Aniversário, Elis Regina e mensagens maternas.

A dança de Shiva simboliza o renascimento do Universo e sua própria destruição.

Fiz meio século de vida. Essa foi a minha dança. “Cinco ponto zero” para ser mais carinhoso com a idade “quase” avançada. Parece exagero, mas eu nunca imaginei completar cinquentinha. Ganhei mais cabelos brancos, mais flacidez e talvez, mais humanidade. Ou quase isso… Não houve festa ou comemoração. O momento é, digamos, diferenciado. 2012 tem sido um ano surpreendente, inimaginável. Há meses sinto que nada nessa vida faz sentido, a não ser o amor. O resto é simplesmente o resto e não tem muita importância. O que quero dizer é que precisamos trabalhar, possuir nossos vínculos sociais, nos divertir, pensar, tudo faz parte da vida, mas a sensação é que vivo em um estado de sonambulismo, inadequação, desespero, urgência, desinteresse, vazio e espera. É como uma tristeza serena de quem sabe que não adianta domar o mundo, controlar o universo. Nos basta seguir o fluxo e fazer a vontade Dele, apenas isso. Seria essa percepção, a morte do EGO? Estaríamos caminhando ou já vivendo o prenúncio do novo mundo que se avizinha, sem EGO e karma? Parecemos “esvaziados”, como parte de um propósito, que nos aproxima desse limiar, de um precipício que antecede um salto mortal no escuro do qual não há mais salto para dar. O que está acontecendo? Não somos os mesmos, parece que nunca fomos. E essa mudança não ocorreu de maneira sutil ou gradual. Foi e tem sido uma experiência radical, paranormal. Nossos Eus foram como que sugados, arrancados e estamos aprendendo a viver entre sobressaltos; aprendemos a não mais conduzir a montaria, mas deixar que ela nos conduza.

Esse aniversário talvez tenha sido o momento mais solitário da minha vida e paralelamente, o momento no qual atingi a plenitude consciencial. Vivo esse divisor de águas sob vários aspectos: pessoal, profissional, espiritual. E não é uma “crise”, por assim dizer, como outra qualquer. Essa parece ser A crise das crises. Ao ouvir relatos de amigos mais próximos, que também vivem esses desafios íntimos , percebo o processo como coletivo.

Esse foi o preâmbulo. De agora em diante, inicio a descrição desse “hard day´s night” como cantaram os Beatles, ou de um “unforgatable day´s night”: o diário de um aniversário diferente.

Hoje estou mais relapso, mas por mais de uma década, pratiquei o ritual de acordar na hora do meu anjo, Hekamiah, para me comunicar com ele. Para estreitar esse laço, para encurtar o caminho entre terra e céu, concentra-se nos salmos da Bíblia, que se conectam ao seu anjo, e na hora determinada, no meu caso, de 5 às 5 e 20 da madrugada, medita-se.

Nasci de madrugada, um pouco depois de uma da manhã. Estava trabalhando, perto dessa hora. Olhei o relógio, e percebi que já era quase chegada a hora. Larguei tudo, desliguei o computador, a TV, e apaguei a luz para meditar. Me deitei e me concentrei no instante do meu nascimento, no momento da vinda à Terra, em como deixei o corpo de minha mãe para me perceber em outro ambiente, claro e desprotegido, assustador. Senti meu corpo tremer e um tubo de energia, vindo do alto, me acalentou. Senti minha visão nublar e meu corpo sacudir levemente. Não foi uma sensação desagradável, apenas diferente, como se daqui a algumas horas, com o sol nascendo, eu também conhecesse o mundo pela primeira vez.

“O mundo pela primeira vez”, refleti. Que loucura! “Como será reviver no mundo aos 50 anos?”.

Ao acordar, por volta de 7 da manhã, recebi os primeiros parabéns e também energias contrastiadoras, de quem não estava sintonizado comigo. Não há necessariamente nem mal nem bem em quem não está na mesma sintonia que você, não há certo, nem errado neste mundo. Há escolhas, percepções diferenciadas, pontos de vista que moldam seu comportamento; medos enraizados que conduzem a caminhos, desafios, certezas absolutas que se desfazem ao vento ou que perduram teimosamente. Respirei fundo, meditei e projetei a chama violeta sobre todos, para os presentes, ausentes, chegados, distantes, próximos e afastados. A campainha tocou. Era um mestre de obras amigo. Ao sair de casa, ele teve uma leve tonteira. Perguntei o que estava havendo. Fiquei preocupado. Ele se virou em minha direção, com o semblante estranho, colocou a mão em meu ombro e me transmitiu uma mensagem: “Tudo vai se acertar”, ele disse, como se soubesse mais do que aparentava. “Você fez a coisa certa, nada tema!”. Em seguida, como que saído do transe, ele ergueu a cabeça, sorriu e se dirigiu à porta. “Foi uma mensagem?”, perguntei. Ele confirmou com um sorriso.

Em seguida, um entregador me trouxe um livro enviado por um amigo queridíssimo, pai de uma menina linda e esposo de uma verdadeira dama. “Um Novo Mundo – O Despertar de uma Nova Consciência” de Eckhart Tolle.

Na hora do almoço, deveria me encontrar com meu irmão no centro da cidade. Apesar de feliz em vê-lo, fui com o coração pesado, e a cabeça distante. Já na rua, um dos amigos, daqueles que vivem a inadequação, me ligou para contar algumas percepções do que ele estava passando. Tudo fazia sentido. Parecia que o mundo caminhava para um lado, com todos bem “coerentes”, conectados com o ambiente, e nós “fora” de sintonia. O que ele me contou, conferia: as pessoas, o mundo parecia um filme velho, repetido pela enésima vez e que o nosso “sofrimento” era fruto da percepção de que “estamos marcando touca” (alguém ainda usa esse termo?). Sabemos que temos que mudar, mas por ainda estarmos presos a compromissos e principalmente a receios (falta de dinheiro e falta de amor, no topo do ranking), deixamos de nos dar a grande chance, que urge dentro de nós.

Há uma dúvida constante: erramos ou acertamos mais por ansiedade, por antecipação ou por uma excessiva demora em mudar esse quadro?

Depois do almoço, fui a um compromisso no centro da cidade. Fui recebido pela dupla Sérgio e André com 3 pequenos bolinhos e uma velinha de 5 anos para comemorar meu aniversário. Essas pessoas, não tinham obrigação, nem necessidade de fazer o que fizeram, mas fizeram para demonstrar afeição. Eles me “pagaram” na mesma moeda, a mesma que sempre dei a eles: conversa rica, respeito e consideração.

Parabéns pra Você!

Na mesa ao lado, tocou o telefone. Um dos funcionários que fez a festinha para mim, atendeu e me olhou sorrindo. “A pessoa quer saber a quem se deve pagar o direito autoral de uma música psicografada! Ao morto ou ao médium?!”.

André e Sérgio

“Esse aniversário não será igual aos outros”, concluí.

Como Nossos Pais – e Mães.

Depois fui rever a exposição da Elis Regina no Centro Cultural Banco do Brasil. Amo a Pimentinha. Ela é capaz de despertar sentimentos profundos em mim: quando ela sorri, com as gengivas de fora, me encho de alegria esfuziante e quando ela canta suas dores e se deprime, eu caio junto. É como um mestre dos bonecos conduzindo a sua marionete. O que ela faz, gravado em fita e vídeo se conecta à minha alma, como se não houvesse passado ou amanhã, somente o agora. E o agora é real. Então, Elis vive. Me emociono ao vê-la quase tropeçando com Hermeto Pascoal, improvisando em Montreux ou na “Canção do Sal” de Milton Nascimento; danço e reflito com “Me Deixa em Paz”; tremo ao vê-la trincar os dentes e arregalar os olhos pondo a alma para fora em “Como Nossos Pais”. Na última sala da exposição sobre Elis, há vários computadores com fones de ouvido para nos deliciarmos com todo o seu repertório. Para começar, ouvi “Comunicação”, uma de minhas preferidas.

“Só tomava chá
Quase que forçado vou tomar café
Ligo o aparelho vejo o Rei Pelé
Vamos então repetir o gol.”

Com os fones, comecei a cantar, sem perceber. Achei que era mímica, mas estava emitindo notas. Com gentileza, a atendente me pediu para não cantar. Sorri, agradecido, enternecido. Sem combinar nada, Sérgio e André apareceram e nos “Elisamos” ainda mais.

À noite, em casa, um amigo médium me liga para dar os parabéns. Tava na cara, que era só um preâmbulo, que tinha coisa aí. Já devo ter escrito sobre esse amigo, que anos após o desencarne de minha mãe, ele a viu aqui na sala de casa, muito chateada comigo, porque eu ainda estava triste porque ela havia partido. O engraçado é que mamãe era católica (e ainda deve ser) e não acreditava em vida após a morte. O amigo me falou que já estava há um tempo querendo me transmitir algumas mensagens, mas que havia aguardado um pouco, para eu terminar um trabalho recente, e não me atrapalhar.

Era uma mensagem de mamãe.

“Estou muito orgulhosa de você, meu filho. Você está fazendo a coisa certa, gosto muito de vê-lo junto ao seu irmão. Mesmo que suas decisões não sejam compreendidas, saiba que você soube ouvir e seguir o caminho certo. O tempo sanará as coisas. Tudo dará certo, já deu certo.”

Mamãe não era mole, para ela me dizer isso é porque a situação não está tão feia.

Um pouco após a meia noite, outra amiga, também médium, me passou mais uma mensagem: “Sorria, seja feliz. O resto é consequência.” Perguntei de quem era. “Tenho sonhado com sua mãe nos últimos dois dias.” E minha amiga – e não minha mãe – completou: “Tudo me leva a crer que hoje é um dia muito especial para você. Um divisor de águas.”

E começou a chover. Uma chuva suave, serena, apaziguadora.

Mamãe, eu com 5 meses e vovó

Apesar de não ter tido uma festa formal, com bolo, risos, abraços e álcool, recebi um abraço do destino, um abraço do além, recebi congratulações de quem mais amei e continuo amando. Reaprendo a cada dia, que é preciso deixá-la partir, mas que ela também se preocupa comigo, me olha e protege, esteja onde ela estiver.

Esse aniversário referenda uma nova fase e se esse momento chegou para mim, deve ter chegado para todos, leitores, amigos e desconhecidos. Basta saber ouvir e seguir o seu coração, sem seguir ninguém, sem seguir o lugar comum, sem julgar. Não devemos ser cegos que seguem cegos.

 Renasci.

“As pessoas parece que primam pela necessidade do círculo do elefantinho. Com a tromba, um segura o rabo do que está na frente e assim por diante, até fechar o circulozinho de elefantinhos.”

Elis Regina. Programa Jogo da Verdade. TV Cultura. 1982.

A LUA e o CRISTO de 2 de agosto

 

Ontem, dia 2 de agosto foi um dia, especialmente “diferente”. Já sou uma pessoa muito sensível mas ontem, foi “além”. Over. Como uma lua cheia prenunciava tomar o céu de assalto, os fatos misteriosos e sincronísticos começaram a tomar forma logo de manhã. Bem cedo, uma brincadeira feita comigo, me deixou muito angustiado. Senti meu coração correr aceleradamente. Incapaz de mudar o destino, me percebi engessado e ao mesmo tempo resignado. A sensação foi ainda mais virótica porque não tenho com quem conversar ou dividir esses sentimentos, por isso os compartilho com os leitores, para que se sintam, talvez em suas solidões, que estamos todos  irmanados. E que sempre há solução.

Estou envolvido em um projeto, no qual trabalho diariamente, saindo de casa às 8 da manhã e chegando entre meia noite e uma da manhã em casa. Por acaso, ontem foi o primeiro dia em que “descansei”. Estava exausto, a cabeça tonta, sem pensar direito e o coração acelerado.

A sessão de sincronicidades começou cedo: um rapaz, fiscal do metrô, veio em casa às 9 da manhã, e falou sobre “coincidências” e autoajuda. Ele era do sul e estava há uma semana no Rio. O presenteei com meu livro sobre sincronicidades. Ele o abriu aleatoriamente, e sorrindo me mostrou a página: “Sincronicidade do Destino”.

O telefone tocou: era um amigo de Manaus, que precisava me transmitir uma mensagem espiritual. Recebi o comunicado com o coração palpitando, mas ciente de que aquela mensagem àquela hora não poderia ser à toa. “A hora chegou”, ele disse.

Logo depois, um outro amigo querido me escreveu para me avisar que há dias, pensava em mim e que precisava falar comigo para me passar outras mensagens e percepções. Mas me adiantou algo: “que dar felicidade às pessoas era o plano cósmico”. Respirei fundo.

No começo da tarde do dia 2, eu deveria participar de uma filmagem com uma equipe do sul do país (lembrem do friscal do metrô, também do sul). Como era para voltar à rua do meu antigo colégio – já demolido – lá fomos nós, com a equipe de filmagem. Não compraram uma garrafinha de água, porque acharam caro: o preço era 2,28. Eu nasci no dia 28 de agosto. Entramos na rua para filmar. O Cristo Redentor, bem lá em cima, estava lindo, sob um belo céu. Ele é lindo demais. Entramos na rua do colégio, e logo de cara vi uma casa de número 28. Mais vinte e oitos.

 

Cristo Redentor

Cristo Redentor (Photo credit: Thiago Trajano)

 

Percebi a rua com um carinho que nunca havia sentido antes. Eu ia para o colégio todos os dias, há 30 anos e nem percebia a beleza a minha volta porque eu sempre ia chateado. Eu não percebia a beleza que havia na rua, nas casas, nas árvores, no céu, no ar… eu não via a beleza do mundo. Hoje meus olhos e alma percebem tudo diferentemente, a sensibilidade aumentou, e a percepção.

Rua.

Lua.

Ao filmar, a diretora de fotografia viu um livro semiencoberto em uma bancada em frente à uma antiga loja. Para não entrar em pormenores, posso dizer que o título do livro encoberto era o mesmo nome do filme. Todos ficaram estupefatos. No final da filmagem, já a noite, debaixo de uma gigantesca lua cheia, mais “coincidências” sucederam-se.

Ao chegar em casa, com o dever cumprido, tudo já cheirava a passado. O que havia antes, um dia antes, havia se desfeito. Não havia traços ou vestígios do dia anterior. A energia mudara, transmutara radicalmente. Era tão visível, perceptível que me espantava que todos não vissem. Ainda me sentia angustiado, com o corpo energizado, peito palpitando. Coloquei meu destino e vida nas mãos de Deus. Assumi que não tenho mais força e capacidade para lutar, para me conduzir, e me doei. Entreguei-me ao destino. A sincronicidade não só aponta, como conduz os caminhos. Confio neles.

O mundo não nos pertence. Estou nele, faço parte, mas não sou ele. Podemos ser mais, menos, demais, de menos. Sou apenas um filete de água no fluxo do rio caudaloso e vivo, bruto e singelo, forte e sereno. Ondas de energia, marolas de consciência. A sensação que tenho de dissolução é gigantesca. Mas não posso mais me deixar abater: doei minha vida à sincronicidade. Que ela conduza meus caminhos submetidos à vontade do Criador e do Universo. A nave mãe não virá nos buscar, pois nós somos as suas extensões, somos ela. Se conseguiremos, ou não, estar na nave, depende de nós. Entre levantar e cair, vivemos. Entre amar, amar e amar, vivo.

 

Deutsch: Christus Erlöser in Rio de Janeiro Po...

Deutsch: Christus Erlöser in Rio de Janeiro Português: Cristo Redentor do Rio de Janeiro (Photo credit: Wikipedia)

 

Renasci mais uma vez, fiz aniversário antecipado em dia 2 de agosto, recebi presentes do Cosmos e ele me acarinhou. “Confie!” Pelo visto, datas não valem mais nada, mas números sim.

Sincronicidades sempre.