AS SETE LEIS DO SUCESSO – parte final – DEEPAK CHOPRA

A SÉTIMA LEI: A LEI DO “DHARMA” OU DA FINALIDADE DA VIDA

Todas as pessoas possuem uma finalidade na vida… uma dádiva singular ou um talento especial para oferecer aos outros. E quando pomos o nosso talento especial ao serviço dos outros, experimentamos o êxtase e a exultação do nosso espírito, que é a finalidade suprema da vida. Quando trabalhamos somos como flautas e, ao nosso coração o murmúrio das horas soa como música. E o que é trabalhar com amor? É tecer o pano com os fios do coração, como se estivéssemos a tecer a roupa do nosso bem-amado… Kahlil Gibran, O Profeta A sétima lei espiritual do sucesso consiste na Lei do Dharma. Dharma é um termo sânscrito que significa “finalidade na vida”. A Lei do Dharma diz-nos que nos manifestamos sob a forma física para cumprir uma finalidade. A divindade constitui a essência do campo da potencialidade pura e, o divino toma a forma humana para cumprir uma finalidade. Segundo esta lei, todos temos um talento específico e uma forma singular de o exprimirmos. Há qualquer coisa que conseguimos fazer melhor do que qualquer outra pessoa no mundo e, cada talento específico com a sua forma singular de se exprimir, também requer necessidades especiais. Quando essas necessidades se combinam com a expressão criativa do nosso talento, gera-se a centelha que dá prosperidade. Exprimir os seus talentos para realizar aquilo que é necessário cria riqueza e abundância ilimitadas. Se ensinássemos isto às crianças desde pequenas, veríamos o efeito que teria na vida delas. Na verdade, fiz a experiência com os meus filhos. Repeti-lhes muitas e muitas vezes que havia uma razão para cada um de nós se encontrar neste mundo e que eles teriam de descobrir a razão por que existiam. Eles começaram a ouvir isto a partir dos quatro anos. Também os ensinei a meditar mais ou menos a partir dessa idade e disse-lhes: “Nunca, mas nunca se preocupem em ganhar a vossa vida. Se não forem capazes de ganhar a vossa vida quando crescerem, eu hei de sustentar-vos, portanto não se preocupem com isso. Não quero que se esforcem por obter bons resultados na escola. Não quero que se esforcem por obter as melhores notas ou por ir para os melhores colégios. Aquilo que quero é que se interroguem acerca de como podem servir a Humanidade e quais serão os vossos talentos especiais. Porque cada um de vós possui um talento especial, que ninguém mais possui e cada um de vós tem uma maneira especial de exprimir esse talento, que também ninguém mais possui.” Eles acabaram por vir a frequentar as melhores escolas, obtiveram as melhores notas, e mesmo na universidade são estudantes especiais, porque já são economicamente independentes, pois a vida deles focaliza-se naquilo que devem dar para cumprir a razão da sua existência aqui. E esta é a Lei do Dharma.

A Lei do Dharma possui três componentes. O primeiro diz-nos que cada um de nós se encontra aqui para descobrir o seu verdadeiro Eu, para descobrir por si próprio que o seu verdadeiro Eu é espiritual, que na essência somos seres espirituais manifestando-se sob uma forma física. Não somos seres humanos que têm experiências espirituais ocasionais, ao contrário, somos seres espirituais que têm experiências humanas ocasionais. Cada um de nós encontra-se aqui para descobrir o seu eu superior, ou o seu eu espiritual. Esse constitui o primeiro requisito da Lei do dharma. Temos de descobrir por nós mesmos o deus ou a deusa em embrião, que existe dentro de nós e deseja revelar-se, para podermos exprimir a nossa divindade.

O segundo componente da Lei do dharma consiste em exprimirmos os nossos talentos especiais. A Lei do dharma diz-nos que todo o ser humano possui um talento especial. Todos possuímos um talento, cuja expressão é de tal modo singular, que não existe mais ninguém vivo no planeta que possua esse talento ou essa forma de o exprimir. Isto significa que há uma coisa específica que cada um de nós sabe fazer melhor do que qualquer outra pessoa no mundo. Quando está a fazer isso, perde a noção do tempo. Quando exprime esse talento especial que possui ou, em muitos casos, os diversos talentos especiais, a expressão desse talento é transportada para o conhecimento do eterno.

 O terceiro componente da Lei do dharma consiste na vontade de servir a Humanidade. Servir os outros seres humanos é perguntar “Como posso eu ajudar? Como posso ajudar aqueles que me rodeiam?” Pondo a capacidade de exprimir o seu talento especial ao serviço da Humanidade, estará a aplicar totalmente a Lei do dharma. E se juntar a isto a experiência da sua própria espiritualidade, o campo da potencialidade pura, é impossível que não tenha acesso à abundância ilimitada, porque esta constitui a verdadeira forma de alcançar a abundância. Esta abundância não é temporária; é permanente, devido ao seu talento especial, à sua forma de o exprimir, aos serviços que presta e à dedicação que mostra pelos outros seres humanos, atitude que adquiriu, perguntando: “Como posso eu ajudar?”, em vez de: “O que posso eu obter?” A questão “O que posso eu obter?” constituí o diálogo interior do ego. Perguntar “Como posso eu ajudar? “ constitui o diálogo interior da alma. A alma representa o domínio do conhecimento onde experimentamos a nossa universalidade. Através da simples substituição, no nosso diálogo interior, da pergunta “O que posso eu obter?” pela outra “Como posso eu ajudar?”, passamos logo do plano do nosso ego para o domínio da nossa alma. Embora a meditação constitua a forma mais útil de entrar no domínio da alma, a simples mudança do nosso diálogo interior para “Como posso eu ajudar?” também nos dá acesso a alma, esse domínio do conhecimento onde experimentamos a nossa universalidade. Se quiser aproveitar ao máximo a Lei do dharma, terá de se comprometer a seguir algumas regras. A primeira regra é: Vou tentar descobrir o meu eu superior, que se encontra para além do meu ego, através da prática espiritual.

A segunda regra é: Vou descobrir os meus talentos especiais e, depois de os descobrir, vou entrar em estado de felicidade, pois o processo de felicidade ocorre quando adquiro o conhecimento do eterno. Nesse momento, entro em estado de beatitude. A terceira regra é: Vou perguntar a mim mesmo quais as minhas melhores qualidades para servir a Humanidade. Vou responder a essa pergunta e depois pôr em prática a atitude. Vou utilizar os meus talentos especiais para servir as necessidades dos outros seres humanos, vou combinar essas necessidades com o meu desejo de ajudar e servir os outros. Sente-se e faça uma lista das respostas a estas duas perguntas: Pergunte a si mesmo se o dinheiro não fosse uma preocupação para si e se tivesse todo o tempo e dinheiro do mundo, o que faria? se pensa que continuaria a fazer aquilo que faz no momento, isso significa que se encontra em dharma, porque tem uma paixão por aquilo que faz – exprime os seus talentos especiais. Depois, pergunte a si mesmo: “Quais as minhas melhores qualidades para servir a Humanidade?” Responda à pergunta e ponha a atitude em prática. Descubra a sua divindade, encontre o seu talento especial, utilize-o para servir a Humanidade e gerará toda a riqueza que quiser. Quando as suas expressões criativas responderem às necessidades dos outros seres humanos, a riqueza fluirá espontaneamente do não-manifesto para o manifesto, do âmbito da alma para o âmbito da forma. Começará a experimentar a vida como uma miraculosa expressão da divindade, não ocasionalmente, mas sempre. E conhecerá a verdadeira felicidade e o verdadeiro significado do sucesso, o êxtase e a exultação da sua própria alma.

COMO APLICAR A LEI DO “DHARMA” OU DA FINALIDADE DA VIDA

Ponho em prática a Lei do dharma, seguindo estes passos:

1 Hoje vou dar toda a atenção e amor ao deus ou deusa em embrião que se oculta no mais fundo da minha alma. Darei toda a atenção à minha alma interior que dá vida ao meu corpo e ao meu espírito. Vou tentar despertar para a profunda serenidade que existe dentro do meu coração. A consciência da eternidade e do Ser eterno acompanhar-me-á sempre durante a minha experiência temporal.

2 Faço uma lista dos meus talentos especiais. Depois faço uma lista de todas as coisas de que gosto de fazer quando exprimo os meus talentos especiais. Exprimindo os meus talentos especiais e utilizando-os ao serviço da Humanidade, perco a noção do tempo e crio abundância na minha vida, assim como na vida dos outros.

3 Pergunto a mim mesmo todos os dias “Como posso eu servir?” e “Como posso eu ajudar?”. As respostas a estas questões vão permitir-me ajudar e servir os outros seres humanos com amor.

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AS SETE LEIS PARA O SUCESSO – parte VI

A SEXTA LEI: A LEI DO DESPRENDIMENTO

 

No desprendimento se revela o conhecimento da incerteza. No conhecimento da incerteza se revela a libertação do passado, do conhecido, da prisão da circunstância do passado. E pela nossa vontade de entrar no desconhecido, no campo de todas as possibilidades, entregamo-nos ao espírito criativo que orquestra a dança do universo. Como dois pássaros de ouro empoleirados na mesma árvore, como amigos íntimos, o ego e o Eu habitam o mesmo corpo – o primeiro come os frutos doces e amargos da árvore da vida, enquanto o último observa com desprendimento.

 Mundaka Upanissad

 

A sexta lei espiritual, do sucesso consiste na Lei do Desprendimento.

A Lei do Desprendimento diz-nos que para adquirirmos qualquer coisa no universo físico temos de renunciar à nossa ligação a ela. Isto não significa que desistamos da intenção de criar o desejo. Não devemos desistir da intenção, nem devemos desistir do desejo. Devemos desistir da nossa ligação ao resultado. Esta atitude é muito poderosa. No momento em que renunciamos à ligação ao resultado, combinando ao mesmo tempo intenção dirigida e desprendimento, teremos aquilo que desejamos. Tudo o que quisermos pode adquirir-se através do desprendimento, já que este se baseia na fé inquestionável, no poder do nosso verdadeiro Eu. Por outro lado, a ligação ao resultado baseia-se no medo e na insegurança – e a necessidade de segurança baseia-se no fato de não conhecermos o nosso verdadeiro Eu. A fonte de riqueza, de abundância ou de qualquer outra coisa do mundo físico encontra-se no Eu; é a consciência que sabe como realizar todas as necessidades. Tudo o mais constitui um símbolo: carros, casas, contas bancárias, roupas e aviões. Os símbolos são transitórios; vêm e vão. Procurar obter estes símbolos é o mesmo que preferir o mapa ao território. Provoca ansiedade; acaba por nos fazer sentir ocos e vazios por dentro, porque estamos a trocar o nosso Eu pelos símbolos do nosso Eu.

A ligação ao resultado significa consciência da pobreza, pois esta ligação prende-se sempre aos símbolos. O desprendimento significa consciência da riqueza, pois ele traz-nos a liberdade para criar. Só com um envolvimento desprendido se pode obter alegria e prazer. Só assim obtemos os símbolos de riqueza, com espontaneidade e sem esforço. Sem o desprendimento, tornamo-nos prisioneiros de necessidades mundanas desesperadas e impossíveis, preocupações triviais, desespero passivo e tristeza. Marcas distintivas de uma existência quotidiana medíocre e da consciência da pobreza. A verdadeira consciência da riqueza consiste na capacidade para obtermos aquilo que queremos, quando quisermos, e com um mínimo de esforço.

Para chegar a esta experiência tem de se basear no conhecimento da incerteza. Na incerteza encontrará a liberdade para criar tudo o que quiser. As pessoas estão sempre à procura de segurança, mas com o tempo verão que a busca da segurança constitui uma coisa muito efêmera. Mesmo a ligação ao dinheiro constitui um sinal de insegurança. Pode dizer: “Quando eu possuir X milhões de escudos, estarei seguro. Serei economicamente independente e poderei reformar-me. Nessa altura, hei de fazer tudo aquilo que de facto quero fazer.” Mas isso nunca acontece – nunca. Aqueles que procuram segurança perdem-na para sempre e nunca a encontram. É uma atitude ilusória e efêmera, pois a segurança nunca pode vir apenas do dinheiro. A ligação ao dinheiro gerará sempre insegurança, independentemente da quantidade de dinheiro que tivermos no banco. Na verdade, algumas das pessoas mais inseguras são as que mais dinheiro têm. O desejo de segurança constitui uma ilusão. Nas antigas tradições de sabedoria, a solução para todo este dilema encontra-se no conhecimento da insegurança, ou no conhecimento da incerteza. Isto significa que o desejo de segurança e certezas, na verdade, constituem uma ligação ao conhecido. E o que é o conhecido? O conhecido é o nosso passado. o conhecido não é mais do que a prisão do condicionamento do passado. Não há evolução aqui absolutamente nenhuma. E quando não há evolução, surge a estagnação, a entropia, a desordem e a decadência. A incerteza, por sua vez, constitui o solo fértil da criatividade e da liberdade puras. A incerteza significa entrar no desconhecido em cada momento da nossa existência. O desconhecido constitui o campo de todas as possibilidades, sempre vivas, sempre novas, sempre abertas à criação de novas manifestações. Sem a incerteza e o desconhecido, a vida consiste apenas na repetição obsoleta e desgostosa de memórias. Tornamo-nos vítimas do passado – aquilo que vivemos ontem é o que nos atormenta hoje. Renuncie à sua ligação com o conhecido, entre no desconhecido e entrará no campo de todas as possibilidades. O conhecimento da incerteza constitui um elemento da vontade de entrar no desconhecido. Isto significa que, em cada momento da sua vida, terá emoção, aventura, mistério. Terá a experiência da alegria de viver a magia, a celebração, a alegria e a exultação do seu próprio espírito. Todos os dias pode procurar a emoção daquilo que virá a ocorrer no campo de todas as possibilidades.

Quando tiver a experiência da incerteza, encontra-se no caminho certo, por isso não desista. Não precisa de ter uma ideia rígida e completa daquilo que vai fazer na semana seguinte ou no próximo ano, pois se tiver ideias bem definidas acerca do que vai acontecer e se ficar muito preso a elas, fechará um grande número de possibilidades. Uma característica do campo de todas as possibilidades consiste na correlação infinita. o campo pode orquestrar uma infinidade de ocorrências espaço-temporais para chegar ao resultado pretendido. Mas quando nos deixamos prender, a nossa intenção fecha-se num estado de espírito rígido e perdemos a fluidez, a criatividade e a espontaneidade inerentes ao campo. Quando nos deixamos prender, retiramos ao desejo a sua infinita flexibilidade e fluidez, encerrando-o numa moldura fixa, que interfere com todo o processo de criação. A Lei do Desprendimento não interfere com a Lei da Intenção e do Desejo. Com a definição de um objetivo Mantemos a intenção de seguir em determinada direção, mantemos o nosso objetivo. Mas entre o ponto A e o ponto B há uma infinidade de possibilidades. Tendo interiorizado o elemento da incerteza, podemos mudar de direção em qualquer momento, se encontrarmos um ideal mais elevado ou uma coisa mais emocionante. Também nos encontramos menos dispostos a forçar as soluções para os problemas e isso permite-nos manter-nos atentos às oportunidades. A Lei do Desprendimento acelera todo o processo de evolução. Quando compreender esta lei, não se sentirá compelido a forçar soluções. Quando força soluções ou problemas, apenas cria novos problemas. Mas se aplicar a atenção na incerteza e observar a incerteza enquanto espera, atento, que a solução surja do caos e da confusão, aquilo que surgirá será qualquer coisa fabulosa e muito estimulante. Este estado de atenção, encontrar-se-á preparado no presente, no campo da incerteza, liga-se ao seu objetivo e à sua intenção e permite-lhe aproveitar a oportunidade. O que é a oportunidade? Encontra-se em cada problema que tiver na vida. O menor problema que tiver na vida constitui a semente para uma oportunidade de um benefício maior. Depois de ter percebido isso, abre um grande número de possibilidades e mantém vivos o mistério, a dúvida, a emoção e a aventura. Pode ver cada problema da sua vida como uma oportunidade para um benefício maior. Pode manter-se atento às oportunidades baseando-se no conhecimento da incerteza. Se estiver preparado e a oportunidade surgir, a solução aparecerá espontaneamente. Aquilo que daqui advém designa-se muitas vezes por “boa sorte”. A boa sorte consiste apenas no encontro entre a oportunidade e a pessoa que se encontra preparada para ela. Quando as duas se juntam com a observação atenta do caos, surge uma solução, que constituirá um benefício evolucionário para a pessoa e para todos aqueles que a rodeiam. Esta constitui a receita perfeita para o sucesso e baseia-se na Lei do Desprendimento, que é o melhor caminho para a liberdade. Entro no campo de todas as possibilidades e antecipo a emoção que pode ocorrer se eu me mantiver aberto às escolhas. Ao entrar no campo de uma infinidade de escolhas Ponho em prática a Lei do Desprendimento, seguindo todas as possibilidades, experimento toda a alegria, com estes passos: aventura, magia e mistério da vida.

 1 Hoje vou praticar o desprendimento. Darei a mim próprio e aos que me rodeiam a liberdade de sermos como somos. Não imporei ideias rígidas sobre como as coisas deviam ser. Não forçarei soluções para os problemas, pois isso criaria novos problemas. Participarei em tudo com um envolvimento desprendido.

 2 Hoje interiorizo a incerteza como um ingrediente essencial da minha experiência. A minha boa vontade para aceitar a incerteza fará com que as soluções surjam, espontâneas, dos problemas, da confusão, da desordem e do caos. Quanto mais incertas as coisas parecem, mais seguro me sentirei, porque a incerteza é uma fonte inesgotável.

 

 

Operação Espiritual e Fim do Mundo – um testemunho.

Muito se fala do fim do mundo em 2012.

 Vivi meu primeiro fim do mundo em 1999 e também minha primeira operação espiritual conduzida por entidades, anjos ou extraterrestres, tanto faz. Chame-os como você preferir após ler meu testemunho.

 Desde cedo, sentia um certo desconforto devido ao noticiário – prioritariamente internacional – sobre o eclipse de 11 de agosto de 1999, data em que haveria um eclipse que só seria visível plenamente em partes da Europa. No Brasil não veríamos nada, mas estávamos conectados à moda do fim dos tempos e para complementar muitos ainda achavam o Brasil o fim do mundo. Diziam que Nostradamus havia predito o fim dos fins para esta data. Como tudo que vem do primeiro mundo vira notícia rapidamente, os meios de comunicação não falavam em outra coisa.  Muitos tinham certeza que o mundo iria acabar. A TV preencheu o tempo ocioso com tolas reportagens sobre o que as pessoas fariam se o mundo chegasse ao fim…  Enquanto ouvia piadas sobre as consequências nefastas do eclipse, ficou claro que as chacotas encobriam o medo dos que não acreditavam.  Nada, absolutamente nada deveria alterar o rumo normal de suas vidas, mas meu íntimo dizia que o fenômeno celeste seria algo muito especial.

    Acordei em 11 de agosto de 1999 com um enjôo inexplicável, até mesmo sem vontade de tomar o café da manhã.  Entrei no carro de um amigo para ver o ensaio dele ao final da tarde. O hálito da gasolina e do estofado de couro sintético infestavam o ar do veículo e eu fiquei ainda mais enjoado.  Entrei na sala de ensaios, não comi ou bebi nada. Comecei a sentir algo maior do que um enjôo na região umbilical.  Tentei disfarçar o mal-estar, que beirava o insuportável. Agradeci internamente o término do ensaio, 2 horas depois e ainda sofri fisicamente na carona de volta à casa, gentilmente oferecida.  Me esforcei para dissimular a dor que subia às vísceras. Ao descer na porta de casa, senti-me menos ser humano e mais um projeto de grávida aos oito meses. As pontadas e chutes que vinham de dentro faziam tremer as paredes do corpo.  A dor se alastrava, como se uma febre repentina houvesse dominado a última das resistências. Nem caminhar em linha reta era possível.  Entrei em casa torto pelo excesso de dor.  Uma tristeza infinita tomou conta de mim, fazendo das lágrimas testemunhas de uma dor maior do que a meramente física.  Possivelmente era na alma.

   Minha mãe estava na sala, assistindo TV. Ela notou meu estado, perguntou algo, mas se satisfez com a resposta mentirosa, na verdade preocupada em não preocupá-la.

Os sons que vinham da TV estavam estranhamente mais nítidos, com os agudos mais agudos e os graves, tremendo o chão. Curioso, como minha mãe nada ouvia de diferente, só eu. As imagens estavam com cores esfuziantes, de tons cítricos, que doíam os olhos. Tudo aquilo me incomodava demais. Me ergui, passei a rodopiar por todo o apartamento como se qualquer interrupção pudesse despencar o meu corpo ao chão. Repentinamente, fiquei paralisado, olhando fixamente para uma fotografia dos meus pais sobre a mesa. Com um misto de surpresa e susto, percebi que meu pai estava mais desfocado em relação à mãe. Ainda assustado com a descoberta do que deveria ser considerado um fato banal – na verdade, a foto até ontem estava em foco -, senti meu corpo ainda mais entorpecido, como se tivesse ingerido qualquer alucinógeno.  Pensei na possibilidade de ter bebido algo suspeito. Nada… Essa explicação não colava.

Pedi licença e fui me deitar. Quem disse que adiantou algo? O enjôo era maior ainda, eu me virava na cama e não conseguia dormir. Decidi voltar à sala, uma meia hora depois. Estava tudo às escuras, minha mãe fora dormir. Voltei ao sofá da sala e liguei a TV. Nem me passou pela cabeça descer para a rua, ela me pareceria inexpugnável demais. Mas o que antes parecia ruim, ficou pior ainda: além dos sons ultra-equalizados e as cores excessivas da TV, os sons da rua pareciam estar no meio da sala. Ouvi uma conversa entre 2 mulheres e cada uma de suas palavras com clareza. Eu resido em uma rua principal de uma cidade grande no quarto andar do qual se pode ouvir o ruído das máquinas sufocadas, dos elevadores em movimento, da eletricidade sob o solo, mas não uma conversa clara, a não ser que fosse gritada. Incomodado, me dirigi à janela e vi as duas conversadeiras e um cachorrinho há 2 quarteirões (ou quadras) de distância. Ali, jogado contra a parede, percebi que meus sentidos estavam excitados: via tudo melhor, ouvia melhor e me sentia diferente. Surpreso, voltei ao sofá e para minha surpresa, assisti ao ambiente metamorfosear-se: o teto encheu-se de vida e se curvou sobre mim.  As paredes e o teto se comprimiram arredondadas, exatamente quando ajustamos as extremidades da tela de um computador.  Me senti acuado, mas não senti medo. Paralisado durante algum tempo, consegui mover-me para além daqueles centímetros, após minutos passados como uma estátua humana. Desse ponto em diante, nada mais me parecia natural, os sentidos haviam se alterado e a percepção trazia surpresas impressionantes.  Uma voz não falada sugeriu que fosse me deitar. Um coro de passarinhos cantava sem parar, em plena madrugada.  Uma orquestra fantasma de sinos passou a ecoar em minha cabeça, vozes de muito longe eram ouvidas com proverbial clareza, pensamentos perdidos na rua eram captados sem censura, em um frenesi de mentes e sensações que iam simplesmente chegando, mais e mais, entrando sem permissão. Os sons chegavam claros e audíveis. Já deitado, meu corpo não encontrou descanso: foi submetido a uma sequência de puxões, como se uma corda invisível o puxasse para o alto, gritando para que o meu espírito se libertasse. A cabeça e os pés ficavam nos mesmos lugares, mas o meio do corpo teimava em voar, provocando uma situação muito desconfortável.  “Por que isso está acontecendo?” perguntava, com certeza de que alguém estava me escutando, mesmo que não soubesse quem.

   A cama rangia de dor com as pancadas firmes contra o estrado, enquanto o meio do corpo alçava vôo, apesar da teimosia da cabeça e dos mesmos pés que, inconformados, permaneciam colados à cama. “Eu quero ficar aqui. Não quero ir embora!”, insisti que era necessário continuar onde estava, no meu mundo, e que não me interessava visitar outros. Minha mente confusa raciocinava como dois personagens se digladiando em divergência de julgamentos.  Após uma batalha desleal em posse do corpo, insisti e consegui esboçar uma reação, levantando-me, mas voltei a ser puxado à cama.  Conformado e entorpecido, obedeci à nova ordem de ficar de bruços, enquanto sentia uma energia, assumindo a forma de um tubo, sugando algo de dentro do meu corpo: era uma cirurgia espiritual. Palavras parecem incapazes de descrever uma situação como essa. Uma espécie de consciência externa sussurrou-me que eram doenças e algumas dores da alma que estavam me abandonando. Estavam me prestando um auxílio. Pediram-me que eu deitasse de barriga pra cima. Através de uma das narinas, outros males foram sugados pela luz em forma de um canudo translúcido.  Em seguida, mais deficiências foram expelidas pela outra narina. Pude ver uma luz transparente, como uma ponte luminosa saindo do meu nariz. Apesar do efeito de uma anestesia sem nome, percebi que não estava sozinho no quarto. Ao virar levemente a cabeça para o lado direito (não pude virar a cabeça muito, não conseguia. Apenas esticava o olho), pois no lado esquerdo estava a janela, vi um grupo de pessoas no canto direito da cama, de túnicas brancas e com os braços estendidos, comandando o show de luzes. Os “canudos” luminosos saíam das palmas de suas mãos para me curar, tudo em extremo silêncio. Os ruídos da minha mente e da rua haviam cessado. Surpreso, ainda consegui vislumbrar, por uma fração de milionésimo de segundos – que só os equipamentos fotográficos mais rápidos poderiam acessar – que havia quatro pessoas no quarto com fontes de luz que saíam das palmas de suas mãos, tocando-me por toda a extensão do corpo. Todos vestiam túnicas brancas. Lembro nitidamente de uma mulher loura de cabelos até o ombro; de um senhor com barba grisalha bem cortada e bigode, de uma outra mulher que não lembro de suas feições e de um extraterrestre da raça conhecida como “cinza”. Esse me chamou a atenção, pois era o último à minha direita, próximo aos meus pés. Apesar do receio inicial, já não se fazia necessária nenhuma resistência, pois o que havia começado há horas, com um ensaio enjoado, aparentemente estava chegando ao fim. Os sentimentos estavam emaranhados, mas não poderia acreditar em uma experiência que fosse perversa.  Senti e acreditei que estava em boas mãos. Talvez o medo tivesse que ser controlado por uma necessidade maior. Como saber? As “amarras” que prendiam meu corpo foram soltas assim que a operação terminou. Houve um silêncio mais silencioso, súbito, calmo, regenerador. O quarto pareceu ter ficado mais escuro, mas o ambiente estava higienizado, tudo na maior tranquilidade. Nenhuma presença no local. Apenas paz e silêncio. Foi-me dado o direito de voltar à sala, o que fiz sem pestanejar.  Claro que, anestesiado pelo impacto, cambaleei, ainda sem compreender o inusitado e a razão daquilo tudo, mas ficou evidente o quanto forças invisíveis interagem em nossas vidas.

   Na manhã seguinte lembrei-me das notícias sobre o eclipse. A maioria encarou o eclipse como uma brincadeira. Um excepcional e desconhecido matemático riscou no céu conjunções e oposições de Saturno, Júpiter, Mercúrio, Lua, Sol e Marte em conflitos e alianças. Não poderia ser autossugestão, nem coincidência o que acontecera comigo na hora do eclipse. Eu não poderia ser o único a ter passado por isso. Talvez tivesse influenciado muito mais pessoas em todo o mundo, mas todas mantiveram-se, estranhamente, caladas. Nenhuma nota em jornal, nenhum comentário. Uma boa quadra de Nostradamus que não se cumpria, e todos sentiram-se aliviados. “Ele errou! Nostradamus é uma farsa! Só o mundo visível é real!”, ouvi e sorri. Mas como se diz, os cães ladram e a caravana passa. É sempre necessário ver para crer? que nos cerca de dúvidas até que chegue o derradeiro momento da revelação. Os maiores estudiosos só decifram a charada após a profecia ter se cumprido e tem sido assim há séculos.  Quando não se realiza, metade suspira aliviada, metade faz pouco caso.

    Assim que amanheceu, fui caminhar para refletir sobre o ocorrido. Em muitos rostos pude reconhecer que eu não fôra o único a passar por uma experiência paranormal.  Quando nossos olhares de desconhecidos se cruzaram, era nítida a impressão de que conseguíamos traduzir nossos códigos de contactados nas pupilas. Operados, abduzidos ou o que quer que fosse, imediatamente suas vistas se desviavam da minha, por medo de serem descobertos, pelo medo do ridículo de se assumirem diferentes.  Era um segredo trocado por nossos olhares, que não poderia ser revelado.  Não era de bom tom perguntar por tais coisas a desconhecidos.  Meses depois, conversando com alguns mais próximos, certifiquei-me de que eu não havia sido o único – mesmo – a compartilhar tais experiências.  Certamente, aquela havia sido uma das noites mais estranhas em minha vida.  Uma madrugada para se refletir por anos.