Tragédia de Realengo e o Bullying

Tragédia em Realengo

Tragédia em Realengo

Assisti à grande parte dos canais de TV para tentar entender por que e como se desenrolou a tragédia em Realengo.

Entender a gente nunca entende, tentamos aceitar explicações sóciopolíticas para conseguir suportar, mas sempre parece pouco. Muito pouco. Parte da imprensa tentou associar o assassino ao 11 de setembro o tachando como “árabe” e “muçulmano”. Parece que ele era Testemunha de Jeová, vi em um canal de TV, mas certamente outros dirão que ele era tudo e algo mais. O matador era um fanático religioso? Certamente sim, mas a  culpa não é da religião, é dele. Ele chegou a  pensar em destruir o Cristo Redentor…

Só sei que tudo isso me deixou muito triste e um dia após a tragédia comecei a ter febre de tanto incômodo. Não tenho febre há anos, certamente foi uma febre psicológica (um efeito pós-traumático) ou… espiritual. Parecia que tinham me matado ou matado meus familiares, me senti parte do todo, da humanidade, de fato. Não ri, não fiz nada, estava de luto. Dei uma volta para esfriar a cabeça.

Não aguentava mais chorar por causa dessa história… Estou muito, muito triste. Meu corpo, alma  e cabeça doem. Parece um pesadelo, um péssimo sonho, não consigo ler, escrever ou
ouvir música. Estou exausto.

Saber mais sobre o assassino dessas crianças, me fez pensar sobre a ignorância
humana, não importando a religião, o comportamento, a classe social e o país de origem.
Dizem que ele matou porque o seu apelido era “bundão” e sofria bullying.
Também sofri bullying (a tradução correta é “ser molestado”, mas não se usa esse termo porque ele tem uma forte conotação sexual) da infância ao pré-vestibular, inclusive por professores. Nunca me esquecerei do professor de educação física, técnico de vôlei, que fez o colégio todo rir dos meus pés chatos.

Colégio

Sofri ingratidões desde cedo e na sequência fiz o quê? Pratiquei bullying ao chamar um amigo gordo de “baleia”, de dar ordens ao meu irmão quando éramos crianças e tive má vontade com um cara porque ele era “leitor de dicionário”. Quem sofre, pratica em legítima defesa. E se o exemplo não vem de casa…

Sofri bullying, inclusive em casa, fui exposto à humilhações continuadas durante anos por pais, “amigos” e namoradas. Fui perseguido por pessoas de comunidades carentes e por malhadores de classe média-alta, do antigo primário ao pré-vestibular. Com isso quero deixar claro que fiz amigos e também fui perseguido por pobres e ricos, sem distinção.

Bullying não tem nada a ver com classe social.

O que fiz por causa de certas perseguições? Fundei um grupo terrorista para exterminar favelados? NÃO! Lutei por eles e tenho lutado em meus escritos e canções.

Eu era santo? Não, era criança, cujos pais nunca conversaram comigo abertamente sobre a vida.  Sem referências ou bons exemplos você tenta se virar no mundo cão, erra e acerta, aprende e desaprende. Mais tarde, na adolescência, comecei a desconfiar que a tal lei da ação e reação era algo real. Hoje, sei que quando alguém te dá uma rasteira, conscientemente ou afogado em cegueiras mil, leva outra, mesmo que não acredite.

Não matei por que humilhei ou fui humilhado. Minha resposta foi virar artista, pensador, assumir minha diferença.

O que te faz ser um matador em série? Mágoas? Incompreensão?

Para não matar alguém no plano real, matei a memória ruim, matei os que tinham mentalidades muito conflitantes e não me respeitavam.  Minha solução: escrevi livros e canções.

Quando alguém me pergunta, ainda hoje, sobre um fato espiritual, em uma roda de conversa, é frequente que alguém mais “saidinho” me interrompa:

“Você é maluco!”
“Isso não existe!”
“Isso te dá dinheiro?”

Dor, Mágoa, Vingança

Para destruir a sua vida e a dos outros, sempre há uma boa justificativa. O assassino errou, mas o mundo erra todos os dias. Certamente, nunca houve matadores em série em colégios no Brasil. A influência do assassino, sem sombra de dúvida, é fruto da pior parte da cultura norteamericana: filmes de AÇÃO e jogos de AÇÃO, violência desmedida
vendida em pacotes de liberdade. Desculpem-me, mas eu não gosto de ver filhos de amigos divertindo-se com jogos violentos na minha frente, não me sinto bem… Proibir não é certo, mas se deve explicar aos praticantes por que os jogos são inúteis e que ninguém é pior do que ninguém por não jogá-los.

O primeiro assassinato em colégio nos EUA ocorreu em 1966, no Brasil com Z em 2011…  Tenho amigos que assistem a esse tipo de filmes e jogam os tais jogos… Sem problemas, mas eu não participo e nunca participarei.  O que perco com isso? A sociabilidade? Deixarei de ser “popular”? A cultura americana é a dos caubóis, do cara que conquistou o país com um Colt. A cultura da violência, da liberdade à bala.

Não quero justificar nada, assassino é assassino, mas é fato que Wellington, o serial-killer não se libertou das mágoas passadas e resolveu a questão à moda americana: na base do bang-bang. Essa é a tal globalização do tiro bem servida com peanut butter, jelly and marshmallow.

Minha consciência me impediu de destruir minha vida várias vezes… Aprendi que é necessário lutar, há que vencer o mal com as armas da justiça e da verdade, há que se tornar um herói diariamente.  Se não te entendem, não se preocupe, faça o certo, seja o certo, tenha orgulho de ser reto.

O assassino terminou o colégio há quase uma década, mas nunca perdoou os colegas pela humilhação de ter sido chamado de “bundão”.

Bundão!

Bundão!

Bundão!

Quando se alimenta a dor e a mágoa, elas REVIVEM todos os dias, não importa o tempo passado.

Se o Brasil não resolver a questão agora, seja do desarmamento ou do bullying, depois chorarão os cadáveres.

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