O DESENHO DA VIDA

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Acreditamos que a realidade é apenas a realidade, o reino do palpável. Porém, creio que o “real” seja mais fruto de nossas percepções e escolhas, do que de uma única realidade comum. Acredito que a visão tradicional da realidade é apenas uma parcela das inúmeras possibilidades, que não acessamos “normalmente”. Mesmo assim, várias possibilidades parecem interagir simultaneamente, quando, vivenciamos as sincronicidades.

Realidades paralelas?

A teoria das super cordas permite “calcular” o possível número de dimensões espaço-temporais.

“A grosso modo, é como medir a distância entre dois pontos. Se girássemos o nosso observador para um novo ângulo e a medíssemos novamente, a distância observada somente permaneceria a mesma se o universo tivesse um número particular de dimensões. Quando este cálculo é feito, o número de dimensões do universo não é quatro como esperado (três eixos espaciais e um no tempo), mas vinte e seis. Mais precisamente, a teoria bosônica das cordas tem 26 dimensões, enquanto a teoria das supercordas e a Teoria-M envolvem em torno de 10 ou 11 dimensões.” (Wikipedia.)

Uma, duas, mil realidades, mil possibilidades.

Este preâmbulo antecipa uma história pessoal de possibilidades e consequências, 40 anos depois.

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Meu primeiro sonho foi ser desenhista de quadrinhos, antes mesmo de fazer 10 anos. Meu avô era crítico de arte e colecionava pinturas. Minha mãe tinha medo do vovô, e talvez por causa disso, esse medo influenciasse o seu julgamento sobre arte em geral, para ela, algo incompreensível e inútil. Digo isso, porque ao confessar à mamãe que eu desejava ser artista, talvez com uns 10 anos, o mundo quase caiu. Ela me ameaçou para que eu desistisse, inclusive de me expulsar de casa. Convenhamos que ameaçar um adulto é uma coisa, mas ameaçar uma criança é outra bem diferente. Ela detestava que eu fosse diferente da maioria. Ela me disse isso com todas as palavras, que hoje interpreto como medo, o pavor de não ter controle sobre a situação. Eu possuía uma coleção de quadrinhos da editora Ebal, com algumas dezenas de revistas. Um dia, mamãe as pegou e na minha frente, as rasgou ao meio, uma a uma, me ordenando que eu me tornasse um “homem, com um emprego e uma família”. Eu me agarrei às pernas dela e implorava para que parasse, entre lágrimas, que não paravam de cair. Ela rasgou até a última das revistas, até sobrar, apenas, uma pilha de quadrinhos dilacerados, como se esperassem um fósforo para virarem fogueira. Foi a minha primeira dor excruciante. Isso seria o suficiente para chamá-la de monstro? Para mim, ainda não, até porque não lembro se algo a mais causou a sua ira. Talvez, alguma questão entre ela e papai, que ela preferiu descontar em mim…

desenho_TARZAN EBAL Junho de 1969

Não acredito que existam pessoas totalmente boas ou más. A monstruosidade espelha o seu grau de convicção em suas verdades e no tamanho de seu medo. Essas energias podem te levar a mentir, enganar, chantagear, caluniar, ser covarde, mas ainda assim não te transformam em um monstro, que só deveria ser considerado um, se as suas ações afetarem um grande número de pessoas.

 …

Estou passando, há alguns anos, por uma mudança pessoal/profissional, que tem tudo a ver com a história relatada acima.

Hoje acredito que por causa das revistas rasgadas, desisti da carreira de desenhista, para me tornar algo ainda mais incômodo: músico. Uma ação que gerou uma reação, até então inesperada, até mesmo para mim.

Tive uma carreira musical constante por mais de 30 anos, mas a música não tem despertado maiores interesses em mim, por não ser mais divertido como era. E hoje, preciso de um bom motivo para tocar ou compor, prioritariamente profissionais, enquanto que é bem mais fácil e prazeroso, escrever.

Já confidenciei neste blog, que uma de minhas paixões é História do Brasil. E as sincronicidades me fazem vivê-la, acredito, para que seja possível eu me entender e paralelamente, compreender o país e as pessoas.

 Relatando os casos dos dois últimos dias.

 Primeiro, os “históricos”.

 J. Carlos

J. Carlos

Retirei um velho livro de José do Patrocínio da prateleira para reler.  No mesmo dia, na TV exibiram um bom documentário sobre o jornalista/escritor. Dois dias antes, eu estava no centro da cidade e resolvi visitar o Museu de Belas Artes. Para minha surpresa, uma das exposições, era sobre um dos meus desenhistas favoritos, J. Carlos. Fiquei igual pinto no lixo, ainda mais que eu não sabia de nada. No mesmo local, há salas dedicadas ao trabalho de outro caricaturista, o Cavalcante.

Tim Maia desenhado por Cavalcante

Tim Maia desenhado por Cavalcante

Querendo saber mais sobre ele, fiz uma pesquisa na internet e sem querer, ao invés de Cavalcante saiu Di Cavalcanti. O texto era esse:

“Di Cavalcanti nasceu como Emiliano Augusto Cavalcanti de

Albuquerque e Melo, no Rio de Janeiro e na casa do famoso

abolicionista e republicano José de Patrocínio situada na rua do

Riachuelo, que na época era casado com a sua tia Maria

Henriqueta…”

 

Fala sério, né?…

Hoje de manhã, antes de escrever este texto, cismei de escutar uma das horrorozidades gravadas pelo casal John Lennon e Yoko Ono na fase final dos Beatles.  E sabem quem está hoje, na primeira página da Folha de São Paulo? Yoko, a Ono.

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Ontem, caminhando pelo Passeio Público, na cidade do Rio de Janeiro, vi que alguns prédios do século passado estão sendo reformados. Fiquei feliz, porque sou um preservacionista. Mas um deles, ainda em péssimo estado me chamou a atenção. É uma construção antiga, ao lado da Escola de Música, antes mesmo de chegar a Lapa.  Decidi entrar pelo menos no vestíbulo, pertinho da porta. O interior todo destruído, sem sinal de reforma e com apenas um vigilante, que estranhou a minha chegada. A placa dizia: “Proibido entrar sem equipamento de proteção”. Mas querem saber… Entrei um pouquinho, mesmo que fosse pouco, mas meu coração bateu acelerado. Senti a história pulsando dentro da enorme casa. Senti uma estranha sensação de que deveria colocar a minha segurança em risco, e subir as escadas até o final da construção. Mas não o fiz. Impressionado pelo que havia sentido, pesquisei sobre o prédio.

 O nome é Automóvel Clube, que no século XIX se chamava Cassino Fluminense, e era frequentado, também, pela Família Real.  Há pouco, o governo fez uma grande homenagem a Jango Goulart, ou Jango, o Presidente deposto pelos militares em 1964. A história fala muito sobre o famoso discurso de Jango na Central do Brasil, para milhares de trabalhadores, em 13 de março de 1964, o número invertido da data “oficial” do golpe: dia 31, mas foi exatamente neste Automóvel Clube que Jango fez o seu último e mais radical discurso, em 30 de março.

 Aquele local onde senti algo muito forte, foi palco de duas grandes mudanças. Ambos, a Família Real e Jango, foram depostos por militares e em ambos os casos, a história deste país foi profundamente afetada.

 O caso dos desenhistas.

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Um conhecido de outro Estado pediu para ficar uma noite aqui em casa. Com ele, veio um amigo dele, que me falou ser neto do desenhista Eugênio Colonnese, um de meus ídolos de infância. E o rapaz falou que era fã do meu trabalho.  As conecções me soaram interessantes, como se o fato de eu gostar do trabalho do avô dele, o trouxesse, inconscientemente, a mim. Seria uma conecção sendo refeita e resgatando o meu antigo desejo de ser desenhista? Ainda não possuía subsídios para julgar e aguardei por mais “provas”.

 Jayme Cortez

Jayme Cortez

Ontem fui pesquisar sobre o Colonnese e encontrei na internet mais dois idolos do passado, o Jayme Cortez e o Ivan Wasth Rodrigues.

 Há meses, tenho jogado várias coisas fora. No bonde da limpeza, separei vários álbuns de figurinhas e dois Atlas antigos do colégio. Gosto muito de um deles, mas nem sabia direito o porquê. Simplesmente, separei os dois Atlas para jogar fora, mas me senti mal,e  só joguei fora o primeiro, preferi guardar o segundo. Isso ocorreu há menos de duas semanas. Ontem, descobri em uma entrevista na internet, que o Atlas que salvei havia sido desenhado pelo Ivan Wasth… Um dos desenhistas descritos na trindade acima.

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Ivan Wasth Rodrigues

E ontem, ao me lembrar de minhas antigas revistas rasgadas, pesquisei a história da editora Ebal, para mais vez comprovar a existência de um ciclo, que me pareceu muito plausível e me convenceu que uma nova vida se inicia, que um novo período de possibilidades ocorre, agora, em nossas vidas, mesmo que acreditemos que estamos cansados demais para o novo, ou que já fizemos tudo ao nosso alcance.

A nossa vida começa AGORA. Mesmo que ela tenha sido adiada. Não importa o por quê.

POR ENTRE RUAS MÁGICAS E ANÕES

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O leitor já se perguntou como conseguia ter tempo para fazer tantas coisas em 24 horas, se hoje parece difícil fazer a metade? Essa questão é uma constante. Há explicações racionais e outras nem tanto, essas últimas, as minhas favoritas.

Fato é que temos que ter tempo para nós, sem egoísmos. Nada de se lamentar sobre o que se faz ou se deixa de fazer. Há que equilibrar o tempo com os outros e o tempo conosco.

É necessário sim, resolver as nossas questões, pois elas são nossas e de mais ninguém. Mas, se possível é sempre bom contar com uma ajudinha extra do “destino”. Se você quer ter um milhão de amigos, tudo bem, mas para mim, quanto menos gente ao meu redor, fica mais fácil saber o que eu posso fazer de bom para cada um e o que cada um pode fazer por mim, em uma troca benéfica para todos. Mesmo que essas pessoas não percebam o que estão fazendo. E há trocas inusitadas com gente que te persegue e com os desafetos. Enquanto não nos adulam ou nos põem pra baixo, eles servem para nos tornar mais conscientes. Porém, quando a troca simplesmente deixa de rolar, o vínculo se desfaz. Simples assim.

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Estamos aqui no facebook. A rede social já me ajudou profissionalmente, como já me fez perder tempo. Ouvi de profissionais da indústria como é importante trabalhar diariamente com esta rede, para “estreitar relações”.  Sempre ouvi isso com desconfiança, e com o termo “superficializar as relações”, na cabeça. Há uma grande diferença entre o mundo das curtidas e o mundo dos que literalmente arregaçam as mangas. Mas fazer o quê, se muitos vivem de aparências, que justificam suas visões de mundo? Não se deve convencer ninguém de nada. Proselitismo ou fanatismo. Que cada um crie o seu mundo conforme o devido entendimento. Se der para os mundos distintos interagirem, ótimo. Caso contrário, bye bye. Melhor assim. Antes do fim, todos aprenderão muito mais.

Fica claro, que algumas pessoas que convivem conosco, são necessárias para o crescimento em conjunto, mesmo que elas não estejam conscientes disso.

Antes, quando eu me ocupava com mais tarefas não tão importantes, as sincronicidades não eram tão aparentes. Hoje, quando o meu tempo é melhor administrado, as sincs se manifestam mais vivamente.

As sincronicidades são o nosso respiro, o nosso refresco e a sombra fresca.

Repare como em uma conversa inocente, ouvimos respostas prontinhas para as nossas questões.

São vários os exemplos: eu precisava de um profissional para me auxiliar. Um amigo próximo tocou no assunto sem saber de minhas necessidades e hoje trabalho com este ótimo profissional.

Um outro conhecido me prometeu mundos e fundos para resolver uma questão. Um ano depois, descobri, de uma forma não muito agradável, que ele não havia feito nada. Meu instinto já dizia para não confiar mais, para não dar mais crédito, mas a voz interior me pediu para dar uma última chance, que fosse a definitiva, para que o “amigo” se enrolasse por conta própria. A mentira pode não ter pernas curtas, até pode ter vida longa, mas chegará o dia em que as peças se encaixarão e você saberá, sem fazer força, que o relacionamento com determinada pessoa chegou ao fim pelos motivos certos. Sem choro, nem vela ou drama.

Em outras oportunidades, citei neste blog, que as sincronicidades também servem para nos fazer sorrir (obs: e há coisa melhor em momentos difíceis?).

Me apaixonei por desenhos e histórias em quadrinhos desde cedo. No alto dos meus 8 anos imaginei que seria desenhista. Naquela época fui brindado com um presente de amigos de meus pais: um álbum de Asterix e Cleópatra, com capa dura. A impressão que o álbum me deixou até hoje é forte: da história, aos desenhos, e ao cheiro do papel, tudo ficou impregnado na alma. Ao me lembrar do álbum na semana passada, liguei a TV e estava sendo exibido o filme “Asterix e Cleópatra”, que nunca havia visto.

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Outro dia, vi na TV uma matéria sobre uma dona que só veste violeta. Mesmo. Após o programa, desci, logo em seguida, e uma senhora na rua, toda trajada de violeta, me encarou durante um bom tempo. Outro dia, em outro canal, assisti a uma matéria sobre anões e vi uma mãe anã. Desci pra rua e uma anã me encarou. Deveria ser mãe. Parecia cena de sonho… Separei umas revistas antigas que não via há anos. Na capa de uma delas, a foto do cantor Nelson Ned, também anão. No dia seguinte, o cantor faleceu.

Para bom entendedor, meia palavra basta: quando eu era criança, com menos de dez aninhos, havia uma casa sinistra por perto que sempre vivia apagada. Em seu jardim, um anão mais sinistro ainda me olhava sarcástico e me olhou tão bem uma vez que tive medo eterno. A impressão foi tão forte que desviava do lado da calçada do anão, para não ver a sua risada maléfica. Os anos se passaram, as décadas também e a casa foi vendida. Virou um curso de inglês. E o anão… sumiu. Sumiu do mundo tridimensional, porque em minhas memórias ele permanece rindo para mim ou de mim.

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Tendo posto este assunto em pauta, conto a história do final de semana.

Gosto de arqueologia urbana, ou seja: de entrar em ruas nas quais nunca estive para pesquisar. Em uma delas, no alto de um morro, encontrei uma casa aberta e sem perguntar nada entrei, porque meu coração disse para seguir adiante e nada senti de perigoso. Não havia dono, vigia ou segurança. Me surpreendi. Era uma espécie de museu. Em seu interior, uma biblioteca com vários livros antigos em estantes que iam até o teto. O cheiro de velhos móveis e memórias, de tempos passados, que a humanidade agitada faz o favor de não querer tomar conhecimento. Lá embaixo, na rua, um bloco de carnaval, ensaiava a toda, mas seus batuques cessaram, assim que entrei na casa misteriosa. O som externo não conseguia atravessar o portal. E não atravessou. Parecia que eu havia entrado em um outro mundo paralelo. E quando digo isso, é essa a sensação que se tem, a de viver uma realidade paralela em nosso mundo “real”.  E é o tipo de coisa que não se pode vivenciar em grupo. Há experiências grupais e outras individuais. Só uma pessoa pode retirar Excalibur da pedra. É assim que é.

Ao olhar com mais atenção aos detalhes, percebi que estava em alguma fraternidade. Nas paredes, fotos emolduradas de antigas personalidades trajadas com vestes ritualísticas. Em uma das fotos, o Presidente Juscelino Kubitschek, uma referência poderosíssima para mim, vide as postagens anteriores. Depois de curtir um pouco a descoberta, deixei o recinto e desci o morro por uma outra rua na qual nunca estive. A rua encantada, com calçamento de grandes pedras como em Paraty, me fizeram viajar no tempo, para o tempo de uma cidade antiga, com mais de 200 anos.

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Mal virei a curva, me deparei com uma casa, em cuja entrada estavam todos os sete anões e a Branca de Neve, toda serelepe. Meu coração bateu acelerado, sem medo ou trauma. Eu estava no lugar certo e havia me reconectado com minha infância, em outra circunstância, e com novo entendimento. Agradeci a Deus, as intuições e as decisões corretas – intuídas -, frutos da conexão do Ser Interno com o Universo, que está muito além no tempo e do espaço, e ao mesmo tempo, conosco em cada segundo.

Assim é a sincronicidade.

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