CosMos – Unindo Ciência e Espiritualidade para um novo entendimento do universo e de nós mesmos

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CosMos – Unindo Ciência e Espiritualidade para um novo entendimento do universo e de nós mesmos. Ervin Laszlo e Jude Currivan – 208 páginas – Cultrix.

“A ciência sem a religião é aleijada e a religião sem a ciência é cega.”

“Deus sempre escolhe o caminho mais simples.”

“Todas as religiões, artes e ciências são ramos da mesma árvore.”

Albert Einstein.

 Nos tempos antigos, muitas informações, que hoje são dadas de bandeja eram conseguidas a muito custo. Isso sem falar na compreensão das mesmas, algo bem mais sutil e complexo do que parece. O filósofo, futurista e cientista sistêmico, autor de mais de 80 livros, Ervin Laszlo (indicado duas vezes ao Prêmio Nobel da Paz), juntamente com a cosmóloga, agente de cura e mística, Jude Currivan, explicam em CosMos, que o propósito do ser humano é ser cocriador consciente do próprio futuro. As pessoas podem e estão literalmente mudando a face da Terra, e a consciência humana está se expandindo à medida que os antigos paradigmas já dão lugar a novos conceitos. Todas as “crises” atuais são resultado da percepção humana limitada. Este livro nos mostra que caminhos para uma nova civilização, em harmonia com a Terra e com o todo, já estão abertos. O que chamamos de “realidade” e o Cosmos estão totalmente integrados.

Graças à descoberta da não localidade das entidades quânticas – a natureza entrelaçada das partículas gêmeas – sabemos hoje que o universo é, inerentemente, uma totalidade. Basicamente é como se uma partícula, que tivesse uma irmã gêmea, repetissem os mesmos movimentos, mesmo à distância. Isso prova que ações e pensamentos, por exemplo, interagem e afetam a realidade. Na biologia, há cada vez mais evidências, de que o “molde” informacional de um organismo é uma parte dele que é tão real quanto as suas células, coração ou membros. E que todos os organismos – inclusive nós mesmos – são “sistemas quânticos macroscópicos” que não podem ser reduzidos à soma de suas partes. Em 2005, moléculas orgânicas complexas foram entrelaçadas com sucesso, mostrando que, em teoria, não há limite de escala para tais estados entrelaçados. As evidências mostram que os sistemas “naturais”, como os padrões meteorológicos são holográficos, mas que organismos biológicos, ecossistemas e os fenômenos “feitos pelo homem” (sistemas econômicos inclusive) e até a web, estão todos interligados. A teoria mais recente afirma que o nosso universo, foi informado no seu nascimento por um universo anterior, tornando-se assim, progressivamente mais bem informado, o que confirma a visão dos sábios védicos da Índia. Passado, presente e futuro: uma mesma realidade.

Dados e informações medem e descrevem o passado, enquanto o conhecimento que surge de tal percepção nos permite avaliar o presente e forma um degrau, ou trampolim para percebermos as possibilidades do nosso futuro. Entretanto, em nossa época de computadores, somos ensinados a conceber a informação de uma maneira limitada, em forma de símbolos, números ou da sintaxe formal da linguagem verbal e escrita.

Nosso uso comum da palavra informação descreve essencialmente dados “brutos”, sem contexto ou significado. Porém, no sentido científico emergente, a informação é muito mais do que isso – ela é a natureza fundamental da realidade. Tudo o que chamamos de realidade “física” é, em última instância, ordenado de maneira harmônica e holográfica. Sendo assim, não há como nos excluir da natureza holográfica e coerente do universo.

A medição do Q.I. humano, que reflete nossa capacidade intelectual, não muda significativamente desde a infância. Em 1996, o psicólogo Daniel Goleman descobriu que o sucesso na vida prece depender menos do Q.I. e mais de nossa capacidade para desenvolver e lidar com nossa inteligência emocional, ou seja: o nosso coração. Os nossos pensamentos, emoções e ações e suas consequências sobre as outras pessoas.

Estamos despertando para a compreensão de que somos parte integral do mundo-totalidade. O que chamamos de realidade é mediado por relações, assim como os princípios da natureza. A dança das experiências humanas é compartilhadas por miríades de polaridades, cuja interação entre luz e sombra dá origem às nossas percepções e as reflete. O que percebemos como mundo “físico” é incompleto.

Há mais de dois mil anos, Buda descreveu o Cosmos como uma teia de fios dourados unindo miríades de joias multifacetadas, cada uma delas refletindo a luz de múltiplas nuances de todas as outras. Sua bela e simbólica visão está sendo comprovada pela ciência moderna, nos mais longínquos estudos sobre a consciência.

Jude e Ervin explicam essa nova visão de como o ser humano pode se relacionar com o mundo, como um ser criador e consciente. Tudo isso, embasado pelas mais recentes pesquisas científicas nos campos da física e da cosmologia.

Uma das últimas partes do livro, a que se refere à felicidade, mostra, a partir de estudos sociais, que os passos para alcançar essa meta são simples: se desligar do dinheiro e do materialismo, desenvolver boas habilidades sociais, buscar objetivos significativos e ter prazer no que se faz, desfrutar as pequenas coisas da vida, manter-se ativo, equilibrar trabalho e lazer, atuar como voluntário em ajudar as pessoas e manter o senso de humor.

 E quando a ciência, tão complexa, comprova a simplicidade de ensinamentos simples, todos ficam felizes, inclusive o nosso querido Einstein.

DESCOBRIDORES DO INFINITO – A Vida Espiritual de Atletas Radicais e Suas Experiências de quase Morte, Paranormal e o Contato com o Além

DESCOBRIDORES DO INFINITO – A Vida Espiritual de Atletas Radicais e Suas Experiências de quase Morte, Paranormal e o Contato com o Além – Mary Coffey – 256 páginas – Lafonte.

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A premissa deste livro é fantástica e de certa forma, “incômoda” para os cartesianos: de que a prática de esportes radicais pode levar os desportistas à experiências com o divino e em alguns casos, de quase morte. E.Q.M. são estágios em que a nossa consciência parece sair do corpo físico, mas nos quais não há morte. Ao planarem sobre os corpos, que dormem ou estão inconscientes, as consciências despertas nos dão a dimensão de que o corpo é apenas uma parte e não a totalidade, e nos mostram que a consciência age independentemente do corpo. É bastante comum, retornar à vida com as lembranças da experiência, com as memórias do quase “pós-vida”.

A sobrevivência dos esportistas depende de manterem o foco constante e a atenção na escorregadia natureza. Um acidente ocorrido em uma fração de segundos, os faz recorrer à experiências passadas. Esse é o processo que os estudiosos chamam de “fatias finas” em que são descobertos padrões em situações e comportamentos baseados em segmentos muito exíguos da experiência. É o que se chama de intuição, ou melhor ainda, de “saber sem saber”. Uma experiência incrível que a autora teve, e que não conseguiu explicar racionalmente, foi a de ter sido ajudada pelo “espírito de um rio”, que impediu que bandidos a assaltassem. A autora e jornalista inglesa Coffey escreve colunas sobre esportes radicais e também pratica algumas dessas modalidades. Ela nunca havia pensado em semelhante tema antes, assuntos espirituais, mas apesar de sua anterior incredulidade, ela confessa que só se deu conta do assunto, ao viver 3 experiências, sendo que a mais forte delas ocorreu em uma viagem. Ao escalar o Scafell Pike, na Inglaterra, Coffey sonhou que o namorado, que estava escalando o Everest no Himalaia, havia morrido. De fato, três semanas depois, ela comprovou a morte do namorado, durante a tal escalada no Himalaia. Fora que, mesmo desencarnado, o namorado voltou a visitá-la e isso acabou com as suas dúvidas. Essa experiência a levou a pesquisar o assunto e surpreendentemente ela comprovou que durante a prática de esportes radicais, nos momentos mais extremos, alguns praticantes têm experiências de cunho espiritual. Entre os entrevistados, pelo menos os que resolveram falar e deixar os pudores de lado, havia mergulhadores de profundidade (Tanya Streeter, campeã mundial), alpinistas (Dean Potter), paraquedistas, praticantes de voo livre, surfistas, o montanhista himalaico Lou Whittaker, o piloto de longa distância Dick Rutan, e o pioneiro no esqui Kristen Ulmer, entre outros. Para embasar a pesquisa, a autora buscou análises de cientistas, além de estudar filosofia e espiritualidade. Em uma pesquisa feita pelo instituto Gallup nos Estados Unidos em 2005, entre mil entrevistados, 47% acreditam em percepção extrassensorial; 32% em fantasmas; 26% em clarividência e 21% na possibilidade de contato com os mortos.

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 Depoimentos:

“Passei boa parte dos meus 20 anos me drogando. Quando fui apresentada à escalada no gelo, descobri um novo tipo de risco, que canalizava minha energia desassossegada. Escaladores são viciados, não na atividade em si, mas no estado mental, que a escalada lhes proporciona. Hoje sei que escalar e fazer o trabalho espiritual são atividades que se completam, uma alimenta a outra. Estava em meditação profunda, quando chegaram as mensagens da minha amiga Karen McNeill, que havia desaparecido durante uma escalada. Oficialmente, o pessoal da expedição que foi procurá-las, disse que ela e uma amiga foram derrubadas pelos ventos da montanha. Recebi visões de como ela havia morrido e foi dentro de uma caverna. McNeill me enviou visões do que ela havia vivido, antes de morrer. Eu a via tão relaxada quanto possível, em uma caverna no gelo. Captei o medo e a ansiedade dela, ouvi o ronco dos aviões em sua busca. O que ela queria é que recuperassem o seu corpo e essa era a minha missão.”

(Margo Talbot)

“Fui guiado durante uma terrível tempestade no K2, o segundo pico mais alto do mundo, com o auxílio de espíritos das montanhas e do fantasma de um escalador que tinha morrido naquela encosta. Uma coisa eu sei: depois que você tem essas experiências, fica mais fácil passar por elas novamente. Você abre o canal. Por isso é que eu queria escalar sozinho e indo por trilhas tão difíceis. É uma espécie de vício espiritual.”

(Carlos Carsolio, escalador mexicano)

“Senti que estava sintonizado com algo muito maior do que eu mesmo, algo muito maior do que o planeta visível pela janela do console da Apollo 14. Algo incompreensivelmente grande. Até hoje, aquela percepção ainda me tira o fôlego… olhando mais além da Terra e enxergando a magnificência do panorama todo, tive um instante de compreensão de que a natureza do universo não era o que tinham me ensinado. Minha noção de separação, da relativa independência do movimento daqueles corpos cósmicos, foi feita em pedaços. Fui inundado pela sensação de uma nova compreensão, associada à experiência de uma harmonia generalizada, à interligação com os corpos celestes em torno de uma espaçonave… lembro vividamente de saber que eu estava separado das estrelas e dos corpos planetários, mas ao mesmo tempo saber que eu era uma parte integrante do mesmo processo. Não havia uma sensação de união e totalidade com o cosmo, mas de dualidade.”

(Edgar Mitchell, o sexto homem a pisar na Lua em 1971)

 

 “Um instante antes de Thomas entrar no carro, para subir ao penhasco a 480 metros e saltar de paraquedas, eu me aproximei para lhe dar a mão. Só que isso não era uma coisa que eu normalmente fazia. Thomas reagiu de uma maneira também incomum, ele fincou os olhos em mim e disse: “Nunca mais me olhe desse jeito.” Thomas entrou no carro sem falar nada e se foi. Vimos quando ele correu pelo ponto de saída e o perdemos de vista. Alguns segundos depois, meu celular tocou. Era uma das pessoas da equipe gritando. Thomas tinha aberto o paraquedas muito depois da hora. Quando seus olhos ficam travados em outra pessoa, às vezes você vê um espelho de si mesmo. “Nunca mais olhe para mim desse jeito.” Meia hora depois de Thomas ter dito isso, ele estava morto. Eu acredito que eu tive uma premonição da morte e isso transpareceu no meu olhar, que Thomas percebeu e isso confirmou, em algum nível, o que ele já sabia.”

 

Trecho de entrevista com a autora para mteverestmindcamp.wordpress.com.

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Como você descreve a importância dos insights em suas viagens pelo mundo?

 Eles me ajudam a entender que o meu impulso espiritual está conectado à Terra, à natureza. Quando nos aventuramos em explorar o mundo selvagem, deixamos a segurança de lado e nos conectamos à intuição, que reproduz o estado em que nossos ancestrais viviam, quando o perigo era mais presente. Esses caçadores viviam em um estado de constante perigo, o que fazia suas intuições serem mais fortes e em maior harmonia em um meio ambiente que venera os elementos, os animais selvagens. A vida deles era conduzida pela espiritualidade conectada à terra. Isso ainda está dentro de nós, e explica por que pessoas se reencontram em locais distantes, se reconectam quando estão nesses lugares. Quando eu estava praticando caiaque na Índia no rio Ganges, fiquei profundamente comovida pelos rituais que vi ao longo do caminho, como os peregrinos fazendo lingams, o símbolo fálico de Shiva, na lama e os espargindo com flores e os oferecendo em suas mãos ao sol nascente. Durante nossa viagem de seis semanas, segui a tradição hindu de me imergir três vezes no rio a cada dia, para pedir a proteção à deusa que eles acreditam viver em suas águas. Foi um ato instintivo. Depois eu perguntei se estava enlouquecendo, mas o meu trabalho com o livro, me mostrou que eu simplesmente havia percebido minha ligação profunda com a terra, com o rio no qual eu estava viajando. Ah, e por falar nisso, eu nunca fiquei doente naquela expedição, apesar de todas as imersões e de ter bebido a água do Ganges em várias ocasiões!

 

Em sua entrevista na rádio com a Oprah, você menciona que ao entrarem em contato profundo com a natureza, alpinistas e outros aventureiros fortalecem a intuição interior ou o sexto sentido que todos nós temos, ainda em estado adormecido. Para alguém que não está inclinado a ser atlético ou aventureiro, como se pode descobrir e despertar esse sexto sentido na vida cotidiana?

A abertura a esse sexto sentido pode ocorrer em uma experiência de quase morte, através de um luto ou experiências extremas. Hoje, percebo que se abrem canais para outros reinos de consciência. Mais tarde, quando expandi meus próprios limites durante uma das expedições de caiaque, eu me conscientizei disso novamente. Para ter contato profundo com a natureza, não é preciso que você se atire de um penhasco. Isso pode acontecer no seu quintal ou na sua varanda. O que poderia ser mais elementar do que plantar uma semente no solo, alimentar o crescimento da planta, comer seus frutos ou desfrutar de suas flores? A chave é estar aberto ao milagre e prestar atenção. Da janela do seu apartamento, se pode prestar atenção aos ciclos da lua, para que direção o vento está indo, como as mudanças das nuvens pressagiam uma mudança no clima. Você pode estar em qualquer cidade e pensar em como uma árvore cresce em meio ao concreto, e em todos os pássaros que se abrigam em seus ramos. Ou, simplesmente, como é maravilhoso estar de pé em um planeta que está girando através do espaço!

Poesia 2014

encontros

2014

 (Carlos Lopes)

Pacientes, os anjos me fizeram crer

Que dos mortos em vida

Pudesse eu me erguer

Chegaram a me ligar, acreditem

De celular

Sussurraram que “chegara a hora”

Será?, duvidei torcendo sem demora

Subindo a montanha vi que topo não havia

Que nem regresso haveria

“Sois vós, o nosso irmão”

Foi o que disseram

“O anjo da morte que mata a toda ilusão”

Logo eu, que me encontrava

Entre lapsos descontínuos

Sem saber como proceder

Desci de casa em passo reto, contínuo

Atravessei tonto, a faixa àquela hora

Durante a travessia

Que nem Caronte, a moeda queria

Vem o conhecido estranho que me olha

Ao afundar-se em meus olhos

Soube ele ter chegado a hora

Sobressaiu-lhe um desgosto profundo

Desejará ainda aproveitar o que lhe resta neste mundo?

A cada segundo, senti-lhe mais culpado

Nos olhos do consulente, o vi completamente desarmado

Sem poder falar, anunciei-lhe calado

É chegada a morte da ilusão

O fim do ser amado

Após a faixa me ter atravessado

Como punhal cravado em dor

Parei na esquina sozinho

E percebi que um silencioso calceteiro se dava por satisfeito

Por ter terminado o caminho

Para que o atravessasse

O seu amor

De direito

 

O Primeiro Livro de Adão e Eva (Apócrifos da Bíblia)

O PRIMEIRO LIVRO DE ADÃO E EVA

 

1. Ao terceiro dia Deus plantou o jardim a leste da terra, no extremo leste do mundo, além do qual, em direção ao levante, não se acha nada além de água que circunda o mundo inteiro e alcança os limites do céu.

2. E ao norte do jardim há um mar de água, claro e puro ao paladar, como nada iguala; de maneira que, através de sua transparência, pode-se olhar para as profundezas da terra.

3. E quando um homem lava-se nela, torna-se limpo por sua limpidez e branco por sua brancura, mesmo que ele estivesse escuro.

4. E Deus criou este mar de Seu próprio agrado, pois Ele sabia o que seria do homem que Ele iria fazer; assim, após deixar o jardim por causa de sua desobediência, nasceriam homens na terra, dentre os quais morreriam os justos cujas almas Deus faria ressurgir no último dia; quando então voltariam à sua carne, banhar-se-iam na água do mar e todos se arrependeriam de seus pecados.

5. Mas quando Deus fez Adão sair do jardim, Ele não o colocou na fronteira norte, para que não se aproximasse do mar de água e ele e Eva se lavassem nele e se tornassem limpos de seus pecados, esquecendo a desobediência cometida.

6. Então, novamente, quanto ao lado sul do jardim, não agradava a Deus permitir a Adão lá habitar; pois, quando o vento soprasse do norte, trar-lhe-ia, no lado sul, o delicioso aroma daquelas árvores do jardim.

7. Porisso Deus não colocou Adão ali para que não aspirasse o doce aroma daquelas árvores, esquecendo sua desobediência e encontrando alívio ao se deliciar com o aroma das árvores e assim se limpasse de sua desobediência.

8. Novamente, também, porque Deus é misericordioso e de grande piedade e governa todas as coisas de uma maneira que somente Ele sabe , Ele fez nosso pai Adão habitar na fronteira oeste do jardim, porque daquele lado a terra é muito extensa.

9. E deus ordenou-lhe que ali habitasse numa caverna dentro da rocha, a Caverna dos Tesouros, abaixo do jardim.

II

1. Mas quando nosso pai Adão e Eva saíram do jardim, palmilharam o chão com seus pés sem saber por onde caminhavam .

2. E quando chegaram à abertura dos portões do jardim e viram a terra vasta estendendo-se diante deles, coberta de pedras grandes e pequenas e de areia tiveram medo e tremeram, prostrando-se com suas faces no chão, acometidos pelo medo; e jaziam como mortos.

3. Porque haviam estado até então na terra do jardim, belamente plantada com toda espécie de árvores e agora se viam numa terra estranha que não conheciam e nunca tinham visto.

4. E porque naquele tempo eles eram cheios de graça e de uma natureza luminosa e não tinham o coração voltado para as coisas terrenas.

5. Por isso Deus teve piedade deles; E quando Ele os viu caídos defronte ao portão do jardim enviou Sua Palavra ao pai Adão e a Eva e ergueu-os de sua prostração.

III

1. Deus disse a Adão : “Eu ordenei os dias e os anos nesta terra e tu e tua descendência deverão habitar e caminhar nela, até se cumprirem os dias e os anos; Então Eu enviarei a Palavra que te criou e à qual tu desobedeceste, a Palavra que te fez sair do jardim e que te ergueu quando tu estavas caído.

2. “Sim, a Palavra que te salvará novamente quando os cinco dias e meio estiverem consumados. “

3. Mas ao ouvir estas palavras de Deus, acerca dos grandes cinco dias e meio, Adão não entendeu o seu significado.

4. Pois Adão estava pensando que haveria somente cinco dias e meio para ele até o fim do mundo.

5. E Adão chorou e suplicou a Deus que lhe explicasse isto.

6. Então Deus , em Sua Misericórdia por Adão, que fora feito segundo Sua própria imagem e semelhança, explicou-lhe que estes eram cinco mil e quinhentos anos; e como o Um viria para salvá-lo e à sua descendência.

7. Mas Deus fizera antes disso esta aliança com nosso pai Adão, nos mesmos termos, quando ele saiu do jardime se encontrava junto à árvore da qual Eva tomara do fruto e lho dera a comer.

8. Porquanto, ao sair do jardim, nosso pai Adão passou por aquela árvore e viu como Deus então havia mudado sua aparência para uma outra forma e como ela ressecara .

9. E aproximando-se dela Adão teve medo, tremeu e caiu; mas Deus, em Sua misericórdia, ergueu-o e então fez esta aliança com ele.

10. E, novamente, quando Adão estava junto ao portão do jardim e viu o querubim, com uma espada de fogo fulgurante na mão, encolerizar-se e fitá-lo com desagrado, tanto ele quanto Eva ficaram com medo dele e pensaram que ele tencionava matá-los. Assim eles prostraram-se e tremeram de medo.

11. Mas ele apiedou-se deles e mostrou-lhes misericórdia; E, voltando-se, subiu ao céu e suplicou ao Senhor e disse :

12. “Senhor, Vós me enviastes para guardar o portão do jardim com uma espada de fogo.

13. “Mas quando Vossos servos Adão e Eva viram-me, prostaram-se e ficaram como mortos. Ó meu Senhor, que devemos fazer com Vossos servos ?”

14. Então Deus apiedou-se deles e mostrou-lhes misericórdia, e enviou Seu anjo para guardar o jardim.

15. E a Palavra do Senhor veio a Adão e Eva e ergueu-os.

16. E o senhor disse a Adão: “Eu te disse que ao final dos cinco dias e meio Eu enviaria minha Palavra e salvar-te-ia.

17. “Fortalece pois teu coração e habita na Caverna dos Tesouros, da qual Eu te falei antes”

18. E quando Adão ouviu esta Palavra de Deus ele foi consolado pelo Deus que lhe tinha dito. Pois Ele lhe dissera como o salvaria.

 


IV

1.Mas Adão e Eva choraram por terem de sair do jardim, a sua primeira habitação.

2.E, certamente, quando Adão olhou para sua carne, que estava alterada, chorou amargamente, ele e Eva, pelo que haviam feito. E eles caminharam e desceram docilmente para a Caverna dos Tesouros.

3.E ao chegarem Adão lamentou-se e disse a Eva : “Olha para esta caverna que será nossa prisão neste mundo. É um lugar de castigo !

4.”Que é isto comparado com o jardim ? Que é esta estreiteza comparada com o espaço do outro? 

5.”Que é esta rocha ao lado destas grutas? Que são as trevas desta caverna comparadas à luz do jardim ?

6.”Que é esta lápide de rocha suspensa para nos abrigar comparada à misericórdia do Senhor que nos acolhia ?

7.”Que é o solo desta caverna comparado à terra do jardim ? Esta terra, coberta de pedras e aquela plantada com deliciosas árvores frutíferas ?”

8. E Adão disse a Eva : “Olha para teus olhos e para os meus, que dantes viam anjos no céu louvando; e eles, também, sem cessar.

9.”Mas agora nós não vemos como víamos: nossos olhos são de carne; não podem ver da mesma maneira como viam antes.”

10.Adão disse novamente a Eva : “Que é nosso corpo hoje comparado ao que era em dias passados, quando habitávamos no jardim ?”

11.Após isso, Adão não gostou de ter de entrar na caverna, sob a rocha suspensa, nem entraria nela jamais por vontade própria.

12.Mas curvou-se às ordens de Deus e disse a si mesmo : “A não ser que eu entre na caverna serei novamente desobediente”.

V

1.Então Adão e Eva entraram na caverna e permaneceram em pé, orando em sua própria língua, desconhecida para nós mas que eles bem conheciam.

2.E enquanto oravam, Adão ergueu os olhos e viu acima de sua cabeça a rocha e o teto da caverna que o cobria, de maneira que não podia ver nem o céu nem as criaturas de Deus. Então ele chorou e golpeou pesadamente seu peito até que caiu e ficou como morto.

3.E Eva sentou-se chorando pois acreditava que ele estivesse morto.

4.Então ela ergueu-se, estendeu suas mãos a Deus pedindo-lhe misericórdia e piedade e disse : “Ó Deus, perdoai-me o meu pecado, o pecado que cometi e não o volteis contra mim.

5.”Pois fui eu quem provocou a queda de Vosso servo, do jardim para este lugar perdido; da luz para esta escuridão; E da morada da alegria para esta prisão .

6.”Ó Deus, olhai para este Vosso servo assim caído e ressuscitai-o de sua morte para que ele possa se lamentar e arrepender de sua desobediência cometida através de mim.

7.”Não leveis sua alma desta vez; mas deixai-o viver para que ele possa expiar sua culpa segundo a medida de seu arrependimento e fazer Vossa vontade antes de sua morte.

8.”Mas se Vós não o ressucitardes, então, ó Deus, levai minha própria alma para que eu esteja com ele; E não me deixeis neste antro só e abandonada pois eu não suportaria ficar só neste mundo, mas com ele somente.

9. “Pois Vós, ó Deus, fizeste cair uma sonolência sobre ele e tomaste um osso de seu lado e restauraste a carne em seu lugar, por Vosso poder divino.

10.”E Vós me tomaste, o osso, e fizeste uma mulher, luminosa como ele, com coração, razão e fala; E de carne como ele mesmo; E Vós me fizeste à semelhança de seu semblante, por Vossa misericórdia e poder.

11.”Ó Senhor, eu e ele somos um e Vós, ó Deus, sois o nosso Criador, Vós sois Aquele que nos fez a ambos no mesmo dia.

12.”Portanto, ó Deus, dai-lhe vida para que ele possa estar comigo nesta terra estranha, enquanto nós morarmos nela por causa de nossa desobediência.

13.”Mas se Vós não quiserdes dar-lhe vida, então levai a mim, até a mim, como ele; Para que nós dois possamos morrer da mesma maneira.

14. E Eva chorou amargamente e caiu sobre nosso pai Adão, por causa de sua grande tristeza.

 

VI

1. Mas Deus olhou para eles; Pois eles se haviam matado pelo grande pesar.

2. Mas Ele queria ressuscita-los e consola-los.

3. Portanto enviou-lhes Sua Palavra a fim de que eles ficassem em pé e fossem ressuscitados imediatamente.

4. E o Senhor disse a Adão e Eva : “ Desobedecestes por vossa livre vontade, até que saístes do jardim no qual Eu vos havia colocado.

5. “ Por vossa própria e livre vontade desobedecestes por causa de vosso desejo de divindade, grandiosidade e condição sublime, tal qual Eu tenho; Assim Eu vos privei da natureza luminosa na qual estáveis então e vos fiz sair do jardim para esta terra rude e cheia de sofrimento.

6. “Se ao menos não tivésseis desobedecido ao Meu mandamento e tivésseis guardado Minha lei e não tivésseis comido do fruto da árvore, da qual Eu vos disse que não vos aproximásseis! E havia árvores frutíferas no jardim melhores que aquela .

7. “Mas o maldoso Satã, que não se manteve em sua primitiva condição nem conservou sua fé – nele não havia boa intenção em relação a Mim e, embora Eu o tivesse criado, ainda assim Me desprezou e buscou a divindade, de modo que Eu o atirei do céu para baixo – . ele foi quem fez a árvore parecer agradável a vossos olhos, até que comestes dela, obedecendo-lhe.

8. “Assim desobedecestes ao Meu mandamento e , portanto, Eu fiz cair sobre vós todas essas tristezas.

9. “Pois Eu sou Deus o Criador, aquele que quando criou as criaturas, não tencionava destruí-las. Mas depois de terem provocado grandemente Minha ira, Eu as puni com castigos atrozes, para que se arrependessem .

10. “Mas , se, ao contrário, elas ainda se mantivessem firmes em sua desobediência, serão amaldiçoadas para sempre . “

VII

1.Quando Adão e Eva ouviram estas palavras de Deus choraram e soluçaram ainda mais; mas fortaleceram seus corações em Deus, porque agora sentiam que o Senhor era para eles como um pai e uma mãe e, por esta mesa razão, choraram diante D´Ele e buscaram sua misericórdia.

2. Então Deus apiedou-se deles e disse : ” Ó Adão, Eu fiz Minha aliança contigo; e não voltarei atrás; nem permitirei que retornes ao Jardim até que Minha aliança dos grandes cinco dias e meio se cumpra”.

3. Então Adão disse a Deus: ” Ó Senhor, Vós nos criastes e nos fizestes aptos a estar no jardim; e antes de eu desobedecer, Vós fizestes todas as feras virem até mim a fim de que eu as nomeasse.

4. ” Vossa graça estava então sobre mim; e eu nomeei a cada uma de acordo com Vosso pensamento; e Vós as fizestes todas submissas a mim.

5. ” Mas, ó Senhor, agora que eu desobedeci ao Vosso mandamento, todas as feras levantar-seão contra mim e me devorarão e a Eva, Vossa serva; e eliminarão nossa vida da face da terra.

6. ” Suplico-Vos, portanto, ó Deus, que, desde que Vós nos fizestes sair do jardim e ficar numa terra estranha, não permitais que as feras nos causem mal.”

7. Quando o Senhor ouviu estas palavras de Adão apiedou-se dele e sentiu que ele dissera a verdade, que as feras do campo se levantariam e o devoraria e a Eva, porque Ele, o Senhor, estava irado com os doios por causa de sua desobediência.

8. Então Deus ordenou às feras e aos pássaros e a tudo que se move sobre a terra, que viessem a Adão e se afeiçoassem a ele e não o perturbassem, nem a Eva; nem ainda aos bons e justos dentre os de sua posteridade.

9. Então as feras prestaram obediência a Adão, de acordo com o mandamento de Deus; exceto a serpente, com quem Deus estava irado. Esta não veio a Adão, junto com as feras.

VIII

1. Então Adão chorou e disse: ” Ó Deus, quando eu morava no jardim e havia enlevo em nossos corações, víamos os anjos que cantavam louvores no céu, mas agora não os vemos mais; ao entrarmos na caverna, toda a criação ocultou-se de nós”.

2. Então Deus, o Senhor, disse a Adão : ” Quando tu eras obdiente a Mim, tinhas uma natureza luminosa em ti e por esta razão podias ver coisas muito distantes. Mas após tua desobediência a natureza luminosa foi-te retirada; e não te foi mais permitido ver coisas distantes mas apenas as bem próximas, aquelas ao alcance de tuas mãos e segundo a capacidade da carne; pois esta é grosseira” .

3. Após ouvirem estas palavras de Deus, Adão e Eva seguiram seu caminho louvando-O e adorando-O com o coração pesaroso.

4. E Deus interrompeu a comunicação com eles.

IX

1. Então Adão e Eva deixaram a Caverna dos Tesouros e aproximaram-se do portão do jardim e ali pararam a olhar para ele e choraram por dele terem saído.

2. E Adão e Eva partiram da frente do portão do jardim em direção ao sul e encontraram ali a água que irrigava o jardim, a água da raiz da Árvore da Vida e que se dividia em quatro rios que corriam pela terra.

3. Então eles vieram e aproximaram-se desta água e olharam para ela; e viram que era a água que brotava da raiz da Árvore da Vida que estava no jardim.

4. E Adão chorou e gemeu e golpeou seu peito por estar afastado do jardim; e disse a Eva :

5. ” E por que tu trouxeste sobre mim, sobre ti mesma e sobre nossa descendência tantos flagelos e castigos ?”

6. E Eva disse-lhe: ” Que foi que tu viste para chorar e falar-me assim ? “

7. E disse ele a Eva : ” Não vês esta água que estava conosco no jardim e que irrigava as árvores do jardim e de lá corria ?

8. ” E nós, quando estávamos no jardim, não nos importávamos com isto; mas desde que viemos para esta terra estranha, nós a amamos, e faremos uso dela para nosso corpo.”

9. Mas quando Eva ouviu dele essas palavras, chorouo; e cheios de dor e gemendo, caíram na água; e ali teriam acabdo consigo mesmos, a fim de nunca mais voltar a ver a criação; pois quando eles olharam para a obra da criação, sentiram que deviam pôr um fim a si mesmos.

 

X

1. Então Deus, misericordioso e benevolente, olhou para eles assim caídos na água tão próximos da morte e enviou um anjo que os tirou da água e deitou-os na praia como mortos.

2. Então o anjo subiu até Deus, foi bem-vindo e disse : ” Ó Deus, Vossas criaturas deram seu último suspiro.”

3. Então Deus enviou Sua Palavra a Adão e Eva e os ressuscitou de sua morte.

4. E Adão disse, após haver sido ressuscitado: “Ó Deus, enquanto estávamos no jardim nem nos importávamos com esta água nem dela necessitávamos; mas desde que viemos para esta terra não podemos passar sem ela “

5. Então Deus disse a Adão: ” Enquanto estavas sob Meu comando e eras um anjo luminoso, não conhecias esta água.”

6. ” Mas após teres desobedecido ao Meu mandamento, não podes passar sem água para lavar teu corpo e fazê-lo crescer; pois este é agora como o das feras e necessita de água.”

7. Quando Adão e Eva ouviram essas palavras de Deus choraram um choro amargo; e Adão suplicou a Deus que lhe permitisse voltar ao jardime olhar para ele uma vez mais.

8. Mas Deus disse a Adão: “Eu te fiz uma promessa; quando esta promessa for cumprida, Eu te trarei de volta ao jardim, a ti e à tua descendência justa”. E Deus parou de se comunicar com Adão.

XI

1. Então Adão e Eva sentiram-se queimando de sede e calor e tristeza.

2. E Adão disse a Eva: “Não devemos beber desta água, mesmo se morrermos. Ó Eva, quando esta água penetrar em nossas entranhas, aumentará nossos castigos e os de nossos filhos que virão depois de nós”.

3. Adão e Eva abstiveram-se então da água e não beberam nada; Mas caminharam e entraram na Caverna dos Tesouros.

4. Mas uma vez dentro dela Adão não podia ver Eva; ele apenas ouvia o ruído que ela fazia. Nem ela podia ver Adão, mas ouvia o ruído que ele fazia.

5. Então Adão chorou em profundo sofrimento e golpeou seu peito; e erguendo-se disse a Eva : “Onde estás?”

6. E ela lhe disse : “Vê, eu estou nesta escuridão”.

7. Ele então lhe disse : “Recorda-te da natureza luminosa na qual vivíamos enquanto habitávamos no jardim!”

8.”Ó Eva! Recorda-te da glória que repousava em nós no jardim. Ó Eva! Recorda-te das árvores que faziam sombra sobre nós no jardim enquanto nos movíamos entre elas”.

9.”Ó Eva! Recorda-te de que, enquanto estávamos no jardim, não conhecíamos nem a noite nem o dia. Pensa na Árvore da Vida, de sob a qual brotava a água e que derramava brilho sobre nós! Recorda-te, ó Eva, da terra do jardim e da sua luminosidade !”

10. “Pensa, oh!, pensa neste jardim onde não havia escuridão enquanto morávamos nele!”

11.“Enquanto que, tão logo chegamos a esta Caverna dos Tesouros, a escuridão envolveu-nos; tanto que não mais podemos ver-nos um ao outro; e todo o prazer desta vida chegou a um fim “.

XII

1. Então Adão golpeou seu peito, e também Eva, e eles prantearam a noite inteira até a aurora se aproximar, e eles lamentaram suspirando a noite longa em Miyazia.

2. E Adão agrediu-se e jogou-se no chão da caverna, em amargo pesar, e por causa da escuridão, ali permaneceu como morto.

3. Mas Eva ouviu o barulho que ele fez ao cair ao chão. E ela tateou à sua volta procurando-o e encontrou-o como um cadáver.

4. Então ela ficou com medo, sem fala e permaneceu junto dele.

5. Mas o Senhor misericordioso olhou para a morte de Adão e para o silêncio de Eva por causa do medo da escuridão.

6. E a Palavra de Deus chegou a Adão e ressuscitou-o de sua morte, e abriu a boca de Eva para que ela voltasse a falar.

7. Então Adão ergueu-se na caverna e disse : “Ó Deus, por que a luz nos deixou e a escuridão nos acometeu ? Por que nos deixais nesta longa escuridão ? Por que nos quereis assim castigar ?”

8. “E esta escuridão, ó Senhor, onde estava, antes de nos acometer ? Ela é tamanha que não podemos ver um ao outro”.

9. “Pois, enquanto estávamos no jardim, não vimos nem mesmo sabíamos o que é a escuridão. E eu não fiquei oculto de Eva, nem ela ficou oculta de mim, até que agora ela não me pode ver; e nenhuma escuridão nos havia acometido antes, separando-nos um do outro”.

10. “Mas ela e eu estávamos ambos numa única luz brilhate. Eu a via e ela a mim. Mas agora desde que entramos nesta caverna, a escuridão nos envolveu e nos separou, assim que eu não a vejo e ela não vê a mim”.

11. “Ó Senhor, quereis então castigar-nos com esta escuridão ?”

XIII

1. Então , quando Deus, que é misericordioso e cheio de piedade, ouviu a voz de Adão, lhe disse

2. “Ó Adão, enquanto o bom anjo foi obediente a Mim, a luz brilhante repousava nele e em suas hostes”

3. “Mas quando ele desobedeceu Meu mandamento, Eu o privei dessa natureza luminosa, e ele se tornou opaco”.

4.” E quando ele estava nos céus, nos domínios de luz, ele não conhecia nada da escuridão”.

5. “Mas ele desobedeceu e Eu o fiz cair do céu para a terra; e foi esta escuridão que lhe sobreveio”.

6. “E sobre ti, ó Adão, enquanto em Meu jardim e obediente a Mim, esta luz brilhante repousou também sobre ti”.

7. “Mas quando Eu soube de tua desobediência, privei-te desta luz brilhante. Ainda assim, por Minha misericórdia, não te transformei em escuridão, mas fiz teu corpo de carne , e sobre ele estendi esta pele, a fim de que suporte o frio e o calor”.

8. “Tivesse Eu permitido à Minha ira cair pesadamente sobre ti, serias destruído; e tivesse Eu te transformado em escuridão, seria como se Eu te matasse”.

9. “Mas, em Minha misericórdia, fiz-te como és, quando tu desobedeceste ao meu mandamento, ó Adão, expulsei-te do jardim e te fiz chegar a esta terra; e ordenei-te habitar nesta caverna; e a escuridão caiu sobre ti, como caiu sobre aquele que desobedeceu ao Meu mandamento” .

10. “Neste caso, ó Adão, esta noite te enganou. A noite não há de durar para sempre; mas por doze horas apenas; quando terminar, a luz do dia retornará”

11. “Não lamentes, portanto, nem te alteres, e não digas em teu coração que esta escuridão é longa e se arrasta devagar; e não digas em teu coração que Eu te estou castigando com isto”.

12. “Fortalece teu coração e não tenhas medo. Esta escuridão não é castigo. Mas, ó Adão, Eu fiz o dia e coloquei nele o sol para dar luz, a fim de que tu e teus filhos fizésseis o vosso trabalho.

13. “Pois Eu sabia que tu irias pecar e desobedecer, e vir para esta terra. Ainda assim Eu não te forçaria, nem seria duro contigo, nem te confinaria; nem te condenaria por tua queda; nem por tua saída da luz para a escuridão; nem mesmo por tua saída do jardim para esta terra”.

14. “Pois Eu te fiz de luz; e quis gerar de ti filhos de luz, semelhantes a ti”.

15. “Mas um dia tu não guardaste Meu mandamento; antes que Eu terminasse a criação e abençoasse tudo nela”.

16. “Então Eu te dei um mandamento acerca da árvore, de não comeres dela. Mesmo assim Eu sabia que Satã , que enganou-se a si próprio, também te enganaria.

17. “Assim Eu te fiz saber, por meio da árvore, que não te aproximasses dele. E Eu te disse para que não comesses do seu fruto, nem dele provasses, nem te sentasses debaixo dela”.

18. “Não tivesse Eu falado a ti, ó Adão, acerca da árvore, e te deixasse sem um aviso, e tu tivesses pecado, teria sido uma maldade de Minha parte não te dar nenhum aviso; tu te voltarias e Me culparias por isto”.

19. “Mas Eu te dei o mandamento e te preveni, e tu caíste. Assim, Minhas criaturas não me podem culpar; porém a culpa recai sobre elas somente”.

20. “E, ó Adão, Eu fiz o dia para ti e para teus descendentes que virão depois de ti, para nele trabalhares e labutarem. E Eu fiz a noite para eles descansarem nela do seu trabalho; e para os animais do campo saírem à noite e procurarem seu alimento”.

21. “Porém, é pouca a escuridão que te resta agora, ó Adão; pois a luz do dia logo surgirá”.

XIV

1. Então Adão disse a Deus : “Ó Senhor, levai minh’alma , e não me deixeis mais ver estas trevas; ou levai-me a algum lugar onde não haja escuridão”.

2. Mas Deus o Senhor disse a Adão: “Em verdade Eute digo, esta escuridão passará por ti todos os dias que determinei para ti até o cumprimento da Minha aliança; quando então Eu te salvarei e te levarei de novo para o jardim, para a morada de luz que tu almejas, onde não há escuridão. Eu o trarei a ele, ao reino do céu”.

3. Novamente Deus disse a Adão: “Toda esta miséria que acarretaste sobre ti por causa da tua desobediência não te libertará das mãos de Satã e ele não te salvará”.

4. “Mas Eu, sim, salvar-te-ei. Quando Eu descer do céu e tornar-Me carne da tua descendência, e tomar sobre Mim a enfermidade da qual tu padeces, então a escuridão que caiu sobre ti nesta caverna virá sobre Mim no túmulo, quando Eu estiver na carne da tua descendência”.

5. “E Eu, que sou eterno, estarei sujeito à contagem dos anos, dos tempos, dos meses e dos dias, ,e serei considerado como um dos filhos dos homens, para te salvar”.

6. E Deus parou de se comunicar com Adão.

XV

1. Então Adão e Eva choraram e entristeceram-se por causa das palavras que Deus lhe dissera, que eles não voltariam ao jardim até o cumprimento dos dias decretados para eles; mas principalmente por haver Deus dito que Ele deveria sofrer para salvá-los.

XVI

O primeiro alvorecer. Adão e Eva pensam que é um fogo vindo para exterminá-los.

1. Depois disso Adão e Eva não pararam de orar e chorar na caverna até que a manhã desceu sobre eles.

2. E ao ver a luz sendo-lhes devolvida, deixaram de ter medo e fortaleceram seus corações.

3. Então Adão começou a sair da caverna. E quando chegou na boca da caverna, parou e voltou sua face em direção do leste, viu o sol levantar-se em raios brilhantes e sentiu o seu calor no seu corpo; teve medo dele e pensou em seu coração que esta chama vinha para castigá-lo.

4. Ele chorou então e golpeou seu peito, e prostou-se com a face na terra e fez seu pedido dizendo:

5. “Ó senhor, não me castigueis, nem me destruais, nem tireis já minha vida da terra”

6. Pois ele pensou que o sol era Deus.

7. Já que enquanto estava no jardim e ouvia a voz de Deus e o som que Ele fazia no jardim e O temia, Adão nunca vira a luz brilhante do sol, nem seu calor flamejante tocara seu corpo.

8. Porisso ele ficou com medo do sol quando seus raios ardentes o alcançaram. Ele pensou que com isto Deus tencionava castigá-lo todos os dias decretados por ele.

9. Pois Adão também disse em seus pensamentos: “Já que Deus não nos castigou com a escuridão, eis que Ele fez este sol nascer para castigar-nos, queimando-nos com seu calor”.

10. Mas, enquanto ele assim pensava no seu coração, a Palavra de Deus veio e lhe disse :

11. “Ó Adão, levanta-te e põe-teem pé. Estesol não é Deus; mas foi criado para iluminar o dia. Foi o que Eu te falei na caverna dizendo que a aurora irromperia e haveria luz durante o dia.

XVII

A serpente

1. Então Adão e Eva saíram pela boca da caverna e caminharam em direção ao jardim.

2. Mas ao aproximarem-se dele, defronte ao portão oeste, do qual viera Satã quando enganou Adão e Eva, encontraram a serpente que se tornara Satã e que tristemente lambia o pó e se arrastava com seu peito no chão, por causa da maldição de Deus.

3. Aserpente, que antes tinha sido o mais sublime de todos os animais, agora estava mudada e se tornara escorregadia e o pior de todos eles e arrastava-se sobre seu peito e andava sobre seu ventre.

4. Considerando que fora o mais belo de todos os animais, mudada, tornou-se o mais feio de todos eles. Em vez de alimentar-se do melhor, agora comia o pó. Em vez de habitar, como antes, os melhores lugares, agora viva no pó.

5. E, enquanto era o mais belo de todos os animais, todos emudeciam perante sua beleza; agora tornara-se abominável.

6. E, novamente, enquanto ela habitara uma bela morada, todos os outros animais para ali acorriam; e onde bebesse, eles também bebiam; agora, depois de se tornar venenosa pela maldição de Deus, todos os animais fugiam de sua morada, e não bebiam mais da água que ela bebesse; mas fugiam desta.

XVIII

O combate mortal com a serpente

1. Quando a amaldiçoada serpente viu Adão e Eva, inclinou a cabeça, pôs-se sobre sua cauda e, com os olhos injetados de sangue, fez menção de matá-los.

2. E avançou diretamente para Evae lançou-se atrás dela; enquanto Adão, de lado, chorava por não ter uma vara em suas mãos com a qual pudesse golpear a serpente, e não sabia como matála.

3. Mas, com o coração ardendo por Eva, Adão aproximou-se da serpente e a segurou pela cauda; quando então ela se voltou em sua direção e disse :

4. “Ó Adão, por causa de ti e de Eva eu sou escorregadia e ando sobre meu ventre.” Então, sendo grande sua força, derrubou Adão e Eva e os esmagou, com intenção de matá-los.

5. Mas Deus mandou um anjo que lançou a serpente para longe deles e os ergueu.

6. Então a Palavra de Deus veio à serpente, dizendo: “Da primeira vez Eu te fiz loquaz e te fiz andar sobre teu ventre; mas Eu não te havia privado da fala.

7. “Agora, ,entretanto, sê muda; e não mais falarás, tu e tua raça; porque da primeira vez a ruína das minhas criaturas aconteceu através de ti, e agora tu querias matá-las”.

8. Então a serpente emudeceu e não mais falou.

9. E soprou um vento do céu por ordem de Deus e carregou a serpente para longe de Adão e Eva, jogando-a na beira do mar, e ela foi parar na Índia.

 XIX

1. Mas Adão e Eva choraram perante Deus. E Adão disse-Lhe :

2. “Ó Senhor, quando eu estava na caverna Vos disse, meu Senhor, que os animais do campo se levantariam e me devorariam e eliminariam minha vida na terra”

3. Então Adão, por causa do que lhe havia acontecido, golpeou seu peito e prostrou-se em terra como um cadáver; então sobreveio a Palavra de Deus que o ergueu e disse-lhe :

4. “Ó Adão, nenhum desses animais poderá ferir-te porque quando Eu fiz estes animais e outras coisas moventes virem até ti na caverna, não permiti à serpente vir com eles, para que não se levantasse contra vós e vos fizeste tremer; e o medo que sentiríeis penetrasse em vossos corações.

5. “Pois Eu sabia que esta amaldiçoada é maldosa; porisso Eu não lhe permiti chegar perto de vós com os outros animais.

6. “Mas agora fortalece teu coração e não tenhas medo. Eu estou contigo até o fim dos dias que determinei para ti”.

XX

1. Então Adão chorou e disse : “Ó Deus, levai-nos para algum outro lugar, onde a serpente não possa novamente aproximar-se e levantar-se contra nós. Para que não encontre Vossa criada Eva sozinha e a mate, pois seus olhos são medonhos e maus”

2. Mas Deus disse a Adão e Eva : “Daqui por diante não tenhais medo, não permitirei que ela se aproxime de vós; Eu a afastei de vós, dessa montanha; nem permitirei que ela de modo algum vos machuque”

3. Então Adão e Eva adoraram a Deus e deram-lhe graças, e louvaram-no por livrá-los da morte.

 

Parábola de Jesus a Maria Madalena (Apócrifos da Bíblia)

Este Evangelho foi escrito provavelmente no século II. Foi através de um fragmento copta, que ele chegou até nós. O destaque fica para a estranha parábola que Jesus conta para Maria Madalena. Esta passagem ocorreu após a sua crucificação.  

 FRAGMENTO DO EVANGELHO SEGUNDO MARIA MADALENA

 

Salvador disse: “Todas as espécies, todas as formações, todas as criaturas estão unidas, elas dependem umas das  outras,  e  se  separarão  novamente  em  sua  própria  origem.  Pois  a essência  da  matéria  somente  se  separará  de  novo  em  sua  própria  essência.  Quem tem ouvidos para ouvir que ouça”. 

 Pedro lhe disse: “Já que nos explicaste tudo, dize-nos  isso  também: o que é o pecado do mundo?”  Jesus  disse:  Não  há  pecado;  sois  vós  que  os  criais,  quando  fazeis  coisas  da mesma espécie que o adultério, que é chamado ‘pecado’. Por isso Deus Pai veio para o meio de vós, para a essência de cada espécie, para conduzi-la a sua origem.” 

 Em seguida disse:  Por  isso  adoeceis  e  morreis  […].  Aquele  que  compreende  minhas  palavras, que as coloque-as em prática. A matéria produziu uma paixão sem igual, que se originou de algo contrário  à Natureza Divina. A partir daí,  todo o corpo  se desequilibra. Essa é a  razão  por  que  vos  digo:  tende  coragem,  e  se  estiverdes desanimados, procurais força das diferentes manifestações da natureza. Quem tem ouvidos para ouvir que ouça.” 

 Quando o Filho de Deus assim  falou,  saudou  a  todos  dizendo:  “A  Paz  esteja  convosco. Recebei minha  paz.  Tomai  cuidado  para  ninguém  vos  afaste  do  caminho,  dizendo:  ‘Por aqui’ ou  ‘Por lá’, Pois o Filho do Homem está dentro de vós. Segui-o. Quem o procurar, o encontrará. Prossegui agora, então, pregai o Evangelho do Reino. Não estabeleçais outras regras, além das que vos mostrei, e não  instituais como  legislador, senão sereis cerceados por elas”. Após dizer tudo isto partiu. 

 Mas eles estavam  profundamente  tristes. E falavam: “Como vamos  pregar  aos  gentios  o Evangelho ao Reino do Filho do Homem? Se eles não o procuraram, vão poupar a nós?”

Maria  Madalena  se  levantou,  cumprimentou  a  todos  e  disse  a  seus  irmãos:  “Não  vos lamentais  nem  sofrais,  nem  hesiteis,  pois  sua  graça  estará  inteiramente  convosco  e  vos protegerá. Antes, louvemos sua grandeza, pois Ele nos preparou e nos fez homens”. Após Maria ter dito isso, eles entregaram seus corações a Deus e começaram a conversar sobre as palavras do Salvador. 

 Pedro disse a Maria: “Irmã, sabemos que o Salvador te amava mais do que qualquer outra mulher. Conta-nos as palavras do Salvador, as de que te lembras, aquelas que só tu sabes e nós nem ouvimos.”  

 Maria Madalena respondeu dizendo: ” Esclarecerei a vós o que está oculto”. E ela começou a falar essas palavras: “Eu”, disse ela, “eu tive uma visão do Senhor e contei a Ele: ‘Mestre, apareceste-me hoje numa visão’. Ele respondeu e me disse: ‘Bem aventurada sejas, por não teres fraquejado ao me ver. Pois, onde está a mente há um tesouro’. Eu lhe disse:  ‘Mestre, aquele que tem uma visão vê com a alma ou como espírito?’ Jesus respondeu e disse: “Não vê nem com a alma nem com o espírito, mas com a consciência, que está entre ambos  – assim é que tem a visão […]”.  

 E o desejo disse à alma: ‘Não te vi descer, mas agora te vejo subir. Por que falas mentira, já que pertences a mim?’  A  alma  respondeu  e  disse: ‘Eu  te  vi.  Não me viste, nem  me reconheceste. Usaste-me como acessório e não me reconheceste.’ Depois de dizer  isso,  a alma  foi  embora,  exultante  de  alegria.  “De novo alcançou a terceira potência ,  chamada ignorância. A potência, inquiriu a alma dizendo: ‘Onde vais? Estás aprisionada à maldade. Estás aprisionada, não julgues!’ E a alma disse: ‘ Por que me julgaste apesar de eu não haver julgado? Eu estava aprisionada; no entanto, não aprisionei. Não fui reconhecida que o Todo se está desfazendo, tanto as coisas terrenas quanto as celestiais.’ “Quando a alma venceu a terceira potência, subiu e viu a quarta potência, que assumiu sete formas. A primeira forma, trevas; a segunda , desejo; a terceira, ignorância,; a quarta, é a comoção da morte; a quinta, é o reino da carne; a sexta, é a vã sabedoria da carne; a sétima, a sabedoria irada. Essas são as sete potências da ira. Elas perguntaram à alma: ´De onde vens, devoradoras de homens, ou onde vais, conquistadora do espaço?’ A alma respondeu dizendo: ‘ O que me subjugava foi eliminado e o que me  fazia  voltar  foi  derrotado…,  e meu  desejo  foi  consumido  e  a ignorância morreu. Num mundo fui libertada de outro mundo; num tipo fui libertada de um tipo celestial e também dos  grilhões  do  esquecimento,  que  são  transitórios.  Daqui  em diante, alcançarei em silêncio o final do tempo propício, do reino eterno’.” 

 Depois de ter dito isso, Maria Madalena se calou, pois até aqui o Salvador lhe tinha falado. Mas André respondeu  e disse  aos  irmãos: “Dizei o que  tendes para dizer  sobre o que  ela falou.  Eu,  de  minha  parte,  não  acredito  que  o  Salvador  tenha  dito  isso.  Pois esses ensinamentos carregam ideias estranhas”. Pedro respondeu e falou sobre as mesmas coisas.

Ele os inquiriu sobre o Salvador:“Será que ele realmente conversou em particular com uma mulher  e  não  abertamente  conosco? Devemos mudar  de  opinião  e  ouvirmos  ela?  Ele  a preferiu a nós?” Então Maria Madalena se lamentou e disse a Pedro: “Pedro, meu irmão, o que estás pensando? Achas que inventei tudo isso no mau coração ou que estou mentindo

sobre o Salvador?” Levi respondeu a Pedro: “Pedro, sempre fostes exaltado. Agora te vejo competindo com uma mulher como adversário. Mas, se o Salvador a fez merecedora, quem és tu para rejeitá-la? Certamente o Salvador a conhece bem. Daí a ter amado mais do que a nós.  É antes, o caso de  nos  envergonharmos  e  assumirmos  o  homem  perfeito  e  nos separaremos, como Ele nos mandou, e pregarmos o Evangelho, não criando nenhuma regra ou lei, além das que o Salvador nos legou.” 

 Depois que Levi disse essas palavras, eles começaram a sair para anunciar e pregar.

O aleatório em nossas vidas (Livro O Andar do Bêbado)

“Deus é o próprio conjunto de leis que rege a natureza”, Leonard Mlodinow.

Se o físico superstar Stephen Hawking disse que o livro O Andar do Bêbado do físico Leonard Mlodinow (Editora Zahar) é “um guia maravilhoso e acessível sobre como o aleatório se manifesta em nossas vidas“, quem sou eu para refutá-lo?

Curiosamente, Mlodinow é um dos sobreviventes do atentado terrorista de 11 de setembro de 2001. Coincidência? Acaso?

Como não acredito em coincidência ou acaso, muito me interessei pela obra, para que eu pudesse ter contato com um ponto de vista “não-junguiano” sobre o assunto “acaso” e “causa-efeito”. O autor (que esteve no Brasil para a Bienal do Livro no Rio, e que trabalhou nos anos 1980, como roteirista nas séries McGyver e Jornada nas Estrelas: A Nova Geração) se põe contra a intuição e alega que tudo o que ocorre conosco é apenas resultado de opções lógicas, muitas desprezadas.

Mlodinow diz que “a resposta humana à incerteza é tão complexa que, por vezes, distintas estruturas cerebrais chegam a conclusões diferentes e aparentemente lutam entre si para determinar qual delas dominará as demais. Quando lidamos com processos aleatórios – seja em situações militares ou esportivas, questões de negócios ou médicas –, as crenças e a intuição muitas vezes nos deixam em maus lençóis”.

 Será?

E como fica a intuição nessa história? Seria o vilão? Para o autor, a intuição até pode dar certo, mas não é comum, é incomum. Há aleatoriedade e incerteza antes. Para os familiarizados com ficção científica e teorias quânticas, há um paradoxo que prega que se um viajante do tempo voltasse ao passado para impedir que um evento futuro ocorresse, ele de fato, conseguiria mudar o “futuro”, mas esse “novo futuro”, a nova possibilidade, não faria parte da linha do tempo original, mas de uma linha paralela, ou seja: o futuro não seria afetado na linha de tempo original, mas essa mudança ocorreria sim, em um outro plano. A história teria então, duas possibilidades e não mais uma como anteriormente, mas ambas não se misturariam. Seria como um backup universal que duplicaria a ação, mas não apagaria a matriz oficial. Esse é o paradoxo do não livre-arbítrio.

 E o que o livro de Mlodinow explica é que não há livre-arbítrio, mas possibilidades matemáticas, por mais absurdas que sejam. A insistência é um desses fatores que levam ao sucesso, como por exemplo na questão dos autores que ouvem vários nãos em relação aos seus livros, uma rejeição repetida, antes que suas obras se tornem grandes sucessos. A lista dos autores desprezados é imensa. Os que desistem ficam fora da disputa.

 “O sucesso resulta tanto de fatores aleatórios quanto de habilidade, preparação e esforço. Portanto, a realidade que percebemos não é um reflexo direto das pessoas ou circunstâncias que a compõem, e sim uma imagem borrada pelos efeitos randomizantes de forças externas imprevisíveis ou variáveis”.

 “A teoria da aleatoriedade é fundamentalmente uma codificação do bom senso. Mas também é uma área de sutilezas, uma área em que grandes especialistas cometeram equívocos famosos e apostadores experientes acertaram de maneira infame”.

 Leonard Mlodinow

O livro (re)apresenta conceitos matemáticos (lógicos per se) que explicam que os ciclos de sucesso/fracasso/acerto/erro não são resultantes exclusivamente de escolhas humanas (apesar de estarem intimamente ligados a) mas de aleatoriedades. Um dos exemplos que o autor dá, é curiosamente interessante para nós brasileiros: o técnico de futebol. Há um ciclo de vitórias quando o técnico chega e algum tempo depois, até mesmo após ter sido campeão brasileiro, ocorre um ciclo de fracassos e crises. Esse elemento desagregador não seria responsabilidade nem do técnico, da imprensa e nem do time, mas de um ciclo inevitável de subidas e quedas, e mais especificamente do acaso, da aleatoriedade, segundo teses matemáticas modernas, quase quânticas.

 Nos anos 1930, o tcheco-americano Kurt Gödel – amigo de Einstein – provou que a maior parte da matemática deve ser inconsistente ou então conter verdades que não podem ser provadas.

 Mlodinow inicia o livro com um exemplo paterno:

 “Às vezes ocorrem coisas que não podem ser previstas”, disse-lhe o pai. “Ele me contou de quando, em Buchenwald, o campo de concentração nazista em que ficou preso, já quase morrendo de fome, roubou um pão da padaria. O padeiro fez com que a Gestapo reunisse todos os que poderiam ter cometido o crime e alinhasse os suspeitos. “Quem roubou o pão?”, perguntou o padeiro. Como ninguém respondeu, ele disse aos guardas que fuzilassem os suspeitos um a um, até que estivessem todos mortos ou que alguém confessasse. Meu pai deu um passo à frente para poupar os outros. Ele não tentou se pintar em tons heroicos, disse-me apenas que fez aquilo porque, de qualquer maneira, já esperava ser fuzilado. Em vez de mandar fuzilá-lo, porém, o padeiro deu a ele um bom emprego como seu assistente”.

 E concluiu: “Não teve nada a ver com você, foi um lance de sorte, mas se o desfecho fosse diferente, você nunca teria nascido.”

 Que coisa né? É uma forma de ver a vida: a aleatoriedade.

 “O papel do acaso em nossas vidas não é exclusividade dos extremos. O desenho de nossas vidas é continuamente conduzido em novas direções por diversos eventos aleatórios que, juntamente com nossas reações a eles, determinam nosso destino. Como resultado, a vida é ao mesmo tempo difícil de prever e difícil de interpretar”.

 Leonard Mlodinow se debruça sobre as mais diversas teorias matemáticas, explicadas com muita exatidão, até mesmo para pessoas que como eu, não gostam de cálculos. O livro é um primor de humor e exatidão logística, explicando todas as teses, como por exemplo o fenômeno chamado de “efeito borboleta”, que prediz que ínfimas alterações atmosféricas, como as causadas pelo bater das asas de uma borboleta, poderiam ter um grande efeito nos subsequentes padrões atmosféricos globais. O autor confessa que “essa noção pode parecer absurda – é equivalente à ideia de que a xícara de café que você tomou de manhã poderia levar a alterações profundas em sua vida. No entanto, isso é efetivamente o que acontece”.

 Para fechar a resenha, mais uma história deliciosa:

 “NO OUTONO DE 1941, alguns meses antes do ataque japonês a Pearl Harbor, um agente de Tóquio pediu a um espião em Honolulu que fizesse um relatório sobre os navios presentes no porto. O pedido foi interceptado e enviado ao Escritório de Inteligência Naval. A mensagem chegou a Washington, decodificada e traduzida, em 9 de outubro.

 Algumas semanas depois, ocorreu um incidente curioso: os monitores americanos perderam o sinal das comunicações de rádio de todos os porta-aviões conhecidos na primeira e segunda frotas japonesas, perdendo com isso todas as informações sobre sua localização. Então, no início de dezembro, a Unidade de Inteligência em Combate relatou que os japoneses haviam alterado seus códigos que identificam a fonte de uma transmissão de rádio.

 Em tempos de guerra, esses códigos revelam a identidade de uma fonte, não só para os aliados, mas também para os inimigos; por isso, são alterados periodicamente. O fato de que os japoneses os tivessem alterado duas vezes em 30 dias era considerado “um passo na preparação de operações em grande escala”.

 Dois dias depois, foram interpretadas e decodificadas mensagens japonesas enviadas a representações diplomáticas para que destruíssem imediatamente a maior parte de seus códigos e queimassem todos os documentos confidenciais. Por volta dessa época, o FBI também interceptou uma ligação telefônica de um cozinheiro do consulado havaiano para alguém em Honolulu, informando, muito empolgado, que os oficiais estavam queimando todos os documentos importantes. O diretor-assistente da principal unidade de inteligência do Exército, tenente-coronel George W. Bicknell, levou uma das mensagens interceptadas a seu chefe quando este se preparava para sair para jantar com o chefe do Departamento Havaiano do Exército. Era o final da tarde de sábado, 6 de dezembro, um dia antes do ataque. O superior de Bicknell levou cinco minutos para analisar a mensagem, depois a deixou de lado, considerando que não tinha importância, e saiu para jantar. Quando analisados em retrospecto, esses eventos parecem anunciar um grande mau presságio; por que, estando de posse dessas informações, ninguém foi capaz de prever o ataque?

Resposta: Em qualquer série complexa de eventos na qual cada evento se desenrola com algum elemento de incerteza, existe uma assimetria fundamental entre o passado e o futuro”.

A Magia do Dinheiro

LIVRO A MAGIA DO DINHEIRO – O Segredo da Prosperidade (Christopher Penczak) – 256 páginas – Editora Madras.

“Eu estou no lugar certo, na hora certa, fazendo a coisa certa.”

 Para a maior parte das pessoas a questão financeira, a “estabilidade”, está em primeiro lugar. E por que não estaria? Acreditamos, – no coletivo mesmo -, que o dinheiro resolve tudo. Bem, dinheiro pode acertar muita coisa, mas nem tudo o dinheiro pode comprar… Então, “por que escrever um livro de magia sobre como obter dinheiro”? A resposta é porque dinheiro, quando surge, não vem desacompanhado. Pode vir com um grande número de problemas, que devem ser compreendidos e evitados.

Christopher Penczak, o autor, é profissional de Reiki nas tradições Shamballa e Usui Tibetano, mas se autointitula mesmo, um bruxo que há anos se dedica a expandir a consciência das pessoas de sua comunidade em organizações não governamentais fundadas por ele mesmo e seus parceiros, estudiosos de paganismo.

O livro explica argutamente, por quê e como obter dinheiro (eu digo, além do que já temos) e o que esse fetiche de poder em forma de papel significa. Ao entender as razões, damos início às práticas e através delas somos conduzidos a um ambiente de sugestão mental, que mesclado ao espiritual nos proporciona o dinheiro de que necessitamos. Para quem já leu ou viu o filme O Segredo de Rhonda Byrne, é fácil entender o processo, que é muito semelhante.  Mas com diferenças significativas. Não basta apenas mentalizar, imaginar e pedir. Não é bem assim que funciona. É necessário saber o por quê e para quê.

A questão é que:

1 – Não se fala que as práticas de O Segredo são derivadas da bruxaria.

2 – Se a palavra “bruxaria” te horrorizou é porque já está julgando e julgar é feio. Na bruxaria, como em O Segredo, não existe bem ou mal. Existem energias poderosas que podem ser somadas (e  não “somatizadas”)  fundidas, conectadas,  para se criar o todo, que é a harmonia. Através dessa união, o tal dinheiro surge em sua vida.

As práticas oferecidas ao leitor, são oferendas à natureza, típicas do paganismo. Pagãos não acreditam no Diabo Cristão, mas acreditam na maldade. No paganismo não se fala em pedir nada a Deus, mas ao Universo. Os quatro elementos da Natureza (ar, água, fogo, terra) devem estar sempre conectados, para exemplificar, mesmo que em um ritual, a união de todas as energias. União que faz a força. Você faz o serviço, você mentaliza, você é o único responsável.

Não adianta pedir dinheiro ao Universo, sem dar nada em troca. E não é suficiente pensar que sua ânsia pelo dinheiro se justifica pelo amor que você tem pela sua família. Isso ainda é pouco. Não basta acreditar em “serei feliz com dinheiro” pois de fato, dinheiro não traz felicidade. Mas de que adianta falar isso, se acreditam que dinheiro é tudo de bom…  Bem, ruim não é, mas dinheiro pode ser como semente cultivada em pedra.

Então vamos aos fatos: sem reproduzir parte do que está contido neste livro, fica difícil convencer alguém mesmo, mas a questão apenas se fundamenta em equilíbrio. Sempre.

“A sabedoria da bruxaria realmente guarda um segredo no que se refere à prosperidade. O segredo consiste em viver sua vida com satisfação. Sabemos que se pode ter tudo o que quiser se tiver intenções claras e poder suficiente. Ao praticar magia, você começará a distinguir entre o que realmente quer, o que a sua alma deseja e o que você acha que quer porque a sociedade diz que é assim que deve ser. Aqueles que vivem de acordo com sua alma podem fazer ou ter tudo.”

“O Diabo do Tarô nos ensina como trabalhar coma  experiência do pentagrama invertido, pois ele já o REVERTEU. Ele está conectado ao nível mais profundo do espírito e por meio dessa conexão, liberta-se e tem um verdadeiro propósito. Aqueles que não compreendem que sua segurança e liberdade máximas vêm da conexão espiritual com a  abundância do Universo são aqueles que vivem em desequilíbrio. Eles buscam a segurança e a liberdade no mundo material, querem acumular fortunas, querem mergulhar em tudo o que está disponível, guardando tudo para si. Eles querem FARTURA e não PROSPERIDADE.”

“PROSPERIDADE não é apenas energia, mas um estado de consciência.”

“Para eliminar um programa (obs: mental, imposto por séculos de cultura ocidental), devemos chegar à sua raiz, à sua origem. Devemos compreender essa raiz e “desenterrá-la”, mas também temos de analisá-la, conhecer as circunstâncias que a geraram.”

muita gente no mundo, em especial no Terceiro Mundo, que está ocupada com o nível de consciência do chacra básico ou da raiz (entre os órgãos sexuais e o ânus), o nível da sobrevivência. Afinal de contas, essas pessoas vivem em condições de extrema pobreza e má nutrição. Essa noção de espiritualidade é baseada em um falso programa (obs: ou programação) que considera o mundo físico mau ou vergonhoso – são os que têm maiores problemas com o dinheiro. No entanto, muitas pessoas que vivem na pobreza sentem prazer na vida.”

“Se quiser receber PROSPERIDADE, liberte-se de tudo em sua casa, que você não necessita. Devolva ao Universo abundante e, ao criar espaço em sua vida, o Universo retribuirá. Caso não se liberte de livros, discos, vídeos e roupas, que dizer que você não entendeu o objetivo.”

“Nossa primeira relação emocional é conosco. Não podemos nos relacionar com qualquer outra coisa ou pessoa sem antes ter uma conexão interna conosco. “Conhece-te a ti mesmo.”

“Agradeça todos os dias pelas coisas que você é grato em sua vida.”

“Você deve ser capaz de não falar apenas com o Universo e com outras pessoas, mas também deve ouvir e compreender as mensagens que elas e o Universo querem passar (obs: SINCRONICIDADES).”

“O desejo por riqueza, sexo, segurança não é mau. Tudo é divino. No entanto é importante distinguir NECESSIDADE e VONTADE. Nenhuma necessidade ou vontade é errada, desde que sejamos honestos conosco e com nossas motivações. As virtudes pagãs de autoconfiança, diligência e perseverança têm papéis importantes para quem quer ser bem-sucedido na vida.”

Christopher Penczak exemplifica em vários tópicos como são essas práticas de magia, além de destacar que nem sempre o mundo mágico está imune à capacidade humana de incompreensão. Penczak ilustra os casos com exemplos, inclusive pessoais a respeito de problemas com alunos e práticas de limpeza espiritual. O autor descreve quais são as essências ideais para os trabalhos, além de destacar artes divinatórias como o tarô, astrologia, o uso das ervas, pedras, e lista uma série de feitiços e fórmulas mágicas.

Penczak fecha o trabalho com bons conselhos sobre como ter uma vida equilibrada, inclusive pagando as contas atrasadas.

Insights de humanos e Intuições animais

Entre os livros recentemente lançados sobre espiritualidade, “Descobridores do Infinito” de Maria Coffey (Editora Lafonte) comprova que os atletas de aventura se deparam com mais experiencias metafísicas do que os não atletas supõem. Os atletas radicais se arriscam não só pelo prazer, pela força da adrenalina, mas também para entrarem em novos níveis de consciência, mesmo que aparentemente não saibam disso e nem acreditem.

Há muitos e interessantes capítulos, mas destacarei “Estranhas Intuições”, pelo menos nesta postagem, um capítulo que me falou muito. Gostaria de repartir os insights com os leitores. Reproduzo a partir daqui trechos do mesmo e pretendo falare  reproduzir outras ótimas passagens dessa publicação.

“O que a intuição perde em precisão ganha sendo imediata. Ela entra em ação quando algum interesse vital nosso está em jogo, rasgando as trevas da noite em que nosso intelecto nos abandona.” Henri Bergson, The Creative Mind.

Uma sensação, um palpite, sexto sentido – essas palavras costumam descrever a intuição agindo. O termo deriva do latim intueri, “olhar para dentro”, e o dicionário a define como uma “forma de conhecimento direta, clara e imediata, capaz de investigar objetos pertencentes ao âmbito intelectual, a uma dimensão metafísica ou à realidade concreta”. Carl Jung dizia que a intuição é a percepção de realidades dseconhecidas para a mente consciente e uma das nossas quatro funções básicas, juntamente com a sensação, o sentimento e o pensamento. Parece que a intuição é acessada por meios diferentes: em pensamentos repentinos e de indiscutível clareza, em emoções ou por meio de sensações físicas.Nos Estados Unidos, dizemos que é um gut feeling (algo que se sente no meio do abdôme); no Japão, o termo para a pessoa que está levando a intuição em conta se traduz como captar “a arte do estômago”.

Embora os cientistas ainda tenham de compreender o que é a intuição e como ela opera, muitas pessoas levam-na a sério e recorrem a ela para obeter informações sobre si mesmas, sobre outras pessoas e sobre o meio ambiente. Em 1992, Peter Vegso, o diretor da HCI, uma editora que estava em apuros, conheceu um escritor que estava tentando vender um livro de ensaios sobre motivação para o qual, até então, tinha recebido apenas incontáveis cartas de rejeição. Vegso teve uma sensação boa a respeito do autor e um palpite de que deveria comprar seu trabalho. Sem sequer examinar o manuscrito, concordou em publicá-lo. Seu palpite acabou se mostrando acertado.  O livro Canja de galinha para a alma vendeu mais de 70 milhões de exemplares em 35 línguas e transformou a HCI em uma das maiores editoras fora de Nova Iorque. Vegso ainda presta atenção ao que “sente no meio do abdome”. Não acredita em planos para cinco ou dez anos, mas acredita em intuição. E não é o único. Uma pesquisa realizada em maio de 2002 pela Christian and Timbers, uma empresa de “caça a executivos”, revelou que dos 601 excutivos listados na Fortune entre os mil empreendimentos mais lucrativos dos Estados Unidos, 45% admitiram confiar mais em intuição do que em fatos e números, na condução de seus negócios.

Os psicólogos comportamentais classificam os pensadores intuitivos como criativos, alertas, confiantes, informais, espontâneos e independentes. Essas pessoas não têm receio de suas experiências e estão abertas a novos desafios. Podem conviver com dúvidas e incertezas. Esse também é um perfil abrangente de pessoas que correm riscos extermos, tanto profissionalmente como em suas aventuras.

“Quando você está entrando em uma área com muitos elementos desconhecidos e a experiência é importante”, diz Howard Gardner, professor de cognição e educação na universidade de Harvard, “se você não confiar na intuição estará se limitando bastante”. E, se você for um esportista radical, talvez acabe morrendo.

Animais sensitivos
Há milhares de anos se acumulam relatos de animais antecipando-se a eventos naturais, em especial terremotos. Em 373 d.C., ratos, serpentes e castores foram citados em episódios narrando sua fuga da cidade grega de Hélice alguns dias antes de ela ser totalmente destruída por um terremoto. Em 1974, mais de um milhão de pessoas foram obrigadas a evacuar a cidade de Haicheng, na província de Liaoning na China por causa de uma rara série de pequenos abalos sísmicos acompanhados de relatos maciços de comportamento animal incomum.  Daí a poucas horas, houve um terremoto de 7,3 graus na escala Richter. Cerca de 90% das construções da cidade foram destruídas e, em toda a região, no total 2.000 pessoas morreram ou ficaram feridas – muito menos do que a população tivesse permnecido na cidade. Um ano depois, outro terremoto atingiu a cidade de Tang Shan; apesar de sinais geológicos e animais similares, não foi organizada a evacuação em massa da cidade e isso custou a vida de mais de 250 mil habitantes. Atualmente, o Serviço Sismológico Chinês reconhece a validade de relatórios de comportamento incomum em animais. O zoológico Ashan, na província de Liaoning, e uma rede de zoos em Xangai têm programas sismológicos em andamento com a captura assídua de imagens dos animais que vivem ali para acompanhar eventuais mudanças em seus padrões habituais de comportamento.

Tsunami

Após o tsunami na Ásia em dezembro de 2004, Rupert Sheldrake reuniu relatos de comportamentos de animais pouco antes da catástrofe. Elefantes em Sri Lanka, em Sumatra e na Tailândia foram vistos abandonando as regiões litorâneas e procurando terras mais altas. Em Galle, no Sri Lanka, alguns donos de cães disseram que seus animais se recusaram a sair para o passeio matinal naquele dia, e que na praia de Ao Sane , na Tailândia, os cachorros subiram em disparada até o alto dos morros. Um nativo de bang Koey, na tailândia, disse que um rebanho de búfalos que estava perto da praia de repente ergueu a cabeça em um movimento só e se virou para olhar o mar com as orelhas em pé.
Os seres humanos seriam capazes também de captar sinais sutis de mudanças no meio ambiente. Após um terremoto e um tsunami terem atingido as ilhas salomão no início de 2007, houve relatos de crianças da aldeia de Gizo, perto do epicentro do abalo, que decidiram não ir nadar naquela manhã, o que era muito incomum, e de pescadores que de repente voltaram para casa em suas canoas esculpidas a mão em troncos de árvore porque tinham percebido “correntes estranhas” no mar. Nos dois casos, essas premonições lhes salvaram a vida.

“A intuição tem a ver com o corpo traduzindo a  energia que ele captou”, diz Marlene Smith, uma veterinária e montanhista que vive na ilha de Vancouver. “Os animais ouvem essas mensagens físicas, mas a maioria dos humanos as descarta com alguma explicação racional.”

Waldo Vieira e Mágica Vida Mágica.

Waldo Vieira e livro Mágica Vida Mágica de Carlos Lopes – CEAEC – 25 / 09 / 2011.

O TEMPO NÃO PARA – Cazuza, Lucinha e a força nossa de cada dia.

“É a falta que nos impulsiona na vida. Estamos sempre querendo alguma coisa que não temos, por isso tentamos preencher os vazios. Também por isso sobrevivi.” Lucinha Araújo.

Cazuza e Lucinha.

Há várias formas de amar: a desprovida de cobranças, que liberta para ser liberto, e a mais frequente, que é o amor egoísta, possessivo. Nem sempre o amor é compreendido como um ato além do carnal. Pena. Mas é assim que a humanidade caminha desde a sua criação. Enfim, Errare humanum est. Como no amor e na vida, há exemplos edificantes, daqueles que suplantam toda dor e dificuldades com uma força interna invejável. O Brasil ainda é um país desprovido de pessoas inspiradoras que possam guiar, que indiquem caminhos, que sejam aceitos. Pode-se contar nos dedos. Elogiar é fácil, difícil é fazer, mudar a própria conduta.

Cazuza, que teria completado 53 anos em abril de 2011, é conhecido por ter sido vocalista do Barão Vermelho e por ter dado sequência, após a saída da banda, à uma belíssima carreira solo.  Ele também fez história ao tornar pública a sua doença em uma época com muito mais preconceito e desconhecimento.  Os comentários à época foram, como era de se esperar, jocosos, para dizer o mínimo: que como artista, ele usou a doença para se promover – ou para dar um tapa na cara da sociedade (a piscina cheia de ratos de ”O Tempo Não Para”). Também era comum ouvir que Cazuza possuía condições de se tratar, diferentemente da maioria da população, e que a sua doença era resultado de uma vida “promíscua”. A bem da verdade ou das meias verdades, o que importa é que Cazuza fez história, sempre com personalidade.

Para não morrer em vida, juntamente com o seu filho, Lucinha Araújo organizou um show para angariar fundos para associações que cuidassem de aidéticos, em 17 de outubro de 1990, sem imaginar que ela estava dando o primeiro passo para descobrir o próprio destino. Apesar de conhecer parte da história da fundação da Sociedade Viva Cazuza em 1991, – que cuida de crianças e bebês portadores de HIV positivo -, o que mais me impressionou no livro, apesar de saber que não seria diferente, é a dificuldade em implantar um projeto desses. As pedras no sapato foram depositadas por pessoas de ONGs, do governo, particulares, colaboradores e até mesmo médicos. Mas, os poucos e bons que estenderam os braços para apoiar Lucinha nessa jornada foram fundamentais para a continuação da obra. É o mesmo descaso que se vê no dia a dia, dentro dos ônibus nos quais jovens não dão o lugar a idosos e grávidas. Até parece que para fazer o mal é bem mais fácil e popular. E deve ser mesmo.

Conforme O TEMPO NÃO PARA – Viva Cazuza – Lucinha Araújo (depoimento a Christina Moreira da Costa  – 256 páginas – Editora Globo), a Sociedade Viva Cazuza vive, até hoje, de direitos autorais (a cada dia menores), eventos beneficentes, de doações de poucas pessoas e de convênios eventuais com órgãos públicos. E remando a favor do preconceito, há várias entidades do mal, inclusive colégios que não aceitaram as crianças ao perceberem que vinham da Sociedade (e nós, brasileiros, tão bonzinhos, só lembramos do caso dos nove estudantes negros  recebidos por uma multidão branca enfurecida no Alabama em 1957 ou de James Meredith, que em setembro de 1962,  tentou inscrever-se como o primeiro estudante negro na história da Universidade de Mississippi).

Os primeiros bebês a serem cuidados pela Sociedade são descritos, emotivamente, como os reais fundadores da obra, os palpáveis ventos dessa nova era de alegrias e dificuldades.  Marcel, entregue aos cuidados da Sociedade, veio com o nome “encomenda” em uma Kombi velha com faixa pintada do SUS (Ministério da Saúde). O outro, Newton, foi abandonado em um abrigo público. O pai, catador de lixo e a mãe moradora da Fazenda Modelo, para população de rua. Logo depois, chegaram Inês e Fernando, que se pareciam fisicamente, mas que não eram irmãos e o pequeno Marcelo de sete anos, levado pela tia que não podia – ou não queria – mais cuidar dele. No fim de 1994, a Sociedade contava com dez crianças que necessitavam de atenção constante, médica e psicológica.

“Piolho, sarnas, infecções, antirretrovirais, febre, dores de garganta, de ouvido.”

Em 1995, o inevitável ocorreu: a primeira perda. As crianças precisavam ser internadas em hospitais públicos: os particulares eram muito caros e os planos de saúde se recusavam a atender pacientes HIV positivos. E assim, foram internados Ana Clara e Marcelo. Clara reclamou que queria voltar para “casa” (a Sociedade Viva Cazuza) porque o hospital era sujo e havia uma barata em sua cama (que havia mesmo). Como ela estava pertinho do amiguinho Marcelo, os responsáveis pela Sociedade a transferiram para outro quarto, para que ela não visse a piora do companheirinho, o que veio a ocorrer logo: Marcelinho se foi em 12 de março de 1995. O saldo positivo é que mais de setenta crianças passaram pela casa: algumas permaneceram, outras foram adotadas, outras reintegradas às famílias e umas transferidas para abrigos.

Em 2002, Lucinha descobre que tem câncer de mama e em 2008, implanta um marca-passo. A guerra não para, assim como o tempo e a guerreira não pode parar. Ela não pode deixar a piscina cheia de ratos.

Por fim, transcrevo uma última declaração de Lucinha, prova de que o amor supera barreiras, inclusive físicas: “Outro dia, acordei no meio da noite e vi Cazuza, ali ao pé da cama. Olhei para ele várias vezes, abri e fechei os olhos para ter certeza, e  aos poucos, seu rosto foi mudando – estava mais velho com barba. Depois, olhei de novo e vi uma mulher, já idosa, que deitava a cabeça em seu ombro. Quis acordar João (o marido), mas não ousei. Reconheci minha mãe e gostei de saber que ela está com Cazuza.”

Amém, Lucinha.