A RESPOSTA SEMPRE ESTÁ AO NOSSO ALCANCE.

Faz um ano que iniciei este blog. Então vamos lá: “Parabéns pra você nessa data querida!”

Há um ano eu nem imaginava que teria um livro lançado sobre sincronicidades, agora em setembro de 2011, exatamente um ano após a criação do blog. A sequência da história é essa: o parapsicólogo Waldo Vieira me aconselhou a escrever um livro, e ainda sem saber qual seria o assunto, intuí que deveria ser sobre sincronicidades, tão constantes em minha vida. O escrevi (quero dizer, a primeira versão dele) e o deixei encostado durante meses, esperando o momento certo. Dúvidas e certezas, na mesma proporção, me impulsionavam e tomei algumas decisões, uma delas apelar para a lei do menor esforço. A primeira escolha que fiz, logo que 2011 nasceu, foi não fazer mais do que eu podia e nem perder meu tempo com quem em nada contribuía para o crescimento coletivo. Durante décadas, assoviei, chupei cana e me equilibrei à beira do precipício, mas eu me disse “chega!” e cumpri a promessa. Reparto responsabilidades e faço a minha parte, somente a minha parte. Não tenho mais cabeça ou energia para fazer o trabalho dos outros. Uma vez ou outra, é até aceitável, mas cobrir os outros toda hora é repetir erros passados e o pior… viver em um círculo kármico do qual não conseguimos nos libertar. Dou amor para receber amor em troca, não contarei história aqui ao dizer que dou amor sem desejar receber amor. Se NÃO há intercâmbio, passo a bola adiante e caio fora. Às vezes demoro demais para tomar a decisão de “cortar o mal pela raiz”, mas estou aprendendo… Mas se “corto”, nunca faço pelo EGO, pelas “minhas” vontades e “meus” desejos. Há que tomar decisões em função do AMOR. Sempre.

Já gastei muito meu “latim” com pessoas que me pediam conselhos e que não me davam ouvidos,  como já fui grosseiramente interrompido ou agredido por quem se recusava a me deixar falar por discordar das minhas ideias. Para mim, hoje, tanto faz me calar ou falar. De preferência, prefiro nem falar, apenas ajo e faço da minha vida, o meu próprio sacerdócio e  do meu corpo e mente, um templo de milagres. Elogiar ou criticar, falar para quem não te ouve ou ser interrompido por quem ouve dá no mesmo: é como a história do policial mauzinho e do bonzinho.

Para estarmos aqui e agora, tivemos que passar pelos anos anteriores, pelo nosso nascimento, pelo encontro entre nossos pais, avós, antepassados, pela criação da humanidade. É uma estrada longa, cheia de percalços e descobertas.

Praça das Garças, Graças e Sincronicidades. Olha o Cristo ao fundo!

Então te faço uma pergunta: como tem sido o teu setembro? Como tem sido o teu ano de 2011?

Para mim, 2011 tem sido um desabrochar de possibilidades após longos anos de planos interrompidos, esperanças frustradas e batalhas árduas por resultados pífios. E é claro, tudo consequência de minhas escolhas, muito bem intencionadas, mas que dependiam de circunstâncias literalmente “além da imaginação”. E que dependiam da boa vontade de outras pessoas.

Xamanismo.

Há 3 dias, um amigo me contou que se casou em um ritual xamânico no interior do Estado do Rio. Ao citar o nome dos condutores da missa, quase caí para trás: são antigos vizinhos do sexto andar do meu prédio, pessoas que me conhecem desde criança. Esse mundo é um ovo mesmo…  Pensemos juntos, escolhas sempre escolhas: casar ou não casar; morar no mesmo prédio ou não morar etc. As linhas e caminhos cruzados fazem parte de quem somos e explicam por que fomos colocados uns nas frentes dos outros. O resto é saber distinguir os chamados, os chamamentos, saber ouvir o sininho da fada. Muitas vezes as respostas estão estampadas em nossas caras, onde sempre estiveram, o tempo inteiro. Nós é que não as vemos.

Existe algum culpado pela nossa “cegueira”? Claro que não. Em primeiro lugar não há cegueira ou erro, só escolhas. O mundo à nossa volta é o nosso reflexo e não dá para ser diferente. Deus é cruel conosco por nos deixar errar, por nos deixar entregues à cegueira? Não, ele só nos oferta a possibilidade de escolhermos entre a linha reta ou a angulosa, entre usar óculos ou não. Mas ao mesmo tempo, inconscientemente, almejamos as linhas tortas para termos certeza absoluta de nossas escolhas, para sabermos, de fato, o custo-benefício de toda essa história. DEUS escreve certo por linhas “tortas”? SIM! A filha dileta de DEUS, a sincronicidade sussurra possibilidades, antecipa caminhos, te entrega os óculos com o grau certo, mas não é oculista.

No começo deste ano, não sabia que rumo tomar, estava grávido, mas ainda não havia dado a luz. Para engravidar, há que se começar de algum lugar, de um vislumbre, uma inspiração, mas a semente dessa nova vida deveria ter uma relação profunda comigo, deveria ser uma ideia/uma filha que fosse minha, mas que viesse tão intimamente do meu coração, que pudesse ser compreendida por todos os corações do mundo. O primeiro passo do universalismo é a esquina de sua casa, simples assim. Tinha que ser uma verdade indiscutível, inabalável. Para seguir adiante com a ideia, em primeiro lugar, disse NÃO a convites que me levariam a descaminhos ou a situações recorrentes, de recorrência mesmo, repetições de padrões, só para pagar contas e continuar fazendo o que “esperavam de mim”. Respirei fundo, contei até mil e disse não. Isso me causou alguns problemas, mas eu precisava ter fé, mesmo que fosse a derradeira fé.

E o que conferia a essa nova ideia de 2011, um aspecto diferente das várias ideias e projetos que tive através das últimas décadas e que “não deram certo”?

Primeiramente, o ano: 2011.

Além da data, simplesmente, decidi olhar para o meu umbigo e observar os sinais que estravam na minha cara o tempo inteiro. Antes eu andava olhando um pouco adiante, além da faixa de segurança “imposta pelo destino” e assim não pude ver com clareza o que deveria ter feito, o que poderia fazer. As respostas para as nossas dúvidas são tão inconscientes, como conscientes. Em um documentário da BBC, sobre relacionamentos e casais, vi que uma pesquisa comprovava que o homem se interessa pela mulher que tém a estrutura óssea, adequada para gerar um filho dele, mesmo que o macho não tenha olhos de raio-X. Como pode? Vê-se que até mesmo para se gerar um filho, é necessário uma confluência de interesses: há o engenheiro, mas também há o operário, não se constrói nada sozinho. Ideias não bastam, é necessário quem as realize. De preferência um anseio coletivo.

Saldanha da Gama, o cara.

No começo de 2011, dei uma de minhas “voltinhas” para refletir e fui à praça ao lado de casa. Sentei em frente à estátua de um militar, que jaz sobre uma escadaria que antes dos meus dez anos, eu temia subir por considerá-la muito alta para um ser pequenininho, que um dia já fui. Lembrei do meu tamanho e olhei a estátua com carinho, um carinho fora do normal. Me aproximei e li o nome do homenageado: Almirante Saldanha da Gama. Mas quem era esse tal Saldanha? Voltei para casa e procurei na internet, havia pouca informação. Catei um velho livro na biblioteca e achei um verbete que contava parte de sua fascinante história: de herói da Guerra do Paraguai a traidor da Pátria, por ter se insurgido contra um presidente-ditador. Saldanha comandou uma revolução, a revolta da Marinha (ou Armada) para depor o presidente Floriano Peixoto, que balançou, mas não caiu e nem renunciou.

Ao fechar o livro, acreditei que a resposta para a grande ideia de 2011 sempre esteve na minha cara, naquele mesmo lugar, no monumento que eu temerosamente escalava com menos de dez aninhos. Minha alma e cabeça começaram a ferver. Dali a alguns dias, comecei a escrever febrilmente, traçar planos, e somei minhas duas paixões: música e história. Pensei “Por que não contar a história do Brasil através de música?” e criei um projeto que sairá do papel ainda este ano, assim espero.

Ao estudar sobre a Guerra do Paraguai, a única amiga paraguaia que tenho, que já residiu no Rio, e com quem não falava há anos, me escreveu em 2011 para dizer que a mãe amada havia desencarnado e que ela havia começado a estudar Cabala. Ao pensar nela e ler sobre o conflito, descobri que um grupo indígena, chamado Kadiwéu, teve forte participação na Guerra do Paraguai. Guerreiros temidos por colonizadores portugueses e espanhóis, defenderam o Mato Grosso contra incursões paraguaias por várias vezes. Eram hábeis combatentes, e exímios cavaleiros. Sua participação salvou a coluna da Retirada da Laguna de ser totalmente destruída pelas forças paraguaias. Fiquei fascinado pelos Kadiwéu, comecei a estudá-los, passei a amar os desenhos feitos em seus vasos, os desenhos minuciosos e simétricos, estampados em seus rostos. Tomei um choque de realidade: me senti um ignorante por assistir seriado estrangeiro e não saber nada sobre os primeiros habitantes do nosso país. Voltei aos livros do meu Darcy Ribeiro amado e antropólogo (Kadiwéu – ensaios etnológicos sobre o saber, o azar e a beleza – 1950).

Kadiwéu

Certa vez, há muitos anos, quando fui com essa amiga paraguaia ao Museu de Belas Artes no Rio, ela viu um dos quadros sobre a guerra e ficou horrorizada. Me falou, sentida, sobre o massacre do povo de seu país. Hoje, sabe-se que não houve heróis ou bandidos, mas infelizmente o ser humano necessita guerrear em função de sua não-compreensão e do não-entendimento do seu papel na construção de um mundo melhor.

Tudo começou a fazer muito sentido para mim.

Lembrei dessas “dicas” do passado e formatei o meu presente.

O que aprendi com essas observações? Que A RESPOSTA SEMPRE ESTÁ AO NOSSO ALCANCE.

Uma boa ideia depende de inspiração e maturidade, isso leva tempo, mas a resposta, essa SIM, sempre esteve por perto!

Mas era tão óbvia que eu me recusava a acreditar.

O nome disso é DESTINO? Não sei, mas a ideia é PURA SINCRONICIDADE.

Saldanha dando a direção.

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O Eclipse da Lua

Riso da Lua

Desci para ver a lua sorrir.

Explicando: hoje, dia 15 de junho haveria um eclipse total que realmente ocorreu. Certamente, não foi um eclipse inglês, mas um brasileiro, pois nenhum dos horários oficiais “bateu” com o que vi no céu. Antes de descer para tomar o banho de lua conferi os horários. Segundo o prognóstico, o ápice do eclipse ocorreria às 17:12, horário de Brasília. No Rio começa a escurecer as 17:30. Na rua, no céu de dia, não vi lua alguma. Pensei, ela deve ter se refugiado, está preparando alguma surpresa.

Assim que desci às 17:15 me perguntei, que surpresas a lua me reserva hoje?

Deixei o destino responder.

Perto de casa, uma pessoa passa de bicliceta ao meu lado e grita: “Grande, Carlos!”

Fiquei matutando um pouco para saber quem era pois não vi seu rosto direito, porque o bicicletante estava à toda. Mas o cérebro capta imagens em velocidade e a checa com o banco de dados mental até obter a resposta: uma baita resposta! Era o Betinho, jogador de vôlei, amigo meu e do meu irmão no colégio. E o que significa esse encontro? A única vez que eu, meu irmão e ele andamos de bicicleta na Lagoa, aqui perto de casa, foi há mais de 30 anos e eu não precisei ver o seu rosto para ter certeza de que era ele. Importante mesmo era a simbologia do encontro, mesmo em velocidade. Encontrá-lo em uma bicicleta, após tantos anos, significa em meu coração que, após pedir muito por isso, o sonho se realizou. Clamei em meu íntimo, a Deus para que me fosse devolvida a pureza dos tempos de criança, para que fossem desfeitos os descaminhos da dor, da traição, do erro, das escolhas imaturas e vê-lo passando por mim, após 30 anos, me respondeu: “Está feito!”

“Grande, Carlos!”

Quando era 18:15 lá estava ela, brilhando no escuro do céu como o sorriso do gato da Alice do País das Maravilhas. Em segundos a bocarra se fechou e  só fui vê-la escancarada às 19:15, completinha, redondinha. Segundo os cientistas e astrônomos a saída completa da penumbra seria as 20:00, porém a lua, antes atrasada, estava adiantadinha, uma hora antes, querendo tirar o pai da forca!

Sob o riso da lua com sua manha de gato, não apenas me senti coeso, em paz com o universo, mas o ganhador da grande mega sena espiritual: o maior dos prêmios: UMA CHANCE DE RECOMEÇAR COM A ALMA E AS MÃOS LIMPAS!

A SINCRONICIDADE DO BRASIL

 

A Sincronicidade das Sincronicidades (ou como as partes fazem o todo)

Não tirei o pé de casa durante alguns dias, talvez dois ou três. Se eu sinto que é para terminar um trabalho sem dar-me trégua, o faço sem crises, mesmo que trabalhe 16 horas seguidas (será a endorfina?).

Meu corpo suporta bem a carga de energia do Poder Criador que nos fertiliza de Amor, a semente da criatividade. E criatividade pode ser Amor ou Ego, depende do objetivo, depende da intenção, da interação. É bom trabalhar com um toque de pureza, pois quando o Ego comanda a ação (como por exemplo, fazer algo para provar alguma coisa), a energia não me parece tão abençoada e o resultado é apenas “a menor parte do todo” e isso te afasta da “maior parte do todo”, ou da “melhor parte”, o que é bem mais agregador, completo, bacana e sincronístico. Vivo meu isolamento de monge escritor, sem muitos problemas, pois para mim todo dia é igual ao dia anterior, caso não se faça por onde, caso não se viva a mágica do dia, e a magia necessariamente não está na rua, está em você, pois todos somos Deuses já que a partícula divina está em nós. É genética, é religião, humanidade e filosofia. Mas não adianta querer ser Deus, não é assim que acontece, não adianta exibir o Deus que há em você sem que haja um entendimento do processo, do que é vivenciar que o todo (Deus) está em você (a parte) porque é assim que acontece, não é algo intelectual, mas precisa de discernimento que nem todo mundo tem, um analfabeto ou uma criança podem sentir essa energia, sê-la e um místico pode ficar só no misticismo ralo.

“Mas eu tenho medo dessa história de parte, de todo”, alguém pode sinceramente argumentar. Mas eu também tenho, só que em outra proporção, em um nível diferente, não como o seu e nem você como o meu. E como mesurar, como saber como estamos? Pois é, não dá para saber porque o Ego interfere no julgamento. Mas o Ego serve para muitas coisas: para os artistas, para os políticos, para os ególatras, para galgar degraus na vida social e profissional, para se sair bem nos encontros, etc. Mas então por que recusar o poder do Ego se o Mundo é Ego? Pois é, essa também é uma questão complexa e que certamente envolve receios e medos. Se o mundo é Ego, por que não idolatrar o Ego? Simplesmente, porque você é diferente, porque você é um astronauta sincronizador e se souber disso, não haverá dor, cobrança ou sofrimento. Ah, mas minha mulher, meus amigos, meu filho, meu patrão, a sociedade não entendem, não querem saber, não ajudam, etc. Então dê o seu jeito. E separação faz parte da vida, do aprendizado, não dá para ter tudo para sempre. Tudo é finito.

A soma, quase sempre é difícil de conciliar. E a união dos interesses e necessidades não dependem só de você, dependem do todo, mas é útil entender o  todo através do que é mais “preciso” e do que é “desejado”. Hedonismo e prazer demais não ajudam muito a quem quer se interiorizar. Esses são amigões do Ego, que na maioridade das vezes é péssimo conselheiro.

Voltando ao primeiro parágrafo, fiquei alguns dias sem sair de casa. Após (quase) fechar 3 trabalhos, vi o céu azul e me dei uma folga: “Hoje vou espairecer”. Decidi ver os 140 metros quadrados da tela fenomenal Guerra e Paz de Cândido Portinari (1903-1962) exposto no Theatro Municipal no centro da cidade. Antes, fui entregar um presente de natal para um amigo em um bairro próximo. O prédio era no fim de uma longa rua e ninguém atendeu o interfone. Então um rapaz, morador do prédio que não conheço surgiu e pedi a ele que entregasse o pacote. Pode ter sido um pedido meio “mala”, a pessoa poderia nem querer fazer (e tem todo o direito), mas eu pedi porque senti que era para pedir e nem pensei muito, foi como um fluxo, ou pedia ou ficava com o pacote na mão.  Ele entrou no prédio com o pacote e agradeci. Bacana. Quando me virei para ir embora, vi que bem pertinho, em um larguinho no final da rua havia um santuário. Fui até lá e era a Virgem de Fátima, minha grande amiga. Fui lá e agradeci pela companhia. Me senti abençoado, no caminho certo.


Em direção ao Municipal, ali na esquina, encontrei um chafariz de 1807 (Na foto, não dá para ver a data com precisão, pois como se vê o monumento está pichado). A família Real, fugida de Napoleão, cá chegou em 1808, o monumento é do ano anterior. No Rio de Janeiro, não é difícil encontrar traços do antigo Portugal, mas ter visto o chafariz naquela hora me encantou pois um dos trabalhos que estou escrevendo fala sobre portugueses, índios e negros.

A fila para entrar no Theatro Municipal dava a volta no quarteirão. Como me preparei para uma situação dessas, levei um livro sobre a Guerra do Paraguai para ler na rua. Meu último lugar na fila era em frente ao Clube Militar, que tem dois alto relevos na parte externa do prédio com imagens da… Guerra do Paraguai. 10 minutos depois que cheguei, um amigo das antigas, que fiquei sem ver por mais de uma década, saiu do tal prédio. Nos últimos quinze anos só nos encontramos duas vezes e ambas em 2010: em uma rua perto de casa no início de 2010 e agora. No primeiro encontro, ele me contou da decisão que havia tomado de mudar de profissão porque seu coração o disse e acrescentou que estava feliz. Nesse nosso segundo fortuito encontro, no final do mesmo ano, agora em dezembro, ele me abraçou e falou que estava trabalhando no Clube Militar em um esquema bem mais legal. Ele surgiu no início e no fechamento do ano para passar a mensagem. O amigo abandonou o que nada mais valia para ele, deu uma pernada no Ego e se desapegou, mas para isso teve que ralar, se repaginou, melhorou, progrediu, mas o melhor dele ainda estava intacto: o coração. Na hora, pensei, é claro, que nenhum encontro desses é casual. Nos encontramos em datas simbólicas, início e fim de ano, porque estamos entranhados com a mesma energia: a mudança interna e externa.

Subitamente uma Deusa surgiu na avenida principal em carreata veloz, seguida por vários ônibus festeiros como barcas de quatro rodas: era Iemanjá a frente do cortejo em direção à praia de Copacabana. Iemanjá, linda, nos abençoou com seus longos cabelos e sua vestimenta branca com as mãos doando luz, como Nossa Senhora. A súbita cena me preencheu a alma, pois toda boa surpresa não marca visita, te pega pelo colarinho, te beija sem pedir. Ao vê-la, me senti leve, fazendo parte de algo muito especial, muito lindo, integrado, coeso e único. Sorri, quase chorei.

Na fila, jovens falavam das férias, que estavam loucos para deixar a cidade e de preferência o país. “Quero ir para a Austrália”, “Quero ir para Portugal ficar um ano” e uma menina acrescentou: “Vou trabalhar de garçonete em Lisboa”, etc (um deles falou: “Canadá não, porque é muito frio”). Todos, obviamente, empregados, mas insatisfeitos. E o papo me chamou a atenção, porque eu não estava ali naquela fila gigante para ver um quadro, mas para ver o Brasil, para conhecer o Brasil, para me reconhecer no meu país, no nosso país, para me emocionar e atrás de mim, outros estavam ali para ver um quadro, que poderia ser de qualquer artista, brasileiro ou não, tanto faz. Mas entre nós, eu e eles, apesar de fisicamente próximos, havia uma barreira interna enorme de percepções diferentes da vida e de diferentes objetivos: eles querendo se encontrar do lado de fora e eu querendo me encontrar do lado de dentro.

Portinari é o pintor da alma brasileira. O que se pode entender da obra que representa a brasilidade se ela não existe em seu coração? Só se poderá ver exterioridades, cores e tinta, mas não senti-la, vivê-la com a sua alma.

Depois de uma hora na fila, entramos no Municipal, reformado, lindo, uma coisa de louco e teve inicio uma projeção lindíssima contando a história do quadro Guerra e Paz de Cândido Portinari. O quadro havia sido exposto pela primeira vez, ali mesmo no Theatro em 1956 quando Juscelino Kubitschek era o Presidente. Tenho uma ligação espiritual muito grande com Juscelino e estando ali frente a frente com aquela obra monumental, de extrema beleza, o que eu poderia fazer a não ser me emocionar? A arte tem um poder impressionante de nos liberar, de nos libertar, de dar razão a tudo, de dar vazão a tudo.

Depois do Municipal, quis mais arte e fui para a Caixa Cultural, ao lado, para ver se havia exposições ou mostras.  No térreo havia um conjunto de tapeçarias inspiradas na tela Guerra e Paz. Uma delas me chamou a atenção: um Cérbero, o cão de três cabeças (foto). Quando se vê os dois painéis que compõem Guerra e Paz há tantos detalhes, que não há como perceber tudo, não há como reconhecer todas as figuras, a riqueza de detalhes é incrível e o Cérbero da tela me passou batido, mas lá estava a reprodução do animal em uma tapeçaria, dando-lhe o destaque necessário. O nome de um dos personagens do livro que estou escrevendo se chama… Cérbero.

Subi para o segundo andar. Na primeira sala dei de cara com fotos feitas por Darcy Ribeiro, o grande Darcy, sobre os grupos indígenas Kadiwéu, Urubu-Ka’apor e Ofayé-Xavante nas décadas de 40 e 50. Tudo absolutamente lindo, imperdoavelmente lindo, foi como uma pancada de brasilidade na minha alma. Darcy tudo pode. Mais uma vez associei: o trabalho que estou escrevendo é sobre portugueses, índios e negros. Mas me vi, debruçado, embevecido sobre um determinado grupo: os Kadiwéu. Seus traços belos parecem uma mescla de orientais com andinos e seus rostos, pintados com desenhos geométricos que formam mosaicos, indesculpavelmente lindos. Os índios Kadiwéu ou Cadiueus salvaram uma coluna brasileira (a Retirada da Laguna) de ser totalmente destruída pelas forças “inimigas” na Guerra do Paraguai. Não sabia disso e a fascinação começou a fazer sentido.

Na segunda sala, assisti a um maravilhoso documentário sobre o pensador negro americano Richard Wright. Parecia que estava tendo uma aula – bem criativa, por sinal – sobre portugueses, índios e negros. Lembrei do que escutei na fila, sobre jovens que nada querem com o Brasil: me vi tomando banho de Brasil enquanto os outros se enxugavam. Pois é, cada um na sua.

 

Ver exposições sobre temas que estou escrevendo exibe uma sincronia: de que estou fazendo a coisa certa na hora certa, sintonizado com o meu destino e com o destino do universo.

 

De volta para casa, no metrô, ao meu lado, três rapazes começam a falar que estavam loucos para deixar a cidade e de preferência o país. “Quero ir para a Austrália”, “Quero ir para Portugal ficar um ano”. Mas foram acrescentadas outras rotas de fuga como Suécia, Finlândia, Nova Zelândia e Noruega.

Portinari tinha um pensamento curioso: “Todas as coisas pobres e frágeis se parecem comigo.”

 

Sim, somos pobres e ricos, frágeis e fortes, brasileiros ou não, queremos ficar aqui em “nossa” terra ou não, queremos mudar ou continuar, queremos tudo e nada.

 

Mas só uma coisa é importante, a mais importante de todas: estando sincronizado, todas as escolhas são abençoadas, porque elas nos pertencem e nós ao mundo.

 

Não é só isso, mas é isso e isso é TUDO.