A vida ocorre agora. O resto é memória.

sinc_mae_20_8_15_1921-22 Pablo Picasso (Spanish artist, 1881–1973) Mother and Child.

Viver o hoje, o aqui e o agora é a solução para nos afastar das armadilhas da mente. É um exercício diário, constante, e a bem da verdade, complexo. A tentação é grande em vivermos entre comparações, entre o que foi e o que há. Quando, por exemplo, acreditamos que uma gripe anterior é “parte” de uma gripe atual, por assim dizer.

A mente funciona como uma câmara de eco. Idéias do passado, mágoas, lembranças de ontem batem na parede, e retornam ao ponto de origem amplificadas. E incorremos em grande perda de tempo ao valorizar ecos que não são reais. Uma boa forma de tratar um trauma é não dar-lhe importância. Não desprezá-lo, mas não valorizá-lo. As lembranças não devem nos impedir de agir. A vida ocorre agora. O resto é memória.

Você sabe que o passado “existe”, mas ele já ocorreu, não acontece neste segundo. Por isso todo o tempo usado remastigando o que já foi engolido só cria suco gástrico e úlceras mentais. O coração fica pesado e rubro. Paralisado. O que “resta” após as nossas experiências (do passado) é uma espécie de reflexão. O trauma é o excesso, o eco reamplificado. E quem alimenta tudo isso somos nós quando damos importância a ecos. É a mesma coisa que fazemos ao julgar os outros pelos nossos parâmetros. Cada um é uma experiência única. Mas a maioria precisa de líderes sejam religiosos ou políticos para dizer-lhes o que fazer. Você pode ser o seu líder sem ser alguém desumano ou egoísta. Se você consegue conviver com isso, ótimo. Se não consegue aprenda a negociar ou se afaste…

As coisas que eu posso resolver agora eu resolvo. As que não posso, ou não quero, deixo para quando for possível. É como administrar as contas. Não dá para pagar tudo quando nos vemos entre a cruz e a caldeirinha. Saldamos o que é prioridade e administramos as dívidas. Os luxos (ou excessos) passam a não ter importância. E se alguém depende “miseravelmente” dos luxos para viver…

A pergunta é: como podemos negociar as soluções?

As histórias que relato no texto de hoje dizem respeito a “tratar” o passado de forma terapêutica. Pelo menos é o que ocorre comigo, e tem servido como motivação.

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Tenho algumas histórias com minha mãe, muitas não muito agradáveis. Ela pode ter feito 80% de coisas ótimas, mas os 20% marcaram demais. Hoje, entendo vários dos seus “defeitos”, e não a julgo o que passou, mas sei que influenciaram o que ocorreria depois. Toda ação gera uma reação, muitas vezes inimaginável. Muitos pais, em sua autoridade – ou falta dela – se excedem, e alegam que não o fazem por “mal”, mas por “acharem” que fazem o “melhor para os filhos”. Muito disso é questionável. Mal comparando, é como a questão da maioridade penal ou de castigar os filhos. Há os contra e os favor. Quem ganha? Quem perde?

De todas as artes com as quais me envolvi, o desenho é – para mim – a mais terapêutica. Minha primeira paixão foram as histórias em quadrinhos. Colecionava várias revistas de superheróis, por volta de dez anos de idade. Certa vez, fiz alguma “malcriação” para minha mãe e ela rasgou cada uma das revistas – e era uma pilha -, bem na minha frente. Eu implorava, me agarrava em sua perna, chorando, para que ela parasse. Mamãe prosseguiu dizendo que eu deveria “virar homem”. Vi meus heróis virarem pó.

Para não dramatizar muito, mas já dramatizando, lembro que me ajoelhei perante àquele monte de papel e senti uma dor imensa, muito maior do que o meu tamanho, com apenas uma década de vida. Ninguém merece… Sei que apenas tive revistas rasgadas, e hoje, acho bobo ter chorado por causa disso, mas não eram revistas, eram sonhos. Conheci meninos da minha idade estuprados e vivendo em condições miseráveis, mas essa era a minha “realidade” de menino de classe média. Nunca vi criança de dez anos ter consciência social…

Desde àquela época decidi não mais desenhar. Perdi as forças, por assim dizer. Ainda tentei, mas não estudei, e nem me esforcei o suficiente e acabei deixando para lá. De certa forma, senti que não era mais para mim, que a “missão” era outra e que o tempo daria cabo ou resolveria a questão. Até parecia que eu fazia algo errado quando segurava um lápis… Muitos sofrem bullying no colégio. Meu primeiro bullying foi em casa…

Por que (re)conto essa história? Por que falo sobre não lembrarmos de traumas e recupero um? Para quê?

Passados 40 anos, um amigo me trouxe um presente: uma das revistas, uma das mais simbólicas, dos meus dez anos de idade. Ele nunca soube dessa história. O link entre os fatos foi inconsciente. O amigo serviu de ponte entre o passado e o presente para me intuir a respeito de um desejo relutante: retomar os pincéis.

Sabe a sensação de um filho sair pela porta de casa e voltar 40 anos depois? Qual seria a sua reação? Admoestá-lo ou perdoá-lo? Ter de novo a revista em minhas mãos apagou 4 décadas de intervalo entre um evento e outro. O religamento foi tão intenso que pesquisei na internet grande parte das revistas rasgadas. Nos anos 70, ninguém imaginaria ser possível “baixar” livros ou filmes. Era coisa de Jornada nas Estrelas. Aquela era a época do ter ou não ter. Hoje, grande parte do acervo mundial está disponível, como “energia” e não mais como algo físico, como “matéria”. Mesmo que não seja para lê-las, as baixei para recompor a partitura perdida, rasgada há tanto tempo, e principalmente para me perdoar e perdoar mamãe. Não mais me importa o fato de tê-las fisicamente ou não, isso não faz a menor diferença. Não se chora sobre o leite derramado. O que me importa hoje é compreender e me desapegar de todas as energias e lembranças ruins. E isso nada tem a ver com negação.

Tive vários insights poderosos ao recuperar as revistas rasgadas. O maior deles, voltar a desenhar. E é o que tenho feito. Esta arte abaixo foi feita ontem.

Todo dia é um novo dia para recomeçar.

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A SINCRONICIDADE DA PADARIA.

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A SINCRONICIDADE DA PADARIA

 

Uma amiga – que chamarei de X – procurou um quarto para alugar. O acordo foi fechado por um quarto e parte da sala para trabalhar. Tudo correu bem até que, uma manhã, minha amiga acordou sobressaltada nas primeiras horas do dia. A vizinha de baixo – era um prédio pequeno, com apenas dois andares – batia portas e andava sobressaltada. Impressionada, X presenciou a vizinha sair pela porta da frente, furiosa, e dobrar a esquina agitada.

Com vontade de tomar um café, X foi a uma padaria duas esquinas adiante. mas desistiu por causa do clima ruim e do péssimo serviço.

Poucos dias depois, a proprietária do apartamento comentou que uma vizinha seria despejada, e pediu a permissão da minha amiga para recebê-la com hóspede por alguns dias e abrigar as suas coisas.

A vizinha era a dona da padaria em que X havia desistido de tomar o café.  Além de ser despejada de casa, a padeira estava falida.

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Apesar de o filho da dona da padaria ter preferido morar na própria padaria – até segunda ordem -, a mãe não quis se desfazer dos móveis, novinhos em folha.

A situação inusitada consistia de: uma moradora que pagava aluguel, mas que não podia mais usar a sala e uma nova moradora que vivia de favor em um pequeno apartamento de dois quartos. Como a dona do imóvel se recusou a dar um desconto à locatária e sugerir um prazo para a amiga padeira procurar onde morar, a inquilina preferiu sair.

Um ano depois de deixar o apartamento, X conversava com um amigo, que trabalha com locação e venda de imóveis. Este amigo, na verdade, a auxiliou na questão de um aluguel impagável.

Após a conversa, o corretor disse que passaria a tarde fazendo visitas, à procura de uma padaria para um cliente. X citou a padaria de um ano antes.

– Onde é? – o rapaz perguntou.

Ao ouvir o endereço, ele disse que por “coincidência”, era a mesma padaria que ele havia recentemente dado 400 mil reais para que um novo sócio pudesse colocar a casa em ordem.

– Mas vou te falar… – o corretor acrescentou. – Essa dona é muito enrolada, má administradora, difícil de conversar e os 400 mil não saldarão todas as dívidas, inclusive trabalhistas.

Muitas são as conclusões que nos servem, inclusive sobre como administramos as nossas vidas, mas a que mais me chama a atenção é que se nada aprendemos com os desafios, e principalmente se não buscamos o autoconhecimento e o entendimento de como podemos contribuir com o nosso crescimento e com o do planeta, seremos apenas uma alma penada a vagar apontando o dedo aos “responsáveis” pelos nossos “fracassos” sem nos conscientizarmos de nossas responsabilidades.

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A Sincronicidade, o Maestro e a Teoria dos Seis Passos.

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O que as sincronicidades significam em termos práticos?

E como unir a interpretação das sincs com nossos sonhos, intuições e transformar todo o pacote em decisões?

Teria toda sincronicidade uma interpretação prática, “ordinária” ou seriam elas apenas conecções com aspectos mais profundos de nossa psique?

Desde que iniciei este blogue, às vezes penso se devo publicar algo, ou não, devido ao “absurdo” de certas situações vividas. Pode até parecer, mas eu não convivo em uma sociedade de bruxos, cercado de magos. Como todos tenho amigos que duvidam do que conto. E como tenho conhecidos bem mentirosos, reflito sobre como diferenciar a mentira da verdade.

Muitas das questões sincronísticas são íntimas e, em tese, apenas me servem. Seria algo como interpretar sonhos através de livros…

Leia as notícias diárias e veja o mundo que nos cerca: guerras, violência, ilusões, aparências. Um mundo consumista que produz lixo que polui o planeta e retorna a cada um de nós através da comida que consumimos. É um ciclo de contaminação. Este mundo não é só externo, ele está internamente em cada um de nós. Se há violência é porque somos violentos.

As sincronicidades se conectam ao universo mas também intimamente a cada indivíduo. Ao mesmo tempo em que a sincronicidade é uma experiência coletiva, também é uma experiência íntima. E como escrevi em outra postagem, se você for uma pessoa profunda, profundas serão suas sincronicidades. E como citei que em toda mentira há uma verdade, e vice versa, também em toda profundidade há superficialidade. Em um mundo complexo, a mente é uma armadilha, que mal conduzida nos faz derrapar em interpretações. Mas algumas interpretações podem ser o som de sinos declamando o final da guerra.

Fui educado como católico, mas não sou dogmático. Utilizo as rezas como mantras. Utilizo as igrejas como locais para meditação. Reinterpreto cada passagem das rezas e mentalizo sobre elas todos os dias, não me prendo ao que decorei. A reza favorita é a que fala sobre as sincronicidades: “Santo Anjo do Senhor, meu zeloso protetor que a ti me confiou a piedade divina, me rege, me guarda, me governa e me ilumina.”

A orquestra toca em sincronia sob a regência de um maestro, que conduz, mas depende e ordena o talento de cada um dos músicos para dar forma à música das Esferas, que soa pelo micro através do macro e ao Cosmos, ecoando pelos buracos negros até aos neutrinos e vice versa. A resposta concreta às sincronicidades me parece estar nesta sequência: “me rege, me guarda, me governa e me ilumina.“

Passei a gostar, ainda mais, desta reza porque a resposta mais simples parece ser a mais óbvia. Paulo Coelho sempre fala sobre a “lenda pessoal”. Basta a você concluir se a sua lenda é uma construção ou uma afirmação. A questão é delicada como entender se você é um teimoso que deixa as oportunidades passarem ou se você está sendo devidamente “regido, guardado, governado e iluminado”, sabendo que ao mesmo tempo suas escolhas “te regem, te guardam, te governam e te iluminam.”

É preciso buscar discernimento e paciência. Saber ter ouvidos. Ou você opta por crescer intimamente para então encontrar o seu lugar no mundo, ou então sua opção é brilhar no mundo para então reencontrar-se intimamente. Talvez viver a memória do que ainda não foi vivido.

O pintor tem o olhar apurado, o caminhante sincronístico também.

Hoje, recebi “indiretamente” uma mensagem sobre alguém que não conheço, que está conectado comigo àquela “teoria dos seis graus de separação”, e que me pareceu uma resposta a uma de minhas demandas.

Assim são as concretudes das sincronicidades: um maestro a reger estrelas e sendo regido por elas.

 

 

 

Medo, escolhas e convenções sociais.

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O texto de hoje fala sobre o medo, escolhas e convenções sociais, as pequenas mentiras que perpetuamos, principalmente, pelo receio de sermos criticados.

Muitas vezes, falo de minha vida pessoal como um livro aberto. No período adolescente me preocupava com o julgamento alheio, pois eu tinha uma visão, adequada à idade e ao conhecimento que possuía na época. Já ouvi pessoas próximas a mim me confidenciarem que eu não deveria fazer isso. Mas se eu iniciei este blog é para repartir experiências. Aqui, de alguma forma, contribuo.

Grande parte da minha família se foi a partir da segunda metade da década de 2000. Certamente foi um ritual de passagem para quem, como eu, aos 10 anos, nunca imaginaria que as pessoas desencarnassem. Não fui educado para as mudanças. Aprendi sozinho.

Antes de desencarnar, minha mãe dizia que não queria morrer porque tinha receio do que pudesse acontecer comigo, por eu não ter um emprego formal e nem família. Estabilidade. Para ela (como para muitos) se não se tem um salário e filhos você nada tem. Eu argumentava, desde a adolescência, que essas coisas poderiam dar estabilidade, mas que não garantiriam a paz duradoura e nem o conhecimento interior. Ela nunca respeitou meu ponto de vista, apesar de minha própria mãe ter um emprego que não propiciou-lhe um final de carreira digno – ao ficar doente – e nem ter meu pai como companheiro fiel – inclusive na doença . Meu pai era um homem falador, cheio de amantes e que não escondia a infidelidade – sumia de casa por mais de uma semana e nada dizia ao voltar -, apesar de minha mãe aparentar ter uma vida equilibrada.

Nos anos 90, em uma aula de astrologia, de leitura de mapas, a professora leu o meu mapa natal para a turma. Ela permaneceu algum tempo calada, de costas para a classe. Depois se virou para mim, e disse: – Eu não queria ter nascido com o seu mapa, mas Deus sabe o que faz. Ele só dá a cruz a quem consegue carregá-la.

Como se fosse pouco, ela completou: – Somente a verdade poderá salvá-lo do que está por vir. Jamais falte com a verdade, ela é o seu escudo, e está gravada em seu nome e no seu mapa. Erga o escudo e bata alto as asas de águia.

Essa análise ocorreu no mesmo período em que fui sagrado em uma Ordem como Mestre da Chama Violeta. Parece coisa bonita e grandiosa, digna de um grande merecedor, mas também ouvi de uma “entidade” acoplada ao corpo de um dos médiuns: – Você foi sagrado nessa chama porque a sua missão é a mais difícil deste grupo. É uma escada que deve ser subida degrau a degrau.

Não posso negar que saí um pouco convencido e assustado com as duas mensagens. Hoje, 20 anos depois, agradeço por cada “tragédia” que vivi, por cada “traição” da qual fui “vítima”, por cada “erro” que cometi, por cada “acerto” e por cada “descoberta”. Quando olho para trás, agradeço por quem sou, e pelo o que ocorreu. Curiosamente, nada do que vivi parece real, tudo parece ter sido um sonho, não sinto como se tivesse sofrido na carne. Hoje toda a experiência anterior está introjetada e mimetizada em mim, e continuo aprendendo. A vida é eterna. Vivo e acredito no poder da percepção, na vontade e desejo do guerreiro de usar o coração e a espada quando necessários. Somos frutos de todas as experiências passadas, presentes e futuras, mas não adianta teorizar, temos que vivê-las e fazer escolhas para que possamos aprender. Sem risco não há possibilidade de nos tornarmos anjos. Anjos não são apenas criaturas de luz, são conhecedores da chama e da responsabilidade do que carregam.

Não sou especial e nem vim de Marte, mas desde muito novo, tenho tido experiências tão humanas como fora do normal. Tanto lido com o físico como com o inconsciente,e  como disse, ousando, errando, acertando, caindo, me erguendo. Não há melhor mestre.

O equilíbrio entre o que “deve ser feito” ou o “que podemos fazer” é tão sutil, como caminhar em papel de arroz. Não estamos sós em qualquer dos mundos e toda ação sempre gera uma reação. Como diz o Budismo, a vida é impermanência.

Em paz, agradeço.

Somos aquilo que possuímos. O homem que possui dinheiro é o dinheiro. O homem que se identifica com a propriedade é a propriedade, ou a casa ou o mobiliário. Analogamente com ideias ou com pessoas, e quando há possessividade, não há relação. Mas a maioria de nós possui porque nada mais temos se não possuirmos. Somos conchas vazias se não possuirmos, se não preenchermos a nossa vida com mobiliário, com música, com conhecimento, com isto ou com aquilo. E essa concha faz muito barulho, e a esse barulho chamamos de viver, e com isso ficamos satisfeitos. E quando há uma interrupção, um separar-se disso, então há sofrimento porque nessa altura subitamente você se descobre a si mesmo tal como realmente é – uma concha vazia, sem muito significado.

Krishnamurti, The Collected Works vol V, p 297

J.Krisnamurti, The Book of Life

Abacaxi

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Uma leitora nos enviou o seguinte relato:

De visita ao Rio de Janeiro, caminhei em direção ao Hotel Debret em Copacabana onde meus pais passaram a lua-de-mel há mais de 50 anos. O edifício me faz rever o passado com carinho e aviva lembranças das várias vezes em que minha família, com três filhos pequenos, retornou à cidade.

Ficávamos sempre neste hotel em Copacabana. Um pouco depois, e com mais dinheiro, meu pai trocou o hotel antigo por outro mais caro em São Conrado. Na época não liguei os pontos, mas hoje é clara a razão. O hotel de Copa era agradável e recheado de lembranças afetivas, mas o meu tio, irmão da minha mãe, criticava o apego “tolo” em ficar em um hotel com menos estrelas na parede do que o bolso já permitia.

Abandonamos o Hotel Debret, mas ele não nos abandonou, tanto é que hoje, em 2015, cumpri o ritual de passar em frente ao prédio para matar as saudades. Ao olhar a fachada, tento resgatar um pouco do clima de uma época em que não havia nenhuma preocupação. Me vem à mente o reveillón em que assistimos à corrida de São Silvestre ao vivo, no bar do hotel, e no dia seguinte ao entrar no mar achamos diversas notas de dinheiro ofertadas à Iemanjá.

Ao lado do Debret há uma feira, que me recordou das antigas conversas de papai sobre a qualidade dos abacaxis. Até hoje, abacaxi é a minha fruta preferida. Mal deixei o Debret, passei nessa feira próxima para comprar um. O vendedor alertou-me de que não estavam bons. Mesmo assim, pedi que escolhesse o mais doce, e a sua mulher perguntou se poderia arrancar a coroa. Eu disse que sim. Ela removeu o topo da fruta e exclamou, sorrindo: “Está amarelo!”.

Ao ligar a TV, no mesmo dia, vi em um programa de humor, um ator arrancar a coroa de um abacaxi e exclamar: “Está amarelo!”.

O GUERREIRO E A BALANÇA

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Sincronicidades são como sinais de uma vida interior pulsante.

Há alguns anos, talvez uns cinco, uma ideia para um projeto começava a me cutucar. Fui deixando que cutucasse mais – e que tomasse forma – e de tempos em tempos tentava imaginar como poderia fazê-la acontecer. Em primeiro lugar, e sem temor de ser criticado (o que de fato ocorreu) falei com algumas pessoas sobre a ideia. Ninguém deu muita importância. Acharam legalzinho, etc e tal, mas não viram viabilidade e para variar, me olharam como um sonhador. Ou um estranho. Mas nada disso me fez ficar chateado ou me desviar do “sonho”. Afinal de contas em primeiro lugar todo sonho é seu e depois vira realidade coletiva.

Fiz o que pude dentro de minhas possibilidades, sem parar de acreditar. Os lapsos de tempo ocorriam em função das demandas profissionais e pessoais. Às vezes deixava a ideia descansar, mas não parava de pensar nela e nem deixava que a afeição acabasse. Entre descansos e retomadas, fui adaptando a ideia às situações que surgiam. Desde o início do projeto, minha vida – e eu – parece ter mudado completamente. Objetivos mudaram, percepções de mundo se alteraram, separei mais alhos e bugalhos e o projeto continuava lá, em seu cantinho, hibernando. Hoje, consegui concretizar uma parte desta ideia, graças a sincronicidades que ocorreram muito intensamente há um ano. E é claro, que as sincronicidades de hoje estão fortemente ligadas, conectadas a eventos misteriosos ocorridos no início dos anos 2000. Ou seja: nada ocorre à toa, nada surge do nada. O nosso hoje é fruto de nossas percepções e escolhas. É como o Labirinto do Minotauro.

O meu lema é nunca desistir. Adaptar sim, mas nunca abrir mão do que teu coração, que a luz no âmago de sua alma, te aconselha a fazer. Saber ouvir a voz interna e fazer por onde. Não se deve ser orgulhoso de forma negativa, teimoso, é necessário saber ouvir, assim como é importante correr riscos, mas também é importante saber discernir. E no fundo do seu coração, longe de maledicências e achismos, há sempre uma voz de mãe para te guiar. Essa voz tranquiliza e também pode te preparar para tempos difíceis, mas parte da jornada que o guerreiro precisa enfrentar, para crescer, talvez mais internamente do que externamente, é nada temer. Ser sábio para seguir em frente com cuidado, mas nunca deixar o temor obscurecer a sua visão. Excalibur é sua. Mas não é para matar, para ferir quem quer que seja. É para servir de balança, a balança da vida. A jornada é como uma balança que pende de um lado a outro, até alcançarmos o desejado equilíbrio entre espírito e matéria. E este guerreiro, que ergue a balança, é você. Seja como a pomba e a cobra, aprenda a dobrar o seu corpo como junco ao vento, mas não deixe que o quebrem.

Irmão, Seja bem-vindo à fraternidade.

O DEZ DE COPAS

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As experiências sincronísticas são como pérolas que guardamos em uma delicada caixa de lembranças. Quando nos deparamos com mais uma pérola, e mais uma, e mais uma, que parecem dar prosseguimento às anteriores, e as juntamos em uma sequência, elas constroem um belo cordão. Mas não apenas isso. A sequência de pérolas, que se parecem pertencer, são  como elos que se reencontram, que produzem ainda mais beleza quando enfileiradas. O cordão, construído a partir delas, não serve apenas para enfeitar um belo pescoço, mas também pode demonstrar que unidas, as pérolas se mostram ainda mais belas e poderosas, assim como ocorre com as sincronicidades.

Imaginemos que essas pérolas são como os pedaços de pão, como os do conto de João e Maria, deixados pelo caminho, para que encontremos a saída. Sincronicidades nos guiam.

As sincronicidades são como portais abertos entre dimensões, são como conselhos de anjos, que nos guiam contra a incerteza, a tristeza, a insegurança, a depressão, e principalmente contra a dúvida.

A sincronicidades nos aconselham a ouvir MAIS e falar MENOS, julgar e pedir MENOS e a agradecer MAIS.

Humanos somos todos, e por causa de nossa humanidade, acertamos e erramos, vivendo em nossos mundos conforme as nossas crenças e convicções. E lutamos por essas verdades, como se dependêssemos delas para viver, como se não pudéssemos estar errados. Criamos nosso mundo conforme nossa imagem e semelhança, como mini Deuses e pouco interagimos, de fato, com os próximos.  As sincronicidades são portas que nos libertam dessas limitações.

Há um ano iniciei um novo ciclo na vida, em uma esquina, e em um quarto de hospital: a união do “acaso” com a intuição e a ação. E quando os ciclos, que se iniciam, são “bons” queremos que durem para sempre e quando são conflituosos, desejamos que acabem o mais rápido possível. Mas bebê que não cai, não aprende a se levantar. E viver só no bem-bom não serve para – quase – nada. Só para dizer que se é “feliz”, mas sem saber, de fato, o que é ser feliz.

E como saber que uma análise pessoal não é fruto de imaginação? Através das sincronicidades.

Refletindo sobre o último ano, vi mais resoluções do que problemas, mais crescimento do que estagnação, mais foco do que diluição. Cada atividade ocorrida em seu tempo, mas todas motivadas por ações. Isso não quer dizer que os problemas cessaram, mas hoje, eles são entendidos de outra forma. É como andar na mesma calçada, mas pisar diferentemente. É como aprender a ver a beleza e o poder de uma boa chuva, sem maldizê-la.

Anteontem, comecei a ler um livro sobre tarot em função de jogos recentes de cartas, que indicaram um novo período de vida. Para não ficar muito animado com esse “refresco”, deixei rolar no esquema “vamos ver para crer”.

Hoje, após um período de um mês, liguei para uma repartição pública. Como vocês devem imaginar, as ligações não completavam, caíam, eu esperava na linha sem resposta, etc. Depois de mais de uma hora, desisti porque tinha outro compromisso. Mal desisti, o telefone tocou em seguida e era da repartição. Eu, hein…

Há 3 meses, estive durante uma temporada com um grupo espiritual de outra cidade, para meditar e refletir. Durante esse período, um jornalista foi entrevistar e filmar os trabalhos da comunidade. Hoje, 3 meses depois, e separado por milhares de quilômetros, estive em um parque, uma floresta na verdade.  Logo à minha frente, surge o mesmo jornalista, saído do mato.  Tive que achar graça. É como a história das pérolas. Há um fio invisível que nos liga, que nos conecta e que que dá forma às pérolas.

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Após o encontro inusitado com o jornalista, ao invés de voltar direto para casa, e seguir um caminho “lógico”, decidi seguir por ruas nas quais nunca estive. Ao invés de seguir “reto”, dei voltas, fui por caminhos inusitados e em cada um deles só via beleza. Fui preenchendo meu coração com amor. Quarteirões depois, segui por outra rua, e sobre um frade de concreto (ou gelo-baiano) havia uma carta: um 10 de Copas.

A carta misteriosa, como o jornalista saído do meio do mato, parecia ter sido posta lá para que eu a encontrasse e entendesse a sua poderosa mensagem, para que eu entendesse o recado da poderosa sincronicidade.

O cordão de pérolas estava se formando, não eram mais pérolas separadas. Havia uma unidade, uma lógica, uma mensagem.

Algumas interpretações do 10 de Copas:

“Reencontro do seu caminho, a renovação do seu nível de status ou até mesmo a paz e harmonia com o cosmos e o mundo que o rodeia. Sejam quais forem os seus desejos, esta é uma altura de dar graças por tudo o que tem, e tudo o que virá a ter muito em breve.

“Em alguns aspectos, lembra a carta do Mundo, porque também fala de plenitude, de um estado de bem-estar e completude muito grande. Muitas vezes, olhando para o 10 de Copas sinto que tudo está certo, tudo está indo bem e não há nada para se preocupar. Sintam como a energia flui tranquilamente e tudo parece dar certo de uma forma meio mágica.”

 “Representa o homem que, tendo completado seu trabalho, volta-se pra a oração e pede a ajuda divina para seguir com sucesso o novo caminho de sua evolução.”

“O ato criativo exige uma renovação. Impõe algo que não existia, portanto não pode ser valorizado. Imponha-se. Muitas vezes, você vai surpreender até a si próprio. Este arcano mostra a importância de dar atenção em primeiro lugar, para o seu próprio interesse, independente da aprovação ou não dos outros. O ato criativo. As pessoas estavam ajudando você a se esconder, e existe uma falta de incentivos que vem desde a sua infância. Mas, o fato é que agora você descobriu a si mesmo.”

O DESENHO DA VIDA

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Acreditamos que a realidade é apenas a realidade, o reino do palpável. Porém, creio que o “real” seja mais fruto de nossas percepções e escolhas, do que de uma única realidade comum. Acredito que a visão tradicional da realidade é apenas uma parcela das inúmeras possibilidades, que não acessamos “normalmente”. Mesmo assim, várias possibilidades parecem interagir simultaneamente, quando, vivenciamos as sincronicidades.

Realidades paralelas?

A teoria das super cordas permite “calcular” o possível número de dimensões espaço-temporais.

“A grosso modo, é como medir a distância entre dois pontos. Se girássemos o nosso observador para um novo ângulo e a medíssemos novamente, a distância observada somente permaneceria a mesma se o universo tivesse um número particular de dimensões. Quando este cálculo é feito, o número de dimensões do universo não é quatro como esperado (três eixos espaciais e um no tempo), mas vinte e seis. Mais precisamente, a teoria bosônica das cordas tem 26 dimensões, enquanto a teoria das supercordas e a Teoria-M envolvem em torno de 10 ou 11 dimensões.” (Wikipedia.)

Uma, duas, mil realidades, mil possibilidades.

Este preâmbulo antecipa uma história pessoal de possibilidades e consequências, 40 anos depois.

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Meu primeiro sonho foi ser desenhista de quadrinhos, antes mesmo de fazer 10 anos. Meu avô era crítico de arte e colecionava pinturas. Minha mãe tinha medo do vovô, e talvez por causa disso, esse medo influenciasse o seu julgamento sobre arte em geral, para ela, algo incompreensível e inútil. Digo isso, porque ao confessar à mamãe que eu desejava ser artista, talvez com uns 10 anos, o mundo quase caiu. Ela me ameaçou para que eu desistisse, inclusive de me expulsar de casa. Convenhamos que ameaçar um adulto é uma coisa, mas ameaçar uma criança é outra bem diferente. Ela detestava que eu fosse diferente da maioria. Ela me disse isso com todas as palavras, que hoje interpreto como medo, o pavor de não ter controle sobre a situação. Eu possuía uma coleção de quadrinhos da editora Ebal, com algumas dezenas de revistas. Um dia, mamãe as pegou e na minha frente, as rasgou ao meio, uma a uma, me ordenando que eu me tornasse um “homem, com um emprego e uma família”. Eu me agarrei às pernas dela e implorava para que parasse, entre lágrimas, que não paravam de cair. Ela rasgou até a última das revistas, até sobrar, apenas, uma pilha de quadrinhos dilacerados, como se esperassem um fósforo para virarem fogueira. Foi a minha primeira dor excruciante. Isso seria o suficiente para chamá-la de monstro? Para mim, ainda não, até porque não lembro se algo a mais causou a sua ira. Talvez, alguma questão entre ela e papai, que ela preferiu descontar em mim…

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Não acredito que existam pessoas totalmente boas ou más. A monstruosidade espelha o seu grau de convicção em suas verdades e no tamanho de seu medo. Essas energias podem te levar a mentir, enganar, chantagear, caluniar, ser covarde, mas ainda assim não te transformam em um monstro, que só deveria ser considerado um, se as suas ações afetarem um grande número de pessoas.

 …

Estou passando, há alguns anos, por uma mudança pessoal/profissional, que tem tudo a ver com a história relatada acima.

Hoje acredito que por causa das revistas rasgadas, desisti da carreira de desenhista, para me tornar algo ainda mais incômodo: músico. Uma ação que gerou uma reação, até então inesperada, até mesmo para mim.

Tive uma carreira musical constante por mais de 30 anos, mas a música não tem despertado maiores interesses em mim, por não ser mais divertido como era. E hoje, preciso de um bom motivo para tocar ou compor, prioritariamente profissionais, enquanto que é bem mais fácil e prazeroso, escrever.

Já confidenciei neste blog, que uma de minhas paixões é História do Brasil. E as sincronicidades me fazem vivê-la, acredito, para que seja possível eu me entender e paralelamente, compreender o país e as pessoas.

 Relatando os casos dos dois últimos dias.

 Primeiro, os “históricos”.

 J. Carlos

J. Carlos

Retirei um velho livro de José do Patrocínio da prateleira para reler.  No mesmo dia, na TV exibiram um bom documentário sobre o jornalista/escritor. Dois dias antes, eu estava no centro da cidade e resolvi visitar o Museu de Belas Artes. Para minha surpresa, uma das exposições, era sobre um dos meus desenhistas favoritos, J. Carlos. Fiquei igual pinto no lixo, ainda mais que eu não sabia de nada. No mesmo local, há salas dedicadas ao trabalho de outro caricaturista, o Cavalcante.

Tim Maia desenhado por Cavalcante

Tim Maia desenhado por Cavalcante

Querendo saber mais sobre ele, fiz uma pesquisa na internet e sem querer, ao invés de Cavalcante saiu Di Cavalcanti. O texto era esse:

“Di Cavalcanti nasceu como Emiliano Augusto Cavalcanti de

Albuquerque e Melo, no Rio de Janeiro e na casa do famoso

abolicionista e republicano José de Patrocínio situada na rua do

Riachuelo, que na época era casado com a sua tia Maria

Henriqueta…”

 

Fala sério, né?…

Hoje de manhã, antes de escrever este texto, cismei de escutar uma das horrorozidades gravadas pelo casal John Lennon e Yoko Ono na fase final dos Beatles.  E sabem quem está hoje, na primeira página da Folha de São Paulo? Yoko, a Ono.

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Ontem, caminhando pelo Passeio Público, na cidade do Rio de Janeiro, vi que alguns prédios do século passado estão sendo reformados. Fiquei feliz, porque sou um preservacionista. Mas um deles, ainda em péssimo estado me chamou a atenção. É uma construção antiga, ao lado da Escola de Música, antes mesmo de chegar a Lapa.  Decidi entrar pelo menos no vestíbulo, pertinho da porta. O interior todo destruído, sem sinal de reforma e com apenas um vigilante, que estranhou a minha chegada. A placa dizia: “Proibido entrar sem equipamento de proteção”. Mas querem saber… Entrei um pouquinho, mesmo que fosse pouco, mas meu coração bateu acelerado. Senti a história pulsando dentro da enorme casa. Senti uma estranha sensação de que deveria colocar a minha segurança em risco, e subir as escadas até o final da construção. Mas não o fiz. Impressionado pelo que havia sentido, pesquisei sobre o prédio.

 O nome é Automóvel Clube, que no século XIX se chamava Cassino Fluminense, e era frequentado, também, pela Família Real.  Há pouco, o governo fez uma grande homenagem a Jango Goulart, ou Jango, o Presidente deposto pelos militares em 1964. A história fala muito sobre o famoso discurso de Jango na Central do Brasil, para milhares de trabalhadores, em 13 de março de 1964, o número invertido da data “oficial” do golpe: dia 31, mas foi exatamente neste Automóvel Clube que Jango fez o seu último e mais radical discurso, em 30 de março.

 Aquele local onde senti algo muito forte, foi palco de duas grandes mudanças. Ambos, a Família Real e Jango, foram depostos por militares e em ambos os casos, a história deste país foi profundamente afetada.

 O caso dos desenhistas.

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Um conhecido de outro Estado pediu para ficar uma noite aqui em casa. Com ele, veio um amigo dele, que me falou ser neto do desenhista Eugênio Colonnese, um de meus ídolos de infância. E o rapaz falou que era fã do meu trabalho.  As conecções me soaram interessantes, como se o fato de eu gostar do trabalho do avô dele, o trouxesse, inconscientemente, a mim. Seria uma conecção sendo refeita e resgatando o meu antigo desejo de ser desenhista? Ainda não possuía subsídios para julgar e aguardei por mais “provas”.

 Jayme Cortez

Jayme Cortez

Ontem fui pesquisar sobre o Colonnese e encontrei na internet mais dois idolos do passado, o Jayme Cortez e o Ivan Wasth Rodrigues.

 Há meses, tenho jogado várias coisas fora. No bonde da limpeza, separei vários álbuns de figurinhas e dois Atlas antigos do colégio. Gosto muito de um deles, mas nem sabia direito o porquê. Simplesmente, separei os dois Atlas para jogar fora, mas me senti mal,e  só joguei fora o primeiro, preferi guardar o segundo. Isso ocorreu há menos de duas semanas. Ontem, descobri em uma entrevista na internet, que o Atlas que salvei havia sido desenhado pelo Ivan Wasth… Um dos desenhistas descritos na trindade acima.

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Ivan Wasth Rodrigues

E ontem, ao me lembrar de minhas antigas revistas rasgadas, pesquisei a história da editora Ebal, para mais vez comprovar a existência de um ciclo, que me pareceu muito plausível e me convenceu que uma nova vida se inicia, que um novo período de possibilidades ocorre, agora, em nossas vidas, mesmo que acreditemos que estamos cansados demais para o novo, ou que já fizemos tudo ao nosso alcance.

A nossa vida começa AGORA. Mesmo que ela tenha sido adiada. Não importa o por quê.

POR ENTRE RUAS MÁGICAS E ANÕES

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O leitor já se perguntou como conseguia ter tempo para fazer tantas coisas em 24 horas, se hoje parece difícil fazer a metade? Essa questão é uma constante. Há explicações racionais e outras nem tanto, essas últimas, as minhas favoritas.

Fato é que temos que ter tempo para nós, sem egoísmos. Nada de se lamentar sobre o que se faz ou se deixa de fazer. Há que equilibrar o tempo com os outros e o tempo conosco.

É necessário sim, resolver as nossas questões, pois elas são nossas e de mais ninguém. Mas, se possível é sempre bom contar com uma ajudinha extra do “destino”. Se você quer ter um milhão de amigos, tudo bem, mas para mim, quanto menos gente ao meu redor, fica mais fácil saber o que eu posso fazer de bom para cada um e o que cada um pode fazer por mim, em uma troca benéfica para todos. Mesmo que essas pessoas não percebam o que estão fazendo. E há trocas inusitadas com gente que te persegue e com os desafetos. Enquanto não nos adulam ou nos põem pra baixo, eles servem para nos tornar mais conscientes. Porém, quando a troca simplesmente deixa de rolar, o vínculo se desfaz. Simples assim.

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Estamos aqui no facebook. A rede social já me ajudou profissionalmente, como já me fez perder tempo. Ouvi de profissionais da indústria como é importante trabalhar diariamente com esta rede, para “estreitar relações”.  Sempre ouvi isso com desconfiança, e com o termo “superficializar as relações”, na cabeça. Há uma grande diferença entre o mundo das curtidas e o mundo dos que literalmente arregaçam as mangas. Mas fazer o quê, se muitos vivem de aparências, que justificam suas visões de mundo? Não se deve convencer ninguém de nada. Proselitismo ou fanatismo. Que cada um crie o seu mundo conforme o devido entendimento. Se der para os mundos distintos interagirem, ótimo. Caso contrário, bye bye. Melhor assim. Antes do fim, todos aprenderão muito mais.

Fica claro, que algumas pessoas que convivem conosco, são necessárias para o crescimento em conjunto, mesmo que elas não estejam conscientes disso.

Antes, quando eu me ocupava com mais tarefas não tão importantes, as sincronicidades não eram tão aparentes. Hoje, quando o meu tempo é melhor administrado, as sincs se manifestam mais vivamente.

As sincronicidades são o nosso respiro, o nosso refresco e a sombra fresca.

Repare como em uma conversa inocente, ouvimos respostas prontinhas para as nossas questões.

São vários os exemplos: eu precisava de um profissional para me auxiliar. Um amigo próximo tocou no assunto sem saber de minhas necessidades e hoje trabalho com este ótimo profissional.

Um outro conhecido me prometeu mundos e fundos para resolver uma questão. Um ano depois, descobri, de uma forma não muito agradável, que ele não havia feito nada. Meu instinto já dizia para não confiar mais, para não dar mais crédito, mas a voz interior me pediu para dar uma última chance, que fosse a definitiva, para que o “amigo” se enrolasse por conta própria. A mentira pode não ter pernas curtas, até pode ter vida longa, mas chegará o dia em que as peças se encaixarão e você saberá, sem fazer força, que o relacionamento com determinada pessoa chegou ao fim pelos motivos certos. Sem choro, nem vela ou drama.

Em outras oportunidades, citei neste blog, que as sincronicidades também servem para nos fazer sorrir (obs: e há coisa melhor em momentos difíceis?).

Me apaixonei por desenhos e histórias em quadrinhos desde cedo. No alto dos meus 8 anos imaginei que seria desenhista. Naquela época fui brindado com um presente de amigos de meus pais: um álbum de Asterix e Cleópatra, com capa dura. A impressão que o álbum me deixou até hoje é forte: da história, aos desenhos, e ao cheiro do papel, tudo ficou impregnado na alma. Ao me lembrar do álbum na semana passada, liguei a TV e estava sendo exibido o filme “Asterix e Cleópatra”, que nunca havia visto.

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Outro dia, vi na TV uma matéria sobre uma dona que só veste violeta. Mesmo. Após o programa, desci, logo em seguida, e uma senhora na rua, toda trajada de violeta, me encarou durante um bom tempo. Outro dia, em outro canal, assisti a uma matéria sobre anões e vi uma mãe anã. Desci pra rua e uma anã me encarou. Deveria ser mãe. Parecia cena de sonho… Separei umas revistas antigas que não via há anos. Na capa de uma delas, a foto do cantor Nelson Ned, também anão. No dia seguinte, o cantor faleceu.

Para bom entendedor, meia palavra basta: quando eu era criança, com menos de dez aninhos, havia uma casa sinistra por perto que sempre vivia apagada. Em seu jardim, um anão mais sinistro ainda me olhava sarcástico e me olhou tão bem uma vez que tive medo eterno. A impressão foi tão forte que desviava do lado da calçada do anão, para não ver a sua risada maléfica. Os anos se passaram, as décadas também e a casa foi vendida. Virou um curso de inglês. E o anão… sumiu. Sumiu do mundo tridimensional, porque em minhas memórias ele permanece rindo para mim ou de mim.

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Tendo posto este assunto em pauta, conto a história do final de semana.

Gosto de arqueologia urbana, ou seja: de entrar em ruas nas quais nunca estive para pesquisar. Em uma delas, no alto de um morro, encontrei uma casa aberta e sem perguntar nada entrei, porque meu coração disse para seguir adiante e nada senti de perigoso. Não havia dono, vigia ou segurança. Me surpreendi. Era uma espécie de museu. Em seu interior, uma biblioteca com vários livros antigos em estantes que iam até o teto. O cheiro de velhos móveis e memórias, de tempos passados, que a humanidade agitada faz o favor de não querer tomar conhecimento. Lá embaixo, na rua, um bloco de carnaval, ensaiava a toda, mas seus batuques cessaram, assim que entrei na casa misteriosa. O som externo não conseguia atravessar o portal. E não atravessou. Parecia que eu havia entrado em um outro mundo paralelo. E quando digo isso, é essa a sensação que se tem, a de viver uma realidade paralela em nosso mundo “real”.  E é o tipo de coisa que não se pode vivenciar em grupo. Há experiências grupais e outras individuais. Só uma pessoa pode retirar Excalibur da pedra. É assim que é.

Ao olhar com mais atenção aos detalhes, percebi que estava em alguma fraternidade. Nas paredes, fotos emolduradas de antigas personalidades trajadas com vestes ritualísticas. Em uma das fotos, o Presidente Juscelino Kubitschek, uma referência poderosíssima para mim, vide as postagens anteriores. Depois de curtir um pouco a descoberta, deixei o recinto e desci o morro por uma outra rua na qual nunca estive. A rua encantada, com calçamento de grandes pedras como em Paraty, me fizeram viajar no tempo, para o tempo de uma cidade antiga, com mais de 200 anos.

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Mal virei a curva, me deparei com uma casa, em cuja entrada estavam todos os sete anões e a Branca de Neve, toda serelepe. Meu coração bateu acelerado, sem medo ou trauma. Eu estava no lugar certo e havia me reconectado com minha infância, em outra circunstância, e com novo entendimento. Agradeci a Deus, as intuições e as decisões corretas – intuídas -, frutos da conexão do Ser Interno com o Universo, que está muito além no tempo e do espaço, e ao mesmo tempo, conosco em cada segundo.

Assim é a sincronicidade.

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(RE) ENCONTROS

Alguém que você conheceu recentemente te contou que morava no mesmo prédio que você? Ou que estudou no seu colégio na sala ao lado e que você nunca a viu? Você já falou “não ponho mais os pés nesse lugar” e foi nesse lugar, que anos depois a sua vida mudou?

O processo inconsciente e sincrônico é fascinante, quando vivido, também, de forma “enviesada”, indireta. São acontecimentos não reconhecidos como importantes no exato momento em que ocorrem, mas que assumem a sua importância anos ou décadas depois.

encontros_praia

Recentemente, assisti a um documentário sobre Reidy, um arquiteto modernista. Desde menino, eu passava em frente a uma de suas obras, e nem sabia que ele a havia criado. Sempre fui fascinado pela beleza/feiura do “minhocão” ao lado do Planetário no bairro da Gávea no Rio de Janeiro. Reidy também é autor do famoso conjunto do Pedregulho em São Cristovão. Após ter visto o documentário, pesquisei sobre habitações populares nos anos 50 (o que de certa forma incluiria o conjunto dos prédios onde eu resido). Encontrei um trabalho acadêmico com as plantas de vários prédios construídos por associações ligadas a determinadas classes de trabalhadores. E durante a pesquisa, tive uma surpresa: um dos conjuntos se chamava 28 de agosto, data em que nasci, e na mesma página, surgiu um outro conjunto chamado Jorge Rudge, nome da rua de um grande amigo. Quando pesquisei sobre o conjunto 28 de agosto, mais e mais surpresas, como que me dizendo que datas, pessoas, escolhas e acontecimentos parecem ser pré-determinados.

Que relação poderia haver entre arquitetos, empreiteiros e alguém que apenas nasceu na data do nome do conjunto residencial? Eu não sei, mas nem por isso, pararei de buscar um por quê, nem que seja para me explicar os vários “erros” e “acertos” da vida. Nem que seja para me confortar. Durante a busca sobre este conjunto residencial, descobri um link surpreendente, que só pode ser explicado como uma questão kármica, isso se o leitor acreditar em karma.

Fui operado há alguns meses e dormi em um quarto com um leito a mais. Um paciente passou a noite comigo, e de manhã, a caminho do banheiro, dei bom dia ao desconhecido. O meu amigo da Jorge Rudge, citado acima, foi me visitar. Qual não foi a surpresa dele ao ver que ele conhecia a namorada do outro paciente?

encontros

Alguém na rua já te chamou a atenção, e horas depois, você cruzou com a mesma pessoa, em outra rua, em outro bairro? Estranho, não é? Mas e quando isso acontece, cinco vezes, em bairros diferentes com a mesma pessoa e aparentemente isso não tem significado algum? Será que terá? Será que as decisões de uma pessoa que te chama a atenção, que está em contato indireto contigo, pode influir em sua vida?  A teoria dos seis graus de separação, seria uma resposta? Mas nem isso explicaria as várias nuances desses encontros.

Será que elocubro, imagino coisas, deliro?… Depois que vivenciamos essa experiência, não randomicamente,  certamente a pulga atrás da orelha fica tão pesada que não há mais como não pensar que há uma inteligência, uma conecção inconsciente que guia os passos de todos nós, para objetivos não muito claros.

No Espiritismo, se diz que tecemos acordos no além-vida antes de reencarnarmos. Seriam esses acordos tão extensos que nos envolveriam, como diria Jung, em uma teia quase tão extensa quanto a vida?

Essa “cola” que nos liga poderia se chamar Deus?