COERÊNCIA.

Essa história que contarei agora ocorreu comigo há um tempinho. A guardei na gaveta durante um período, para que pudesse analisá-la com um certo distanciamento, até mesmo por que envolve pessoas que eu conheço.

 

X, um amigo de outro Estado, veio ao Rio para assistir a um show. Ele fez questão que eu fosse com ele e comprou o meu ingresso. Lhe disse que estava indo mais por causa dele, do que pelo show em si,  e pedi que ele não me “cobrasse” pelo presente.

– Mas você cresceu ouvindo essa banda!, ele me questionou.

Pois é meu amigo. Curti na época certa, com a cabeça adequada e agora preciso de novos desafios, novos sons, novas oportunidades. É muito comum termos um time de futebol  ou uma convicção política, mas coerência não quer dizer que você deva pensar igual durante toda a vida. Coerência é saber a hora de mudar e saber o porquê. O resto é patrulha ideológica!

 Rimos.

 Como X ia ficar alguns dias no Rio, saímos em algumas oportunidades. Em uma das noites, nas quais nos encontramos, perguntei se ele queria assistir a um filme em um cinema próximo. Estava caindo uma garoinha, ele não parecia ter gostado muito da ideia, havia discutido com a namorada pelo celular, mas fomos. Mal compramos nossos ingressos, vejo que ele retorna à bilheteria para falar com 3 meninas. E quando digo menina, é menina mesmo, entre 16 e 18 anos.

 – Você não vai acreditar, mas é a minha prima carioca e as amigas dela, ele me disse.

Mas ela gosta desse tipo de filme? Vocês combinaram algo?

Claro que não, ele respondeu com ênfase.

Naquele momento eu já sabia que o final de semana ia ser do “balacobaco!”

Nesse mesmo período, amigos de um outro Estado, me ligaram: estavam no Rio para assistir ao mesmo show. Fui encontrá-los na praia e durante nossa conversa me pediram para que eu contasse algumas histórias espirituais. Na inspiração, contei alguns “causos” e citei como o vício em cocaína, por parte de pessoas que eu amava, havia me deixado marcas.

 Então, o dia chegou.

 

Tentei ir ao show com X, mas ele estava em outro bairro e nos desencontramos. Acabei indo com os amigos que revi na praia. Tão logo os encontro, um deles bate um fileira de pó na minha frente e faz um pouco de troça comigo, passando rente ao meu nariz, um pacotinho rosa com cocaína. Não levei a mal, mas fiquei me questionando do porquê daquele gesto. Se eu havia aberto meu coração e contado como a droga havia me machucado, por que ele não me poupara dessa cena? Pensei que, de alguma forma, apesar dele saber que eu não apoiava, ele havia me incluído no rol dos “camaradas”: os seres de mente livre que entendem tudo.

 Por que ele não cheirou antes de me encontrar?, me questionei. Por que havia feito na minha frente? Afinal de contas, o que os olhos não veem, o coração não sente.

 Ou sente?

Deixei o assunto pra lá, não entendi como desrespeito, apenas como falta de noção mesmo. Se uma pessoa me dissesse que não gosta de álcool, eu não beberia na frente dela. Mas o mundo é livre, os valores de cada um são diferentes e de fato as pessoas só fazem o que querem. Enfim… o prazer nosso de cada dia está sempre acima de outras questões, tão “tolas” como respeitar um amigo. Fomos encontrar as outras pessoas que estavam na praia para irmos todos ao show.

 Adivinhem… surgiu uma bandeja, umas fileiras de pó e tudo aconteceu novamente.

Carlão é camarada!, comentaram.

E como se fosse a coisa mais normal do mundo, como um encontro social, uma festa entre amigos, bateram filas e filas na minha frente e um deles ainda quis falar comigo sobre espiritualidade.

 Aquilo tudo foi tão bizarro, que eu balancei por um instante entre os acompanhar até o show ou ir embora. Contei mil carneirinhos e fomos todos juntos. Fomos, mas eu já não estava muito legal. Como estávamos atrasados, mal entramos no local, as luzes se apagaram e o show começou. Mas minha mente não estava lá, nem meu corpo, eu não estava muito feliz após ter visto pessoas que eu conheço, curvando suas cabeças ao Deus da Cocaína. Falei pelo celular com meu amigo, que havia comprado o ingresso para mim, para nos encontrarmos, mas ele disse que havia fumado “um” e bebido várias latinhas de cerveja. Dei uma suspirada daquelas… Então, a bateria acabou, o celular ficou mudo e não consegui encontrá-lo na multidão. Dei mais uma boa suspirada (e não uma “aspirada”), assisti a uma música, duas, três… Na quinta canção, dei as costas e fui embora: estava de saco cheio de ter que me submeter a certas coisas para ter amigos, estava de saco cheio de estar ligado a algo que não me representava mais. Disse, Chega! Me senti como se a ficha tivesse caído com 2 horas de atraso, com 2 anos de atraso, com 2 mil anos de atraso.

 Quando deixei o estádio, tendo a música rebatida em forma de eco atrás de mim, não deixei apenas um show ou alguns amigos para trás. Deixei de ser babaca. Segui em frente pela avenida, com o coração batendo, não como se tivesse feito algo errado, mas como se tivesse partido uma corrente. Não quis voltar para casa, queria caminhar e pensar no que havia ocorrido. No meio do caminho passei em frente à uma fraternidade espiritualista que eu havia frequentado há 15 anos. Parei diante da porta do prédio e de fora vi algumas luzinhas acesas lá dentro, iluminando fracamente um par de imagens. Pensei em quanta coisa havia ocorrido comigo em 15 anos, muita coisa mesmo, eventos que afetaram minha vida de forma inexorável. Respirei fundo e senti minha alma leve, muito mais leve.

 

Quando cheguei em casa, talvez às 22h, decidi fazer compras no supermercado. E adoro supermercados quase vazios. Olhei no relógio: o show ainda não havia terminado. Percebi, de coração, que as “pequenas coisas” da vida, como desfrutar uma deliciosa fruta, me faziam muito mais feliz, do que assistir a um show, que não me dizia mais nada.

Lá no meu íntimo, eu sabia que eu deveria ter ido embora, tão logo eu vi a cena do pó ou tive o tal saquinho rosa passado rente ao meu nariz. Mas eu quis ver até onde ia a insanidade coletiva. Depois que vi, disse chega.

Não precisamos nos violentar para termos um trabalho, uma relação, uma ou várias amizades. As pessoas devem nos respeitar para que sejam respeitadas. As pessoas devem dar amor para serem amadas de verdade. E o amor é incondicional.

 Do pó viste, ao pó voltarás.

É tudo uma questão de coerência.

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O TEMPO NÃO PARA – Cazuza, Lucinha e a força nossa de cada dia.

“É a falta que nos impulsiona na vida. Estamos sempre querendo alguma coisa que não temos, por isso tentamos preencher os vazios. Também por isso sobrevivi.” Lucinha Araújo.

Cazuza e Lucinha.

Há várias formas de amar: a desprovida de cobranças, que liberta para ser liberto, e a mais frequente, que é o amor egoísta, possessivo. Nem sempre o amor é compreendido como um ato além do carnal. Pena. Mas é assim que a humanidade caminha desde a sua criação. Enfim, Errare humanum est. Como no amor e na vida, há exemplos edificantes, daqueles que suplantam toda dor e dificuldades com uma força interna invejável. O Brasil ainda é um país desprovido de pessoas inspiradoras que possam guiar, que indiquem caminhos, que sejam aceitos. Pode-se contar nos dedos. Elogiar é fácil, difícil é fazer, mudar a própria conduta.

Cazuza, que teria completado 53 anos em abril de 2011, é conhecido por ter sido vocalista do Barão Vermelho e por ter dado sequência, após a saída da banda, à uma belíssima carreira solo.  Ele também fez história ao tornar pública a sua doença em uma época com muito mais preconceito e desconhecimento.  Os comentários à época foram, como era de se esperar, jocosos, para dizer o mínimo: que como artista, ele usou a doença para se promover – ou para dar um tapa na cara da sociedade (a piscina cheia de ratos de ”O Tempo Não Para”). Também era comum ouvir que Cazuza possuía condições de se tratar, diferentemente da maioria da população, e que a sua doença era resultado de uma vida “promíscua”. A bem da verdade ou das meias verdades, o que importa é que Cazuza fez história, sempre com personalidade.

Para não morrer em vida, juntamente com o seu filho, Lucinha Araújo organizou um show para angariar fundos para associações que cuidassem de aidéticos, em 17 de outubro de 1990, sem imaginar que ela estava dando o primeiro passo para descobrir o próprio destino. Apesar de conhecer parte da história da fundação da Sociedade Viva Cazuza em 1991, – que cuida de crianças e bebês portadores de HIV positivo -, o que mais me impressionou no livro, apesar de saber que não seria diferente, é a dificuldade em implantar um projeto desses. As pedras no sapato foram depositadas por pessoas de ONGs, do governo, particulares, colaboradores e até mesmo médicos. Mas, os poucos e bons que estenderam os braços para apoiar Lucinha nessa jornada foram fundamentais para a continuação da obra. É o mesmo descaso que se vê no dia a dia, dentro dos ônibus nos quais jovens não dão o lugar a idosos e grávidas. Até parece que para fazer o mal é bem mais fácil e popular. E deve ser mesmo.

Conforme O TEMPO NÃO PARA – Viva Cazuza – Lucinha Araújo (depoimento a Christina Moreira da Costa  – 256 páginas – Editora Globo), a Sociedade Viva Cazuza vive, até hoje, de direitos autorais (a cada dia menores), eventos beneficentes, de doações de poucas pessoas e de convênios eventuais com órgãos públicos. E remando a favor do preconceito, há várias entidades do mal, inclusive colégios que não aceitaram as crianças ao perceberem que vinham da Sociedade (e nós, brasileiros, tão bonzinhos, só lembramos do caso dos nove estudantes negros  recebidos por uma multidão branca enfurecida no Alabama em 1957 ou de James Meredith, que em setembro de 1962,  tentou inscrever-se como o primeiro estudante negro na história da Universidade de Mississippi).

Os primeiros bebês a serem cuidados pela Sociedade são descritos, emotivamente, como os reais fundadores da obra, os palpáveis ventos dessa nova era de alegrias e dificuldades.  Marcel, entregue aos cuidados da Sociedade, veio com o nome “encomenda” em uma Kombi velha com faixa pintada do SUS (Ministério da Saúde). O outro, Newton, foi abandonado em um abrigo público. O pai, catador de lixo e a mãe moradora da Fazenda Modelo, para população de rua. Logo depois, chegaram Inês e Fernando, que se pareciam fisicamente, mas que não eram irmãos e o pequeno Marcelo de sete anos, levado pela tia que não podia – ou não queria – mais cuidar dele. No fim de 1994, a Sociedade contava com dez crianças que necessitavam de atenção constante, médica e psicológica.

“Piolho, sarnas, infecções, antirretrovirais, febre, dores de garganta, de ouvido.”

Em 1995, o inevitável ocorreu: a primeira perda. As crianças precisavam ser internadas em hospitais públicos: os particulares eram muito caros e os planos de saúde se recusavam a atender pacientes HIV positivos. E assim, foram internados Ana Clara e Marcelo. Clara reclamou que queria voltar para “casa” (a Sociedade Viva Cazuza) porque o hospital era sujo e havia uma barata em sua cama (que havia mesmo). Como ela estava pertinho do amiguinho Marcelo, os responsáveis pela Sociedade a transferiram para outro quarto, para que ela não visse a piora do companheirinho, o que veio a ocorrer logo: Marcelinho se foi em 12 de março de 1995. O saldo positivo é que mais de setenta crianças passaram pela casa: algumas permaneceram, outras foram adotadas, outras reintegradas às famílias e umas transferidas para abrigos.

Em 2002, Lucinha descobre que tem câncer de mama e em 2008, implanta um marca-passo. A guerra não para, assim como o tempo e a guerreira não pode parar. Ela não pode deixar a piscina cheia de ratos.

Por fim, transcrevo uma última declaração de Lucinha, prova de que o amor supera barreiras, inclusive físicas: “Outro dia, acordei no meio da noite e vi Cazuza, ali ao pé da cama. Olhei para ele várias vezes, abri e fechei os olhos para ter certeza, e  aos poucos, seu rosto foi mudando – estava mais velho com barba. Depois, olhei de novo e vi uma mulher, já idosa, que deitava a cabeça em seu ombro. Quis acordar João (o marido), mas não ousei. Reconheci minha mãe e gostei de saber que ela está com Cazuza.”

Amém, Lucinha.