AQUARIUS

aquarius

Aquarius é o novo filme do meu “novo” diretor favorito, o recifense Kleber Mendonça Filho. Cercado de polêmicas, até mesmo em função do momento político, suas incansáveis 2 horas e meia de projeção exibem um dos mais profundos retratos já feitos sobre o Brasil. De sempre e o atual.

Há 3 anos, assisti ao meu primeiro Mendonça: O Som Ao Redor. Um dos meus filmes brasileiros favoritos. O diretor de Recife toca em assuntos delicados aos patrícios: a mal resolvida questão escravocrata, o clientelismo, o poder das oligarquias, uma secular hipocrisia familiar e a luta de classes. Mesmo espinhosos os assuntos são tratados com tanta maestria que até sincronicidades suscitam.

A única menção ao roteiro, que precisa ser feita, é que a escritora e crítica musical Clara (Sonia Braga, maravilhosa) reside no antigo edifício Aquarius na orla de Boa Viagem. A moradora é assediada para vender o imóvel com argumentos conhecidos:  receber mais do que vale o apartamento para viver em um outro novinho em folha com segurança, porteiro, academia, piscina.

Especulação imobiliária, gentrificação.

Clara se recusa a vender. Ela pensa, por que abrir mão da história de sua vida, de suas memórias, do espaço físico onde os filhos foram criados, dos seus móveis, das dezenas de álbuns de fotografias, de seus antigos LPs, etc… ?

Tendo dito um não à construtora, tem início o martírio pessoal de Clara, a cada dia mais pressionada e isolada.

AQUARIUS-de-Kleber-Mendonça-Filho-678x381

Seria apenas teimosia e apego não se desfazer do imóvel ou é nosso direito viver de uma maneira aparentemente não prática em um mundo onde todos são práticos? Onde o Deus dinheiro reina e pode tudo? As vantagens que nos oferecem são realmente vantagens? É melhor para o indivíduo se perder na multidão e ser igual a todo mundo? Seria um melhor profissional por ter um diploma ou por ter estudado no exterior?

Aqui reside a grande questão do filme e também do por quê eu ter escrito sobre ele em um blog sincronístico.

Não vou a uma exibição esperando encontrar respostas para a minha vida mas geralmente é o que ocorre, como que me dizendo siga em frente, nada tema, tá na boa. Ambas as profissões de Clara são ou foram as minhas, escritor e crítico musical e ao entrar na sala escura eu não sabia disso pois evito ler resenhas sobre filmes antes de assisti-los. Durante uma entrevista que Clara dá a um jornal local fica clara a distância entre o mundo profundo da entrevistada e os rasos comentários da repórter e da fotógrafa. Nesse momento, Clara comete duas sincronicidades em pleno filme: cita o disco Double Fantasy, o último de John Lennon antes de ser assassinado e relata uma baita história sincronística (que não posso contar) e puxa do meio de sua coleção o álbum de uma banda local dos anos setenta que poucos conhecem e sobre a qual eu havia escrito no dia anterior. Quando começo a duvidar, tipo deixa disso, é apenas “coincidência” surge na tela, durante um bom tempo, uma placa de carro com o dia e mês do meu aniversário, ocorrido há menos de uma semana. Aí me digo, pode parar e surge outra placa de carro com a data, dia e mês do aniversário do meu único irmão. Fora, as correlações sentimentais que fiz com o ambiente familiar retratado no filme, a doença, as separações, as mudanças, as “ingratidões”, a estocada final foi ter ouvido em alto e bom som (ao redor) o nome do bairro carioca onde faço um trabalho muito importante e de um próximo objetivo. Como se em um roteiro escrito há muito tempo estivessem falando sobre o meu momento atual e dizendo o que ainda acontecerá.

Fora a beleza do filme, fora as sincronicidades, a mensagem de Aquarius é ser forte.

Seja quem você é e aprenda diariamente com as suas escolhas. Aprenda com seus erros, não somos perfeitos, não seja intransigente, e nem seja burro. Mas seja você. Não se devote ao dinheiro, ao status, à hipnose coletiva. Encontre em seu âmago a sua verdade. Se for preciso lutar, lute. Se for preciso mudar, mude. Se te derrubarem, erga-se. Enfrente a mentira com a verdade. Não deixe que te deixem doente. Seja consciente. Não vilipendie a sua alma. Não se venda. Não ceda a chantagens. Não deixe que pisem em você. Não fuja da batalha se houver uma.

E persista acreditando que há sim heróis vivos.

Então, Viva!

286681

MULTA

A história da semana.

Um conhecido passou um final de semana no Rio. Nos encontramos, conversamos, e falei sobre as diferenças entre as capitais. Disse que antigamente o metrô carioca não funcionava aos domingos e que as lojas não abriam, etc. Ele achou engraçado e comentei que a globalização unifica tudo como se as diferenças regionais/culturais não tivessem importância. “É o progresso”, comentei.

Sem nem saber direito o por quê falei sobre o guarda e o fiscal do cigarro e do pipi. Pois é…  É o Lixo Zero! Quem jogar lixo ou cigarro na rua ou urinar em via pública é multado. Todo governo que se preze – e com buraco nas finanças – descobre, mais cedo ou mais tarde, que além de aumentar ou criar impostos, o negócio é multar.

multa_1

O conhecido achou graça e perguntou: – Mas como se cobra?

– Te pedem a carteira de identidade e devem requerer que se pague na hora…

– Mas e se o cara não tiver dinheiro?

– Vai pra delegacia esquentar um banco – ri.

Nos despedimos e ele seguiu adiante. Ao se dirigir para um bar jogou a guimba do cigarro na rua. Em menos de um segundo, surgiram o fiscal e o policial que estendeu o bloco de notas para multá-lo. Ele lembrou do que eu havia contado minutos antes e não acreditou.

– Senhor policial, eu não sou daqui! Não joguei o cigarro no chão por mal!

– Turista ou não, ninguém pode sujar a rua.

– Por favor, seu policial. Não me multe!

multa_atriz1

Um desconhecido em uma mesa ao lado intercedeu: – Eu também sou turista. Gostaria que em minha cidade multassem quem joga lixo na rua, mas por favor, seu guarda, deixe que o moço recolha o lixo para não ser multado.

Pressionado pela repentina notoriedade, o policial olha para o fiscal e ambos deixam o meu conhecido recolher o lixo para jogá-lo no lixo.

Aliviado, o meu amigo agradece ao estranho.

– Muito obrigado, amigo por ter me ajudado.

Se dão as mãos.

– Nunca mais jogo cigarro na rua, nem em minha cidade! Por falar nisso, de onde você é?

A resposta: a mesma cidade de onde veio o nosso personagem principal.

multa_valores

Sobre Crianças e Escravos.

IMG_20150828_165652168_HDR

Uma história.

No dia do meu aniversário, realizei um antigo sonho: conhecer o memorial dedicado aos “Pretos Novos”, os escravos recém chegados ao Rio de Janeiro, mas que ainda não haviam sido “adaptados” ou “amansados”, por isso mesmo chamados de “Novos”. Desde o início deste blog – que em final de setembro de 2015, comemora 5 anos – venho alardeando minha ligação com o número 28. Para tomar a decisão de ir ao Valongo, soube que neste cemitério haviam sido identificadas 28 ossadas.

A história do local, na verdade um sítio arqueológico, é fascinante: o casal Guimarães comprara uma antiga casa na Gamboa em 1996, zona portuária do Rio, mas ao fazer a reforma, os pedreiros descobriram ossos humanos sob as fundações. Arqueólogos e historiadores da Prefeitura concluíram que a casa havia sido erigida sobre o antigo Cemitério dos Pretos Novos, cuja localização havia se perdido no tempo, ou pior:  esquecida deliberadamente.

Idêntico aos fornos crematórios nazistas, milhares de escravos (oficialmente, cerca de 6 mil) foram atirados ao chão, e não enterrados em covas. Jogavam-lhes terra sobre os corpos em um espaço de 110 metros quadrados – cercado por muros baixos de casas residenciais. As análises dos fragmentos, feitas a partir de 1996, indicaram que os ossos foram queimados após a descarnação em busca de espaço para tamanho número de cadáveres.

IMG_20150828_162911402_HDR

Estar ali, naquele local em 2015, e ver os ossos à flor da terra, me provocou um profundo pesar e reflexão. Mostra-se evidente uma triste característica de nossa “brasilidade”: a negação (ou esquecimento) e a não aceitação dos fatos. Fingir que nada aconteceu, responsabilizar as autoridades e negar o holocausto são faces da mesma moeda. Uma contradição chamada país que se diz amigável, festeiro, e “pacífico”. Todos sabem que “chover no molhado” é responsabilizar as “elites”, mas também é inegável que, como o país foi construído, e tem sido até hoje, quem determina o “modus operandi” é de fato a elite política e econômica.

A comparação entre a carbonização dos corpos no cemitério carioca entre os séculos XVIII (o século das “luzes”) e XIX e os nazistas no século XX é óbvia: os alemães, um povo desenvolvido, também foram capazes de fingir que não viam os judeus serem segregados. Desde que houvesse estabilidade econômica, o resto era perfeitamente aceitável.

Ao revelar ao mundo, os horrores dos campos de concentração alemães em 1945, o General americano Dwight Eisenhower exigiu que os cidadãos de Gotha, enterrassem as centenas de corpos encontrados em um sub-campo de Buchenwald, em Ohrdruf no sudoeste da Alemanha. Após testemunhar o horror, o prefeito de Gotha e a sua esposa se enforcaram.

O Brasil se desenvolveu graças à escravidão, fez vasta fortuna que não foi redistribuída, e ainda aprovou arduamente leis contra o tráfico negreiro, após décadas de muita discussão entre os Senadores. O fim da mão de obra escrava “acabaria com o país”, diziam, e a mudança de escravo para empregado assalariado deveria ser “lenta, gradual e segura”. A comparação com a ditadura implantada em 1964 e a Alemanha da Segunda Guerra são inevitáveis.

Uma questão espiritual e pessoal.

IMG_20150828_172157275_HDR

Ajoelhado perante aqueles ossos, minha cabeça pesou e meu coração se encheu de remorso e vergonha. Senti uma energia tão forte vinda daquele solo, que perdi o ar. Isso me fez lembrar de algumas vivências que tive com escravos, a cultura negra e crianças.

A mais antiga me foi relatada por uma tia, há dez anos. Por volta dos meus dois anos, ela me viu “dar baforadas” e fazer sinais ritualísticos de Candomblé. Minha mãe, assustada, havia pedido para que nunca mais tocassem no assunto.

Quando criança, estudei em colégio público e tive amigos em comunidades próximas. Ao visitar um vizinho negro em um conjunto residencial de baixa renda, o irmão menor dele, talvez com uns 13 anos encostou o cano de um revólver na minha cabeça “de brincadeirinha”.

Com menos de 20 anos, vi a mãe de uma amiga, bastante nervosa, com a presença de um grupo de negros com lanças e escudos na sala de sua residência. Apenas achei curioso, mas fiquei alerta.

IMG_20150828_163328207_HDR

Nesse período, presenciei em meu prédio um porteiro negro impedir uma visita de subir no elevador social porque era negra. Ela disse ser advogada e o porteiro alegou obedecer ordens do síndico. Depois, uma vizinha, professora de inglês, me perguntou por que eu recebia amigos negros em casa.

Uma década depois, vi a mãe de uma namorada incorporar um espírito infantil no dia das crianças e pedir para brincar de carrinho com ela, sentados nós dois, em meio à sala.

Passada mais uma década, um Exu me aconselhou a tomar cuidado com a pessoa invejosa ao meu lado. Era uma ex. Para amenizar, o Exu me pediu para tomar banho de ervas, lavar-me com Sabão da Costa – cuja origem é do Golfo da Guiné na África – e acender velas para as almas dos escravos na Igreja de Nossa Senhora da Lampadosa, no centro do Rio. Ao estudar a história da igreja, soube que, a caminho da forca, Tiradentes fez ali as últimas preces em plena rua, pois condenados não podiam entrar em igrejas, e que se dizia que o escritor Machado de Assis (meu favorito) havia sido sacristão no local, o que é refutado pela falta de comprovação documental, mas fato é que a igreja da Lampadosa é citada no conto “Fulano”, publicado no livro Histórias Sem Data.

IMG_20150828_163532333

Após essas dicas do destino, estudei a história da escravidão no Brasil e certo dia, há alguns anos, assisti a uma entrevista na TV Brasil com a dona da casa, onde hoje é o Memorial aos Pretos Novos. Foi a única vez que a ouvi citar um evento espiritual. Ela havia dito que ao entrar em um departamento do governo para tirar uma documentação sobre a casa, o atendente ficou lívido ao ver que atrás dela havia um grande número de escravos.

Perguntei à dona do local sobre a história relatada na TV e ela me contou que uma médium americana, em visita ao Memorial, contou ter visto espíritos de crianças na área dos ossos, que pediam para brincar, como se nada houvesse acontecido, como se o tempo não tivesse passado.

O que muito me comove é que a descoberta das ossadas ocorreu em 1996, 108 anos após a Lei Áurea e 166 anos após o esquecimento do local do cemitério, em 1830.

Retorno à uma questão anterior e falo das chagas que ainda enlameiam a história de duas nações citadas, o Brasil e a Alemanha. Se esses países não tomarem medidas severas contra o preconceito, ainda reinante, e se não ensinarem às crianças, desde muito cedo, as consequências da cultura do ódio, inevitavelmente veremos os mesmos erros se repetirem.

O que fará a Europa sobre a chegada em massa de imigrantes africanos? Construirá novos campos de concentração? E o Brasil a respeito das domésticas e dos concursos públicos com cota para negros?

Então, de que adianta falar em fraternidade, e amor universal, se ainda acreditam em superioridade racial?

A vida ocorre agora. O resto é memória.

sinc_mae_20_8_15_1921-22 Pablo Picasso (Spanish artist, 1881–1973) Mother and Child.

Viver o hoje, o aqui e o agora é a solução para nos afastar das armadilhas da mente. É um exercício diário, constante, e a bem da verdade, complexo. A tentação é grande em vivermos entre comparações, entre o que foi e o que há. Quando, por exemplo, acreditamos que uma gripe anterior é “parte” de uma gripe atual, por assim dizer.

A mente funciona como uma câmara de eco. Idéias do passado, mágoas, lembranças de ontem batem na parede, e retornam ao ponto de origem amplificadas. E incorremos em grande perda de tempo ao valorizar ecos que não são reais. Uma boa forma de tratar um trauma é não dar-lhe importância. Não desprezá-lo, mas não valorizá-lo. As lembranças não devem nos impedir de agir. A vida ocorre agora. O resto é memória.

Você sabe que o passado “existe”, mas ele já ocorreu, não acontece neste segundo. Por isso todo o tempo usado remastigando o que já foi engolido só cria suco gástrico e úlceras mentais. O coração fica pesado e rubro. Paralisado. O que “resta” após as nossas experiências (do passado) é uma espécie de reflexão. O trauma é o excesso, o eco reamplificado. E quem alimenta tudo isso somos nós quando damos importância a ecos. É a mesma coisa que fazemos ao julgar os outros pelos nossos parâmetros. Cada um é uma experiência única. Mas a maioria precisa de líderes sejam religiosos ou políticos para dizer-lhes o que fazer. Você pode ser o seu líder sem ser alguém desumano ou egoísta. Se você consegue conviver com isso, ótimo. Se não consegue aprenda a negociar ou se afaste…

As coisas que eu posso resolver agora eu resolvo. As que não posso, ou não quero, deixo para quando for possível. É como administrar as contas. Não dá para pagar tudo quando nos vemos entre a cruz e a caldeirinha. Saldamos o que é prioridade e administramos as dívidas. Os luxos (ou excessos) passam a não ter importância. E se alguém depende “miseravelmente” dos luxos para viver…

A pergunta é: como podemos negociar as soluções?

As histórias que relato no texto de hoje dizem respeito a “tratar” o passado de forma terapêutica. Pelo menos é o que ocorre comigo, e tem servido como motivação.

sinc_mae_20_8_15

Tenho algumas histórias com minha mãe, muitas não muito agradáveis. Ela pode ter feito 80% de coisas ótimas, mas os 20% marcaram demais. Hoje, entendo vários dos seus “defeitos”, e não a julgo o que passou, mas sei que influenciaram o que ocorreria depois. Toda ação gera uma reação, muitas vezes inimaginável. Muitos pais, em sua autoridade – ou falta dela – se excedem, e alegam que não o fazem por “mal”, mas por “acharem” que fazem o “melhor para os filhos”. Muito disso é questionável. Mal comparando, é como a questão da maioridade penal ou de castigar os filhos. Há os contra e os favor. Quem ganha? Quem perde?

De todas as artes com as quais me envolvi, o desenho é – para mim – a mais terapêutica. Minha primeira paixão foram as histórias em quadrinhos. Colecionava várias revistas de superheróis, por volta de dez anos de idade. Certa vez, fiz alguma “malcriação” para minha mãe e ela rasgou cada uma das revistas – e era uma pilha -, bem na minha frente. Eu implorava, me agarrava em sua perna, chorando, para que ela parasse. Mamãe prosseguiu dizendo que eu deveria “virar homem”. Vi meus heróis virarem pó.

Para não dramatizar muito, mas já dramatizando, lembro que me ajoelhei perante àquele monte de papel e senti uma dor imensa, muito maior do que o meu tamanho, com apenas uma década de vida. Ninguém merece… Sei que apenas tive revistas rasgadas, e hoje, acho bobo ter chorado por causa disso, mas não eram revistas, eram sonhos. Conheci meninos da minha idade estuprados e vivendo em condições miseráveis, mas essa era a minha “realidade” de menino de classe média. Nunca vi criança de dez anos ter consciência social…

Desde àquela época decidi não mais desenhar. Perdi as forças, por assim dizer. Ainda tentei, mas não estudei, e nem me esforcei o suficiente e acabei deixando para lá. De certa forma, senti que não era mais para mim, que a “missão” era outra e que o tempo daria cabo ou resolveria a questão. Até parecia que eu fazia algo errado quando segurava um lápis… Muitos sofrem bullying no colégio. Meu primeiro bullying foi em casa…

Por que (re)conto essa história? Por que falo sobre não lembrarmos de traumas e recupero um? Para quê?

Passados 40 anos, um amigo me trouxe um presente: uma das revistas, uma das mais simbólicas, dos meus dez anos de idade. Ele nunca soube dessa história. O link entre os fatos foi inconsciente. O amigo serviu de ponte entre o passado e o presente para me intuir a respeito de um desejo relutante: retomar os pincéis.

Sabe a sensação de um filho sair pela porta de casa e voltar 40 anos depois? Qual seria a sua reação? Admoestá-lo ou perdoá-lo? Ter de novo a revista em minhas mãos apagou 4 décadas de intervalo entre um evento e outro. O religamento foi tão intenso que pesquisei na internet grande parte das revistas rasgadas. Nos anos 70, ninguém imaginaria ser possível “baixar” livros ou filmes. Era coisa de Jornada nas Estrelas. Aquela era a época do ter ou não ter. Hoje, grande parte do acervo mundial está disponível, como “energia” e não mais como algo físico, como “matéria”. Mesmo que não seja para lê-las, as baixei para recompor a partitura perdida, rasgada há tanto tempo, e principalmente para me perdoar e perdoar mamãe. Não mais me importa o fato de tê-las fisicamente ou não, isso não faz a menor diferença. Não se chora sobre o leite derramado. O que me importa hoje é compreender e me desapegar de todas as energias e lembranças ruins. E isso nada tem a ver com negação.

Tive vários insights poderosos ao recuperar as revistas rasgadas. O maior deles, voltar a desenhar. E é o que tenho feito. Esta arte abaixo foi feita ontem.

Todo dia é um novo dia para recomeçar.

rosto_moca_2

 

A SINCRONICIDADE DA PADARIA.

assortment of baked bread on wood table

A SINCRONICIDADE DA PADARIA

 

Uma amiga – que chamarei de X – procurou um quarto para alugar. O acordo foi fechado por um quarto e parte da sala para trabalhar. Tudo correu bem até que, uma manhã, minha amiga acordou sobressaltada nas primeiras horas do dia. A vizinha de baixo – era um prédio pequeno, com apenas dois andares – batia portas e andava sobressaltada. Impressionada, X presenciou a vizinha sair pela porta da frente, furiosa, e dobrar a esquina agitada.

Com vontade de tomar um café, X foi a uma padaria duas esquinas adiante. mas desistiu por causa do clima ruim e do péssimo serviço.

Poucos dias depois, a proprietária do apartamento comentou que uma vizinha seria despejada, e pediu a permissão da minha amiga para recebê-la com hóspede por alguns dias e abrigar as suas coisas.

A vizinha era a dona da padaria em que X havia desistido de tomar o café.  Além de ser despejada de casa, a padeira estava falida.

sinc_pao_contas

Apesar de o filho da dona da padaria ter preferido morar na própria padaria – até segunda ordem -, a mãe não quis se desfazer dos móveis, novinhos em folha.

A situação inusitada consistia de: uma moradora que pagava aluguel, mas que não podia mais usar a sala e uma nova moradora que vivia de favor em um pequeno apartamento de dois quartos. Como a dona do imóvel se recusou a dar um desconto à locatária e sugerir um prazo para a amiga padeira procurar onde morar, a inquilina preferiu sair.

Um ano depois de deixar o apartamento, X conversava com um amigo, que trabalha com locação e venda de imóveis. Este amigo, na verdade, a auxiliou na questão de um aluguel impagável.

Após a conversa, o corretor disse que passaria a tarde fazendo visitas, à procura de uma padaria para um cliente. X citou a padaria de um ano antes.

– Onde é? – o rapaz perguntou.

Ao ouvir o endereço, ele disse que por “coincidência”, era a mesma padaria que ele havia recentemente dado 400 mil reais para que um novo sócio pudesse colocar a casa em ordem.

– Mas vou te falar… – o corretor acrescentou. – Essa dona é muito enrolada, má administradora, difícil de conversar e os 400 mil não saldarão todas as dívidas, inclusive trabalhistas.

Muitas são as conclusões que nos servem, inclusive sobre como administramos as nossas vidas, mas a que mais me chama a atenção é que se nada aprendemos com os desafios, e principalmente se não buscamos o autoconhecimento e o entendimento de como podemos contribuir com o nosso crescimento e com o do planeta, seremos apenas uma alma penada a vagar apontando o dedo aos “responsáveis” pelos nossos “fracassos” sem nos conscientizarmos de nossas responsabilidades.

sinc_pao_tartaruga

A Sincronicidade, o Maestro e a Teoria dos Seis Passos.

sinc_banner_10_5_15

O que as sincronicidades significam em termos práticos?

E como unir a interpretação das sincs com nossos sonhos, intuições e transformar todo o pacote em decisões?

Teria toda sincronicidade uma interpretação prática, “ordinária” ou seriam elas apenas conecções com aspectos mais profundos de nossa psique?

Desde que iniciei este blogue, às vezes penso se devo publicar algo, ou não, devido ao “absurdo” de certas situações vividas. Pode até parecer, mas eu não convivo em uma sociedade de bruxos, cercado de magos. Como todos tenho amigos que duvidam do que conto. E como tenho conhecidos bem mentirosos, reflito sobre como diferenciar a mentira da verdade.

Muitas das questões sincronísticas são íntimas e, em tese, apenas me servem. Seria algo como interpretar sonhos através de livros…

Leia as notícias diárias e veja o mundo que nos cerca: guerras, violência, ilusões, aparências. Um mundo consumista que produz lixo que polui o planeta e retorna a cada um de nós através da comida que consumimos. É um ciclo de contaminação. Este mundo não é só externo, ele está internamente em cada um de nós. Se há violência é porque somos violentos.

As sincronicidades se conectam ao universo mas também intimamente a cada indivíduo. Ao mesmo tempo em que a sincronicidade é uma experiência coletiva, também é uma experiência íntima. E como escrevi em outra postagem, se você for uma pessoa profunda, profundas serão suas sincronicidades. E como citei que em toda mentira há uma verdade, e vice versa, também em toda profundidade há superficialidade. Em um mundo complexo, a mente é uma armadilha, que mal conduzida nos faz derrapar em interpretações. Mas algumas interpretações podem ser o som de sinos declamando o final da guerra.

Fui educado como católico, mas não sou dogmático. Utilizo as rezas como mantras. Utilizo as igrejas como locais para meditação. Reinterpreto cada passagem das rezas e mentalizo sobre elas todos os dias, não me prendo ao que decorei. A reza favorita é a que fala sobre as sincronicidades: “Santo Anjo do Senhor, meu zeloso protetor que a ti me confiou a piedade divina, me rege, me guarda, me governa e me ilumina.”

A orquestra toca em sincronia sob a regência de um maestro, que conduz, mas depende e ordena o talento de cada um dos músicos para dar forma à música das Esferas, que soa pelo micro através do macro e ao Cosmos, ecoando pelos buracos negros até aos neutrinos e vice versa. A resposta concreta às sincronicidades me parece estar nesta sequência: “me rege, me guarda, me governa e me ilumina.“

Passei a gostar, ainda mais, desta reza porque a resposta mais simples parece ser a mais óbvia. Paulo Coelho sempre fala sobre a “lenda pessoal”. Basta a você concluir se a sua lenda é uma construção ou uma afirmação. A questão é delicada como entender se você é um teimoso que deixa as oportunidades passarem ou se você está sendo devidamente “regido, guardado, governado e iluminado”, sabendo que ao mesmo tempo suas escolhas “te regem, te guardam, te governam e te iluminam.”

É preciso buscar discernimento e paciência. Saber ter ouvidos. Ou você opta por crescer intimamente para então encontrar o seu lugar no mundo, ou então sua opção é brilhar no mundo para então reencontrar-se intimamente. Talvez viver a memória do que ainda não foi vivido.

O pintor tem o olhar apurado, o caminhante sincronístico também.

Hoje, recebi “indiretamente” uma mensagem sobre alguém que não conheço, que está conectado comigo àquela “teoria dos seis graus de separação”, e que me pareceu uma resposta a uma de minhas demandas.

Assim são as concretudes das sincronicidades: um maestro a reger estrelas e sendo regido por elas.

 

 

 

SINCs do dia-a-dia

sol_nascendo_na_montanha_1c992886f69f1c93f2645d1422df095d_sol_nascendo_na_montanha

 

Comentei sobre o filme espírita “Nosso Lar”. No dia seguinte, cruzei com o ator Fernando Alves Pinto – que trabalhou nessa película – descendo a esquina de casa.

Lembrei do caso do Imperador Maximiliano de Habsburgo-Lorena (primo-irmão de D. Pedro II, que pretendia se casar com Dona Maria Amélia, filha de D. Pedro I. O matrimônio não teve continuidade por causa da morte da princesa). Maximiliano foi elevado à Imperador do México, pelos franceses que o abandonaram à própria sorte. Maximiliano acabou por ser fuzilado pelos mexicanos. No dia seguinte, liguei a TV e assisti “por acaso” a um documentário sobre o pintor Édouard Manet que tornou mundialmente conhecida a cena do fuzilamento.

Pensei em determinada pessoa que não ouvia falar há mais de um ano, ela enviou um e-mail; depois pensei em outra (“Bem que ela poderia aparecer nessa hora”) e ela enviou outro e-mail no mesmo dia, algumas horas depois.

Para evitar fofocas e maledicências, opto por não esconder nada que possa ser mal interpretado (e muitas vezes, ocorre mesmo assim). Só de pensar nisso rolou um disse-me-disse. Expliquei o meu ponto de vista, antes que falassem mais do que eu havia dito. São as coisas chatas da vida que devem ser feitas. Nada a ver com quebra de confiança ou de promessas, foi uma conversa limpa e clara sem intermediários. Quando isso volta a acontecer sempre opto pela conversa, mas nunca deixo o meu ouvido ser lotado de reclamações que descarregam a pessoa e me sobrecarregam. Se a pessoa entender, ótimo, se houver um diálogo, ótimo. Caso contrário que cada um siga o seu caminho. Não é um processo indolor, mas separa alhos e bugalhos, o que sempre é melhor do que manter pessoas unidas à força. No mínimo, o processo de amadurecimento ou ruptura seguirá o seu caminho e a situação não mais ficará estagnada. Quando a sincronicidade indica esse caminho é o que faço.

Sonhei com determinada pessoa. Como era uma energia ruim, preferi dar crédito a este sentimento inconsciente. Sem julgar muito o significado, mas tendo que fazer algo, para não me culpar depois, cancelei o encontro.

Há “amigos” de muitos anos que a gente até gosta, mas que mais aturamos do que realmente gostamos. Há os lamurientos, os exibidos, os carentes, os convencidos, mas há uma espécie que são os que reclamam de tudo, falam mal de todo mundo, te criticam sem parar e se acham seres superiores. Como no exemplo acima, não faço nada para magoar a pessoa até que o sinal vermelho é aceso. A pessoa me prometeu mil coisas, me fez assinar documentos e nada fez, me metendo em uma “pretensa” enrascada, que na verdade me amadureceu. Peguei tudo que pertencia a essa conhecida, meti em um saco e deixei com ela sem dar muitas explicações. Foi para “causar”? Claro que não. Acho que a maior explicação do que esse movimento não existe. Achei indigno jogar no lixo e também não queria mais dar uma de b….a. O movimento, me parece, que foi bom para ambos, se encaixou no padrão de cada um: eu segui o meu caminho, e a pessoa retornou a um estágio anterior sobre o qual ela sempre reclamava comigo.

Estava editando um vídeo gravado na cidade de Santa Isabel, interior de São Paulo e parei para descansar. Liguei a TV e estava dando um caso de disco-voador na cidade de…

Um amigo tem um monte de “medos” e um deles é andar de pedalinho – na água. Ele tem pavor de afundar. Prometi que lhe daria um presente caso ele aceitasse entrar em um pedalinho comigo no final de semana. Após anos de insistência ele topou. E qual não foi a nossa surpresa quando toda a água do lago do pedalinho evaporou por causa da seca que assola o sudeste do país?

De manhã, vi na TV que o beija-flor come duas vezes o seu peso. Sorri e pensei: “Daqui a pouco virarei um deles de tanto comer!”. Horas depois, à tarde, saí para comer. Subi até o terceiro andar de um prédio. Escolhi uma mesa, cercada por várias outras, todas lotadas. Um beija-flor surgiu do nada e estacionou em cima de minha mesa, durante microssegundos. A cena foi tão intensa, que aquele instante mínimo parecia em meu coração um longa-metragem.

Em Rota de Colisão

Assisti a um filme americano inspirado em histórias reais. “Em Rota de Colisão” (Stuck – 2007).

A trama gira em torno de uma enfermeira que atropela um morador de rua. Vi o filme sem saber do título. A enfermeira dirigia o seu carro à noite, preocupada em falar com o namorado ao celular.  Focada em seus próprios interesses, ela atropelou um desempregado obrigado a viver na rua por não ter dinheiro ou emprego. O corpo do desempregado atravessou o vidro do carro e a mulher não parou: levou o carro com o corpo para casa à noite e deixou ambos, o carro e o corpo atravessado no vidro, na garagem, para transar com o namorado. De manhã, a enfermeira foi ao emprego em um hospital e não falou nada para ninguém. Voltou para casa apenas para pegar o celular e não para salvar o homem, que pedia ajuda. Imaginem que a enfermeira tentou de tudo para sumir com o corpo, preocupada apenas com o emprego, no qual ela cuidava de velhinhos e salvava vidas.

Há uma teoria, não descabida, de que ver, ler e assistir a determinados filmes nos liga a situações mentais involuídas, que não nos fazem crescer. Que nos fazem perder tempo. Também é, também pode ser. Mas a vida não é só trabalho, é respiro. Alguns se alienam com coisas “sérias”, outros com “prazeres”. Aí é com cada um. E tem a ver com a experiência que cada um pode e deve vivenciar. Não sou dono da verdade, mas sou o responsável e aprendo com as consequências das minhas escolhas.

Este blog é principalmente, um espaço para depoimentos, pois as sincronicidades, uma mais “absurda” do que a outra, ocorrem diariamente. Que cada um analise se as suas escolhas ainda fazem sentido para você. Para muitos, a vida é um “baile iluminado”, para outros é “um parto”. Para este que vos escreve, a vida é a vida.  E pode mudar em um segundo. A sincronicidade faz parte da vida. Pessoas vêm e vão. A vida prossegue. E a maior lição que duramente aprendo é ter paciência. E “ficar vendo sinais” não resolve. Mas ajuda.

Trailer em português: 

Stuck em francês: 

Documentário sobre a filmagem de Stuck e os fatos reais:

Para quem se interessa por histórias reais e semelhantes, aconselho o filme sobre a vida do escritor, Donald Walsch, dos livros Conversando com Deus.

UMA MORTE PODE SER ANUNCIADA? Eduardo Coutinho e Philip Seymour Hoffman

Dia 2 de fevereiro de 2014.

 “As pessoas não morrem, elas se encantam.”

 Agora às 16h vejo na internet que o documentarista Eduardo Coutinho acaba de ser assassinado pelo filho esquizofrênico. Senti um estranhamento muito grande pois nesta semana assisti ao programa Observatório de Imprensa na Tv Brasil, com a reprise da entrevista com Coutinho. Poderia nem ter ligado a TV, mas a revi. Fora que houve um período de minha vida onde “morei” em 2007 no Edifício Master, tema de um dos documentários de Coutinho, lançado em 2002.

 eduardo-coutinho1

Em seguida, vi em outro link no mesmo jornal que o ator Philip Seymour Hoffman (Truman Capote) de 46 anos foi encontrado morto hoje em seu apartamento no bairro de Greenwich Village. Meio horrorizado, fiz uma pesquisa breve e descobri que a sua morte foi anunciada no facebook há dois dias…  http://en.mediamass.net/people/philip-seymour-hoffman/deathhoax.html

 “At about 11 a.m. ET on Friday (January 31, 2014), our beloved actor Philip Seymour Hoffman passed away. Philip Seymour Hoffman was born on July 23, 1967 in Fairport. He will be missed but not forgotten. Please show your sympathy and condolences by commenting on and liking this page.”

 2010 Sundance Film Festival - "Jack Goes Boating" Portraits

Essa notícia me faz recordar do Presidente Juscelino Kubitschek, cuja morte em um acidente de carro foi divulgada antes mesmo de sua morte verdadeira, também em um acidente de carro, só que em outro Estado…

AS SINCRONICIDADES SÃO NATURAIS COMO NOSSOS PENSAMENTOS

Perceba como as sincronicidades agem em nossas vidas, nos reconectando às nossas essências, nos permitindo tomar decisões baseadas não no voluntarismo, mas em questões inconscientes, para fora e além.

image014

Perceba e reflita sobre o dia-a-dia. É fácil ver gente nas ruas reclamando de tudo (no Rio, então…) e criticando umas as outras.  Outro dia, sorri quando um par feminino passou ao meu lado e uma delas comentou: “Você viu o cabelo da fulana? Que coisa horrível!”. Apesar de folclórico (tá… “engraçado”) e quase inofensivo, esse comportamento alheio não serviria para te aconselhar a ter mais cuidado com as críticas (externas) e principalmente com os seus pensamentos (internos)? Não abrir a boca, mas também manter pensamentos malignos, que crescem em sua mente, não é nada saudável. Não é saudável dizer o que se “pensa” sem refletir, como não é nada saudável perder tempo e energia perdendo tempo com pensamentos inúteis. Não concordar com o que os outros fazem é um direito seu, mas falar (a boca é livre) e não fazer nada para mudar é péssimo. A maior parte de nós não suporta qualquer crítica, porque fomos educados a nos manifestar através do ego. Ao sentir que vamos perder o controle, e não menos a razão – para não nos sentirmos uns zeros a esquerda – bloqueamos toda crítica externa e aceitamos todos os elogios. Nem 8 nem 80: não é para aceitar tudo o que despejam sobre você, pois não se sabe o real motivo das críticas serem feitas (há ego do outro lado também) mas é bom que se abra um espaço para a reflexão. A nossa natural “defesa” bloqueia o que não quer ouvir, reforçando uma autoimagem criada para a nossa proteção. O preconceito e as ideias fixas nascem da mesma fonte.

Há momentos na vida para deixar fluir e outros para tomar decisões.  Não conseguiríamos viver somente nos alienando (ou não… há controvérsias sobre isso).

Quando você tiver que tomar uma decisão e estiver sendo pressionado para isso, não se precipite. Equalize o tempo da consciência e o tempo do mundo. Medite calmamente antes de agir. Não pense em prós e contras, cale-se, silencie e deixe que o Ser Interno dialogue contigo. As sincronicidades abrirão um canal de diálogo, se antecipando no tempo-espaço, e te dando o amparo necessário. Não postergue além do tempo e nunca faça nada pelas costas, mesmo que façam contigo. Seja claro e educado, mas não deixe de agir, pois as energias da procrastinação são poderosas, são como cantos de sereia que afundam os barcos até o fundo do oceano.

Quanto mais expandimos a consciência para fora de nossas “cascas”, e quanto mais ela segue adiante, se reconectando a milhares de outros seres encarnados e desencarnados, mais somos (re)conduzidos ao nosso interior. Fazer essa viagem, em busca de respostas conscienciais, nos leva de volta a um tempo em que a nossa falta de experiência nos permitia, incrivelmente, nos impressionarmos com quase todas as experiências. Aproveitando o dia das crianças, pergunto-lhe se você lembra como era o ato diário de “descobrir a vida”?

bebes-conversando-imagenes-de-amistad

Você consegue recordar da primeira vez em que foi tocado pela água ao tomar banhinho? Você se lembra de colocar todos os objetos na boca para senti-los, ao invés de usar o tato? E… Você se lembra da primeira vez que teve prazer ao falar mal de alguém? Muitas vezes, o que foi, é e será. Crescemos em tamanho, mas a cabeça e a alma, nem sempre. A diferença é que a pureza anterior e o prazer pelas descobertas dá espaço a formas distorcidas de comportamento, todas influenciadas pelo medo.

As sincronicidades espelham o grau de compreensão de “sua” realidade, seja ela “inventada” ou “mais consciente”. Ninguém é superior a ninguém, cada um tem e merece vivenciar as próprias experiências.  Assim, como você pode ter várias sincronicidades que te conduzam a nada ou à realização de sua manifestação egoica. Cada caso é um caso. Por isso mesmo, como poderíamos julgar alguém?

eike_2

Vejam o que a imprensa – e obviamente o lugar-comum – faz com figuras como Eike Batista. Há anos era endeusado, agora é tratado com escárnio pelos compatriotas, do senhor ao escravo. Teria o senhor Eike pagado agora, com juros, por erros do passado, pessoais e administrativos, ou toda essa revolução é o prenúncio do seu renascimento ou do nascimento de um ser humano?

As sincronicidades são naturais como são naturais os teus pensamentos. Basta discernir qual te fala mais  diretamente ao teu Ser Interno.

A história que relato agora, fala sobre as estranhas conecções e relações humanas.

Há um bom tempo, assisti a um vídeo no YouTube sobre uma advogada carioca que havia sido presa por agredir um policial com uma navalha, e é claro, por embriaguez. Na delegacia ela deu na cara de um policial, e ficou famosa com o bordão “me filma, me edita”. Há umas duas semanas, se não me engano, cismei de mostrar o vídeo a um amigo. Dias depois, lemos a notícia de que essa senhora do “me filma” veio a morrer, ao se atirar pela janela do apartamento da mãe, após ter tentado matá-la. Foi uma “coincidência” pensar em alguém que não conhecemos e  que veio a morrer dias depois? Foi uma previsão? Uma intuição sobre a morte de alguém?

Para além dessa notícia,  conversamos sobre várias coisas, trocamos experiências sincronísticas, e o amigo falou que ao passar em uma determinada rua, Vinícius de Moraes em Ipanema, no Rio, gostava de olhar os pequenos prédios de 3 andares e pensar nos dramas pessoais que certamente ocorriam em cada um deles.  

PREDIO-NARua-Vinicius-de-Moraes-277-incluido-na-Apac-de-IpanemaFoto-de-arquivo-de-Gabriel-de-PaivaO-Globo

Aí tivemos um estalo. Voltamos à matéria sobre a morte da advogada e vimos que o nome da rua era o mesmo. Lemos a declaração de um porteiro que dizia que o prédio da advogada era em frente a uma casa noturna, já fechada. Como detetives, fomos ao Google Maps e com um pouco de pesquisa, descobrimos o número da casa noturna, em frente à casa da advogada: 288. Eu nasci no dia 28 de agosto. Mais intrigante ainda é que havia uma lista de canções pintada na porta da casa noturna com o nome do autor da lista. Ficamos de cara: era o nome e o sobrenome de uma pessoa que havia casado com a irmã do amigo (de outro Estado).  E mais incrível ainda, para nossas caras pasmas, é que a irmã do cara do “nome na porta” foi casada durante dez anos com o irmão do meu amigo… Vai entender!…

Há mais laços inconscientes entre as pessoas e os fatos do que ousamos conjecturar. Estejamos nós separados pela distância, pelos modos ou pelas ideias. É como se uma imensa rede, ou uma teia de conecções com uma intrincada e delicada construção, pudesse unir elos infinitos, como se um espirro dado em um lado do planeta, afetasse alguém do outro lado do orbe e vice-versa.

Por isso é lícito, digno e fundamental tomar decisões baseadas em uma enlevada intuição e discernimento profundos. Não se deixe levar por ações motivadas pelo medo ou por relações de poder.

Obs: Há alguns anos, uma professora de astrologia leu o meu mapa natal e aconselhou: “Você deve lidar com a verdade sempre, em qualquer circunstância.  Mesmo que seja duro.”  É o que venho tentando fazer desde então, nem sempre com resultados, digamos, confortáveis.  Estamos unidos por simpatias, ideias afins e principalmente para vivenciarmos uma história coletiva, talvez em função dos nossos karmas. Não importa se você está certo ou errado, viver uma história mesmo que chegue ao fim é sábio. Não vivê-la por medo é um atraso. Não vivê-la por consciência é um direito. Porém, toda história boa tem o seu lado “ruim” e toda história “ruim” tem o seu lado bom.

 jung cor

JUNG, Carl Gustav. Sincronicidade. Tradução de Pe. Dom Mateus Ramalho Rocha, OSB. Petrópolis: Vozes, 2000, 10ª edição, volume VIII/3 das Obras Completas.

NOTA: Os números em colchetes referem-se à numeração original dos parágrafos e serve como referência para citação bibliográfica.

[959] Talvez fosse indicado começar minha exposição, definindo o conceito do qual ela trata. Mas eu gostaria mais de seguir o caminho inverso e dar-vos primeiramente uma breve descrição dos fatos que devem ser entendidos sob a noção de sincronicidade. Como nos mostra sua etimologia, esse termo tem alguma coisa a ver com o tempo ou, para sermos mais exatos, com uma espécie de simultaneidade. Em vez de simultaneidade, poderíamos usar também o conceito de coincidência significativa de dois ou mais acontecimentos, em que se trata de algo mais do que uma probabilidade de acasos. Casual é a ocorrência estatística — isto é, provável — de acontecimentos como a “duplicação de casos”, p. ex., conhecida nos hospitais. Grupos desta espécie podem ser constituídos de qualquer número de membros sem sair do âmbito da probabilidade e do racionalmente possível. Assim, pode ocorrer que alguém casualmente tenha a sua atenção despertada pelo número do bilhete do metro ou do trem. Chegando à casa, ele recebe um telefonema e a pessoa do outro lado da linha diz um número igual ao do bilhete. À noite ele compra um bilhete de entrada para o teatro, contendo esse mesmo número. Os três acontecimentos formam um grupo casual que, embora não seja freqüente, contudo não excede os limites da probabilidade. Eu gostaria de vos falar do seguinte grupo casual, tomado de minha experiência pessoal e constituído de não menos de seis termos:

[960] Na manhã do dia Iº de abril de 1949 eu transcrevera uma inscrição referente a uma figura que era metade homem, metade peixe. Ao almoço houve peixe. Alguém nos lembrou o costume do “Peixe de Abril” (primeiro de abril). De tarde, uma antiga paciente minha, que eu já não via por vários meses, me mostrou algumas figuras impressionantes de peixe. De noite, alguém me mostrou uma peça de bordado, representando um monstro marinho. Na manhã seguinte, bem cedo, eu vi uma outra antiga paciente, que veio me visitar pela primeira vez depois de dez anos. Na noite anterior ela sonhara com um grande peixe. Alguns meses depois, ao empregar esta série em um trabalho maior, e tendo encerrado justamente a sua redação, eu me dirigi a um local à beira do lago, em frente à minha casa, onde já estivera diversas vezes, naquela mesma manhã. Desta vez encontrei um peixe morto, mais ou menos de um pé de comprimento [cerca de 30 cm], sobre a amurada do Lago. Como ninguém pôde estar lá, não tenho idéia de como o peixe foi parar ali.

[961] Quando as coincidências se acumulam desta forma, é impossível que não fiquemos impressionados com isto, pois, quanto maior é o número dos termos de uma série desta espécie, e quanto mais extraordinário é o seu caráter, tanto menos provável ela se torna. Por certas razões que mencionei em outra parte e que não quero discutir aqui, admito que se trata de um grupo casual. Mas também devo reconhecer que é mais improvável do que, p. ex., uma mera duplicação.