Os Apócrifos da Bíblia – Parte II (José de Arimatéia)

DECLARAÇÃO DE JOSÉ DE ARIMATÉIA


CAPÍTULO 1

Eu sou José de Arimatéia, aquele que pediu a Pilatos o corpo do Senhor Jesus para
sepultá-lo, e que por este motivo se encontra agora acorrentado e oprimido pelos Judeus, assassinos e rebeldes a Deus, os quais, além disso, tendo a lei em seu poder, foram a causa de aflições para o próprio Moisés e, depois de enraivecer o legislador e de não haverem reconhecido a Deus, crucificaram o Filho de Deus, coisa que ficou bem caracterizada para quem conhecia a condição do Crucificado. Sete dias antes da paixão de Cristo, foram enviados de Jericó ao governador Pilatos dois ladrões cujas culpas eram as seguintes: O primeiro, chamado Gestas, costumava matar viajantes com a espada, ou deixava-os nus. Quanto às mulheres, ele as pendurava pelos tornozelos, de cabeça para baixo, para depois cortar-lhes os seios. Tinha predileção por beber o sangue das crianças. Nunca conheceu a Deus, não obedecia às leis e, violento com era, vinha executando tais ações desde o início de sua vida.
O segundo, por sua vez, chamava-se Dimas, era de origem galiléia e possuía uma
pousada. Assaltava os ricos, mas favorecia os pobres. Mesmo sendo ladrão, parecia-se a Tobias, já que costumava sepultar os mortos. Dedicava-se a saquear a turba dos judeus. Roubou os Livros da Lei em Jerusalém, deixou nua a filha de Caifás, que era na época a sacerdotisa do santuário, e até mesmo furtou o depósito secreto, colocado por Salomão. Tais eram seus feitos.

Também Jesus foi detido na tarde do dia 3 antes da Páscoa. E não havia festa nem para Caifás nem para a turba dos judeus, mas sim uma enorme aflição, por causa do roubo do santuário, que havia sido praticado pelo ladrão. Chamando a Judas Iscariotes, falaram com ele. É necessário dizer que este era sobrinho de Caifás, não era discípulo sincero de Jesus, mas havia sido dolosamente instigado por toda a turba de judeus para que o seguisse. E isto, não com a finalidade de que se deixasse convencer pelas façanhas que Ele operava, nem para que O reconhecesse, mas sim para apanhar-Lhe em alguma mentira. E por esta gloriosa empreitada, davam-lhe presentes e um dracma de ouro por dia. Na época, já estava há dois anos na companhia de Jesus, como disse um dos discípulos, chamado João.

Três dias antes de Jesus haver sido detido, Judas disse aos judeus:
— Eia! Usemos o pretexto de que não foi o ladrão que furtou os Livros da Lei, mas,
sim, Jesus em pessoa. Eu próprio comprometo-me a fazer a acusação.
Enquanto isto era dito, Nicodemus, encarregado das chaves do santuário, veio juntar-se a nós e dirigiu-se a todos, dizendo:
— Não façam tal coisa.
Sabe-se que Nicodemus era mais sincero do que todos os judeus juntos. Mas a filha de Caifás, chamada Sara, disse aos gritos:
— Pois ele falou deste lugar santo na frente de todos: sou capaz de destruir este templo e levantá-lo em três dias.
Ao que os judeus responderam:
— Damos-te todos os nossos votos de confiança, — já que tinham-na como profetisa.
Uma vez realizado consenso, Jesus foi detido.

CAPÍTULO 2

No dia seguinte, que era quarta-feira, levaram-nO ao palácio de Caifás à hora nona. E
Anás e Caifás perguntaram-Lhe:
— Ouve, por que roubaste nossa Lei e levaste a leilão público as promessas de Moisés
e dos profetas?
Jesus nada respondeu. E, diante de toda a assembléia reunida, indagaram dEle:
— Por que pretendes desfazer num único momento o santuário que Salomão erigiu em quarenta e seis anos?
Jesus nada respondeu a esta pergunta. Sabe-se que o santuário da sinagoga havia sido saqueado pelo ladrão. Mas ao cair a tarde de quarta-feira, a turba dispunha-se a queimar a filha de Caifás porque os Livros da Lei se haviam perdidos e não sabiam como celebrar a Páscoa. Mas ele lhes disse:
— Esperai, filhos, que mataremos este Jesus e encontraremos a Lei e a santa festa
celebrar-se-á com toda a solenidade.
Então Anás e Caifás entregaram às escondidas a Judas Iscariotes uma boa quantidade de ouro e lhe confiaram a seguinte missão:
— Dize, conforme nos afirmastes: eu sei que a Lei foi furtada por Jesus, para que o
delito recaia sobre ele e não sobre esta irrepreensível donzela.
Quando se puseram de acordo neste particular, Judas disse-lhes:
— Que o povo não saibas que me haveis dado instruções para fazer isto contra Jesus. É melhor soltá-lo e eu me encarregarei de convencer o povo de que a coisa é assim.
Assim, astutamente puseram Jesus em liberdade.
Assim, então, quinta-feira, ao amanhecer, Judas entrou no Santuário e disse a todo o
povo:
— Que me dareis se eu entregar aquele que fez desaparecer a Lei e roubou os Profetas?
Os judeus responderam:
— Se o entregares, dar-te-emos trinta moedas de ouro.
O povo não sabia, porém, que Judas se referia a Jesus, já que muitos reconheciam que era o filho de Deus. Então Judas ficou com as trinta moedas de ouro. Tendo saído durante a quarta e a quinta hora, encontrou Jesus passeando no átrio. Já estando a tarde por cair, disse aos judeus:
— Dai-me uma escolta de soldados armados de espadas e paus e eu pô-lo-ei em vossas mãos.
Deram-lhe, então, força para prendê-lo. Enquanto iam caminhando, Judas disse-lhes:
— Agarrai aquele a quem eu beijar, pois terá sido ele quem roubou a Lei e os Profetas.
Depois aproximou-se de Jesus e beijou-O dizendo:
— Salve, Mestre.
Era então a tarde de sexta-feira. E, uma vez preso, puseram-nO nas mãos de Caifás e
dos pontífices, dizendo-lhes Judas:
— Este é aquele que furtou a Lei e os Profetas.
Os judeus, então, submeteram Jesus a um injusto interrogatório, dizendo:
— Por que fizeste isto? — mas ele nada respondeu.
Então, Nicodemus e eu, José, diante daquela cátedra de pestilência, separamo-nos
deles, dispostos que estávamos a não perecer juntamente com o conselho dos ímpios.

CAPÍTULO 3

E depois daquela noite fizeram outras coisas terríveis contra Jesus; na madrugada de
sexta-feira foram entregá-lo ao governador Pilatos para crucificá-lo; e com este intuito todos acorreram. E o governador Pilatos, depois de interrogá-lo, ordenou que fosse crucificado na companhia de dois ladrões. E foram crucificados, juntamente com Jesus, à esquerda, Gestas, à direita, Dimas.
E o da esquerda começou a gritar, dizendo a Jesus:
— Olha quantas coisas más fiz sobre a terra, e até se soubesse que tu eras rei, teria
acabado também contigo. Por que te chamas a ti mesmo de Filho de Deus, se não podes socorrer-te em caso de necessidade? Como, então, prestarás auxílio a qualquer um que o peça? Se tu és o Cristo, desce da cruz para que eu possa crer em ti. Mas, neste momento não te considero como homem, senão como uma besta selvagem que está perecendo juntamente comigo.
E começou a dizer muitas outras coisas contra Jesus enquanto blasfemava e fazia
ranger os dentes contra Ele, pois o ladrão tinha sido preso no laço do diabo.
Mas o da direita, cujo nome era Dimas, vendo a graça divina de Jesus, gritava deste
modo:
— Conheço-te, ó Jesus Cristo, e sei que és o Filho de Deus. Vejo-Te como Cristo
adorado por miríades de anjos. Perdoa os pecados que cometi. Não faças os astros virem contra mim no momento do meu julgamento, ou a lua, quando julgares toda a terra, posto que foi à noite que realizei meus maus propósitos. Não movas o sol, que agora escurece por Ti, para que eu possa manifestar as maldades de meu coração. Já sabes que não posso oferecer-Te presente algum pela remissão dos meus pecados. A morte já se joga em cima de mim por causa das minhas maldades, mas Tu tens o poder para expiá-las. Livrai-me, Senhor universal, do teu terrível julgamento. Não concedas ao inimigo poder para engolir-me e fazer-se herdeiro de minha alma, como o é desse que está pendurado à esquerda, pois estou vendo como o diabo recolhe sua alma, enquanto suas carnes desaparecem. Tampouco me ordenes passar para o lado dos judeus, pois vejo-os submergir num grande pranto a Moisés e aos profetas, enquanto o diabo se ri às suas costas. Senhor, antes que minha alma
saia, ordena que meus pecados sejam apagados e lembra-te de mim, pecador, em teu reino, quando julgares as doze tribos por sobre o trono grande e alto, pois é grande e tormento que preparaste para o teu mundo por tua própria causa.
E, quando o ladrão terminou de dizes isto, Jesus respondeu-lhe:
— Em verdade, em verdade digo-te, Dimas, que hoje mesmo estarás comigo no
paraíso. Mas os filhos do reino, os descendentes de Abraão, de Isaac, de Jacó e de Moisés serão arremessados fora, para as trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger de dentes. Mas tu serás o único que habitará o paraíso até a minha segunda vinda, quando julgarei aqueles que não reconheceram meu nome.
E acrescentou:
— Vai agora e dize aos querubins e aos anjos da sexta hierarquia, que estão brandindo a espada de fogo e guardando o paraíso de Adão, a primeira das criaturas, que depois de ter vivido ali foi arremessado por haver prevaricado e por não ter guardado meus mandamentos: nenhum dos primeiros verá o paraíso até que eu venha de novo para julgar os vivos e os mortos. Assim disse Jesus Cristo, o Filho de Deus, aquele que desceu das alturas dos céus, aquele que saiu inseparavelmente do seio do Pai invisível e desceu ao mundo para encarnar-se e ser crucificado para salvar Adão, a quem formou, para conhecimento das milícias dos arcanjos, guardiões do paraíso e ministros de meu Pai. Quero e ordeno que adentre aquele que está crucificado comigo, e que receba por mim a remissão de seus pecados e que entre no paraíso com o corpo incorruptível e engalanado, e que habite onde ninguém jamais poderá habitar.
E eis que, quando disse isto, Jesus entregou seu espírito. Isto aconteceu numa sextafeira, à nona hora. As trevas cobriram a terra inteira e sobreveio um grande terremoto que derrubou o santuário e o pináculo do templo.

CAPÍTULO 4

Então eu, José, reclamei o corpo de Jesus e coloquei-o num sepulcro novo, ainda não usado. O cadáver daquele que estava à direita não pôde ser encontrado, enquanto que o da esquerda tinha adquirido o aspecto de um dragão. Pelo fato de ter pedido o corpo de Jesus para dar-lhe sepultura, os judeus, deixando-se levar por um impulso de cólera, encarceraram-me no mesmo lugar onde se costumava colocar os malfeitores. Isto aconteceu-me na tarde do Sabat em que nossa nação estava prevaricando. Quantas terríveis atribulações este Sabat infligiu à nossa mesma nação!
Precisamente na tarde do primeiro dia da semana, na quinta hora, quando me
encontrava na prisão, Jesus veio ter comigo, acompanhado daquele que tinha sido
crucificado à sua direita e a quem enviara ao paraíso. Havia uma grande luz no recinto.

Imediatamente a casa ficou suspensa em seus quatro ângulos, o espaço interior ficou e eu pude sair. Então reconheci primeiro a Jesus e depois ao ladrão, que trazia uma carta para Jesus. Enquanto caminhávamos até a Galiléia, brilhou uma luz tamanha que a criação não podia suportá-la. O ladrão, por sua vez, exalava um forte perfume procedente do paraíso.

Depois, Jesus sentou-se e leu assim:
— Os querubins e os hexaptérigos receberam de tua divindade a ordem de guardar o
jardim do paraíso. Soubemos disto pelo ladrão que foi crucificado juntamente Contigo, por tua disposição. Ao ver nele o sinal dos pregos e o resplendor das letras da tua divindade, o fogo extinguiu-se, já que não podia suportar o sinal ofuscante. Nós, tomados de um grande temor, ficamos amedrontados, pois ouvimos o autor do céu e da terra e da criação inteira que descia das alturas até as partes mais baixas da terra por causa de Adão, a primeira das criaturas. Ao ver a cruz imaculada, que fulgurava em meio ao ladrão e que fazia reverberar um resplendor sete vezes maior que o do sol, um grande temor apoderou-se de nós, presas da agitação dos infernos.

E nós e os ministros do inferno, em coro, dissemos aos brados:
“Santo, Santo, Santo é Aquele que impera nas alturas”. E as divindades deixavam escapar este grito: “Senhor, Tu Te manifestaste no céu e sobre a terra, dando a alegria dos séculos, depois de ter salvo a própria criatura da morte”.

CAPÍTULO 5

Enquanto eu ia contemplando isto, a caminho da Galiléia, em companhia de Jesus e do ladrão, Aquele transfigurou-se e já não era o mesmo de antes da crucificação, senão que era luz por completo. Os anjos serviam-no continuamente, e Jesus mantinha conversação com eles. Passei por três dia ao seu lado, sem que nenhum dos seus discípulos O acompanhasse, mas tão somente o ladrão.
Em meio à festa dos ázimos, veio o seu discípulo João, e até então não havíamos visto o ladrão nem sabíamos o que tinha sido feito dele. João então perguntou a Jesus:
— Quem é este, já que ainda não mo permitiste vê-lo?
Mas Jesus não respondeu nada. Então ele atirou-se aos seus pés e disse:
— Senhor, sei que desde o princípio me amaste. Por que não me fazes ver aquele
homem?
Jesus disse-lhe:
— Por que vais em busca do mistério? És obtuso de inteligência? Não sentes o perfume do paraíso que inundou este lugar? Não percebes quem era? O ladrão suspenso da cruz tornou-se herdeiro do paraíso. Em verdade, em verdade te digo que somente ele o é até que chegue o grande dia.
E João disse:
— Faze-me digno de vê-lo”.
Enquanto João ainda estava falando, o ladrão apareceu de repente. Então aquele,
atônito, caiu ao chão. O ladrão não conservava a mesma figura que tinha antes da chegada de João, mas parecia-se com um rei majestoso ao extremo, engalanado como estava com a cruz. Ouviu-se uma voz, emitida por uma grande multidão, que dizia assim:
— Chegaste ao lugar do paraíso que te havia sido preparado. Nós fomos designados
por Aquele que te enviou para servir-te até que venha o grande dia.
Ao produzir-se esta voz, o ladrão e eu ficamos invisíveis. Então encontrei-me em
minha própria casa e já não via Jesus.

Tendo sido testemunha ocular destas coisas, deixei-as escritas para que todos acreditem em Jesus Cristo crucificado, nosso Senhor, e já não sirvam à Lei de Moisés, senão que dêem crédito aos milagres e maravilhas operados por Ele, de maneira que, crendo, sejam herdeiros da vida eterna e possamos encontrar-nos todos no reino dos céus. Porque a Ele lhe convém glória, força, bem-aventurança e majestade pelos séculos dos séculos.

Amém.

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A Sincronicidade do Banheiro Público.

Esta é uma postagem bem humorada. Um daqueles casos bem corriqueiros, que mostram como a sincronicidade atua naturalmente no dia-a-dia.

Anteontem estávamos eu e um amigo na rua. Em um determinado momento, quando o sol se pôs, olhamos um para o outro e procuramos um banheiro público. “Por acaso”, encontramos um, desses de aço escovado logo adiante. A máquina pedia 50 centavos. Como não tínhamos uma moeda de 0,50, dei as minhas para o amigo,para que ele juntasse o restante e falei: “Vai na frante.”

A engenhoca emitiu um sinal verde após os 0,50 terem sido postos, a porta foi liberada e meu amigo entrou. Quando ele saiu, a porta se fechou, e o sinal verde virou vermelho: a porta estava selada.

Depois de alguns momentos, falei para ele: “Procura melhor no seu bolso para ver se conseguimos juntar mais 0,50 para eu ir ao banheiro.” E ele disse: “Por que não me pediu para eu segurar a porta? Você teria entrado sem pagar. 0,50 pelos dois tá é muito bom”, ele riu.

Sorri e falei: “Eu não faço isso, sou “Caxias”. Prefiro ficar apertado.” E meu amigo de novo me repreeendeu: “Eu também sou, mas não vejo mal algum.”

Enfim, juntamos mais 0,50 centavos em moedas de 0,10. Fui introduzindo as mesmas na máquina e após ter posto apenas 0,20, acendeu o sinal verde e a porta se escancarou. Olhamos surpresos um para o outro e falei: “Agora eu vou nessa!”.

Quando saí meu amigo estava rindo: “Cara, isso só pode ser um teste de fé e honestidade para nós, sabe por quê? Depois que você entrou, a máquina devolveu 0,30 centavos, ou seja, você não pagou nada e ainda tivemos um lucro de 0,10 centavos!”

“Tá vendo, mané?”, argumentei. “Nossa fé e nossa convicção são como que testadas, em momentos bobos, corriqueiros. De fato, são as pequenas coisas que nos ensinam. Se você rouba 0,50, por que não roubaria 50 milhões? Tudo é questão de oportunidade e consciência, de compreendermos que tudo neste universo está conectado, do macro ao micro, das galáxias a um banheiro público!”

E seguimos adiante gargalhando.

 

O aleatório em nossas vidas (Livro O Andar do Bêbado)

“Deus é o próprio conjunto de leis que rege a natureza”, Leonard Mlodinow.

Se o físico superstar Stephen Hawking disse que o livro O Andar do Bêbado do físico Leonard Mlodinow (Editora Zahar) é “um guia maravilhoso e acessível sobre como o aleatório se manifesta em nossas vidas“, quem sou eu para refutá-lo?

Curiosamente, Mlodinow é um dos sobreviventes do atentado terrorista de 11 de setembro de 2001. Coincidência? Acaso?

Como não acredito em coincidência ou acaso, muito me interessei pela obra, para que eu pudesse ter contato com um ponto de vista “não-junguiano” sobre o assunto “acaso” e “causa-efeito”. O autor (que esteve no Brasil para a Bienal do Livro no Rio, e que trabalhou nos anos 1980, como roteirista nas séries McGyver e Jornada nas Estrelas: A Nova Geração) se põe contra a intuição e alega que tudo o que ocorre conosco é apenas resultado de opções lógicas, muitas desprezadas.

Mlodinow diz que “a resposta humana à incerteza é tão complexa que, por vezes, distintas estruturas cerebrais chegam a conclusões diferentes e aparentemente lutam entre si para determinar qual delas dominará as demais. Quando lidamos com processos aleatórios – seja em situações militares ou esportivas, questões de negócios ou médicas –, as crenças e a intuição muitas vezes nos deixam em maus lençóis”.

 Será?

E como fica a intuição nessa história? Seria o vilão? Para o autor, a intuição até pode dar certo, mas não é comum, é incomum. Há aleatoriedade e incerteza antes. Para os familiarizados com ficção científica e teorias quânticas, há um paradoxo que prega que se um viajante do tempo voltasse ao passado para impedir que um evento futuro ocorresse, ele de fato, conseguiria mudar o “futuro”, mas esse “novo futuro”, a nova possibilidade, não faria parte da linha do tempo original, mas de uma linha paralela, ou seja: o futuro não seria afetado na linha de tempo original, mas essa mudança ocorreria sim, em um outro plano. A história teria então, duas possibilidades e não mais uma como anteriormente, mas ambas não se misturariam. Seria como um backup universal que duplicaria a ação, mas não apagaria a matriz oficial. Esse é o paradoxo do não livre-arbítrio.

 E o que o livro de Mlodinow explica é que não há livre-arbítrio, mas possibilidades matemáticas, por mais absurdas que sejam. A insistência é um desses fatores que levam ao sucesso, como por exemplo na questão dos autores que ouvem vários nãos em relação aos seus livros, uma rejeição repetida, antes que suas obras se tornem grandes sucessos. A lista dos autores desprezados é imensa. Os que desistem ficam fora da disputa.

 “O sucesso resulta tanto de fatores aleatórios quanto de habilidade, preparação e esforço. Portanto, a realidade que percebemos não é um reflexo direto das pessoas ou circunstâncias que a compõem, e sim uma imagem borrada pelos efeitos randomizantes de forças externas imprevisíveis ou variáveis”.

 “A teoria da aleatoriedade é fundamentalmente uma codificação do bom senso. Mas também é uma área de sutilezas, uma área em que grandes especialistas cometeram equívocos famosos e apostadores experientes acertaram de maneira infame”.

 Leonard Mlodinow

O livro (re)apresenta conceitos matemáticos (lógicos per se) que explicam que os ciclos de sucesso/fracasso/acerto/erro não são resultantes exclusivamente de escolhas humanas (apesar de estarem intimamente ligados a) mas de aleatoriedades. Um dos exemplos que o autor dá, é curiosamente interessante para nós brasileiros: o técnico de futebol. Há um ciclo de vitórias quando o técnico chega e algum tempo depois, até mesmo após ter sido campeão brasileiro, ocorre um ciclo de fracassos e crises. Esse elemento desagregador não seria responsabilidade nem do técnico, da imprensa e nem do time, mas de um ciclo inevitável de subidas e quedas, e mais especificamente do acaso, da aleatoriedade, segundo teses matemáticas modernas, quase quânticas.

 Nos anos 1930, o tcheco-americano Kurt Gödel – amigo de Einstein – provou que a maior parte da matemática deve ser inconsistente ou então conter verdades que não podem ser provadas.

 Mlodinow inicia o livro com um exemplo paterno:

 “Às vezes ocorrem coisas que não podem ser previstas”, disse-lhe o pai. “Ele me contou de quando, em Buchenwald, o campo de concentração nazista em que ficou preso, já quase morrendo de fome, roubou um pão da padaria. O padeiro fez com que a Gestapo reunisse todos os que poderiam ter cometido o crime e alinhasse os suspeitos. “Quem roubou o pão?”, perguntou o padeiro. Como ninguém respondeu, ele disse aos guardas que fuzilassem os suspeitos um a um, até que estivessem todos mortos ou que alguém confessasse. Meu pai deu um passo à frente para poupar os outros. Ele não tentou se pintar em tons heroicos, disse-me apenas que fez aquilo porque, de qualquer maneira, já esperava ser fuzilado. Em vez de mandar fuzilá-lo, porém, o padeiro deu a ele um bom emprego como seu assistente”.

 E concluiu: “Não teve nada a ver com você, foi um lance de sorte, mas se o desfecho fosse diferente, você nunca teria nascido.”

 Que coisa né? É uma forma de ver a vida: a aleatoriedade.

 “O papel do acaso em nossas vidas não é exclusividade dos extremos. O desenho de nossas vidas é continuamente conduzido em novas direções por diversos eventos aleatórios que, juntamente com nossas reações a eles, determinam nosso destino. Como resultado, a vida é ao mesmo tempo difícil de prever e difícil de interpretar”.

 Leonard Mlodinow se debruça sobre as mais diversas teorias matemáticas, explicadas com muita exatidão, até mesmo para pessoas que como eu, não gostam de cálculos. O livro é um primor de humor e exatidão logística, explicando todas as teses, como por exemplo o fenômeno chamado de “efeito borboleta”, que prediz que ínfimas alterações atmosféricas, como as causadas pelo bater das asas de uma borboleta, poderiam ter um grande efeito nos subsequentes padrões atmosféricos globais. O autor confessa que “essa noção pode parecer absurda – é equivalente à ideia de que a xícara de café que você tomou de manhã poderia levar a alterações profundas em sua vida. No entanto, isso é efetivamente o que acontece”.

 Para fechar a resenha, mais uma história deliciosa:

 “NO OUTONO DE 1941, alguns meses antes do ataque japonês a Pearl Harbor, um agente de Tóquio pediu a um espião em Honolulu que fizesse um relatório sobre os navios presentes no porto. O pedido foi interceptado e enviado ao Escritório de Inteligência Naval. A mensagem chegou a Washington, decodificada e traduzida, em 9 de outubro.

 Algumas semanas depois, ocorreu um incidente curioso: os monitores americanos perderam o sinal das comunicações de rádio de todos os porta-aviões conhecidos na primeira e segunda frotas japonesas, perdendo com isso todas as informações sobre sua localização. Então, no início de dezembro, a Unidade de Inteligência em Combate relatou que os japoneses haviam alterado seus códigos que identificam a fonte de uma transmissão de rádio.

 Em tempos de guerra, esses códigos revelam a identidade de uma fonte, não só para os aliados, mas também para os inimigos; por isso, são alterados periodicamente. O fato de que os japoneses os tivessem alterado duas vezes em 30 dias era considerado “um passo na preparação de operações em grande escala”.

 Dois dias depois, foram interpretadas e decodificadas mensagens japonesas enviadas a representações diplomáticas para que destruíssem imediatamente a maior parte de seus códigos e queimassem todos os documentos confidenciais. Por volta dessa época, o FBI também interceptou uma ligação telefônica de um cozinheiro do consulado havaiano para alguém em Honolulu, informando, muito empolgado, que os oficiais estavam queimando todos os documentos importantes. O diretor-assistente da principal unidade de inteligência do Exército, tenente-coronel George W. Bicknell, levou uma das mensagens interceptadas a seu chefe quando este se preparava para sair para jantar com o chefe do Departamento Havaiano do Exército. Era o final da tarde de sábado, 6 de dezembro, um dia antes do ataque. O superior de Bicknell levou cinco minutos para analisar a mensagem, depois a deixou de lado, considerando que não tinha importância, e saiu para jantar. Quando analisados em retrospecto, esses eventos parecem anunciar um grande mau presságio; por que, estando de posse dessas informações, ninguém foi capaz de prever o ataque?

Resposta: Em qualquer série complexa de eventos na qual cada evento se desenrola com algum elemento de incerteza, existe uma assimetria fundamental entre o passado e o futuro”.