Nossa vida é um filme

Meu irmão me deu convites para um festival de cinema brasileiro. “Por acaso” o cinema é ao lado de casa, o que facilitou a vida. Como ele mora longe, doou os ingressos ao irmão fissurado em sétima arte. Os filmes foram escolhidos aleatoriamente. Ele apenas “saiu pegando” os convites que via pela frente antes que acabassem. Eu também não procurei muitas informações sobre as películas, apenas administrei meu tempo para assisti-las. Em um dos filmes, o escritor Ariano Suassuna disse qual foi o primeiro filme que ele havia visto na vida: o mesmo desconhecido filme dos anos 1930, que eu havia descoberto na internet há uns 6 anos para utilizar na edição de um vídeo. Ariano havia assistido a um filme “por acaso” para 70 anos depois, eu descobrir o mesmo filme “por acaso”. No momento, estou bem dedicado a escrever sobre o Brasil. Literatura e Brasil parecem uma forte e amorosa conexão com Suassuna.

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Em outro dia do festival, um documentário citou um jornalista, famoso por textos virulentos e matérias polêmicas no século XX: David Nasser.  Lembrei que o mesmo havia tentado polemizar com o médium Chico Xavier. Não sei se todos conhecem a história, relatada no filme de 2010 sobre o espírita, mas Nasser se passou por um jornalista estrangeiro, para entrevistá-lo. Ao fim da entrevista, Chico brinda os dois “gringos” (incluindo o cineasta/documentarista Jean Manzon) com livros autografados. O objetivo da entrevista era desancar o médium, acusando-o de charlatanismo por não ter desconfiado que os jornalistas o haviam enganado. Um tempo depois, Nasser recebe uma ligação telefônica de Manson que pede para que ele leia a dedicatória na primeira página do livro presenteado por Chico. Ao abrir o livro lá estava: “Ao meu irmão David Nasser, do espírito Emmanuel.” O mesmo havia ocorrido com Manson.

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Pronto para mais uma noitada de filmes, dessa vez com a atriz reclusa, Ana Paula Arósio, pensei em rever no dia seguinte, o trecho do David Nasser no filme sobre Chico Xavier. E lembrei-me que a única vez que vi Arósio em carne e osso, foi no Paço Imperial, no centro do Rio, em 2010, quando ela estava gravando uma série para a Globo, com o ator José Wilker.

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Quando os dois passaram por mim, não nego que senti algo, digamos “estranho”. Já escrevi em um texto anterior que o Wilker cruzou a rua junto comigo em 2014 e quando nos olhamos, vi o medo em seus olhos. Logo depois, ele morreu.

Essas lembranças antecedem o ato “final” do festival, “dramático” como uma peça de Shakespeare.

Fui sem quaisquer expectativas para assistir ao filme com Arósio. Na entrada, passei ao lado do ator Nelson Xavier e me perguntei o que ele estava fazendo ali. Nem lembrei que ele havia interpretado Chico Xavier no filme de 2010. Assim que a película teve início, vejo Chico Xavier na tela, ôps, Nelson Xavier e me dou conta do por que o ator estar presente no local. Então, em uma cena, Arósio põe um vinil para tocar. Xavier diz como a música é linda e a capa do LP é mostrada na tela: reconheço o único LP de música erudita que tenho e que “por acaso” não comprei: me foi emprestado há mais de 20 anos e nunca devolvido. Xavier diz no filme: “Que música maravilhosa a de Villa-Lobos e ainda regida por ele!”

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Um dos outros atores do filme é Fernando Alves Pinto, citado em outro texto deste blog (o encontrei na rua após ver o filme Nosso Lar de 2010 e isso me chamou a atenção). Ao estudar a sua vida, tomei conhecimento de sua história de superação. Em 96, ele sofreu um acidente, ficou em coma e perdeu a memória. As aulas de clarinete o ajudaram nesse processo de cura que durou dois longos anos. No momento, também estou passando por um outro processo de superação de uma questão que se desenrola (e me enrola) há pelo menos, 3 anos.

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Houve várias outras “coincidências” no filme, mas não há como citá-las sem transformar este texto em um livro e essa não é a ideia.

Os eventos ocorridos nesta semana parecem ser “a resposta” a vários desdobramentos anteriores, de anos e décadas atrás. Prefiro não afirmar categoricamente que tenho “certeza” que a conclusão seria essa ou aquela, ou que exista destino, até porque não imagino o que está sendo negociado no plano do subconsciente. É saudável não ter absolutas certezas e é muito mais saudável estar liberto.

UMA MORTE PODE SER ANUNCIADA? Eduardo Coutinho e Philip Seymour Hoffman

Dia 2 de fevereiro de 2014.

 “As pessoas não morrem, elas se encantam.”

 Agora às 16h vejo na internet que o documentarista Eduardo Coutinho acaba de ser assassinado pelo filho esquizofrênico. Senti um estranhamento muito grande pois nesta semana assisti ao programa Observatório de Imprensa na Tv Brasil, com a reprise da entrevista com Coutinho. Poderia nem ter ligado a TV, mas a revi. Fora que houve um período de minha vida onde “morei” em 2007 no Edifício Master, tema de um dos documentários de Coutinho, lançado em 2002.

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Em seguida, vi em outro link no mesmo jornal que o ator Philip Seymour Hoffman (Truman Capote) de 46 anos foi encontrado morto hoje em seu apartamento no bairro de Greenwich Village. Meio horrorizado, fiz uma pesquisa breve e descobri que a sua morte foi anunciada no facebook há dois dias…  http://en.mediamass.net/people/philip-seymour-hoffman/deathhoax.html

 “At about 11 a.m. ET on Friday (January 31, 2014), our beloved actor Philip Seymour Hoffman passed away. Philip Seymour Hoffman was born on July 23, 1967 in Fairport. He will be missed but not forgotten. Please show your sympathy and condolences by commenting on and liking this page.”

 2010 Sundance Film Festival - "Jack Goes Boating" Portraits

Essa notícia me faz recordar do Presidente Juscelino Kubitschek, cuja morte em um acidente de carro foi divulgada antes mesmo de sua morte verdadeira, também em um acidente de carro, só que em outro Estado…

Guerra do Contestado – Guerra Espiritual.

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Ao pesquisar hoje, dados históricos, me deparei com uma data: 28 de março. Como eu nasci dia 28 e meu irmão em março decidi seguir adiante. A pista era boa e prometia me responder algo, induzia-me ao encontro de mais uma peça do quebra-cabeças para a compreensão de quem sou, e do por quê estar encarnado neste país.

Ao seguir a pista, descobri um texto sobre a Guerra do Contestado, um conflito armado entre a população cabocla e os representantes do poder estadual e federal brasileiro travado entre outubro de 1912 a agosto de 1916, numa região rica em erva-mate e madeira disputada pelos estados brasileiros do Paraná e de Santa Catarina. Originada nos problemas sociais, decorrentes principalmente da falta de regularização da posse de terras e da insatisfação da população hipossuficiente, numa região em que a presença do poder público era pífia, o embate foi agravado ainda pelo fanatismo religioso, expresso pelo messianismo e pela crença, por parte dos caboclos revoltados, de que se tratava de uma guerra santa.

Contestado - Mapa

Na sanha por mais conhecimento, me deparei com o documentário “O Contestado – Restos Mortais”, do catarinense Sylvio Back, que além de ser um filme histórico é um filme…  espírita!

O diretor colocou diante da câmera médiuns que incorporaram espíritos de pessoas envolvidas no conflito. “Incorporados”, vítimas e rebeldes contam suas histórias, gritam por socorro da mãe, e explicam porque lutaram.

E um dos detalhes mais incríveis do filme é que um dos historiadores entrevistados afirma que os caboclos em fuga foram perseguidos e mortos até a cidade de… Santa Maria! 

Guerra do Contestado – Restos Mortais

Entrevista Sylvio Back TV Brasil

Entrevista para http://cpdoc.fgv.br/contestado/ecos/sylvio-back

CPDOC: Em seu penúltimo filme O Contestado – Restos Mortais (2010) você voltou a abordar o tema, desta vez a partir de fontes pouco tradicionais, que foram os testemunhos de médiuns. Conte-nos sobre essa experiência.

SYLVIO BACK: A inclusão do relato mediúnico como fio condutor do filme pegou de surpresa espectadores e críticos quando da exibição de “O Contestado – Restos Mortais” na competição dos festivais “É Tudo Verdade” e em Gramado. Houve quem, equivocadamente, até elogiasse a minha direção de atores durante os debates por não acreditar que aquela trintena de médiuns explodindo em falas insólitas, choros, risos, apelos, gritos e sussurros, era um elemento de linguagem. Ao invés de uma encenação teatral, era uma incursão, digamos, à “invisibilidade” do Contestado, ele mesmo, inoculado pelas mais insondáveis correntes místicas e míticas.

Houve, também, quem ridicularizasse o recurso, talvez, por desconhecer minha filmografia, toda ela na contramão do discurso cinematográfico, majoritariamente, anódino e conservador, ora em cartaz (documentários de corte “chapa branca”, que repicam o vezo do Estado ou de ideologias políticas; hagiográficos e/ou turísticos), onde jamais dublei um estilo narrativo, mas cujo objetivo sempre foi deixar o espectador desarvorado, sem saber se deveria ou não acreditar no que vê e ouve. Como teve crítico que deu crédito ao inaudito recurso pontuado por “vozes do além” que trazem à tona uma “outra” verdade nunca antes arvorada sobre a Guerra do Contestado.

E, pela constatação de que eu, com essa operação cinemática, levar ao espectador a própria polêmica se a mediunidade colocada sob suspeita por alguns depoimentos, como encará-la, como aceitá-la hoje dentro de um filme que se quer “histórico”? Por não ser “espírita”, nem adepto de qualquer credo religioso, mas por respeitar e admirar a imponderabilidade e o mistério que corpo, espírito e alma mutuamente se conjuram, é que promovi em “O Contestado – Restos Mortais” um amálgama de cinema, depoimentos e testemunhos, iconografia fixa e em movimento, história e mitologia, fatos & atos, tênues de veracidade e verossimilhança.

Todo esse aparato audiovisual, de aparente difícil absorção mental, imbricado ao inconsciente coletivo que continua a fervilhar na região, se aplica para tentar desvendar um Contestado até hoje ainda insepulto, inacessível, inconcluso! O espectador é sempre mais esperto e rápido do que o filme e o diretor juntos, já que o olho é mais rápido do que o pensamento. Portanto, a inserção do relato dos médiuns no miolo do filme, e que perturba e conturba seu fluxo, serve justamente para borrar as fronteiras draconianas entre documentário e ficção. Afinal, qual a diferença entre ambos: uma vez o real filmado torna-se depositário infiel do pretérito, ou seja, uma ficção sempre mediatizada pela imponderabilidade da memória. Cada um apropria e introjeta seu complexo sentido como achar melhor, acreditando, endossando, edulcorando, contraditando ou desconfiando. Eu faço um cinema que desconfia!

Depois, o projeto nunca foi fazer um documentário tal qual (não sou um documentarista lato senso) sobre a Guerra do Contestado, daí os clipes com imagens de arquivo (fotos & filmes), por exemplo, raras vezes surgirem para sublinhar depoimentos e entrevistas, o que seria empobrecê-las, desacreditar nas minhas próprias imagens e na capacidade de “viajar” do espectador. Ao contrário, por serem todas flagrantes oficiais, feitos de encomenda, a própria “história oficial” funciona como uma espécie de contraponto ”heroico” do que sobrevive da realidade trágica na cabeça das pessoas um século depois. Essa autonomia do acervo, premeditadamente procurada, e colocada sob suspeita pelas recordações afetivas e pela história, é uma das claves que emprestam a amperagem polêmica do filme e que melhor lhe definem o torque revisionista do tema face às minhas convicções como homem e artista.

As SINCRONICIDADES de RENATO RUSSO

 

“É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque se você parar para pensar, na verdade não há.”

Renato Russo (1960-1996), vocalista da Legião Urbana ganhará dois longa-metragens: “Somos Tão Jovens” do diretor Antonio Carlos da Fontoura e “Faroeste Caboclo” do estreante René Sampaio.

Lendo a matéria de André Miranda, do jornal O Globo sobre a película “Somos Tão Jovens”, encontrei essas pérolas sincronísticas:

“As coincidências que envolvem a produção de “Somos tão jovens” têm um quê místico por um lado e um cinematográfico por outro. Em 2006, Fontoura encontrou casualmente na rua, o produtor musical Luiz Fernando Borges, amigo próximo de Renato e pessoa incumbida pela família do cantor de cuidar da possibilidade de uma cinebiografia. Borges estava no Jardim Botânico, andando pela calçada a caminho da casa de Ed Motta quando avistou o diretor, com quem não tinha contato havia 25 anos, desde que eles participaram do mesmo grupo de terapia. A conversa foi breve, como costuma ocorrer nesses encontros. Perguntaram sobre a vida, relembraram alguns assuntos do passado e falaram de projetos futuros. O filme sobre Renato, que ainda era apenas um sonho, então, veio à tona. “Que bacana”, um disse. “Quer dirigir?”, o outro perguntou”.

“Era preciso arrumar patrocínio. “Religião Urbana” foi o primeiro título escolhido. Durante dois anos, porém, eles só ouviram respostas negativas de investidores, atrasando o projeto. Até que Dona Carminha Manfredini, mãe de Renato, chamou o diretor para um almoço e sugeriu a mudança do título para “Somos Tão Jovens”, argumentando que seu filho nunca foi pregador, religioso, nada parecido. A frase foi tirada da letra de “Tempo Perdido”, um dos maiores sucessos da Legião. Fontoura não tinha tempo a perder e prontamente aceitou o conselho. – Na semana seguinte, começamos a ganhar editais – lembra o diretor. – Eu acho que o Renato deve estar num universo paralelo dizendo o que cada um de nós deve fazer. A minha meta é que ele e quem o representa neste planeta fiquem felizes com o filme. A Legião Urbana sempre esteve presente no coração dos jovens. Este filme não é apenas sobre o Renato. É sobre todos esses jovens”.

(Fonte: http://oglobo.globo.com/cultura)