Abacaxi

FLOATING-PINEAPPLE

Uma leitora nos enviou o seguinte relato:

De visita ao Rio de Janeiro, caminhei em direção ao Hotel Debret em Copacabana onde meus pais passaram a lua-de-mel há mais de 50 anos. O edifício me faz rever o passado com carinho e aviva lembranças das várias vezes em que minha família, com três filhos pequenos, retornou à cidade.

Ficávamos sempre neste hotel em Copacabana. Um pouco depois, e com mais dinheiro, meu pai trocou o hotel antigo por outro mais caro em São Conrado. Na época não liguei os pontos, mas hoje é clara a razão. O hotel de Copa era agradável e recheado de lembranças afetivas, mas o meu tio, irmão da minha mãe, criticava o apego “tolo” em ficar em um hotel com menos estrelas na parede do que o bolso já permitia.

Abandonamos o Hotel Debret, mas ele não nos abandonou, tanto é que hoje, em 2015, cumpri o ritual de passar em frente ao prédio para matar as saudades. Ao olhar a fachada, tento resgatar um pouco do clima de uma época em que não havia nenhuma preocupação. Me vem à mente o reveillón em que assistimos à corrida de São Silvestre ao vivo, no bar do hotel, e no dia seguinte ao entrar no mar achamos diversas notas de dinheiro ofertadas à Iemanjá.

Ao lado do Debret há uma feira, que me recordou das antigas conversas de papai sobre a qualidade dos abacaxis. Até hoje, abacaxi é a minha fruta preferida. Mal deixei o Debret, passei nessa feira próxima para comprar um. O vendedor alertou-me de que não estavam bons. Mesmo assim, pedi que escolhesse o mais doce, e a sua mulher perguntou se poderia arrancar a coroa. Eu disse que sim. Ela removeu o topo da fruta e exclamou, sorrindo: “Está amarelo!”.

Ao ligar a TV, no mesmo dia, vi em um programa de humor, um ator arrancar a coroa de um abacaxi e exclamar: “Está amarelo!”.

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Sincronicidade Musical

Ontem, aqui em casa, um amigo comentou sobre a falta de espaço para o músico autoral no Rio de Janeiro e como, muitas vezes, há mais espaço para o artista brasileiro no exterior do que em seu próprio país.

Mal ele saiu, pensei em enviar-lhe alguns vídeos sobre a questão. No Canal (a cabo) Curta! estava sendo exibido um documentário sobre o renascimento da Bossa Nova no Japão.  Fui ao YouTube coletar os links do mesmo documentário. Mal copiei o terceiro link, o player do vídeo começou a tocar. Como que por encanto, a TV ao vivo e o link virtual sincronizaram-se.

Sincs no início de agosto.

Sonho em ter cães. Talvez um labrador, que gosto muito. Interessado, pesquisei fotos na internet e logo de cara, achei a foto de um cão pequeno. Ao ver a data da foto (ou do nascimento do cãozinho, tanto faz) vi que era a data do meu próprio nascimento: 28 do 8 de 2008.

zhumgarian 28 do 8 de 2008

Hoje ouvi na TV, o termo “Maria das Almas” para simbolizar aquela “incômoda” babinha que fica nos cantos da boca quando a pessoa fala… Ri muito e fui pesquisar. O termo correto ligado à baba é sialorréia. Logo abaixo da explicação, vi o título do livro pesquisado e o seu autor. Era praticamente o meu nome completo. Notas e referências – ↑ Lopes, Antonio Carlos. Diagnóstico e tratamento. vol. 3. Barueri: Manole, 2007.

Na terça dia 6 de agosto, permaneci trabalhando durante a madrugada, com a TV ligada, e o volume baixo para não me atrapalhar e nem me dar sono. Começou a ser exibido o filme “Mães de Chico” sobre cartas psicografadas pelo médium Chico Xavier. O apelido do personagem, um jornalista, que se aproxima de Chico era Carlzinho. Esse é um apelido carinhoso que tenho. Também sou formado em jornalismo.

Comprei um produto de procedência chinesa (como quase tudo feito hoje em dia) através de um site chinês. Senti um pouco de receio, pois nem em fóruns achei qualquer comentário sobre a loja. Segui adiante porque era um valor que eu poderia pagar, bem mais barato do que os de mercado referentes ao mesmo produto. Na verdade, mais do que “achar que estava me dando bem”, senti que era uma oportunidade, inspirada pelo destino, pois eu digitei uma pergunta no google e sem muito trabalho, surgiram dois endereços. Vi as duas páginas, e senti uma vibração melhor em um deles. Arrisquei. A entrega estava prometida para um período de 20 a 45 dias. O aparelho chegou hoje, um mês depois da compra. No mesmo dia, tive notícias de uma pessoa “desaparecida” que relatou que trabalha em uma empresa “chinesa de importação”.

Pequenas Grandes SINCs de março

 

À tarde foi exibido um filme antigo na TV.  Era o Escola de Sereias de 1944, cheio de cantores, bailarinos, artistas e só reconheci um deles, o ator Basil Rathbone. http://pt.wikipedia.org/wiki/Basil_Rathbone  Ao reconhecê-lo pelos filmes de Sherlock que assisti quando eu era criança, fui procurar a filmografia dele, e encontrei um filme bem interessante, chamado Jardim de Alá, o apelido que o povo deu na década de 30, à praça onde cresci e brinquei durante toda a infância… http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Jardim_de_Al%C3%A1_%281936%29

Um amigo veio almoçar comigo. Ele está morando há um tempo na casa de uma amiga que há um mês deu uma “sumida” pelo mundo a buscar respostas. Essa amiga conhece bastante a vida esotérica, mas ultimamente andava frequentando uma igreja evangélica na comunidade da Rocinha no Rio. Perguntei ao amigo: “Onde ela deve estar?”. Ele disse que não sabia e eu brinquei: “Deve estar com o Waldo Vieira (da Conscienciologia) em Foz!”. Um dia depois de nossa conversa, quem me liga misteriosamente à tarde ? A própria desaparecida diretamente de… FOZ DO IGUAÇU, onde Waldo Vieira reside.

Choveu muito no Rio. O tel tocou as 21:21. Era Clara, a filha de 5 anos de um grande amigo. “Carlos, vem pra cá agora!”, ela pediu.
Respondi: “Amor, tá chovendo e o tio tem que dormir cedo”.
Ela ameaçou dar uma chorada. O pai pegou o aparelho e disse, que do nada, ela cismou que eu tinha que ir para a casa deles. Ele me perguntou sobre as novidades e eu falei que vou ser operado no Hospital do Amparo no bairro do Rio Comprido.  Ele riu: “Foi onde a Clarinha nasceu”.

A Sincronicidade do Banheiro Público.

Esta é uma postagem bem humorada. Um daqueles casos bem corriqueiros, que mostram como a sincronicidade atua naturalmente no dia-a-dia.

Anteontem estávamos eu e um amigo na rua. Em um determinado momento, quando o sol se pôs, olhamos um para o outro e procuramos um banheiro público. “Por acaso”, encontramos um, desses de aço escovado logo adiante. A máquina pedia 50 centavos. Como não tínhamos uma moeda de 0,50, dei as minhas para o amigo,para que ele juntasse o restante e falei: “Vai na frante.”

A engenhoca emitiu um sinal verde após os 0,50 terem sido postos, a porta foi liberada e meu amigo entrou. Quando ele saiu, a porta se fechou, e o sinal verde virou vermelho: a porta estava selada.

Depois de alguns momentos, falei para ele: “Procura melhor no seu bolso para ver se conseguimos juntar mais 0,50 para eu ir ao banheiro.” E ele disse: “Por que não me pediu para eu segurar a porta? Você teria entrado sem pagar. 0,50 pelos dois tá é muito bom”, ele riu.

Sorri e falei: “Eu não faço isso, sou “Caxias”. Prefiro ficar apertado.” E meu amigo de novo me repreeendeu: “Eu também sou, mas não vejo mal algum.”

Enfim, juntamos mais 0,50 centavos em moedas de 0,10. Fui introduzindo as mesmas na máquina e após ter posto apenas 0,20, acendeu o sinal verde e a porta se escancarou. Olhamos surpresos um para o outro e falei: “Agora eu vou nessa!”.

Quando saí meu amigo estava rindo: “Cara, isso só pode ser um teste de fé e honestidade para nós, sabe por quê? Depois que você entrou, a máquina devolveu 0,30 centavos, ou seja, você não pagou nada e ainda tivemos um lucro de 0,10 centavos!”

“Tá vendo, mané?”, argumentei. “Nossa fé e nossa convicção são como que testadas, em momentos bobos, corriqueiros. De fato, são as pequenas coisas que nos ensinam. Se você rouba 0,50, por que não roubaria 50 milhões? Tudo é questão de oportunidade e consciência, de compreendermos que tudo neste universo está conectado, do macro ao micro, das galáxias a um banheiro público!”

E seguimos adiante gargalhando.

 

A SINCRONICIDADE LUMINOSA

Salmos – 56:4
Em Deus, cuja palavra eu louvo, em Deus eu confio, e não temerei.

Que poderá fazer-me o simples mortal?

Eclesiastes – 8:4
Porque a palavra do rei tem poder; e quem lhe dirá: Que fazes?

Faça-se a LUZ!

Ontem, vivi uma experiência extraordinária, presenciada por várias pessoas.

Estava produzindo um CD em um estúdio no bairro da Tijuca no Rio de Janeiro desde 11 da manhã. Creio que por volta de 14:00, eu, o técnico de gravação, meu baterista e o compositor fomos almoçar. Como a grana estava curta, fomos a um botequim.

Entramos, nos sentamos em uma mesa para quatro perto da cozinha e pedimos o mesmo prato para todos. Mal começamos a conversar, já com o cheiro de óleo no ar,
houve um apagão, à tarde.

– Mesmo sem luz, dá pro rango sair?, perguntamos famintos.

Antonio, o dono do estabelecimento (também meu sobrenome), que nos atendeu com carinho, disse que a comida estaria pronta em alguns minutos. Conversamos  sobre várias coisas durante a espera, no escurinho.

– Só apagou aqui ou na rua inteira?, alguém perguntou.

– Na rua!, responderam.

Passamos os quatro a tecer planos sobre a possibilidade de terminar a gravação no dia
seguinte, caso a luz não voltasse. Nesse interim, a comida chegou, quando já estávamos roxos e partimos com tudo aos pratos.

Antes mesmo de terminamos, uma ideia me passou pela cabeça.

– Posso falar um negócio com vocês? Tenho certeza de que essa luz vai voltar assim
que terminarmos de almoçar.
– Como assim?
– Só sei que sei, que a luz apagou durante o nosso almoço, mas que ela voltará, assim
que acabarmos de almoçar para que terminemos a gravação hoje.

Ninguém falou nada. “Coisas do Carlão!”, devem ter pensado.

Quando pedimos a conta, mais de uma hora depois, a luz voltou imediatamente.

Não me contive e exultei com o coração batendo, como o de uma criança que ganha
um presente, quero dizer, me surpreendi com o poder das palavras. Exultei tão alto, que Antonio, o dono do bar se aproximou de nós e com um sorriso maroto disse: – Palavra tem poder!

Palavras não são apenas palavras. Elas têm disposições de ânimo, climas próprios.

Osho

“Existem as palavras dos sentimentos e as palavras intelectuais.

Abandone cada vez mais as palavras intelectuais, use cada vez mais palavras dos sentimentos. Existem palavras políticas e palavras religiosas.

Abandone as palavras políticas. Existem palavras que imediatamente criam conflito. No momento em que você as pronuncia, surgem discussões. Assim, nunca use uma linguagem lógica e argumentativa. Use a linguagem do afeto, do carinho, do amor, para que não surja discussão alguma. Se você começar a ficar consciente disso, perceberá uma imensa mudança surgindo. Se você estiver um pouco alerta na vida, muitas infelicidades poderão ser evitadas. Uma única palavra pronunciada na inconsciência pode criar uma longa corrente de aflição.

Uma leve diferença, apenas uma virada muito pequena, e isso cria mudança.

Você deveria ser muito cuidadoso e usar as palavras quando absolutamente necessário. Evite palavras contaminadas. Use palavras arejadas, não controversas, que não são argumentos, mas apenas expressões de suas impressões.

Se você puder se tornar um especialista em palavras, toda a sua vida será totalmente diferente. Se uma palavra trouxer infelicidade, raiva, conflito ou discussão, abandone-a. Qual é o sentido de carregá-la? Substitua-a por algo melhor. O melhor é o silêncio, depois é o canto, a poesia, o amor.”

Osho (Chandra Mohan Jain ou Bhagwan Shree Rajneesh)

A Sincronicidade joga bola.

Sincronicidade esportiva.

Pois é… As nossas sincs “jogam bola” também.

E para corroborar o fato sincronicidade e futebol, relato a história vivida ontem. Porém, um cuidadoso aviso preliminar: antes de lerem este texto, os leitores que tiverem convicções futebolísticas arraigadas, e que não respeitarem as escolhas alheias, devem colocar as paixões de lado, convidar o bom humor a entrar em campo e deixar a sincronicidade apitar a partida .

Ontem, por volta de meio dia, desci para pegar um táxi em direção à Tijuca, um bairro carioca na zona norte. Nas duas vezes em que “pretendi” fazer sinal, alguém apareceu à minha frente e “papou” o táxi. Na terceira ou quarta vez, um táxi veio se chegando, meio sem eu pedir, na maciota e se acafifou. O motorista sorriu com rosto de “cheguei”.

Perguntei: “Qual é o melhor caminho para a rua Uruguai?”

O taxista perguntou: “Me desculpe, mas onde é a rua Uruguai?”.

“Na Tijuca…”

“Nunca vou a Tijuca, sempre “rodo” na zona sul e centro, mas vamos encontrá-la!”

“Que engraçado… Você é taxista há pouco tempo?”

“Trabalho desde os 18 anos!”

“E há quanto tempo não pega uma corrida para lá?”

“Há muito tempo. Nem lembro quanto.”

Em meio a viagem, para tirar uma dúvida sincronística, perguntei: “Qual é o seu time?”. Sempre faço essa pergunta, quando encontro alguém que suspeito ter sido “colocado à disposição”.

“Botafogo!”, sorriu.

“Eu também sou. Que bacana!”

E fomos “jogando” a nossa partida.

Já no bairro – para onde ele nunca vai – ele olha uma esquina e relembra sorrindo: “Semana passada, bem aqui, vi um senhor em um carro com escudo do botafogo, com camisa do fogão, bonezinho, flâmula, unhas pintadas de branco e preto e tocando o hino no som do carro, a toda. Muito figura!”

“Se essa é a maneira dele de ser alegre, de repartir a paixão com o mundo, ele tem mesmo é que fazer a diferença.”

Faltando pouco para chegarmos ao destino, entramos na rua em que meu avô morava: Mariz e Barros, já perto da Uruguai. Quase em frente à casa do vovô, o motorista olha para a janela e exclama: “Que coisa! Meu pai tá bem aqui na esquina!”.

“Tu tá falando sério? Você nunca vem pra cá e quando vem, vê seu pai?”

“Que coisa, né?”

“Pois é, deve ser a santa luz alvinegra dos botafoguenses que nos guia!”

Na verdade, pensei “santa luz das sincronicidades que nos guia!”.

Após me despedir do amigo-taxista, olhei a placa com o nome “Uruguai” e me lembrei de que três jogadores da seleção uruguaia, campeã da Copa América de 2011, jogaram e jogam no Botafogo.

O dia começou muito bem.

E nesse jogo, somos todos campeões.

As SINCRONICIDADES de RENATO RUSSO

 

“É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque se você parar para pensar, na verdade não há.”

Renato Russo (1960-1996), vocalista da Legião Urbana ganhará dois longa-metragens: “Somos Tão Jovens” do diretor Antonio Carlos da Fontoura e “Faroeste Caboclo” do estreante René Sampaio.

Lendo a matéria de André Miranda, do jornal O Globo sobre a película “Somos Tão Jovens”, encontrei essas pérolas sincronísticas:

“As coincidências que envolvem a produção de “Somos tão jovens” têm um quê místico por um lado e um cinematográfico por outro. Em 2006, Fontoura encontrou casualmente na rua, o produtor musical Luiz Fernando Borges, amigo próximo de Renato e pessoa incumbida pela família do cantor de cuidar da possibilidade de uma cinebiografia. Borges estava no Jardim Botânico, andando pela calçada a caminho da casa de Ed Motta quando avistou o diretor, com quem não tinha contato havia 25 anos, desde que eles participaram do mesmo grupo de terapia. A conversa foi breve, como costuma ocorrer nesses encontros. Perguntaram sobre a vida, relembraram alguns assuntos do passado e falaram de projetos futuros. O filme sobre Renato, que ainda era apenas um sonho, então, veio à tona. “Que bacana”, um disse. “Quer dirigir?”, o outro perguntou”.

“Era preciso arrumar patrocínio. “Religião Urbana” foi o primeiro título escolhido. Durante dois anos, porém, eles só ouviram respostas negativas de investidores, atrasando o projeto. Até que Dona Carminha Manfredini, mãe de Renato, chamou o diretor para um almoço e sugeriu a mudança do título para “Somos Tão Jovens”, argumentando que seu filho nunca foi pregador, religioso, nada parecido. A frase foi tirada da letra de “Tempo Perdido”, um dos maiores sucessos da Legião. Fontoura não tinha tempo a perder e prontamente aceitou o conselho. – Na semana seguinte, começamos a ganhar editais – lembra o diretor. – Eu acho que o Renato deve estar num universo paralelo dizendo o que cada um de nós deve fazer. A minha meta é que ele e quem o representa neste planeta fiquem felizes com o filme. A Legião Urbana sempre esteve presente no coração dos jovens. Este filme não é apenas sobre o Renato. É sobre todos esses jovens”.

(Fonte: http://oglobo.globo.com/cultura)

 

Os Calceteiros e o nosso Tempo

Calceiteiro é o operário que faz empedramento de estradas, ruas e praças.

Calceteiro

Há alguns dias, desperto ao barulho de uma ferramenta que bate e encaixa pequenas pedras portuguesas na calçada. Há dias, me encanto com o trabalho de um ou dois homens solitários que constroem o seu próprio tempo, que tratam com carinho cada uma das pedras de um grande quebra-cabeças, que todos pisam e não dão o devido valor, sem lhes perceber a sutileza dos traçados, a conformidade dos blocos encaixados com esmero.

O Tempo Não Passa

Os homens trabalham cercados por uma simples rede de plástico, apenas isso, que mais do que os separar dos transeuntes, na verdade os separa no tempo e no espaço da realidade que todos querem acreditar como única. Os calceteiros pertencem a um mundo distante, de ternos, bengalas e chapéus para cavaleiros e damas. Meu avô vinha nos visitar, quando eu e meu irmão éramos pequenos, com belos chapéus e sempre beijávamos a sua mão, era a tradição do “benção, vovô”. (obs: inclusive incluí neste texto, várias gravuras do artista francês Jean-Baptiste Debret ou Debret (Paris, 18 de abril de 1768 — Paris, 28 de junho de 1848) que ao retratar o Rio de Janeiro Imperial, me fizeram amar ainda mais a arte do desenho-documental – aquarelas ágeis feitas para retratar momentos fugazes, mas prenhes de significado). Entre as gravuras, incluí “Costumes dos ministros e secretários de Estado (1826)”, obra na qual surge Pedro I conversando com algum ministro sem dar a atenção a um outro que lhe beija a mão!), a cena dos barbeiros e uma geral da Praça XV, perto do Paço Imperial. Comparem-nas com as fotos que fiz do amigo calceteiro, “o tempo não passa, meu amor”, a gente acha que passa, porque envelhecemos, porque desencarnamos, porque modas e costumes mudam.

Costumes dos ministros e secretários de Estado (1826)

Barbeiros, sangradores, muito calor e doceira.

Praça XV

Fiquei minutos que viraram meias horas, admirando o lento labor do encaixe, parcimonioso, cuidadoso, honrado, digno e mais afeito à tradições do que a modernidades. Ali havia apenas homens e ferramentas, e não doutores e máquinas. Atemporais pedras portuguesas transformadas em calçadas cariocas e não em ons e offs, XPs, Vistas e Blockbusters. Vivenciando a cena quase mágica, retirada de um livro de gravuras de Debret, viajei no tempo, voltei à infância: a um tempo de galinheiros em plena Visconde de Pirajá em Ipanema; na lentidão dos ônibus elétricos que seguiam seu destino sem a tresloucada correria pelos prazos e nunca esquecerei das notas perfeitas de Asa Branca, tocadas por um amolador de facas em uma pedra girante, movida pelos movimento dos seus pés.  Me recordo do som da rádio da mamãe antes da vitória inexorável da Televisão e hoje do computador.  Enlevado, o calceteiro me lembrou que o tempo em que vivo não é o único, que  a realidade não é o que é, é apenas o que fazemos dela.

Ao acordar com os toques precisos daquele homem em seu labor, me senti honrado por pisar – com todo o respeito – em sua obra. Os passantes, ao contrário, nada veem, nada querem ver, não captam a magia do sonho, a fantástica fábrica das possibilidades. Quantos cegos relutantes sem coração.

Obrigado amigo calceteiro por me fazer ver, mais uma vez, que não preciso viver a vida dos outros, que não necessito correr em uma velocidade que não é minha, que não preciso acreditar em verdades absolutas, óbvias e concretas.

Obrigado amigo calceteiro por me provar que é possível acreditar na vida.