O aleatório em nossas vidas (Livro O Andar do Bêbado)

“Deus é o próprio conjunto de leis que rege a natureza”, Leonard Mlodinow.

Se o físico superstar Stephen Hawking disse que o livro O Andar do Bêbado do físico Leonard Mlodinow (Editora Zahar) é “um guia maravilhoso e acessível sobre como o aleatório se manifesta em nossas vidas“, quem sou eu para refutá-lo?

Curiosamente, Mlodinow é um dos sobreviventes do atentado terrorista de 11 de setembro de 2001. Coincidência? Acaso?

Como não acredito em coincidência ou acaso, muito me interessei pela obra, para que eu pudesse ter contato com um ponto de vista “não-junguiano” sobre o assunto “acaso” e “causa-efeito”. O autor (que esteve no Brasil para a Bienal do Livro no Rio, e que trabalhou nos anos 1980, como roteirista nas séries McGyver e Jornada nas Estrelas: A Nova Geração) se põe contra a intuição e alega que tudo o que ocorre conosco é apenas resultado de opções lógicas, muitas desprezadas.

Mlodinow diz que “a resposta humana à incerteza é tão complexa que, por vezes, distintas estruturas cerebrais chegam a conclusões diferentes e aparentemente lutam entre si para determinar qual delas dominará as demais. Quando lidamos com processos aleatórios – seja em situações militares ou esportivas, questões de negócios ou médicas –, as crenças e a intuição muitas vezes nos deixam em maus lençóis”.

 Será?

E como fica a intuição nessa história? Seria o vilão? Para o autor, a intuição até pode dar certo, mas não é comum, é incomum. Há aleatoriedade e incerteza antes. Para os familiarizados com ficção científica e teorias quânticas, há um paradoxo que prega que se um viajante do tempo voltasse ao passado para impedir que um evento futuro ocorresse, ele de fato, conseguiria mudar o “futuro”, mas esse “novo futuro”, a nova possibilidade, não faria parte da linha do tempo original, mas de uma linha paralela, ou seja: o futuro não seria afetado na linha de tempo original, mas essa mudança ocorreria sim, em um outro plano. A história teria então, duas possibilidades e não mais uma como anteriormente, mas ambas não se misturariam. Seria como um backup universal que duplicaria a ação, mas não apagaria a matriz oficial. Esse é o paradoxo do não livre-arbítrio.

 E o que o livro de Mlodinow explica é que não há livre-arbítrio, mas possibilidades matemáticas, por mais absurdas que sejam. A insistência é um desses fatores que levam ao sucesso, como por exemplo na questão dos autores que ouvem vários nãos em relação aos seus livros, uma rejeição repetida, antes que suas obras se tornem grandes sucessos. A lista dos autores desprezados é imensa. Os que desistem ficam fora da disputa.

 “O sucesso resulta tanto de fatores aleatórios quanto de habilidade, preparação e esforço. Portanto, a realidade que percebemos não é um reflexo direto das pessoas ou circunstâncias que a compõem, e sim uma imagem borrada pelos efeitos randomizantes de forças externas imprevisíveis ou variáveis”.

 “A teoria da aleatoriedade é fundamentalmente uma codificação do bom senso. Mas também é uma área de sutilezas, uma área em que grandes especialistas cometeram equívocos famosos e apostadores experientes acertaram de maneira infame”.

 Leonard Mlodinow

O livro (re)apresenta conceitos matemáticos (lógicos per se) que explicam que os ciclos de sucesso/fracasso/acerto/erro não são resultantes exclusivamente de escolhas humanas (apesar de estarem intimamente ligados a) mas de aleatoriedades. Um dos exemplos que o autor dá, é curiosamente interessante para nós brasileiros: o técnico de futebol. Há um ciclo de vitórias quando o técnico chega e algum tempo depois, até mesmo após ter sido campeão brasileiro, ocorre um ciclo de fracassos e crises. Esse elemento desagregador não seria responsabilidade nem do técnico, da imprensa e nem do time, mas de um ciclo inevitável de subidas e quedas, e mais especificamente do acaso, da aleatoriedade, segundo teses matemáticas modernas, quase quânticas.

 Nos anos 1930, o tcheco-americano Kurt Gödel – amigo de Einstein – provou que a maior parte da matemática deve ser inconsistente ou então conter verdades que não podem ser provadas.

 Mlodinow inicia o livro com um exemplo paterno:

 “Às vezes ocorrem coisas que não podem ser previstas”, disse-lhe o pai. “Ele me contou de quando, em Buchenwald, o campo de concentração nazista em que ficou preso, já quase morrendo de fome, roubou um pão da padaria. O padeiro fez com que a Gestapo reunisse todos os que poderiam ter cometido o crime e alinhasse os suspeitos. “Quem roubou o pão?”, perguntou o padeiro. Como ninguém respondeu, ele disse aos guardas que fuzilassem os suspeitos um a um, até que estivessem todos mortos ou que alguém confessasse. Meu pai deu um passo à frente para poupar os outros. Ele não tentou se pintar em tons heroicos, disse-me apenas que fez aquilo porque, de qualquer maneira, já esperava ser fuzilado. Em vez de mandar fuzilá-lo, porém, o padeiro deu a ele um bom emprego como seu assistente”.

 E concluiu: “Não teve nada a ver com você, foi um lance de sorte, mas se o desfecho fosse diferente, você nunca teria nascido.”

 Que coisa né? É uma forma de ver a vida: a aleatoriedade.

 “O papel do acaso em nossas vidas não é exclusividade dos extremos. O desenho de nossas vidas é continuamente conduzido em novas direções por diversos eventos aleatórios que, juntamente com nossas reações a eles, determinam nosso destino. Como resultado, a vida é ao mesmo tempo difícil de prever e difícil de interpretar”.

 Leonard Mlodinow se debruça sobre as mais diversas teorias matemáticas, explicadas com muita exatidão, até mesmo para pessoas que como eu, não gostam de cálculos. O livro é um primor de humor e exatidão logística, explicando todas as teses, como por exemplo o fenômeno chamado de “efeito borboleta”, que prediz que ínfimas alterações atmosféricas, como as causadas pelo bater das asas de uma borboleta, poderiam ter um grande efeito nos subsequentes padrões atmosféricos globais. O autor confessa que “essa noção pode parecer absurda – é equivalente à ideia de que a xícara de café que você tomou de manhã poderia levar a alterações profundas em sua vida. No entanto, isso é efetivamente o que acontece”.

 Para fechar a resenha, mais uma história deliciosa:

 “NO OUTONO DE 1941, alguns meses antes do ataque japonês a Pearl Harbor, um agente de Tóquio pediu a um espião em Honolulu que fizesse um relatório sobre os navios presentes no porto. O pedido foi interceptado e enviado ao Escritório de Inteligência Naval. A mensagem chegou a Washington, decodificada e traduzida, em 9 de outubro.

 Algumas semanas depois, ocorreu um incidente curioso: os monitores americanos perderam o sinal das comunicações de rádio de todos os porta-aviões conhecidos na primeira e segunda frotas japonesas, perdendo com isso todas as informações sobre sua localização. Então, no início de dezembro, a Unidade de Inteligência em Combate relatou que os japoneses haviam alterado seus códigos que identificam a fonte de uma transmissão de rádio.

 Em tempos de guerra, esses códigos revelam a identidade de uma fonte, não só para os aliados, mas também para os inimigos; por isso, são alterados periodicamente. O fato de que os japoneses os tivessem alterado duas vezes em 30 dias era considerado “um passo na preparação de operações em grande escala”.

 Dois dias depois, foram interpretadas e decodificadas mensagens japonesas enviadas a representações diplomáticas para que destruíssem imediatamente a maior parte de seus códigos e queimassem todos os documentos confidenciais. Por volta dessa época, o FBI também interceptou uma ligação telefônica de um cozinheiro do consulado havaiano para alguém em Honolulu, informando, muito empolgado, que os oficiais estavam queimando todos os documentos importantes. O diretor-assistente da principal unidade de inteligência do Exército, tenente-coronel George W. Bicknell, levou uma das mensagens interceptadas a seu chefe quando este se preparava para sair para jantar com o chefe do Departamento Havaiano do Exército. Era o final da tarde de sábado, 6 de dezembro, um dia antes do ataque. O superior de Bicknell levou cinco minutos para analisar a mensagem, depois a deixou de lado, considerando que não tinha importância, e saiu para jantar. Quando analisados em retrospecto, esses eventos parecem anunciar um grande mau presságio; por que, estando de posse dessas informações, ninguém foi capaz de prever o ataque?

Resposta: Em qualquer série complexa de eventos na qual cada evento se desenrola com algum elemento de incerteza, existe uma assimetria fundamental entre o passado e o futuro”.

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COINCIDÊNCIAS segundo DEEPAK CHOPRA

COINCIDÊNCIA

A Palavra coincidência seria quase uma conspiração de improbabilidades.
Várias coisas conspiram, ocorrem ou ocorreram ao mesmo tempo. O próprio incidente tem significado especial para a pessoa. É frequente ter uma natureza simbólica; há sempre algo mais profundo do que o próprio incidente. Causa uma emoção intensa por quem passa pela experiência; às vezes transforma totalmente a vida da pessoa.

Se você prestar atenção a essas conspirações, verá que elas são “dicas”, são mensagens do mundo e assim poderíamos participar conscientemente da criação de nosso próprio destino.

CONSCIÊNCIA

Uma grande história zen diz que havia dois estudantes observando uma bandeira. O primeiro dizia: – olha, a bandeira está se movimentando. O segundo diz: – não, o que está em movimento é o vento. Chega o professor e eles perguntam: – o que está se movendo é o vento ou a bandeira? E o professor diz: – nem o vento, nem a bandeira. O que se move é a consciência.

O UNIVERSO NUM PONTO

No nível da realidade quântica, a informação está embebida em energia. Ao nível quântico tudo é indivisível. Não há separação entre mim e você porque somos todos parte do vasto universo de informação e energia. Neste exato momento, se pegássemos um pedacinho do espaço quântico aqui entre meus dedos, teríamos o universo inteiro. Toda a energia e informação está bem aqui, nesse ponto entre meus dedos. Notícias da televisão estão passando aqui agora, por exemplo. Você não pode ver apenas porque não tem os instrumentos certos. Mas está tudo aqui, só que em diversas freqüências.

CÉREBRO

Apenas por um momento, feche os olhos. Agora pense no seu quarto. Veja sua cama, as paredes. Agora abra os olhos. Você viu seu quarto, claro. E assim que você viu essa imagem, um feixe de fótons, luz, acendeu em seu cérebro. Mas antes de pedir que você visse essa imagem, onde ela estava? Onde está a memória até o momento que decidimos lembrar? A memória não está no cérebro como tanta gente diz. As pessoas dizem isso porque se alguém tem um derrame pode perder a memória. Mas hoje os mais brilhantes cientistas do mundo estão afirmando que a memória não está no cérebro. O cérebro é apenas um harware, como um rádio. Não há prova cientifica de que o cérebro produza pensamentos. Ele os decodifica. O que ensinam as grandes escolas espirituais é que o pensamento vem da alma, do verdadeiro eu. Para além dos olhos da carne e dos olhos da mente estão os olhos da alma. É aí que temos memória, insights, imaginação, entendimento, intenção, curiosidade, sabedoria, criatividade. Hoje alguns cientistas começam a descrever esse domínio, que chamaremos de realidade virtual. É aí que estava o pensamento, antes de você tê-lo tido.

REALIDADE VIRTUAL

A realidade virtual é imortal. E infinitamente correlacionada. É o software do universo. Esse nível de realidade é silencioso. A mente está sempre falando, mas aqui há silencio profundo. É eterno, porque nunca morrerá porque nunca nasceu, sempre esteve lá. Não tem energia, mas toda energia vem daí. Esse nível de realidade não tem tempo, é a criatividade infinita, o potencial infinito. Esse nível de realidade tem um infinito poder de organização. Esse nível de realidade é a nossa própria alma.

A ORDEM NÃO MANIFESTA O tempo linear é a forma da natureza não nos deixar experimentar tudo ao mesmo tempo. Mas há um mundo não manifesto onde tudo – passado, presente e futuro – está contido. Imagine que está lendo um livro, na página 70, e ele é uma história sobre você. Vai para a página 22 é a história também é sobre você, só que no passado. Na página 130 a história continua sendo sobre você, porem no futuro.

Você é que está lendo essa página agora. É assim que funciona a realidade. Volta e meia acessamos esse mundo não manifesto. Se a informação vem do passado, dizemos: oh, é das vidas passadas; se vem do futuro, dizemos: – oh, é uma profecia, uma clarividência. São palavras para descrever o que o poeta Rumi já disse de outra forma: “O mundo real está atrás das cortinas; na verdade não estamos aqui, esta é a nossa sombra. A experiência do amor não só como sentimento, mas como verdade maior da criação, o êxtase que vem daí, nos trás a memória da ordem submanifesta do ser, de toda a mágica da vida”.

Deepak Chopra (médico e espiritualista indiano)