com Manson.

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Pronto para mais uma noitada de filmes, dessa vez com a atriz reclusa, Ana Paula Arósio, pensei em rever no dia seguinte, o trecho do David Nasser no filme sobre Chico Xavier. E lembrei-me que a única vez que vi Arósio em carne e osso, foi no Paço Imperial, no centro do Rio, em 2010, quando ela estava gravando uma série para a Globo, com o ator José Wilker.

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Quando os dois passaram por mim, não nego que senti algo, digamos “estranho”. Já escrevi em um texto anterior que o Wilker cruzou a rua junto comigo em 2014 e quando nos olhamos, vi o medo em seus olhos. Logo depois, ele morreu.

Essas lembranças antecedem o ato “final” do festival, “dramático” como uma peça de Shakespeare.

Fui sem quaisquer expectativas para assistir ao filme com Arósio. Na entrada, passei ao lado do ator Nelson Xavier e me perguntei o que ele estava fazendo ali. Nem lembrei que ele havia interpretado Chico Xavier no filme de 2010. Assim que a película teve início, vejo Chico Xavier na tela, ôps, Nelson Xavier e me dou conta do por que o ator estar presente no local. Então, em uma cena, Arósio põe um vinil para tocar. Xavier diz como a música é linda e a capa do LP é mostrada na tela: reconheço o único LP de música erudita que tenho e que “por acaso” não comprei: me foi emprestado há mais de 20 anos e nunca devolvido. Xavier diz no filme: “Que música maravilhosa a de Villa-Lobos e ainda regida por ele!”

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Um dos outros atores do filme é Fernando Alves Pinto, citado em outro texto deste blog (o encontrei na rua após ver o filme Nosso Lar de 2010 e isso me chamou a atenção). Ao estudar a sua vida, tomei conhecimento de sua história de superação. Em 96, ele sofreu um acidente, ficou em coma e perdeu a memória. As aulas de clarinete o ajudaram nesse processo de cura que durou dois longos anos. No momento, também estou passando por um outro processo de superação de uma questão que se desenrola (e me enrola) há pelo menos, 3 anos.

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Houve várias outras “coincidências” no filme, mas não há como citá-las sem transformar este texto em um livro e essa não é a ideia.

Os eventos ocorridos nesta semana parecem ser “a resposta” a vários desdobramentos anteriores, de anos e décadas atrás. Prefiro não afirmar categoricamente que tenho “certeza” que a conclusão seria essa ou aquela, ou que exista destino, até porque não imagino o que está sendo negociado no plano do subconsciente. É saudável não ter absolutas certezas e é muito mais saudável estar liberto.

Em Rota de Colisão

Assisti a um filme americano inspirado em histórias reais. “Em Rota de Colisão” (Stuck – 2007).

A trama gira em torno de uma enfermeira que atropela um morador de rua. Vi o filme sem saber do título. A enfermeira dirigia o seu carro à noite, preocupada em falar com o namorado ao celular.  Focada em seus próprios interesses, ela atropelou um desempregado obrigado a viver na rua por não ter dinheiro ou emprego. O corpo do desempregado atravessou o vidro do carro e a mulher não parou: levou o carro com o corpo para casa à noite e deixou ambos, o carro e o corpo atravessado no vidro, na garagem, para transar com o namorado. De manhã, a enfermeira foi ao emprego em um hospital e não falou nada para ninguém. Voltou para casa apenas para pegar o celular e não para salvar o homem, que pedia ajuda. Imaginem que a enfermeira tentou de tudo para sumir com o corpo, preocupada apenas com o emprego, no qual ela cuidava de velhinhos e salvava vidas.

Há uma teoria, não descabida, de que ver, ler e assistir a determinados filmes nos liga a situações mentais involuídas, que não nos fazem crescer. Que nos fazem perder tempo. Também é, também pode ser. Mas a vida não é só trabalho, é respiro. Alguns se alienam com coisas “sérias”, outros com “prazeres”. Aí é com cada um. E tem a ver com a experiência que cada um pode e deve vivenciar. Não sou dono da verdade, mas sou o responsável e aprendo com as consequências das minhas escolhas.

Este blog é principalmente, um espaço para depoimentos, pois as sincronicidades, uma mais “absurda” do que a outra, ocorrem diariamente. Que cada um analise se as suas escolhas ainda fazem sentido para você. Para muitos, a vida é um “baile iluminado”, para outros é “um parto”. Para este que vos escreve, a vida é a vida.  E pode mudar em um segundo. A sincronicidade faz parte da vida. Pessoas vêm e vão. A vida prossegue. E a maior lição que duramente aprendo é ter paciência. E “ficar vendo sinais” não resolve. Mas ajuda.

Trailer em português: 

Stuck em francês: 

Documentário sobre a filmagem de Stuck e os fatos reais:

Para quem se interessa por histórias reais e semelhantes, aconselho o filme sobre a vida do escritor, Donald Walsch, dos livros Conversando com Deus.

As SINCRONICIDADES de RENATO RUSSO

 

“É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque se você parar para pensar, na verdade não há.”

Renato Russo (1960-1996), vocalista da Legião Urbana ganhará dois longa-metragens: “Somos Tão Jovens” do diretor Antonio Carlos da Fontoura e “Faroeste Caboclo” do estreante René Sampaio.

Lendo a matéria de André Miranda, do jornal O Globo sobre a película “Somos Tão Jovens”, encontrei essas pérolas sincronísticas:

“As coincidências que envolvem a produção de “Somos tão jovens” têm um quê místico por um lado e um cinematográfico por outro. Em 2006, Fontoura encontrou casualmente na rua, o produtor musical Luiz Fernando Borges, amigo próximo de Renato e pessoa incumbida pela família do cantor de cuidar da possibilidade de uma cinebiografia. Borges estava no Jardim Botânico, andando pela calçada a caminho da casa de Ed Motta quando avistou o diretor, com quem não tinha contato havia 25 anos, desde que eles participaram do mesmo grupo de terapia. A conversa foi breve, como costuma ocorrer nesses encontros. Perguntaram sobre a vida, relembraram alguns assuntos do passado e falaram de projetos futuros. O filme sobre Renato, que ainda era apenas um sonho, então, veio à tona. “Que bacana”, um disse. “Quer dirigir?”, o outro perguntou”.

“Era preciso arrumar patrocínio. “Religião Urbana” foi o primeiro título escolhido. Durante dois anos, porém, eles só ouviram respostas negativas de investidores, atrasando o projeto. Até que Dona Carminha Manfredini, mãe de Renato, chamou o diretor para um almoço e sugeriu a mudança do título para “Somos Tão Jovens”, argumentando que seu filho nunca foi pregador, religioso, nada parecido. A frase foi tirada da letra de “Tempo Perdido”, um dos maiores sucessos da Legião. Fontoura não tinha tempo a perder e prontamente aceitou o conselho. – Na semana seguinte, começamos a ganhar editais – lembra o diretor. – Eu acho que o Renato deve estar num universo paralelo dizendo o que cada um de nós deve fazer. A minha meta é que ele e quem o representa neste planeta fiquem felizes com o filme. A Legião Urbana sempre esteve presente no coração dos jovens. Este filme não é apenas sobre o Renato. É sobre todos esses jovens”.

(Fonte: http://oglobo.globo.com/cultura)