COERÊNCIA.

Essa história que contarei agora ocorreu comigo há um tempinho. A guardei na gaveta durante um período, para que pudesse analisá-la com um certo distanciamento, até mesmo por que envolve pessoas que eu conheço.

 

X, um amigo de outro Estado, veio ao Rio para assistir a um show. Ele fez questão que eu fosse com ele e comprou o meu ingresso. Lhe disse que estava indo mais por causa dele, do que pelo show em si,  e pedi que ele não me “cobrasse” pelo presente.

– Mas você cresceu ouvindo essa banda!, ele me questionou.

Pois é meu amigo. Curti na época certa, com a cabeça adequada e agora preciso de novos desafios, novos sons, novas oportunidades. É muito comum termos um time de futebol  ou uma convicção política, mas coerência não quer dizer que você deva pensar igual durante toda a vida. Coerência é saber a hora de mudar e saber o porquê. O resto é patrulha ideológica!

 Rimos.

 Como X ia ficar alguns dias no Rio, saímos em algumas oportunidades. Em uma das noites, nas quais nos encontramos, perguntei se ele queria assistir a um filme em um cinema próximo. Estava caindo uma garoinha, ele não parecia ter gostado muito da ideia, havia discutido com a namorada pelo celular, mas fomos. Mal compramos nossos ingressos, vejo que ele retorna à bilheteria para falar com 3 meninas. E quando digo menina, é menina mesmo, entre 16 e 18 anos.

 – Você não vai acreditar, mas é a minha prima carioca e as amigas dela, ele me disse.

Mas ela gosta desse tipo de filme? Vocês combinaram algo?

Claro que não, ele respondeu com ênfase.

Naquele momento eu já sabia que o final de semana ia ser do “balacobaco!”

Nesse mesmo período, amigos de um outro Estado, me ligaram: estavam no Rio para assistir ao mesmo show. Fui encontrá-los na praia e durante nossa conversa me pediram para que eu contasse algumas histórias espirituais. Na inspiração, contei alguns “causos” e citei como o vício em cocaína, por parte de pessoas que eu amava, havia me deixado marcas.

 Então, o dia chegou.

 

Tentei ir ao show com X, mas ele estava em outro bairro e nos desencontramos. Acabei indo com os amigos que revi na praia. Tão logo os encontro, um deles bate um fileira de pó na minha frente e faz um pouco de troça comigo, passando rente ao meu nariz, um pacotinho rosa com cocaína. Não levei a mal, mas fiquei me questionando do porquê daquele gesto. Se eu havia aberto meu coração e contado como a droga havia me machucado, por que ele não me poupara dessa cena? Pensei que, de alguma forma, apesar dele saber que eu não apoiava, ele havia me incluído no rol dos “camaradas”: os seres de mente livre que entendem tudo.

 Por que ele não cheirou antes de me encontrar?, me questionei. Por que havia feito na minha frente? Afinal de contas, o que os olhos não veem, o coração não sente.

 Ou sente?

Deixei o assunto pra lá, não entendi como desrespeito, apenas como falta de noção mesmo. Se uma pessoa me dissesse que não gosta de álcool, eu não beberia na frente dela. Mas o mundo é livre, os valores de cada um são diferentes e de fato as pessoas só fazem o que querem. Enfim… o prazer nosso de cada dia está sempre acima de outras questões, tão “tolas” como respeitar um amigo. Fomos encontrar as outras pessoas que estavam na praia para irmos todos ao show.

 Adivinhem… surgiu uma bandeja, umas fileiras de pó e tudo aconteceu novamente.

Carlão é camarada!, comentaram.

E como se fosse a coisa mais normal do mundo, como um encontro social, uma festa entre amigos, bateram filas e filas na minha frente e um deles ainda quis falar comigo sobre espiritualidade.

 Aquilo tudo foi tão bizarro, que eu balancei por um instante entre os acompanhar até o show ou ir embora. Contei mil carneirinhos e fomos todos juntos. Fomos, mas eu já não estava muito legal. Como estávamos atrasados, mal entramos no local, as luzes se apagaram e o show começou. Mas minha mente não estava lá, nem meu corpo, eu não estava muito feliz após ter visto pessoas que eu conheço, curvando suas cabeças ao Deus da Cocaína. Falei pelo celular com meu amigo, que havia comprado o ingresso para mim, para nos encontrarmos, mas ele disse que havia fumado “um” e bebido várias latinhas de cerveja. Dei uma suspirada daquelas… Então, a bateria acabou, o celular ficou mudo e não consegui encontrá-lo na multidão. Dei mais uma boa suspirada (e não uma “aspirada”), assisti a uma música, duas, três… Na quinta canção, dei as costas e fui embora: estava de saco cheio de ter que me submeter a certas coisas para ter amigos, estava de saco cheio de estar ligado a algo que não me representava mais. Disse, Chega! Me senti como se a ficha tivesse caído com 2 horas de atraso, com 2 anos de atraso, com 2 mil anos de atraso.

 Quando deixei o estádio, tendo a música rebatida em forma de eco atrás de mim, não deixei apenas um show ou alguns amigos para trás. Deixei de ser babaca. Segui em frente pela avenida, com o coração batendo, não como se tivesse feito algo errado, mas como se tivesse partido uma corrente. Não quis voltar para casa, queria caminhar e pensar no que havia ocorrido. No meio do caminho passei em frente à uma fraternidade espiritualista que eu havia frequentado há 15 anos. Parei diante da porta do prédio e de fora vi algumas luzinhas acesas lá dentro, iluminando fracamente um par de imagens. Pensei em quanta coisa havia ocorrido comigo em 15 anos, muita coisa mesmo, eventos que afetaram minha vida de forma inexorável. Respirei fundo e senti minha alma leve, muito mais leve.

 

Quando cheguei em casa, talvez às 22h, decidi fazer compras no supermercado. E adoro supermercados quase vazios. Olhei no relógio: o show ainda não havia terminado. Percebi, de coração, que as “pequenas coisas” da vida, como desfrutar uma deliciosa fruta, me faziam muito mais feliz, do que assistir a um show, que não me dizia mais nada.

Lá no meu íntimo, eu sabia que eu deveria ter ido embora, tão logo eu vi a cena do pó ou tive o tal saquinho rosa passado rente ao meu nariz. Mas eu quis ver até onde ia a insanidade coletiva. Depois que vi, disse chega.

Não precisamos nos violentar para termos um trabalho, uma relação, uma ou várias amizades. As pessoas devem nos respeitar para que sejam respeitadas. As pessoas devem dar amor para serem amadas de verdade. E o amor é incondicional.

 Do pó viste, ao pó voltarás.

É tudo uma questão de coerência.

AS SETE LEIS PARA O SUCESSO – parte III

Terceira parte de “AS SETE LEIS PARA O SUCESSO” de Deepak Chopra, médico, escritor e professor indiano.

A LEI DO “KARMA” OU DA CAUSA-EFEITO

Toda a ação gera uma força de energia que nos é devolvida na mesma espécie… aquilo que semeamos é aquilo que colhemos. E quando escolhemos ações que trazem aos outros felicidade e sucesso, o fruto do nosso karma será de felicidade e sucesso. O karma constitui a eterna afirmação da liberdade humana… os nossos pensamentos, as nossas palavras e obras formam as malhas da rede com que nos envolvemos.

Swami Vivekananda.

A terceira lei espiritual do sucesso é a Lei do Karma. A palavra “Karma” significa a ação e a sua consequência; constitui ao mesmo tempo causa e efeito, porque toda a ação gera uma força de energia que nos é devolvida na mesma espécie. Não há nada de novo na Lei do Karma. Todos já ouvimos a expressão “Colherás aquilo que semeares”. Como é óbvio, se queremos criar felicidade nas nossas vidas, temos de aprender a semear as sementes da felicidade. Portanto, o karma implica a ação da escolha consciente. Nós somos acima de tudo sujeitos dotados da possibilidade infinita de escolher. Em todos os momentos da nossa existência, encontramo-nos naquele campo de todas as possibilidades que nos dá acesso a uma infinidade de escolhas. Algumas dessas escolhas são feitas conscientemente, outras fazem-se inconscientemente. Mas a melhor forma de compreender e aproveitar ao máximo a aplicação da Lei do Karma é adquirir o conhecimento consciente das escolhas que se fazem em cada momento. Quer isto lhe agrade ou não, todas as coisas que lhe acontecem no momento presente resultam das escolhas que fez no passado.

Infelizmente, muitos de nós fazem escolhas das quais não temos consciência, por isso não as vemos como escolhas. No entanto, se eu o insultasse, o mais provável seria você fazer a escolha de ficar ofendido. Se eu lhe fizesse um cumprimento, o mais provável seria você sentir-se satisfeito ou lisonjeado. Mas pense bem nisto: Não deixa de ser uma escolha. Eu poderia ofendê-lo e insultá-lo e você poderia escolher não ficar ofendido. Eu poderia fazer-lhe o cumprimento e você também poderia escolher não se lisonjear por isso. Por outras palavras, a maioria de nós apesar de sermos sujeitos dotados de uma infinita possibilidade de escolha tornamo-nos feixes de reflexos condicionados nos quais as pessoas e as circunstâncias desencadeiam efeitos de comportamento previsíveis. Esses reflexos condicionados funcionam como os reflexos de Pavlov. Pavlov ficou conhecido por ter demonstrado que, se dermos a um cão qualquer coisa de comer sempre que tocarmos uma campainha, em breve o cão começará a salivar só de ouvir o som da campainha, porque faz a associação de um estímulo com o outro. A maioria de nós, como resultado do condicionamento, responde de formas repetitivas e previsíveis aos estímulos do ambiente. As nossas reações parecem ser automaticamente desencadeadas pelas pessoas e pelas circunstâncias e esquecemo-nos de que elas não deixam de ser escolhas que estamos sempre a fazer em cada momento da nossa existência. Apenas fazemos essas escolhas inconscientemente. Se olhar para trás por um instante e reparar nas escolhas que faz no momento em que as faz, só pelo simples acto de testemunhar as suas escolhas transporta todo o processo do âmbito do inconsciente para o âmbito do consciente. Este processo de escolha consciente e observada transmite-nos um grande poder.

Sempre que fizer uma escolha, qualquer escolha pergunte duas coisas a si mesmo: em primeiro lugar, “Quais são as consequências desta escolha que faço?” O seu coração logo lhe dará a resposta; em segundo lugar, “Esta escolha que estou a fazer trará alegria, a mim e aos que me rodeiam?” Se a resposta for sim, mantenha a escolha. Se a resposta for não, se a escolha trouxer angústia, a si ou aos que o rodeiam, diga não a essa escolha. É muito simples. Só há uma escolha, entre toda a infinidade de escolhas que pode fazer em cada segundo, que trará ao mesmo tempo felicidade para si e para os que o rodeiam. E quando fizer essa escolha, resultará uma forma de comportamento que designaremos por ação correta espontânea. A ação correta espontânea consiste na ação correta praticada no momento certo. Constitui a resposta certa para todas as situações à medida que elas ocorrem. É a ação que lhe dá suporte, a si e a todos os que estiverem sob a influência dela. O universo possui um mecanismo muito interessante para nos ajudar a fazer espontaneamente as escolhas corretas. Esse mecanismo encontra-se ligado às sensações do corpo. O nosso corpo sofre dois tipos de sensações: sensação de conforto e sensação de desconforto. 

Sempre que fizer uma escolha consciente. Consulte o seu corpo e pergunte-lhe: “Se é isto, o que é que vai acontecer?” Se o seu corpo der uma mensagem de conforto, encontra-se perante a escolha correta. Se o seu corpo emitir uma mensagem de desconforto, encontra-se perante a escolha errada. Para algumas pessoas, a mensagem de conforto e desconforto situa-se na área do plexo solar, mas para a maioria das pessoas situa-se na área do coração. Em consciência, volte a sua atenção para o coração e pergunte-lhe o que deve fazer. Depois espere pela resposta, uma resposta física sob a forma de sensação. Pode ser o mais leve grau do sentir – mas está lá, no seu corpo. Apenas o coração sabe a resposta correta. A maioria das pessoas pensa que o coração é piegas e sentimental. Mas não é. O coração é intuitivo, holístico, contextual e relacional. Não possui uma orientação de ganho-perda. Bate no computador cósmico – o campo da potencialidade pura, da sabedoria pura e do poder organizador infinito – e toma tudo em conta. Por vezes pode não parecer racional, mas o coração possui uma capacidade de computador que mostra muito mais exatidão e precisão do que tudo o que se pode encontrar dentro dos limites do pensamento racional.

Pode utilizar a Lei do Karma para produzir dinheiro e Prosperidade, e para que todas as coisas boas fluam para si sempre que quiser. Mas primeiro tem de estar bem consciente de que o seu futuro é gerado pelas escolhas que fizer em cada momento da sua vida. Se fizer isto com regularidade, aproveitará ao máximo a Lei do Karma. Quanto mais trouxer as suas escolhas para o plano do conhecimento consciente, mais escolhas retas espontâneas fará – tanto para si como para aqueles que o rodeiam.

 O que podemos fazer acerca do karma do passado e como o influenciar a ele agora? Há três coisas que pode fazer acerca do karma do passado.

Uma é pagar as suas dívidas de karma. A maioria das pessoas escolhe fazer isso inconscientemente, claro. Também pode fazer essa escolha. Muitas vezes, o pagamento dessas dívidas implica muito sofrimento, mas a Lei do Karma afirma que nenhuma dívida no universo fica por pagar. O sistema contabilístico do universo é perfeito e todas as coisas constituem uma constante troca de energia “para lá e para cá”.

A segunda coisa que pode fazer é transformar o seu karma numa experiência melhor. Este constitui um Processo muito interessante, através do qual se interroga a si mesmo, enquanto paga a sua dívida de karma: “Posso eu aprender com esta experiência? Porque está isto a acontecer-me? Que mensagem quer o universo transmitir-me? Como posso tornar esta experiência útil para os outros seres humanos?” Fazendo isto, procura a semente da oportunidade e depois liga-a ao seu dhanna, a sua finalidade na vida, de que falaremos na Sétima Lei Espiritual do Sucesso. Isto permite-lhe transmutar o karma para uma forma de expressão diferente. Por exemplo, se machucar uma perna quando estiver a praticar um esporte, pode perguntar a si próprio: “O que posso aprender com esta experiência? Que mensagem quer o universo dar-me?” Talvez a mensagem seja que você precisa abrandar, e ser mais cuidadoso Ou atento ao seu corpo, para a próxima vez. E se o seu kharma for ensinar aos outros aquilo que aprendeu, perguntando “Como posso eu tornar esta experiência útil para mim e para os outros seres humanos?”, talvez decida partilhar aquilo que aprendeu, escrevendo um livro sobre como praticar esportes com segurança. Ou Pode conceber uns sapatos especiais ou um apoio especial para a perna, de modo a prevenir o tipo de acidente que lhe ocorreu. Assim, ao mesmo tempo que paga a sua dívida de karma, também converte a adversidade num bem que lhe pode trazer riqueza e realização. Esta é a forma de transmutar o seu karma numa experiência positiva. Na verdade, não se libertou dele, mas conseguiu pegar num dos seus aspectos e transformá-lo num karma novo e positivo.

A terceira forma de lidar com o karma é transcendê-lo. Transcender o karma é tornar-se independente dele. A forma de transcender o karma consiste na experiência da abertura, do Eu, da Alma. É como lavar uma peça de roupa suja numa corrente de água. Cada vez que a lava, limpa-a de algumas nódoas. Se continuar a lavá-la repetidas vezes, de cada vez vai ficando um pouco mais limpa. Consegue lavar ou transcender as sementes do seu karma entrando na abertura e voltando a sair. Claro que isto se faz através da prática da meditação. Todas as ações consistem em aspectos do karma. Tomar uma xícara de café consiste num aspecto do karma. Essa ação gera memória e a memória possui a capacidade ou a potencialidade para gerar desejo. E O desejo gera de novo ação. O software operacional da nossa alma é constituído por karma, memória e desejo A nossa alma consiste num feixe de consciência que possui as sementes do karma, da memória e do desejo. Ganhando consciência destas sementes de manifestação, torna-se gerador de realidade consciente. Se um sujeito consciente das escolhas que faz, começa a gerar ações que são evolucionárias para si e para aqueles que o rodeiam. Isso é tudo o que precisa de fazer. Se o karma for evolucionário – tanto para o Eu como para todos os que são afectados pelo Eu, o fruto do karma será de felicidade e sucesso.

COMO APLICAR A LEI DO KARMA

Ponho em prática a Lei do Karma, seguindo os passos:

1 Hoje vou observar cada escolha que fizer. E através da simples observação dessas escolhas, trago-as para o campo do meu conhecimento consciente. Reconhecerei que a melhor forma de me preparar para todos os momentos do futuro consiste em ser plenamente consciente no presente.

2 Sempre que fizer uma escolha, farei duas perguntas a mim próprio: “Que consequências advirão desta escolha que estou a fazer?” e “Esta escolha me trará realização e felicidade, a mim e aos que por ela serão afetados?

3 Depois pedirei conselho ao meu coração e me deixarei conduzir pela sua mensagem de conforto. Se a escolha significar conforto, adiro totalmente a ela. Se a escolha implicar desconforto, paro e observo as consequências da minha ação, por meio da minha visão interior. Este conselho dá-me a possibilidade de fazer escolhas espontâneas e corretas para mim e para todos aqueles que me rodeiam.

Destino

“Nós todos colhemos o que semeamos e que, desta ou daquela maneira o destino quase sempre nos obriga a pagar pelas nossas más ações. Quem se lembrar disso não se zangará com ninguém, não se indignará com ninguém, não procurará desforrar-se de ninguém, não censurará ninguém, não ofenderá ninguém, não odiará ninguém.” (Epicteto)

Tragédia de Realengo e o Bullying

Tragédia em Realengo

Tragédia em Realengo

Assisti à grande parte dos canais de TV para tentar entender por que e como se desenrolou a tragédia em Realengo.

Entender a gente nunca entende, tentamos aceitar explicações sóciopolíticas para conseguir suportar, mas sempre parece pouco. Muito pouco. Parte da imprensa tentou associar o assassino ao 11 de setembro o tachando como “árabe” e “muçulmano”. Parece que ele era Testemunha de Jeová, vi em um canal de TV, mas certamente outros dirão que ele era tudo e algo mais. O matador era um fanático religioso? Certamente sim, mas a  culpa não é da religião, é dele. Ele chegou a  pensar em destruir o Cristo Redentor…

Só sei que tudo isso me deixou muito triste e um dia após a tragédia comecei a ter febre de tanto incômodo. Não tenho febre há anos, certamente foi uma febre psicológica (um efeito pós-traumático) ou… espiritual. Parecia que tinham me matado ou matado meus familiares, me senti parte do todo, da humanidade, de fato. Não ri, não fiz nada, estava de luto. Dei uma volta para esfriar a cabeça.

Não aguentava mais chorar por causa dessa história… Estou muito, muito triste. Meu corpo, alma  e cabeça doem. Parece um pesadelo, um péssimo sonho, não consigo ler, escrever ou
ouvir música. Estou exausto.

Saber mais sobre o assassino dessas crianças, me fez pensar sobre a ignorância
humana, não importando a religião, o comportamento, a classe social e o país de origem.
Dizem que ele matou porque o seu apelido era “bundão” e sofria bullying.
Também sofri bullying (a tradução correta é “ser molestado”, mas não se usa esse termo porque ele tem uma forte conotação sexual) da infância ao pré-vestibular, inclusive por professores. Nunca me esquecerei do professor de educação física, técnico de vôlei, que fez o colégio todo rir dos meus pés chatos.

Colégio

Sofri ingratidões desde cedo e na sequência fiz o quê? Pratiquei bullying ao chamar um amigo gordo de “baleia”, de dar ordens ao meu irmão quando éramos crianças e tive má vontade com um cara porque ele era “leitor de dicionário”. Quem sofre, pratica em legítima defesa. E se o exemplo não vem de casa…

Sofri bullying, inclusive em casa, fui exposto à humilhações continuadas durante anos por pais, “amigos” e namoradas. Fui perseguido por pessoas de comunidades carentes e por malhadores de classe média-alta, do antigo primário ao pré-vestibular. Com isso quero deixar claro que fiz amigos e também fui perseguido por pobres e ricos, sem distinção.

Bullying não tem nada a ver com classe social.

O que fiz por causa de certas perseguições? Fundei um grupo terrorista para exterminar favelados? NÃO! Lutei por eles e tenho lutado em meus escritos e canções.

Eu era santo? Não, era criança, cujos pais nunca conversaram comigo abertamente sobre a vida.  Sem referências ou bons exemplos você tenta se virar no mundo cão, erra e acerta, aprende e desaprende. Mais tarde, na adolescência, comecei a desconfiar que a tal lei da ação e reação era algo real. Hoje, sei que quando alguém te dá uma rasteira, conscientemente ou afogado em cegueiras mil, leva outra, mesmo que não acredite.

Não matei por que humilhei ou fui humilhado. Minha resposta foi virar artista, pensador, assumir minha diferença.

O que te faz ser um matador em série? Mágoas? Incompreensão?

Para não matar alguém no plano real, matei a memória ruim, matei os que tinham mentalidades muito conflitantes e não me respeitavam.  Minha solução: escrevi livros e canções.

Quando alguém me pergunta, ainda hoje, sobre um fato espiritual, em uma roda de conversa, é frequente que alguém mais “saidinho” me interrompa:

“Você é maluco!”
“Isso não existe!”
“Isso te dá dinheiro?”

Dor, Mágoa, Vingança

Para destruir a sua vida e a dos outros, sempre há uma boa justificativa. O assassino errou, mas o mundo erra todos os dias. Certamente, nunca houve matadores em série em colégios no Brasil. A influência do assassino, sem sombra de dúvida, é fruto da pior parte da cultura norteamericana: filmes de AÇÃO e jogos de AÇÃO, violência desmedida
vendida em pacotes de liberdade. Desculpem-me, mas eu não gosto de ver filhos de amigos divertindo-se com jogos violentos na minha frente, não me sinto bem… Proibir não é certo, mas se deve explicar aos praticantes por que os jogos são inúteis e que ninguém é pior do que ninguém por não jogá-los.

O primeiro assassinato em colégio nos EUA ocorreu em 1966, no Brasil com Z em 2011…  Tenho amigos que assistem a esse tipo de filmes e jogam os tais jogos… Sem problemas, mas eu não participo e nunca participarei.  O que perco com isso? A sociabilidade? Deixarei de ser “popular”? A cultura americana é a dos caubóis, do cara que conquistou o país com um Colt. A cultura da violência, da liberdade à bala.

Não quero justificar nada, assassino é assassino, mas é fato que Wellington, o serial-killer não se libertou das mágoas passadas e resolveu a questão à moda americana: na base do bang-bang. Essa é a tal globalização do tiro bem servida com peanut butter, jelly and marshmallow.

Minha consciência me impediu de destruir minha vida várias vezes… Aprendi que é necessário lutar, há que vencer o mal com as armas da justiça e da verdade, há que se tornar um herói diariamente.  Se não te entendem, não se preocupe, faça o certo, seja o certo, tenha orgulho de ser reto.

O assassino terminou o colégio há quase uma década, mas nunca perdoou os colegas pela humilhação de ter sido chamado de “bundão”.

Bundão!

Bundão!

Bundão!

Quando se alimenta a dor e a mágoa, elas REVIVEM todos os dias, não importa o tempo passado.

Se o Brasil não resolver a questão agora, seja do desarmamento ou do bullying, depois chorarão os cadáveres.

A Sincronicidade de GOETHE

 

Goethe

Era no início o Verbo
Era no início o Poder
Era no início a Ação

Cito no texto anterior que Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), filósofo, poeta, estudioso da natureza, político e cientista nascido no final do século 18 em Frankfurt na Alemanha, nasceu no mesmo dia e mês desse que vos escreve. Por causa dessa pequena coincidência, cresceu meu interesse pela sua obra e história.

Pode haver uma correlação inconsciente entre fatos da vida de alguém que nasceu no seu dia e mês ou isso é apenas fruto da imaginação?

É fazer crer ou tanto desejar acreditar que a mais inocente pista se torna de fato uma verdade?

Mesmo que o leitor encare esse detalhe abaixo como uma mera “coincidência”, no mínimo vale a pena citar que curiosamente, Goethe escreveu três poemas sobre o Brasil (veja só!). Um deles está aqui:

Canção de morte de um prisioneiro brasileiro (1782)

Vinde com coragem, vinde todos,
E juntai-vos para o festim!
Pois com ameaças, com esperanças
Nunca me dobrareis.
Vede, aqui estou, sou prisioneiro,
Mas ainda não vencido.
Vinde, devorai meus membros,
E junto com eles, devorai
Vossos ancestrais, vossos pais,
Que foram meu alimentos.
Esta carne, que vos dou,
Insensatos, é a vossa,
E na minha medula está
Cravada a marca de vossos ancestrais.
Vinde, vinde, a cada mordida
Vossa boca poderá saboreá-los.

Para florear a argumentação, e tornar nossa conversa mais interessante destilo os fatos mais curiosos da vida deste cavalheiro que ficou famoso por ter escrito e divulgado (mas não criado) o mito de Fausto, aquele mesmo que vendeu a alma para Mefistófeles.

 

Índio de Marc Ferrez

O primeiro contato de Goethe com as artes plásticas surgiu de um estranho fato: quando tinha 10 anos, sua cidade foi invadida pelos franceses. Sua casa tornou-se quartel general de um ocupante e nobre francês de nome Thoranc que lhe influenciou vivamente, ao convidar artistas importantes para visitá-lo. Daí em diante o rapaz estudou filosofia, filologia (estudo da língua e de documentos) e direito, tornando-se escritor e homem de Estado em poucos anos. Uma verdadeira ascensão, pensada passo a passo por sua tradicional família burguesa.

Em 1770 decidiu superar todas as fraquezas da carne e mente permanecendo dentro de cemitérios escuros para superar o medo, subindo nos lugares mais altos para acabar com o pavor da altura, e frequentemente encostando os ouvidos nos instrumentos de altíssimas bandas de música para suportar o volume excessivo etc.

Em 1771 – através do seu personagem Werther – pensou diversas vezes em acabar com a própria vida na ponta de uma lâmina. Preferiu falar sobre isso através da ficção, apaziguando a dor e as incertezas de estar apaixonado pela noiva de outro.
Em 1775 já era um verdadeiro superstar, aclamado e reconhecido como grande escritor, antes mesmo dos 30 anos. Sua obra “Os Sofrimentos do Jovem Werther” tornou-se um sucesso estrondoso.

Educado para acreditar no modelo de uma família perfeita, logo viu seus sonhos desmoronarem pelo simples contato com o sexo oposto. Não era tão fácil como pensava. Apesar de Goethe ter investido demasiadamente em tudo – ciência, artes plásticas, poesia, política e história -, nada disso findava os seus problemas com as mulheres e nada lhe aventava a possibilidade de alcançar o prazer perfeito do contato físico: um dilema difícil para homem tão preparado.

Apaixonado por uma mulher casada, decidiu abandonar o papel incômodo de ser o outro, casando-se com Christiane Vulpius, uma plebéia simples, de traços meridionais e bastante independente. As pessoas viravam-lhe a cara por causa da esposa.

Em 1786/88 viajou – desencantado – para a Itália. Lá entre museus e exposições viveu uma grande crise espiritual que o debilitou mentalmente e fisicamente. Em compensação reviu sua própria vida e pensamentos, buscando o belo em todos os lugares, percebendo a riqueza dos detalhes em uma simples flor, vegetal ou pedra, inclusive tendo produzido diversos desenhos eróticos – somente publicados após a sua morte. Ao retornar à cidade natal, tornou-se ainda mais místico estabelecendo contato com a alquimia e textos de fraternidades espirituais. Após um bom tempo sem escrever, ordenou à pena que criasse clássicos, o que fez sem pestanejar. Começou uma nova e mais rica fase, que nem as paixões e nem o tempo nada puderam fazer contra.

Em 1790 publicou a primeira versão de A Metamorfose das Plantas, resultado dessa nova fase. Em 1806, Napoleão conquistou o Império Alemão. Goethe curtiu essa vitória (afinal o corso era quase francês), mas depois de conhecê-lo pessoalmente em 1808 mudou de idéia, tornando-se seu crítico ferrenho. Ainda nesse ano, Goethe fez a última revisão de Fausto, após mais de 35 anos de trabalho árduo. Confessou a um amigo que se não tivesse selado o livro, certamente ainda teria tentado revisá-lo mais vezes. Em 1808 tem o seu primeiro Fausto publicado. São mais de 12 mil versos. Entre 1790 e 1810 desenvolveu sua teoria cromática; citando os “daímones” (forças côsmicas) e outras “coisas demoníacas” fazendo um paralelo pseudo científico entre as cores, luz e sombra, teorias bem mal recebidas pela comunidade científica do seu tempo. Goethe acreditava que a observação atenta da natureza seria a chave para a compreensão dos fenômenos naturais, ao contrário de Newton, por exemplo. O alemão desenvolveu o princípio da polaridade e da elevação. Acreditava que um só princípio regesse todas as regras da natureza, apesar de manter-se afastado de conceitos religiosos tacanhos. Goethe acreditava que o confronto entre o espírito humano e o mundo material criava a arte, que fundamentava a sua teoria da elevação, provando que a natureza possui a capacidade de se superar infinitamente.

Após a morte da esposa Vulpius em 1816 volta a investir nas esposas dos outros, granjeando os favores sexuais da também casada Marianne Willemer. Depois investiu ainda mais pesado: com 74 anos se relaciona sexualmente com Ulrike von Levetzow de apenas 19 anos.

Aos 82 anos de idade, concluiu a segunda parte do Fausto. “Minha missão está encerrada” ele disse. Morreu alguns dias depois em 22 de março de 1832.

“Vivi cada linha que escrevi, mas não as escrevi tal como foram vividas”

“Onde não há poesia não pode existir verdade e vice-versa”

 

A SINCRONICIDADE DA TRAGÉDIA

Vi o nome da família de um amigo ligado à tragédia das chuvas, logo no primeiro dia, tragédia essa que ocorreu em janeiro de 2011 na região serrana do Rio. Enquanto escrevo, até esse momento já são 550 mortos. Amanhã serão mais e mais desenterrados dos escombros e da lama. Vítimas e algozes. Conheço várias pessoas que moraram e moram em Friburgo, pessoas que têm uma forte ligação kármica comigo, com fatos fundamentais em minha vida e em minha formação como indivíduo. Sempre ouvimos que no Brasil não há guerras, mas em compensação vivemos tragédias naturais que se repetem todos os anos, resultado de responsabilidades pessoais e públicas, além das espirituais.

No dia seguinte à morte de uma família de conhecidos do meu amigo, fui ao centro da cidade e entrei – por instinto – em uma igreja na qual rezei por uma hora. Uma das condutoras da missa disse ser de Nova Friburgo e afirmou que a tragédia ocorreu por questões espirituais, que a lama simboliza uma cobrança, que a lama simboliza a lama da alma, de muitos que se foram. Se o que ela falou foi duro, não me compete julgar, mas todos sabem, ou não querem saber, que há mais lama na alma humana do que as aparências mostram. Como disse, não me cabe julgar e nem afirmar que toda morte é um acerto de contas.

Após meditar na igreja, ficou claro que a tragédia que se abateu sobre centenas de famílias me libertou de alguns compromissos kármicos. Para o novo vir, o velho tem que passar e os senhores do karma não cedem aos desejos e amores humanos, desejemos ou não, rezemos ou não. Deus não é seu, não é meu, não é nosso.

A palavra lama – dita na igreja –  ficou na minha cabeça: um anagrama (do grego ana = “voltar” ou “repetir” + graphein = “escrever”), um jogo de palavras, que rearranja as letras de uma palavra ou frase para produzir outras.

Depois segui para o Centro Cultural Banco do Brasil, onde havia uma exposição sobre a poetisa e doceira Cora Coralina. “Sou uma recriação da vida”, disse e completou: “Tenho comigo todas as idades!”. Rimou com sincronicidade. Coralinado, chorei, sentei e escrevi o poema abaixo sobre a tragédia do Rio.

 

A notícia entrou em casa, foi só ligar o computador

Quanta dor, quanta dor

Não há chão, só lama

A todos iguala, quem odeia também ama

À luz, seguem as almas, vêm e vão

Me atravessam como se nada fosse ou um caminho, então

Passam por mim para fechar uma ou várias portas

Almas perturbadas, mortas

E como dói me atravessar

Lembrei do amigo, “me liga”, ligação perdida, tenho que te contar uma

Me conte duas, me conte mais

Se está vivo há o que contar, quando se morre, contam por ti

De Nova Friburgo, o burgo que Deus soterrou, à terra do Imperador

Teresópolis, de Teresa Cristina, a Imperatriz, o seu amor

Contem os mortos, quantos há, há que ter força pra reiniciar

Andei, voltei, retrocedi, adiantei como fita, não sabia pra onde ia

Rodrigo Silva, nem vi, virei, entrei

O negro cantava na igreja, a pomba amarilla no vitral, brilha, rija

Quem entrou? Eu e as almas

Quem errou? A moça da igreja falou que foi castigo

Terá sido falta de amor?

Uma família inteira morrer é ciência ou coincidência?

Na manchete de jornal, a morte, muita pouca sorte

Olho por olho dente por dente

Católico, crente, todos indigentes

Rico e pobre que nasce e morre, que ama e trai

Há que enterrar, há que crismar

Andei para não pensar, para o meu Banco do Brasil amado

E quem lá me esperava? Jorge Amado e Coralina de Goyás, que alíás

É como minha mãe que não morre jamais

Em Goyás de Friburgo

Em Portugal e Pernambuco

É sim, amigo Paulo

Ao homem, não cabe julgar

Do ônibus, vi o mar que tanto amo e só me doía

Minha boca só falava em silêncio, que tudo que é belo, é horror

É agonia

A Sincronicidade do Natal

2010 já acabou, viva 2011.

Viva? Bem, se melhorarmos como indivíduos, ótimo, mas se é para continuar com a alma sedenta por poder, bens materiais e bajulação, então o cenário é negro…

A vida é muito maior, a vida é muito mais bela, ainda mais quando vivemos a mágica.

Nunca esquecerei de ter visto, em pleno Natal, as botas do Papai Noel.

Foi exatamente isso que vi: um par de lustrosas botas que brilhavam no escuro, encostadas à cama dos meus pais, bem em frente à porta do quarto deles no final do corredor do apartamento. E antes que alguém pergunte, a resposta é “não”. Meu pai nunca se vestiu de Santa Claus. Os presentes surgiam ao lado da árvore todas as manhãs na data certinha, era barbada. Nunca questionei se o bom velhinho era real ou não. A felicidade que me assombrava quando eu recebia os presentes era tanta que não me cabia questionar o inquestionável. Hoje, crianças com dez anos vivem na internet, eu lia Monteiro Lobato e não pensava em mulheres, apesar do meu pai tentar me transformar em um garanhão insensível, mas graças a Deus, não obteve sucesso.

Elas, as botas, pareciam enormes, gigantes, ainda mais para o meu antigo tamanho de anão de jardim.

Fiquei tão assustado que nem consegui escancará-las, me pareceu proibido ousar além dos meus limites, atravessar uma ponte intransponível entre o mundo real e o da imaginação. Como eu, um pequeno ser, poderia se atrever a ver Papai Noel em toda a sua majestosidade? O pouco de luz – vinda da lâmpada do corredor – me permitiu vê-las, inclusive os pon-pons, não me encheu de coragem para ver o ser mágico na íntegra. Desculpem-me, não me arrisquei a olhar para cima e vê-lo em sua plenitude de ser físico, barrigudo e sorridente. Saí correndo gritando: “Eu vi Papai Noel!”.

Esse encontro me deixou tão perplexo, entre botas e crianças, que quando eu e meu irmão, que dormíamos em um só quarto, tivemos que escolher quem ficaria na janela ou ao lado da porta, eu pedi para ficar com a porta, pois se Papai Noel tentasse entrar pela janela, daria tempo para eu me escafeder como o Leão da Montanha.

Os adultos tem o hábito de culpar o velho Noel por decisões que não são da sua alçada, ligando a sua ausência ao nosso mal comportamento: “Papai Noel ainda não chegou” ou “Esse ano ele não vai trazer o seu presente porque você não foi bonzinho para a mamãe”, diziam. Certamente, a pouca produtividade do salário, incapaz de atender a todos os pedidos dos filhos, era o real motivo da ausência dos presentes natalinos em alguns momentos de nossa história familiar. E olha que éramos apenas dois irmãos. Mas nossos pais se esforçavam para nos atender, isso não posso negar. Se o par dos fantásticos pés pertencia a alguém de fato, não vem ao caso.  O importante é que o cheiro do Papai Noel estava lá; eu mesmo o sentira.  Esbaforido, voltei à sala, em extâse.

 

“Papai Noel está no quarto!”

 

Comuniquei aos adultos que o velhinho estava no quarto no final do corredor, porém o máximo de admiração que me ofertaram foi bem menor do que meu coraçãozinho esperava. Talvez uma das minhas primeiras frustrações.  Ninguém se deu ao trabalho de me acompanhar para tirar a prova dos nove: foi uma lástima.  Me deu vontade de chorar. Até hoje me sinto um pouco assim, como aquele garoto que ninguém escuta, quando afirmo existir mágica no mundo.  Fato relevante que praticamente ninguém vê, ou finge que não vê. Pior ainda foi o dia em que nossa mãe nos comunicou laconicamente que Papai Noel não existia, que ela e meu pai colocavam os presentes na árvore de natal e que devíamos parar de acreditar nessas bobagens de Noel, Boitatá e Curupira. Foi assim mesmo: um comunicado meio amargo, nos arrancando impiedosamente a prótese da pureza. Só de  birra, até hoje não acredito em uma só palavra do que ela disse. Veja lá se vou cair nessa…

Acredito em mágica, porque eu vivo a mágica. Não preciso implorar por amor ou reconhecimento e nem puxar adultos bêbados pelas mangas para verem o que não querem ver.

Passados vários anos, o mesmo quarto de mamãe serviu de palco para peças para as quais fui escalado à força. Vivi aquilo que chamam de experiência Crística para o nível da minha compreensão e idade. Uma espécie de iniciação, ou primeira crucificação, simbolicamente falando.

Ainda era bem pequeno e todos os sentimentos tornavam-se gigantescos em comparação. A cabeça de uma criança de 13 anos nos anos 70 era bem diferente das de hoje. A história é essa: O pai de minha mãe era um jornalista que almoçava semanalmente em nossa casa e, em uma de suas visitas, mamãe estava muito nervosa porque eu não havia cortado o cabelo – segundo ela, para agradar o meu avô (ou seria para agradá-la?). A solução encontrada, unilateralmente, foi me obrigar a permanecer escondido sob a cama do seu quarto, a mesma das botas de Noel, para que vovô não visse o neto com a aparência “suja”. Mamãe estava tomada por um horror estranho, como se pudesse ser repreendida por ter falhado e preferiu me dar em sacrifício do que encarar o pai. Apesar de não entender muito bem o que estava acontecendo, estranhei muitíssimo o fato de minha mãe, que era tão poderosa aos meus olhos, transformar-se em alguém tão amedrontada na presença de outro ser humano, afinal, para mim, eram apenas pessoas.  Nada mais. Meu irmão, por ter cortado os cabelos, teve permissão para participar do almoço na sala de jantar. Eu que comesse depois. Do chão do quarto, dava claramente para ouvir mamãe inventando as mais estranhas desculpas pela minha ausência. Ela exigira meu silêncio de morto sob o estrado da cama. Meu avô, muito mais esperto do que a filha, apenas ouvia e duvidava. Assim fiquei sob o colchão e o estrado, sem julgá-la, apesar de ser bem incômodo tentar não demonstrar minha presença.  Fiquei apavorado até de respirar!  O chão não havia sido varrido e estava difícil sentir-me confortável.  Poeira, pouco espaço e minha cabeça encostada no chão gelado.

Quando os sapatos do meu avô – os sapatos, sempre os sapatos – adentraram o quarto, ficando imóveis por alguns segundos que mais pareciam horas, meu coração pareceu saltar da boca.  Tinha certeza de que ele sabia que havia um neto embaixo da cama, pois ele nunca havia ido até o quarto no final do corredor. Ele sabia, eu sabia, meu irmão sabia e mamãe sabia. Eu só não queria decepcionar mamãe duas vezes. E lá, amedrontado e humilhado, lembrei das botas natalinas ao ver os lustrosos do vovô. Sapatos de horror, todos.  Meu maior medo era que meu avô se abaixasse e fitasse meu rosto espremido contra o chão. Cheguei a rezar.

E lá continuava meu avô, em posição de sentido à procura de um neto escondido sob o colchão.

Mas todos se assemelham na velhice, onde todos os pecados são pagos.

Paulatinamente, meus pais foram “morrendo” ainda em vida, um para o outro e posteriormente para mim, metamorfoseando-se de mitos em seres comuns.  Além da idade avançada, havia o pior sintoma da velhice: manter estruturas carcomidas.  Ambos não se entendiam mais. A relação se desgastara e era clara a vontade dele em escapar e a dela em manter o casal à força. Nunca me pareceram melhores do que qualquer outro casal, apenas mais um. A diferença é que eram meus pais.

O tempo passou e meu avô, até mesmo pela idade avançada, perdeu os sentidos e, a partir daí, a própria memória. Durante uma das visitas aos sábados à tarde, impostas por minha mãe para assistirmos nosso avô sendo destruído pelo tempo – senhor implacável de todos nós -, na Tijuca, ele fez a grande pergunta que marcou época: “Quem são essas duas moças?” Eram eu e meu irmão.

Após o falecimento do vovô foi necessário desocupar o apartamento – esses sim, não morrem nunca a não ser a marretadas -, que como o destino, observam o rodízio dos novos locatários de suas repintadas paredes. As cores e as pessoas se vão, as paredes ficam. Para surpresa de minha mãe foram encontradas exatas cem enferrujadas lâminas de barbear, usadas, porém nunca jogadas fora; hermeticamente preservadas em uma gaveta com restos de creme de barbear e pelos antigos. Sempre que penso em jogar algo fora, – e decido fazê-lo -, lembro das lâminas que nunca conheceram o fim durante a existência do meu avô. Penso na inutilidade de coisas como livros nunca relidos que só se amontoam nas estantes – quando não, em caixas.  Meu avô, sem querer, acabou por ofertar-me uma das maiores lições que poderia esperar de alguém.  Atuou em silêncio como um mestre esperando o tempo necessário para que eu crescesse e pudesse compreender a grandeza das pequenas coisas.

 

A Angústia

 

Jean-Paul Sartre disse que “o homem é Angústia”em razão da responsabilidade das suas escolhas. No livro “A Idade da Razão” o filósofo afirma que a maior das liberdades é não ter o que escolher, “Não tenho escolha, por isso mesmo é que eu sou livre”.

Assinei um jornal que chegava todos os dias em casa religiosamente, mas depois de alguns anos, nunca mais encontrei tempo para lê-los. Os dias passavam e o bolo de papel só fazia crescer. Criei o hábito de tirar um dia a cada 15 para lê-los na carreira. Daí vocês imaginam a consequência: em seguida, como não encontrava mais tempo em 15 dias, comecei a lê-los uma vez por mês. Era uma situação tão bizarra, que me causava angústia. Eu me achava na obrigação de lê-los porque havia pago por eles, mas antes de começar a leitura, o coração já estava a mil, palpitando. Pensei, isso é ridículo. Fiz as perguntas básicas: Preciso ler jornal? Preciso mesmo saber de tudo? Quem é mais importante: eu ou o jornal?

Mathieu e Marcelle

Depois de obter as mesmas respostas, cortei o elo e a assinatura se foi junto. Me ligaram mil vezes perguntando o porquê do cancelamento e uma das vendedoras chegou a me agredir. Foi uma loucura.  Cortei o jornal e o hábito se foi, como se nunca tivesse existido. Hoje raramente leio jornal na internet, não consegui me adaptar, acho muito pesado. Em papel descia bem, mas na tela é péssimo, prefiro blogs específicos. Nem sei mais que show está acontecendo, que artista está de passagem pelo Brasil, que filme estreou, etc. Hoje, não busco nada, sei que o que me interessa, o que é importante para mim, me encontrará. Assisto quase todos os dias aos noticiários na TV e dou muitas risadas ao ver como tentam nos controlar com meias verdades e obviedades “aborrecentes”.

 

Mãos Atadas? Por quem?

Ficou claro que não podemos fazer mais do que nos é permitido pelo bolso, pela mente e pelo corpo. É bacana querer mais, mas de uma forma saudável. Projetar uma vida futura com mais dinheiro e tempo é muito bacana, mas é melhor começar do início, ou seja: primeiro se liberte do lixo excedente. Não estou chamando jornal de lixo, muito pelo contrário, eu amo estudar, mas até mesmo para dormir se precisa de tempo, então não precisaríamos de tempo para ler e de tempo para sermos felizes? Por que nunca sobra tempo para ler um bom livro e absorvê-lo na íntegra com dedicação e determinação? Porque na lista de prioridades o livro, a cultura, o aprendizado estão lá embaixo. Um amigo me perguntou certa vez: “Por que você estuda tanto? Isso era para o começo da sua vida, para a fase do aprendizado.”

Como em um romance, as duas vias precisam interagir e caminhar juntas e para isso é necessário tecer acordos. Há que saber negociar, não impor, como também é fundamental ter respeito. Não dá só para acreditar que amigos são aqueles que nunca discutem, que sempre concordam, que só são felicidade.

Você já se perguntou por que ninguém posta fotos tristes no facebook? Por que só aparecemos alegres e cercados de gente feliz?  Porque, no íntimo, por mais que busquemos a felicidade interna, só ansiamos pela ilusão das imagens externas. Não importa o que está dentro de nós, mas o que nós aparentamos. O externo se impõe sobre o interno, pois ninguém quer ficar perto de “perdedores” e “deprimidos” e sendo assim, é mister forçar a barra da alegria, que é facilmente associada ao sucesso, à realização.  E para alimentar o mundo externo da alegria exuberante há o riso farto, a cocaína, o álcool em excesso e o sexo desregrado, sempre compartilhados.

E por que usar desses expedientes tão simplórios para fingir uma coisa que não se é? Por causa da angústia, da falta de coragem de encarar o mundo.

Não era o jornal que me sufocava, mas eu mesmo. Para cortar o elo, só tive que me readaptar, o que implicou em ter que abrir mão de algo, nesse caso de uma assinatura de jornal.

A angústia acabou porque eu fui o senhor do meu destino, porque eu SOU o senhor do meu destino.