A Sincronicidade da Escravidão

 

Na semana passada, o país ou mais precisamente o Rio de Janeiro, viveu momentos de tensão quando a polícia e o exército “retomaram” o Complexo do Alemão na Penha, subúrbio do Rio.

Muita coisa se falou, muitos foram a favor, poucos contra – da forma como foi feita  – e desses poucos, sociólogos avisaram que não basta falar em esperança, torcer por ela sem mudar a estrutura… é preciso muito mais do que falar. Para posar de esperançoso é preciso mudar as atitudes. Aqui não é o espaço para falarmos sobre política, mas esse é o espaço ideal para falarmos sobre aparências, discutir a diferença entre o discurso e o conteúdo da alma.

Essa conversa de “retomada” é curiosa. Retomar o que já é nosso? É a velha questão: o que não é tratado com carinho, o que é tratado com desprezo se perde e aí há que se falar em “retomada”, exatamente como ocorre no amor. A cena da “reconquista” do Alemão simbolizada pela bandeira brasileira tremulando no topo de uma edificação do PAC, não era, mas se assemelhava, de forma inconsciente, à dominação norte-americana do satélite lunar, com aquelas bandeirinhas duras fincadas na terra por astronautas com roupas de robô e assemelhava-se à bandeira russa hasteada em Berlim ou à cena (forjada) da bandeira americana hasteada na ilha japonesa de Iwo Jima. A batalha foi ganha, mas não a guerra e a imagem vale mais do que um terabyte de palavras.

Complexo do Alemão

É verdade que “bons” exemplos externos estimulam a melhora do ambiente e é melhor falar em esperança do que amaldiçoar tudo e todos, mas não basta torcer pela esperança, é preciso fazê-la florescer, gerar frutos, flores e raízes em nosso jardim interno.

 

Relato aqui os eventos ocorridos nos últimos dias.

 

Decidi comprar dois livros, um sobre o presidente Juscelino Kubitschek e outro sobre a Guerra de Canudos. Pesquisando as prateleiras encontrei um bem interessante sobre escravidão no Império e como não tinha grana para três livros, fiquei com o de Canudos e o da escravidão. O amigo-gerente da livraria de usados, insistiu para que eu levasse os três. Disse que não podia, apesar de querer. Ele fez um baita desconto que me fez “retomar” o do Juscelino.

Toda pequena ação, por mais pequenina que seja, se conecta às grandes, essas sim que abrem as portas. As pequenas são as pistas, miolos de pão indicando o caminho. Curioso, abri a primeira página do Juscelino, me perguntando porque o gerente quis que eu o levasse. Lá estava o nome da ex-proprietária com uma data e o bairro: o meu bairro. Sorri.

Pensei: esses três livros sobre o Brasil querem me dizer algo sobre “a retomada” do Alemão e me veio à mente, a imagem dos bandidos da Vila Cruzeiro, fugindo em debandada da polícia como mostraram as emblemáticas imagens exibidas pela Rede Globo. Quando vi essas cenas ao vivo, e como os traficantes estavam a uma boa distância, não foi possível ver-lhes os rostos, somente era perceptível que eram negros e muitos estavam sem camisa. O local da fuga era no alto de um morro, a estrada de terra, não havia asfalto e o mato campeava ao largo, nada de diferente da época da colônia. A TV parecia uma máquina do tempo para o Brasil colonial. Estava com o livro sobre Canudos na mão. Olhei-o com atenção e virei o rosto para o livro sobre escravos. Negros sem camisas, fugindo. Canudos não deixava de ser uma favela de excluídos e foi devastada pelo Estado por ser considerada monarquista, foco de resistência.

De um Quilombo...

A fuga dos traficantes de um quilombo para outro.

 

Minha percepção fez o resto: o Brasil não muda, vive de mudanças em conta gotas, que se fossem feitas a tempo, poupariam o país de muitos sofrimentos. A invasão do Alemão é um ato para a audiência. Para a “retomada” da alma é preciso muito mais, coisas que câmeras não mostram e que não dão audiência.

Quem tem que mudar somos nós.

A impressão inicial falou muita coisa sobre o que vivemos hoje em 2010, que não é muito diferente do que ocorria no final do século XIX. A promiscuidade da Casa Grande e Senzala continua.

José Bonifácio tentou incluir o fim da escravidão na Constituição de 1823. Não conseguiu. Bonifácio me lembra o antropólogo Luiz Eduardo Soares que mais de 150 anos depois teve que se exilar, como Bonifácio que foi exilado, por tentar consertar velhos erros.

O maior argumento da oposição escravocrata era que os negros tinham teto e comida assegurados e que na rua morreriam de fome. Patrões piedosos e escravos desprotegidos.

Erros sociais, erros espirituais.

 

Correntes

Os proprietários dos escravos tinham medo de uma revolta, nem podiam dormir direito com receio de que os africanos os esfaqueassem à noite em suas camas, exatamente como ocorre hoje quando a classe média e alta se tranca em prédios cercados por seguranças e grades. No passado, os donos engravidavam as escravas, tanto pela mania brasileira de ter vantagem, como pelo fato de que eles eram donos dos seus corpos. Hoje, a questão é que há um grande consumo de drogas e é estranho ouvir os mesmos consumidores pedirem que os traficantes sejam eliminados e as favelas “pacificadas”.

“… A CORJA IGNARA QUE POVOA AS FAVELAS TUDO PODE (…) O PRÓXIMO PASSO É NOS TRANSFORMARMOS NUM HAITI, O ÚLTIMO DEGRAU DA DECADÊNCIA HUMANA…MAS NÃO ESTAREI VIVO ATÉ LÁ…” Esse é um texto que encontrei na internet escrito recentemente por um senhor a respeito dos negros de classe média baixa e pobres residentes no mesmo bairro de classse alta. Provavelmente o autor da “reflexão” participa de missas e cultos, lê a Bíblia e se jacta de ser religioso, mas não entende o que a própria Bíblia explica.

Tropa de Elite ou Capitões do Mato?

As esposas dos senhores de engenho passavam as tardes conversando com as escravas, para não enfrentarem a própria solidão. À noite as escravas dividiam a cama com o patrão.

Ontem, quando adentrei na fila de apostadores esperançosos na lotérica mais próxima, o sistema estava fora do ar, breves momentos nos quais o sistema verdadeiramente cai, e ouvi: “Tenho 80 anos, esse país não tem jeito!”, vociferou a senhora, que não aparentava possuir as tais 8 décadas de “suplício”, com contas a pagar na primeira posição da fila de idosos, impaciente, por ter que esperar.

“Eu acredito no MEU país”, disse sem altercação.

Quando a respondi, não disse que acreditava em UM Brasil, no Brasil de todos, pois são MUITOS os Brasis, como são muitas as almas. Disse que acreditava e acredito no país que posso construir a minha volta, à minha imagem e semelhança.

Esse país é MEU porque eu não posso viver sem acreditar, como não posso esperar a contribuição sem contribuir, não posso caminhar se não acredito na força das minhas pernas. Como querer paz se não dou paz, como querer amor se não dou amor?

Eu não reclamo, faço. Mas isso parece que não vale nada em um mundo de aparências.

Na saída da lotérica, passei na porta do shopping bem alimentado e uma jovem bem alimentada, carregada de bolsas de grife, emitiu o seguinte pensamento para o seu amigo sob o jugo benéfico do ar condicionado:

“Tem que matar. Não pode deixar criminoso em penitenciária de segurança, tem que matar”, a “sinhá-moça” repetiu com seus óculos de grife.

Democracia de exceção, que beleza! O que serve para uns não deve servir para todos.  Muitos pensam assim, ela não é única mas a sinhá-moça deu o azar de passar por mim, que não admito ouvir isso e ficar calado. Não me assustaria de saber que ela faz parte de um grupo religioso ou tem amigos em ONGs.

A sensação, melhor dizendo, a regressão que vi – ou revi – nesses últimos dias é que nada mudará no país, no mundo, sem uma mudança interna. “Ter” uma religião ou uma posição social não é suficiente para te transformar em uma pessoa melhor, mas no mundo das aparências vale muito. De fato, as pessoas querem ser iludidas. A sinhá-moça sabe, com toda a certeza, que matar ou expulsar traficantes escravos não é o suficiente sem que os filhos dos senhores dos engenhos mudem, que abram mão de alguns dos seus prazeres em prol do coletivo, mas apesar disso ela não quer saber.

A verdadeira mudança é feita em silêncio. O clamor das massas serve para dopar e não para consertar, pode até servir para alertar, mas depois de uma boa noite de sono sem nenhum escravo pronto a clamar por liberdade na ponta da faca, não há quem não resista em acreditar que tudo está melhor, que há ordem e progresso.

Muitas vezes quando escrevo penso em apagar tudo e não publicar mais nada, pois me sinto falando com as paredes. Mas cada um desses exemplos citados, ao invés de me desestimularem, me forçam a seguir em frente, seja eu um Dom Quixote, um Profeta Gentileza ou eu mesmo.

Pena tenho, dos Escravos dos próprios prazeres e mentiras que NÃO se libertam, mesmo com a chave nas mãos.

Se falta AMOR, falta TUDO.

CORJA IGNARA.

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