Guerra do Contestado – Guerra Espiritual.

contestado - guerra

Ao pesquisar hoje, dados históricos, me deparei com uma data: 28 de março. Como eu nasci dia 28 e meu irmão em março decidi seguir adiante. A pista era boa e prometia me responder algo, induzia-me ao encontro de mais uma peça do quebra-cabeças para a compreensão de quem sou, e do por quê estar encarnado neste país.

Ao seguir a pista, descobri um texto sobre a Guerra do Contestado, um conflito armado entre a população cabocla e os representantes do poder estadual e federal brasileiro travado entre outubro de 1912 a agosto de 1916, numa região rica em erva-mate e madeira disputada pelos estados brasileiros do Paraná e de Santa Catarina. Originada nos problemas sociais, decorrentes principalmente da falta de regularização da posse de terras e da insatisfação da população hipossuficiente, numa região em que a presença do poder público era pífia, o embate foi agravado ainda pelo fanatismo religioso, expresso pelo messianismo e pela crença, por parte dos caboclos revoltados, de que se tratava de uma guerra santa.

Contestado - Mapa

Na sanha por mais conhecimento, me deparei com o documentário “O Contestado – Restos Mortais”, do catarinense Sylvio Back, que além de ser um filme histórico é um filme…  espírita!

O diretor colocou diante da câmera médiuns que incorporaram espíritos de pessoas envolvidas no conflito. “Incorporados”, vítimas e rebeldes contam suas histórias, gritam por socorro da mãe, e explicam porque lutaram.

E um dos detalhes mais incríveis do filme é que um dos historiadores entrevistados afirma que os caboclos em fuga foram perseguidos e mortos até a cidade de… Santa Maria! 

Guerra do Contestado – Restos Mortais

Entrevista Sylvio Back TV Brasil

Entrevista para http://cpdoc.fgv.br/contestado/ecos/sylvio-back

CPDOC: Em seu penúltimo filme O Contestado – Restos Mortais (2010) você voltou a abordar o tema, desta vez a partir de fontes pouco tradicionais, que foram os testemunhos de médiuns. Conte-nos sobre essa experiência.

SYLVIO BACK: A inclusão do relato mediúnico como fio condutor do filme pegou de surpresa espectadores e críticos quando da exibição de “O Contestado – Restos Mortais” na competição dos festivais “É Tudo Verdade” e em Gramado. Houve quem, equivocadamente, até elogiasse a minha direção de atores durante os debates por não acreditar que aquela trintena de médiuns explodindo em falas insólitas, choros, risos, apelos, gritos e sussurros, era um elemento de linguagem. Ao invés de uma encenação teatral, era uma incursão, digamos, à “invisibilidade” do Contestado, ele mesmo, inoculado pelas mais insondáveis correntes místicas e míticas.

Houve, também, quem ridicularizasse o recurso, talvez, por desconhecer minha filmografia, toda ela na contramão do discurso cinematográfico, majoritariamente, anódino e conservador, ora em cartaz (documentários de corte “chapa branca”, que repicam o vezo do Estado ou de ideologias políticas; hagiográficos e/ou turísticos), onde jamais dublei um estilo narrativo, mas cujo objetivo sempre foi deixar o espectador desarvorado, sem saber se deveria ou não acreditar no que vê e ouve. Como teve crítico que deu crédito ao inaudito recurso pontuado por “vozes do além” que trazem à tona uma “outra” verdade nunca antes arvorada sobre a Guerra do Contestado.

E, pela constatação de que eu, com essa operação cinemática, levar ao espectador a própria polêmica se a mediunidade colocada sob suspeita por alguns depoimentos, como encará-la, como aceitá-la hoje dentro de um filme que se quer “histórico”? Por não ser “espírita”, nem adepto de qualquer credo religioso, mas por respeitar e admirar a imponderabilidade e o mistério que corpo, espírito e alma mutuamente se conjuram, é que promovi em “O Contestado – Restos Mortais” um amálgama de cinema, depoimentos e testemunhos, iconografia fixa e em movimento, história e mitologia, fatos & atos, tênues de veracidade e verossimilhança.

Todo esse aparato audiovisual, de aparente difícil absorção mental, imbricado ao inconsciente coletivo que continua a fervilhar na região, se aplica para tentar desvendar um Contestado até hoje ainda insepulto, inacessível, inconcluso! O espectador é sempre mais esperto e rápido do que o filme e o diretor juntos, já que o olho é mais rápido do que o pensamento. Portanto, a inserção do relato dos médiuns no miolo do filme, e que perturba e conturba seu fluxo, serve justamente para borrar as fronteiras draconianas entre documentário e ficção. Afinal, qual a diferença entre ambos: uma vez o real filmado torna-se depositário infiel do pretérito, ou seja, uma ficção sempre mediatizada pela imponderabilidade da memória. Cada um apropria e introjeta seu complexo sentido como achar melhor, acreditando, endossando, edulcorando, contraditando ou desconfiando. Eu faço um cinema que desconfia!

Depois, o projeto nunca foi fazer um documentário tal qual (não sou um documentarista lato senso) sobre a Guerra do Contestado, daí os clipes com imagens de arquivo (fotos & filmes), por exemplo, raras vezes surgirem para sublinhar depoimentos e entrevistas, o que seria empobrecê-las, desacreditar nas minhas próprias imagens e na capacidade de “viajar” do espectador. Ao contrário, por serem todas flagrantes oficiais, feitos de encomenda, a própria “história oficial” funciona como uma espécie de contraponto ”heroico” do que sobrevive da realidade trágica na cabeça das pessoas um século depois. Essa autonomia do acervo, premeditadamente procurada, e colocada sob suspeita pelas recordações afetivas e pela história, é uma das claves que emprestam a amperagem polêmica do filme e que melhor lhe definem o torque revisionista do tema face às minhas convicções como homem e artista.

JUNG era MÉDIUM? “Não necessito crer em Deus. Eu sei”.

“Eu considerava os fenômenos ocultos fascinantes. Eles acrescentavam uma nova dimensão à minha vida: o mundo ganhava amplitude e profundidade”

 Carl Gustav Jung (1875 – 1961) e Freud (1856 – 1939) começaram a se corresponder em 1906. “Jung viu nos conceitos psicanalíticos de Freud um arcabouço para suas próprias ideias, incluindo as que pretendiam explicar o `oculto´ ”, bem explicado nas palavras de Martin Ebon.

Freud, o pai da psicanálise, ficou muito impressionado com o jovem de Zurique, que àquele momento representava mais do que um estudante interessado. Jung era uma resposta à pressão dos psiquiatras ortodoxos contra o grupo de Viena (Freud fundou a “Sociedade das Quartas-feiras” em 1902 a qual veio a se tornar a Associação de Psicanálise de Viena, em 1908). Em 1907, Jung, Freud e Eugen Bleuler (psiquiatra e diretor do Hospital Psiquiátrico Burgholzli de Zurique onde Jung iniciou sua carreira em 1900, como assistente de Bleuler) coordenaram a publicação do anuário psicanalítico. Em 25 de março de 1909, houve um encontro em Viena, após Jung ter deixado o hospital. O jovem Carl perguntou a Freud o que ele achava de precognição (faculdade parapsicológica. Conhecimento espiritual direto do futuro) e parapsicologia. O mestre classificou como um absurdo todos os fenômenos ocultos. “Eu tive que me conter para não retrucar com certa violência”, revelou Jung. E não parou aí. O conflito entre os dois progrediu.

Jung escreveu: “Enquanto Freud quase gritava para me convencer de que os fenômenos parapsicológicos não existiam, tive uma sensação curiosa: meu diafragma parecia feito de aço e um estranho calor começou a subir pelo meu peito, como se algo fosse explodir. Nesse exato momento escutamos um estrondo na estante que ficava logo atrás de nós. Levantamos assustados, temendo que ela fosse cair. Entendi tudo e expliquei a Freud: “Aí está um bom fenômeno de exteriorização catalítica”. Furioso, ele disse que tudo aquilo era uma bobagem. Insisti: “Não é besteira e o senhor está totalmente enganado, professor. Para provar o que estou dizendo, afirmo que vamos ouvir outro estrondo daqui a pouco”. Mal acabei de falar, a estante voltou a produzir aquele ruído. Não sei o que me deu aquela certeza, mas eu sabia que o ruído ia se repetir. Freud limitou-se a olhar desconfiado para mim. Não sei exatamente o que significou aquele olhar, nem o que passou por sua mente naquela hora. O fato é que ele se sentiu agredido”.

FREUD & JUNG

Três semanas depois, uma longa carta de Freud acusava Jung de ter forjado o incidente para humilhá-lo. Freud escreveu: “É muito sintomático que, àquela noite em que eu definitivamente paternalmente o adotava como meu filho mais velho, e em que eu lhe transmitia o desejo de que fosse meu sucessor, você tenha tentado ferir minha dignidade paternal. E parece que me agredir deu-lhe tanto prazer quanto deu a mim deu livrar-me de você. Minha eventual disposição em considerar seus pontos de vista desapareceu completamente diante de sua atitude visivelmente comprometida. Continua me parecendo muito implausível que qualquer coisa daquele gênero possa ocorrer. A estante permanece à minha frente, fria e muda. Eu ainda me permito advertir meu caro filho de que é preferível não entender alguma coisa do que sacrificar a própria lucidez no esforço de entender a qualquer custo. Enfim, compreendo que os jovens são assim mesmo: eles gostam das caminhadas difíceis e ousadas, em que o nosso fôlego já curto e nossas pernas cansadas não nos permitem acompanhá-los. Ainda assim aguardo notícias sobre suas pesquisas, com o interesse de quem aprecia uma bela alucinação”.

FREUD não acredita em fantasmas

No ano seguinte, Freud lhe deu-lhe o definitivo ultimato em 1910: defender a teoria freudiana da sexualidade e abandonar as idéias ocultistas. Em 1911, Jung assumiu a presidência da Sociedade Psicanalítica Internacional, – também por influência de Freud -, mesmo ano que teve um sonho onde participava de uma assembléia com os espíritos ilustres da antiguidade.  Em 1912, o livro “Metamorfoses e Símbolos da Libido” de Jung estremeceu ainda mais a relação dos dois até romperem definitivamente no ano seguinte, após Jung ter escrito uma dura crítica a respeito do livro de Freud, “A Psicologia do Inconsciente”. Em uma última carta a Freud, Jung se demite do cargo de editor do Jornal Internacional da Psicanálise.

 

A família de JUNG, a real, não a fantasma.

A Família Fantasma

 De acordo com Amiela Jaffé, assistente de Jung durante muito tempo, a avó de Jung, Augusta Preíswerk via fantasmas. Sua família atribuía essas tendências mediúnicas ao fato de que, quando menina, Augusta sofreu um ataque, que ninguém sabe explicar de quê, a deixou virtualmente morta por 36 horas. Emilie, a filha dela e mãe de Jung registrava visões e premonições em seu diário. Ela escreveu que quando criança “protegeu” o pai contra fantasmas que o rondavam quando ele se sentava para escrever seus sermões para a Congregação dos Reformados da Basiléia. No verão de 1899, passou o verão com a mãe, já viúva, e a irmã. Um dia, uma enorme mesa de nogueira que pertencera a sua avó Augusta partiu no meio emitindo um ruído semelhante a um tiro de pistola. Duas semanas depois, ele ouviu exatamente o mesmo ruído, vindo do armário de guardar louças. Dentro dele, Jung encontrou uma faca de pão, cuja lâmina tinha se separado do cabo e partida em 4 pedaços. Amiela Jaffé escreveu em “Vida e Obra de Carl Jung”, que, em seu primeiro dia de trabalho com Jung, ele abriu uma espécie de cofre no escritório, e dele retirou os pedaços da faca quebrada. Jung pediu-lhe que os juntasse. Quando Amiela reconstituiu a faca, Jung lhe disse que era só, para o primeiro dia. Isso demonstra que aquela experiência o tinha marcado profundamente.

Naquele verão de 1899, um grupo de parentes estava realizando sessões espíritas na casa da mãe de Jung. Ele participou de algumas. A jovem médium com 15 anos era prima de Jung. Ela incorporava duas entidades: o próprio avô, que não conhecera vivo, e uma menina de nome Ulrich Gerbenstein. Segundo ele, o que o avô dizia não passava de conversa fiada e o que a menina – que só tinha de interessante o nome masculino – só falava bobagens. A médium, que Jung chamava de S.W., eventualmente recorria a pequenas fraudes para renovar a atenção. Em sua autobiografia “Memórias, Sonhos e Reflexões”, Jung escreveu: “Depois de muitas experiências todos nós nos cansamos. O que me fez acabar de vez com as sessões foi constatar que a médium lançava mão de truques para produzir falsos fenômenos. Hoje me arrependo de não ter prosseguido com a experiência, só para observar o comportamento de S.W., que segundo descobri mais tarde, era uma dessas pessoas que amadurecem muito precocemente e possuem uma personalidade misteriosa e extraordinária. Ela morreu de tuberculose aos 26 anos”.

O Velho do Sonho

Sonhos e espíritos

 Entre 1913 e 1917 visões e sonhos com seus ancestrais exerceram papel fundamental na vida de Jung.

No outono de 1913, Jung começou a ter visões repetitivas e proféticas com imagens sangrentas e de morte envolvendo uma grande catástrofe. Uma voz lhe dizia que tudo aquilo iria acontecer. Ele achou que era alguma espécie de psicose. As visões duraram quase um ano. No ano seguinte teve início a Primeira Grande Guerra.

 Nesses quatro anos ocorreram comunicações telepáticas e precognições. Os colegas, obviamente diziam que o coitado sofria de alucinações. É desta safra uma história fascinante: Jung sonhava com Philemon, o “velho” cuja morte foi causada por Fausto no drama escrito por Goethe e nessas “aparições” conversavam durante horas. Era um velho com chifres e asas de martín pescador, que carregava 4 chaves. Philemon ensinou a Jung a “objetividade psíquica”, a distinção entre o si mesmo e os objetos dos seus pensamentos.

Philemon e outras figuras de minhas fantasias me provaram que existem coisas na minha psique que não produzo, mais que se produzem sozinhos e que têm vida própria. Philemon representava uma força que eu não conhecia. Em alguns momentos, ele me parecia real, principalmente quando andávamos pelo jardim, lado a lado conversando. Nesses momentos ele fazia o papel de um guru e me dizia coisas nas quais não havia ainda pensado conscientemente”.

Outra dessas grandes figuras, era Ka um sábio egípcio. Jung o entendia como uma espécie de demônio, um espírito da natureza, um elemental em outras palavras. Nessa época, Jung se despreendeu do corpo físico e voou conscientemente. Mas não levou essa experiência ao “pé da palavra”. Ele começou a ser dominado por uma intensa inquietação; dizia que os mortos queriam alguma coisa dele que ele não sabia o que era. A descrição de dois dias dessa fase: “A casa inteira parecia tomada pelos espíritos dos mortos. A atmosfera ao meu redor me oprimia. Minha filha mais velha viu uma figura passar pelo quarto; minha segunda filha contou que por duas vezes `alguém´ arrancou suas cobertas, e meu filho de 9 anos, na mesma noite, teve um sonho inquietante. Isso foi em um sábado. No dia seguinte, a situação chegou a um clímax. Por volta de 5 da tarde, a campainha da porta da frente tocou com insistência. Todos em casa ouvimos. Quando fomos ver, não havia ninguém. O clima era o mesmo da véspera, denso, sufocante, opressor. Falei em voz alta: “Pelo amor de Deus, o que significa isso tudo? Então ouvi vozes respondendo em coro: `Voltamos de Jerusalém, onde não encontramos o que procurávamos´ ”. Esse episódio deu origem a um documento importante: “Septem Sermones ad Mortuos” ou “Sete Conversas com os Mortos”, para “satisfazer as persistentes exigências dos mortos” segundo Jung. Depois disso nada mais ocorreu. “A paz voltou à casa. O mais interessante é que eu não tinha muito controle sobre o que escrevia; o fato é que escrevi durante três noites seguidas. É claro que toda essa experiência esteve ligada ao meu estado emocional da época, favorável aos fenômenos parapsicológicos.”

 

Entre os anos de 1918 e 1919 começou a desenhar mandalas, pequenas figuras circulares. Após refletir muito, chegou à conclusão que “tudo tende para o centro”. O Budismo diria “o caminho do meio”.

 Em 1920, passando os fins de semana do verão na casa de campo de uns amigos ingleses, Jung ouvia sons inexplicáveis à noite: batidas nas portas, zumbido de ventania, água caindo. E tudo isso acompanhado com um cheiro peculiar. Numa dessas noites, sem conseguir dormir devido ao barulho, Jung estava na cama olhando o teto quando notou, no travesseiro ao seu lado, a metade de uma cabeça de mulher, com o olho aberto, fitando-o. Jung acendeu uma vela e a cabeça desapareceu. O resto dessa noite ele passou em uma cadeira de balanço, naturalmente interpretando a visão como uma exteriorização de elementos existentes em seu inconsciente. Mas, coincidentemente ou não, a casa tinha fama de mal-assombrada – vários de seus inquilinos a haviam abandonado. A casa foi demolida logo após aquele verão.

 Jung percebeu que a maioria de suas visões estava relacionada com o temor da morte. Um dia, retornando do enterro de um amigo que morrera de repente – e pensando nas circunstâncias daquela morte -, sentiu nitidamente a presença do amigo no quarto. Jung não soube dizer se era uma aparição ou uma “imagem visual interior”, mas assim mesmo seguiu-o até o jardim, depois até a rua e finalmente até  a casa do amigo. Lá dentro, a figura mostrou à Jung o segundo dos cinco livros com lombada vermelha que ficavam na segunda prateleira, de cima para baixo, da estante. No dia seguinte, visitando a viúva, Jung pediu-lhe para visitar a biblioteca e lá encontrou os cinco livros vermelhos que “vira” na noite anterior. Eram livros de Emile Zola e o segundo dos cinco era A Herança dos Mortos.

 

Dúvidas sempre houve, explicações também. “Propositalmente em uma conferência sobre espíritos em Londres evitei a questão de se os espíritos existem por si próprios e se são capazes de produzir fenômenos visíveis materialmente. A única atenuante para tal atitude é que é extraordinariamente difícil encontrar provas creditáveis da existência de espíritos, uma vez que as comunicações espiritualísticas em geral não passam de produtos comuns do inconsciente do médium”.

 

Em 1927 desenhou a mandala “Janela para a Eternidade”. No sonho, que originou esse desenho, Jung estava em uma cidade de forma circular. O ambiente escurecido e nublado à sua volta. Havia um lugar com uma pequena ilha no centro da cidade onde se encontrava uma árvore de magnólias com luminosidade própria. Apesar de haver outras pessoas com ele, somente Jung percebeu a luz. Mais tarde escreveu: “O centro é a meta e tudo se dirige para o centro. Graças a este sonho compreendi que o “Self” é o princípio e o arquétipo da orientação e do significado… reconhecê-lo para mim quis dizer ter a intuição inicial de meu próprio mito”. No ano seguinte desenhou outra mandala: era um castelo de ouro no centro, com forma e cores que lhe sugeriam um toque chinês. No mesmo período, R. Wilhelm lhe enviou uma carta com um manuscrito de um tratado de alquimia taoísta titulado “O Mistério da Flor de Ouro”. A coincidência chamou a sua atenção para fatos correlacionados, sem aparente explicação. Isso foi chamado de sincronicidade. Por causa de “coincidências” como essa, Jung sentiu-se menos sozinho, o que lhe comprovou que existem pessoas com as quais temos afinidade para compartilhar idéias e sentimentos. Freud estava realmente ficando para trás.

Porém no volume 8 de suas Obras Escolhidas reviu a antiga explicação psicológica sobre os mortos: “Depois de 50 anos em contato direto ou indireto com experiências parapsicológicas de milhares de pessoas de diversos países, ponho em dúvida minha afirmação de 1919 sobre o caráter eminentemente psicológico das manifestações mediúnicas”.

 

No final de suas memórias escreveu: “Estou perplexo, desapontado, contente comigo mesmo, estou arrasado, deprimido, radiante. Estou sentindo tudo isso ao mesmo tempo, e não consigo obter o resultado da soma. Não sou capaz de determinar o que é ou o que não é, o que vale a pena e o que não vale. Não tenho qualquer julgamento a meu respeito ou a respeito de minha vida. Não existe nada de que eu tenha certeza absoluta”.

 Curiosidades:

Durante a primeira guerra, Jung serviu como comandante do campo de prisioneiros de Chateau d´Oex. A partir de 1933 especulou-se que Jung era simpatizante do nazismo, mas o próprio interpretava o social-nacionalismo como um fenômeno patológico. Em 1940, com a publicação do livro Psicologia e Religião, os nazistas proibiram e queimaram sua obra.

 

Jung construiu sua própria casa de campo em Bollingen, para local de meditação. O trabalho teve início em 1923 terminando em 1955. Nenhum pedreiro foi chamado. Alguns parentes o ajudaram no início, mas assim que a obra foi se tornando mais transparente ele não pediu mais ajuda a ninguém. A famosa torre da construção foi inspirada na arquitetura africana, continente que conheceu em 1920. Para ele a casa era “a representação em pedra dos meus mais íntimos pensamentos e dos conhecimentos que adquiri”. Está aí o processo de individuação. Não havia luz ou água encanada. O fogão era à lenha e só havia uma única e encardida panela de ferro para fazer toda a comida. E Jung era conhecido como um grande cozinheiro.

 Para Jung a religião era um fenômeno genuíno, uma função psíquica natural com múltiplas manifestações e sua importância no funcionamento da psique. Freud dizia que a religião era um derivado do complexo paterno e uma das sublimações do instinto sexual. Jung escreveu: “Entre todos os meus doentes, na segunda metade de suas vidas, isto é, com mais de 35 anos, não houve um só cujo problema mais profundo não fosse a questão religiosa. Todos, em última instância, estavam doentes por ter perdido aquilo que uma religião viva sempre deu em todos os tempos a seus adeptos, e nenhum curou-se realmente sem recorrer a atitude religiosa que lhe fosse própria”.

 Sobre Deus: “Como cheguei a minha certeza sobre Deus? (…) Não se trata de uma idéia, de algo que fosse fruto de minhas reflexões. (…) Por que certos filósofos pretendiam que Deus fosse uma idéia? É perfeitamente evidente que Ele existe. (…) Para mim Deus era uma experiência imediata das mais certas”. Em uma entrevista para a BBC de Londres às vésperas de completar 80 anos declarou: “Não necessito crer em Deus. Eu sei”.

 Na casa em Küsnacht, onde morou de 1909 até o fim da vida, está gravado em pedra no alto da porta o oráculo de Delfos: Invocado ou não, Deus está sempre presente.

As Sincs de SAI BABA

Sai Baba

Na manhã de domingo, dia 24 de abril, Sathya Sai Baba desencarnou. Curiosamente, o guru indiano partiu desse mundo, durante o feriado da Páscoa cristã, a reflexiva época do renascimento. Nesse mundo cheio de interesses mil, poucos ocidentais sabem quem foi esse homem, considerado um novo Cristo pelos discípulos, a maioria indianos. Segundo dizem estava com 85 anos e nos últimos meses já bastante enfermo com problemas cardíacos, pulmonares e renais. Um de seus maiores seguidores e que mais lhe ajudou economicamente foi o ex-proprietário da rede de restaurantes Hard Rock Café, Isaac Burton Tigrett, que viveu em Puttaparthi, terra de Sai Baba na Índia e que doou grande parte de sua fortuna à fundação de Sathya Sai Baba.

Soube da notícia por um amigo que me ligou hoje cedo, no dia seguinte à passagem do guru. O amigo soube da morte de Sai Baba e estranhou a data, pois no mesmo dia 24 de abril, só que de 2008, ele perdera um colega de trabalho. A coincidência tornou-se ainda mais estranha, pois ao chegar em casa, lembrou-se de ter separado há anos, um livro sobre os milagres de Sai Baba para ler, que nunca foi nem sequer aberto. Impulsionado pela curiosidade e pela recente notícia, procurou a publicação e ao encontrá-la, deparou-se com algo como um marcador de páginas em seu interior, algo que marcava bem mais do que páginas: era um santinho de falecimento do amigo de trabalho com a data de 24 de abril de 2008.

Esse é apenas o preâmbulo.

Já escrevi sobre isso antes, sobre o baixo nível, a raiva e o ódio dos que não aceitam que outras pessoas possam ser espiritualistas, umbandistas, espíritas ou o que quer que sejam. Recorri ao Globo on line para ler a notícia sobre o passamento do guru e me deparei com alguns comentários como: “Se ele era guru por que não se curou? Se ele era guru por que o acusavam de charlatão? Se ele era guru por que não ressuscitou ao terceiro dia?”. Realmente não entendo por que alguém perde tempo expelindo ódio, gastando energia com isso… Não há por que comparar Jesus com Sai Baba e nem os Beatles com os Rolling Stones. Tudo isso é uma bobagem, a fé é uma bobagem e o ateísmo também, a luz é uma bobagem e a escuridão também. Vivam e deixem viver. Eu não vendo minha verdade e a minha fé, porque eu as vivo, eu sou ela, se você não é, se não acredita, tanto faz, por que o ódio? Por que a diferença ou a semelhança incomodam tanto? Mais impressionado, fico eu com o baixo nível dos leitores dos grandes jornais. É a mesma gente que reclama pelos “seus” direitos, que pede para se expressar, para escolher “seu” próprio destino. A liberdade de fato é um rolo compressor, tão truculento quanto a ditadura.

Sai Baba

Sai Baba esteve próximo a mim em inesquecíveis ocasiões (não fisicamente, quero deixar claro) e todas engraçadas, para dizer o mínimo, então esta postagem é a minha singela homenagem e respeito ao indiano. Posto aqui duas boas histórias.

1 – Na primeira metade dos anos 90, estava viajando com músicos em um ônibus para o Brasil central. Exatamente à minha frente, sentaram duas moças que conversavam em inglês. “Do nada”, elas se viraram para falar comigo e perguntaram sobre a espiritualidade do país, queriam saber mais sobre o Candomblé e o Espiritismo, queriam conhecer o Planalto Central. Isso chamou a atenção dos músicos, sentados no outro extremo do veículo, que não estavam interessados em espiritualidade, mas nas duas louras. As inglesas comentaram que haviam chegado da Índia, do Ashram (comunidade formada para promover a evolução espiritual dos seus membros, frequentemente orientado por um místico ou líder religioso) de Sai Baba. Do outro lado do ônibus, o mais esdrúxulo dos músicos, o que mais queria aparecer, fazia troça, em altos brados, sobre a nossa conversa, usando termos de baixo calão e fazia trocadilhos em português – que elas não podiam entender – com o nome e a aparência física do guru. Agradecidas, elas me entregaram alguns pequenos pacotes azuis com o rosto de Sai Baba e me disseram que em seus conteúdos havia Vibhuti e me aconselharam: “Use com sabedoria.”

Vibhuti significa poder, esplendor, glória e majestade.

Vibhuti

O pó Vibhuti, que brotava das palmas da mão de Sai Baba é esbranquiçado como cinza, suave ao tato, com um forte e agradável aroma e sabor de milhares de flores juntas em forma de fina chuva. O pó é entregue ao devoto que Sua vontade escolheu por motivos que tão só Ele conhece.

Bhagavan Baba se referia ao milagre de criar Vibhuti na palma de Sua mão como: “Meu cartão de apresentação”. Ele dizia:

…”Não lhes é possível aprender o significado pleno do Avatar ou resistir a Seu esplendor total sem um período de preparação, e por isto é que lhes revelo só pequenas quantidades de glória, como a criação de cinzas…”

…”Não está em minha natureza pregar atrativos para conseguir que as pessoas venham a Mim. Eu derramo alegria sem nenhum propósito em particular e é devido a isto que me deleito nos milagres…” 

Pedi a meu irmão que colocasse o Vibhuti na língua de sua filha e minha sobrinha para protegê-la.

Meu encontro com “as louras de Baba” foi motivo de escárnio por parte de um dos músicos, o autor dos trocadilhos, durante anos. Após nos separamos profissionalmente, só fui revê-lo, após 7 longos anos. Uma noite, o reencontro visivelmente alcoolizado e ao me abraçar, ele confessa consternado: “Há anos, sou discípulo de Sai Baba!”

Nada como um dia após o outro

 2 – No ano seguinte, em 2008, estava gravando um disco e queria dar uma sonoridade psicodélica ou indiana a uma música, mas me faltava a ideia. O dono do estúdio me chamou para que eu fosse apresentado a um dos seus amigos dos anos 70, um ex-fã da banda The Who que se tornara discípulo de Sai Baba. “Gravo CDs devocionais”, ele disse. “Já fui à Índia várias vezes”, completou. “Estou gravando um CD neste mesmo estúdio”. Esse encontro me deu um estalo: nada acontece à toa e se estávamos gravando no mesmo estúdio, nos mesmos dias, por que seria? Um toque indireto de Sai Baba?

Quando fui pedir autorização para o uso das gravações, o fiel já havia terminado o trabalho e viajado, talvez para a Índia. Comentei sobre o assunto com o técnico de gravação, e juntos usamos algumas das faixas gravadas para o CD de tributo a Sai Baba, que estavam no mesmo HD que armazenava meus arquivos, e as colocamos no final de uma composição escrita por mim. Alteramos as afinações, velocidades, recortamos pequenos trechos, invertendo ordens e encaixamos tablas, harmônios e cítaras em locais improváveis. O resultado ficou excelente.

“Sai Baba, me perdoa por essa, mas é pela arte e pelas sincronicidades!”, me desculpei em voz alta. Parece que “ouvi” um sorriso.

OM SAI RAM.