A Sincronicidade dos Deuses Astronautas

 

No dia 9 de agosto, desci às 17h para meditar na igrejinha do bairro. A energia estava razoável e depois saí. Na escadaria da igreja, encontrei um palito de picolé de plástico laranja, com ranhuras para serem encaixados uns nos outros. Não sei se isso voltou a ser moda agora, mas certamente não era o mesmo palito que eu juntava nos anos 70, certamente não.

Com o palito na palma da mão, minha infância retornou à vida em questão de segundos, fragmentos de uma memória perdida se refizeram, não visuais mas sentimentais. Recordei que juntei  vários desses para montar várias coisas, dar asas à imaginação. Me perguntei  o que isso significava, pois procuro significados em quase tudo e quase sempre há um, sem exagero.

Ações externas estão ligadas às internas. Sempre.

Talvez o palito mágico estivesse me dizendo que eu deveria “voltar ao ponto de partida”, e isso para mim significa pureza, o ato puro de me libertar das pedras carregadas nas costas que atrasam o caminhar, a simbologia que me faz crer que é necessário abrir mão de quase tudo o que é desnecessário, para que a pureza e o amor pela vida possam reinar, sem traumas ou escândalos.

Só de acreditar nessa inspiração, várias ideias afloraram: projetos pessoais e profissionais, todos ligados em uma corrente do bem que soma alta estima, paciência, trabalho constante, objetivo, foco etc. Todos os meus sonhos são puros como a água mais fluídica, pois eu não busco nada que possa prejudicar quem quer que seja, eu me interesso em ter o meu espaço, e poder trabalhar livremente, e ser recompensado por isso dignamente. Não busco poder, sexo, fama ou status. Celebro o amor à vida e aos estudos sem vícios ou objetivos obscuros. Por isso me considero puro.

Já na rua, e inspirado, pensei que deveria seguir em direção à outra igreja, distante a uns 30 minutos a pé. Cheguei na missa das 18h, a igreja estava apinhada. Sentei, meditei e senti a vibração bombando, poderosa. É um negócio tão louco (e gostoso) que nesse estado de catarse, a sua mente dialoga livremente em um ambiente fluídico, onde nitidamente o “cliente” se desliga dos pensamentos mundanos do dia-a-dia (e inclusive de quem está sentado ao seu lado) para refletir sobre o que é realmente útil para sermos felizes. Nesse estado, uma assistente do padre começou a recitar um trecho do Profeta Ezequiel que relata o seu encontro com Deus:

(1,4) – Eu olhei: havia um vento tempestuoso que soprava do norte, uma grande nuvem e um fogo chamejante; em torno de uma grande claridade e no centro algo que parecia electro, no meio do fogo. (1,5) No centro, algo com a forma semelhante a quatro animais, mas cuja aparência fazia lembrar uma forma humana. (1,6) Cada qual tinha quatro faces e quatro asas.

(1,22) Sobre as cabeças do animal havia algo que parecia uma abóbada, brilhante como o cristal, estendido sobre suas cabeças, por cima delas. (1,24) Eu ouvia o ruído de suas asas, semelhante ao ruído de grandes águas, semelhante à voz de Shaddai; quando se moviam, havia um ruído como de uma tempestade, como de um acampamento; quando paravam, abaixavam as asas. (1,25) Houve um ruído. (1,26) Por cima da abóbada que ficava sobre suas cabeças havia algo que tinha a aparência de uma pedra de safira em forma de trono, e sobre esta forma de trono, bem no alto, havia um ser com aparência humana.

Ezequiel

De acordo com a Bíblia hebraica, Ezequiel (tradução: “Deus fortalecerá”, ou “Deus”), foi um sacerdote que profetizou por 22 anos durante o século VI a.C., através de visões que teve durante o exílio da Babilônia, tal como registrado no Livro de Ezequiel (wikipedia).

 

Mesmo em meu estado alterado, uma alegria imensa preencheu minha alma, por causa de uma “coincidência”: eu ouvi esse mesmo texto lido na igreja, sem que eu tivesse dado muita atenção,  em um documentário na TV, no dia 8 de agosto de 2010, ou seja no dia anterior. O programa televisivo era sobre um livro que li na adolescência: “Eram os Deuses Astronautas?”, escrito em 1968 pelo suíço Erich von Däniken, que apregoava que todos os deuses da antiguidade eram alienígenas.

Saí de lá, como o mais feliz dos felizes, não sei se por causa da sincronicidade dessa passagem da Bíblia, que reforçava imagens contraditórias, lúdicas e lógicas, ou porque quando me deparo com as sincronicidades me sinto abençoado. E olha, que esse sentimento não é uma alegria de quem comemora um gol, ou de quem ganhou o primeiro beijo da mulher amada, mas é uma confraternização entre você com o seu ser interno e o mundo sincronizado. É uma sensação bonita demais, mais do que de conforto, é uma completa realização prenhe de entendimento. Essa sincronicidade dos Deuses Astronautas me ligou às estrelas, aos mundos paralelos, aos monumentos influenciados por esses seres, feitos por culturas antiquíssimas, e me tirou dos meus problemas mundanos de 2010, me projetando para 8 mil anos antes de Cristo e para o futuro em galáxias distante a milhões de anos luz.

Havia esquecido do palito, mas ao lembrar que ele estava comigo, o ergui como se fosse a minha espada cerimonial, como se mil raios saltassem das nuvens para unirem-se em um único foco, me dando moral e energia inexplicáveis. Se não fosse pelo palito eu não teria ido à igreja para vivenciar essa sincronicidade mágica.

Caminhei em direção à praia, que é bem perto dessa igreja. Me diriji às estátuas de Dorival Caymmi e Carlos Drummond no início do calçadão na praia de Copacabana para cumprir o meu ritual de praxe: pedir a benção aos mestres da música e da literatura, para abençoarem o meu caminhar e minhas decisões. Então lembrei de mais uma: entre sábado e domingo assisti no canal Globo News a um documentário sobre Drummond e também ao programa Sarau, de música brasileira , que “por acaso” foi sobre Caymmi.  Claro que os assisti sem ter programado nada, a TV estava ligada e os programas passaram.

E para minha surpresa na quarta, dia 10 de agosto, foi publicada uma portaria no Diário Oficial da União, que orienta pilotos civis e militares, controladores e demais usuários dos serviços de controle de tráfego aéreo nacional a repassar ao Comando de Defesa Aeroespacial, em Brasília, seus relatos e provas documentais a respeito dos óvnis e demais aparições extraterrestres.

A Portaria 551/GC3, com data de 9 de agosto, ressalva que caberá à Força Aérea apenas registrar os relatos, em formulário próprio.

Ezequiel Clássico

Essa é a passagem inicial do encontro de Ezequiel com Deus:

A visão da glória de Deus

1 No trigésimo ano, no dia cinco do quarto mês, encontrava-me eu entre os exilados, junto ao rio Cobar, quando os céus se abriram e contemplei visões divinas.

2 No dia cinco do mês (era o quinto ano do exílio do rei Joiaquin)

3 a palavra do SENHOR foi dirigida a Ezequiel filho do sacerdote Buzi, na terra dos caldeus, junto ao rio Cobar. – Foi ali que a mão do SENHOR esteve sobre mim,

4 e eu vi que um vento impetuoso vinha do norte, uma grande nuvem envolta em claridade e relâmpagos, no meio da qual brilhava algo como se fosse ouro brilhante.

5 No centro aparecia a forma de quatro seres vivos. Este era seu aspecto: Tinham forma humana.

6 Cada um apresentava quatro faces e tinha quatro asas.

7 Quanto às pernas, tinham pernas retas e patas como as de bezerro; reluziam como o brilho do bronze polido.

8 Por baixo das asas tinham mãos humanas nos quatro lados, pois todos os quatro tinham rosto e asas.

9 As asas tocavam-se umas nas outras. Ao se moverem não se voltavam, mas cada um seguia para onde estava voltado o seu rosto.

10 Quanto à forma das faces, tinham rosto humano, rosto de leão do lado direito de cada um dos quatro, rosto de touro do lado esquerdo de cada um dos quatro, e rosto de águia cada um dos quatro.

11 Cada um tinha duas asas estendidas por cima, que se tocavam umas nas outras, e duas asas que cobriam o corpo.

12 Cada um caminhava para sua frente, para onde o vento os impelia, sem se voltar enquanto se movia.

13 No meio dos seres vivos aparecia algo como brasas; pareciam tochas acesas, faiscando entre os seres vivos. O fogo cintilava, e do meio do fogo saíam relâmpagos.

14 Os seres vivos coriscavam, parecendo raios.

15 Olhei para os seres vivos e vi que havia uma roda no chão, junto a cada um dos quatro seres vivos.

16 Quanto à forma e ao feitio, as rodas eram como o brilho do crisólito. Todas as quatro tinham o mesmo formato. Quanto à forma e ao feitio, eram como se uma roda estivesse no meio da outra.

17 Quando se moviam, podiam avançar em cada uma das quatro direções, sem se voltarem enquanto se moviam.

18 As rodas tinham aros, e eu vi que cada um dos quatro aros estava cheio de olhos ao redor.

19 Quando os seres vivos se movimentavam, moviam-se também as rodas ao lado deles. Quando os seres vivos se elevavam do chão, também as rodas se levantavam.

20 Iam para onde o vento os impelia. As rodas elevavam-se

junto com eles, pois o espírito dos seres vivos estava nas rodas.

21 As rodas moviam-se quando os seres vivos se moviam, paravam quando eles paravam e, quando se elevavam do chão, juntamente com eles elevavam-se as rodas, pois nelas estava o espírito dos seres vivos.

22 Acima das cabeças dos seres vivos havia uma espécie de firmamento, esplêndido como cristal, estendido sobre as cabeças.

23 Por baixo do firmamento estavam as asas estendidas, uma em direção à outra, sendo que duas delas lhes cobriam o corpo de um e de outro lado.

24 E eu ouvi o rumor das asas: Era como o rumor de muitas águas, como a voz do Poderoso; quando se moviam, seu ruído era como o estrépito de um acampamento militar. Quando paravam, abaixavam as asas.

25 Pois quando o ruído vinha de cima do firmamento que estava sobre as cabeças deles, eles paravam e abaixavam as asas.

26 Acima do firmamento que estava sobre as cabeças havia algo parecido com safira, em forma de trono, e sobre esta forma de trono, bem no alto, uma figura com aparência humana.

27 E eu vi como que um brilho de ouro brilhante, envolvendo-a como se fosse fogo, do lado de cima do que parecia ser a cintura. Do lado de baixo do que parecia ser a cintura vi algo como fogo. Estava toda envolta de resplendor.

28 O resplendor que a envolvia tinha o mesmo aspecto do arco-íris que se forma nas nuvens em dia de chuva. Tal era a aparência visível da glória do SENHOR. Ao ver isto, caí prostrado e ouvi a voz de alguém que falava.

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Viver

Escrevi esse texto para uma amiga essa semana.

“A busca pelo equilíbrio é a nossa meta, inclusive por causa da nossa própria química, seja material, seja espiritual. Todas as lendas, mitologias falam sobre a busca da unicidade, a necessidade de somar forças. A ligação nos reforça, nos dá a unidade, a centralidade e a realidade.
É um processo que não é fácil, mas cada um desenvolve suas percepções. Não há verdade absoluta, há caminhos e percepções.

A dificuldade de se viver em sociedade é porque somos uma incógnita gigantesca.
Eu mesmo não sou a pessoa de antes, não me reconheço a cada ano, e gosto muito de mudar, pelos motivos certos, a busca da compreensão, e não mudar por modismos ou fraquezas. Cada mudança interna é vivida como a redescoberta do Graal.

Dê tempo a você, descanse mais, passeie mais, leia mais, ande mais, respire mais, NÃO PENSE DEMAIS, viva e que os deuses do destino te abençõem. Mas seja a verdade, nunca minta para você pois assim não será possível ser livre. O preço que todos pagamos pelo o que quer que seja, só vale  a pena ser pago se compreendemos quem somos.

A gente entende que o que se perde, seja um amor ou uma oportunidade não é nossa e essa compreensão afasta a tristeza, a mágoa e a ansiedade.”

A SINC DO ANIVERSÁRIO

 

Posso contar qualquer história, com maior ou menor intensidade, posso contá-las todas, sobre esse mundo e sobre os outros, mas a verdade é que nem sempre há inspiração para tanto.

Mas não posso reclamar, pois bem conheço as minhas fases, mais e menos inspiradas. E graças a Deus estou grávido de ideias, mas não farto delas.

Por que começar o texto assim ao invés de ir direto aos finalmentes?

Engraçado… Mas não é isso o que todAs querem: as preliminares?

Minha amiga Garça

 

Contei na postagem anterior que a minha mãe faz aniversário de desencarne hoje, exatamente quando decidi dar início à uma página sobre essa coluna no Facebook. Ela só tem quatro aninhos hoje. Estou feliz por ela ter se libertado das amarras do corpo físico e por estar tão novinha. Oxalá.

Já estava muito satisfeito por ter postado o texto anterior e pensei: “Agora só vou pegar no blog daqui a uns dez dias.”

Lêdo “Ivo” Engano.

Por mais que inventasse a mais inventada história do mundo não conseguiria inventar o que vou contar.

Mas antes de prosseguir, por favor preciso dar os parabéns à mamãe, a meia-noite chegou.

“Te amo mãe, feliz quatro anos! Obrigado por tudo.”

… (intervalo para engolir seco)

Vamos em frente.

 

Meia Noite.

Ontem, há uma hora atrás, às 23h estava assistindo ao episódio dessa ótima série sobre jovens atores chamada “Clandestinos” da Globo.  A história de hoje era sobre uma jovem de Olinda que vem ao Rio tentar a carreira artística e que para pagar as contas, tem que trabalhar em um restaurante português.

Minha mãe, que faz anos hoje, repito, é de Olinda e meu pai, filho de portugueses. Voilá. O instinto aguçou.

Mais uma curiosidade: um velho amigo de Manaus, que não via há uns 15 anos, decidiu “sem saber porquê” vir ao Rio. No último dia de sua breve estadia na cidade, decidimos almoçar em frente ao Theatro Municipal reformado, lindo como ele só, em um sábado se não me engano. Raramente vou à Cinelândia, no centro do Rio de Janeiro, mas quis mostrar-lhe o Municipal com seus detalhes dourados lindíssimos e sua águia majestosa sob o sol. O filho do garçom que nos atendeu tinha trabalhado ou feito um curso, desses na selva, em Manaus.

 

A Águia

Sentados à mesa, vimos que havia uma pequena confusão na rua do restaurante,  em frente a um cinema pornô. Parecia que estavam filmando algo, pois dava para ver que os jovens que fechavam a rua estavam caracterizados de jovens. Eram jovens cenográficos. E ao ver o “Clandestinos” na TV, lembrei que a filmagem que vimos, era desse seriado, que estaria vendo, no aniversário da mamãe, meses depois.

O outro personagem do episódio era um menino baiano, e como todo baiano é encantado. Tenho poucos amigos, não sou de multidões, friso. Há um mês dei início a uma boa amizade com uma alma genuinamente baiana, filho da terra, um jornalista pensador , mas não nos conhecíamos pessoalmente, só virtualmente.  Em uma segunda-feira à noite,  decidimos assistir a um filme, pois um outro amigo havia “posto uma pilha”. O bom baiano até tentou fugir, mas insisti, apesar da garoinha chata. Logo na fila da entrada, um grupo de três meninas reclamava por não conseguir entrar pois não tinham idade para assistir ao filme. Por mais esdrúxulo que pareça, uma das meninas era a sobrinha carioca do novo amigo baiano e é claro que não tínhamos combinado nada com as moçoilas.

O filme era sobre uma banda de rock, cujo personagem principal foi interpretado por Kristen Stewart, a atriz do filme Crepúsculo. Por acaso, na semana passada, ela esteve no Rio de Janeiro filmando.

Coincidências?

Logo após o “Clandestinos”, estreou o seriado “Afinal, O Que Querem As Mulheres?” à meia noite em ponto.  Vejo a portaria do prédio do personagem , que mesmo de relance, e sob uma chuva cenográfica, soube qual era: a mesma em frente ao estúdio em Copacabana onde gravei o meu último trabalho. Esse estúdio, que estava fechado, reabriu após alguns anos para gravarmos o disco. Um dia antes da gravação, para espairecer, vi em casa o filme “A Mulher Invisível”, cujo personagem principal morava no mesmo prédio do personagem do seriado da Globo.

Um amigo de Buenos Aires me ligou na época da gravação para dizer que estava no Rio em um hotel em frente ao estúdio (ele não sabia que estávamos gravando e nem onde) e o baixista da banda, que nunca tinha saído do país, estava em… Buenos Aires.

E por último, pelo menos por enquanto:  o seriado “Afinal…” foi escrito por um ex-aluno meu.

Só rindo, mesmo.

Obs: toda sincronicidade se desmembra, se desdobra, se expande. Apesar de não ter relatado, pelo menos por enquanto, cada ação ocorrida hoje está ligada a fatos transcorridos há décadas que neste momento, nos estão conectando a fatos futuros, que se desdobrarão em muitos outros, ligados ao ontem de hoje.

E o que isso quer dizer?

QUE NÃO HÁ NADA A TEMER.

CONFIE.


“Que me deixem passar – eis o que peço
diante da porta ou diante do caminho.
E que ninguém me siga na passagem.
Não tenho companheiros de viagem
nem quero que ninguém fique ao meu lado.
Para passar, exijo estar sozinho,
somente de mim mesmo acompanhado.
Mas caso me proíbam de passar
por ser eu diferente ou indesejado
mesmo assim passarei.
Inventarei a porta e o caminho.
E passarei sozinho”.

(A Passagem – Lêdo Ivo)

A Sinc da CHUVA

 

Hoje, quando iniciei a página da nossa Sincronicidade Mágica no Facebook, por “acaso” percebi que minha mãe deixara de ser carne há 4 anos. Para ser sincero, não lembrava mais do dia exato, só do mês e do ano. Devo ter apagado isso da minha cabeça para não pesar demais. Viver é dosar alegria e tristeza, alienação e consciência, e sair ganhando com tudo isso. Durante a feitura da página no Facebook, reparei que chovia. Sorri. Não era uma chuva torrencial, pesada: era um chover manso, de limpeza, que me fez bem, como um carinho de mãe. Me senti no rumo certo, fazendo a coisa certa. Não me senti rodando em círculos ou perdendo tempo. A chuva me regulava e media o tempo, o fluxo fluía em paz.

Grande parte do processo de autoconhecimento nasce de observações e uma delas se refere à chuva.

Um dia, nem sei como, quando ou porquê, reparei que quando algo importante ocorria comigo, chovia. Às vezes era uma chuva esfuziante, que quase dava vontade de rir, em outras situações ela referendava algo, para ser feito e em algumas, ela dizia: “Não faça!” com ímpeto de tempestade. Na dúvida, necessitando de uma resposta, dependendo da intensidade da chuva, eu tomava a decisão. Não lembro de ter reparado nisso antes, mas assim que percebi a conecção, me senti  tão vivo, que o meu coração se encheu de amor.  Como tudo na vida, há dias alegres e tristes, mas os julgamentos são exclusivamente nossos, eles são o que são, e medem o nosso equilíbrio entre o mundo interno e o externo. Podemos nos enganar como seres humanos, com julgamentos parciais, mas a chuva traz a certeza do envolvimento milimétrico, sincronístico com o todo. Se o planeta é 70% de água, assim como nós, a chuva não poderia ser nada mais do que a nossa grande interlocutora.

Todas as formas de vida vieram da água.

As sincronicidades comportam avisos, muitos sobre fatos que não queremos ver ou que não estamos preparados para enfrentar (apesar que se diz que Deus só dá a carga a quem possa carregá-la): momentos de espera, momentos de aceleração. A sincronicidade não é uma porta de entrada: é a porta de chegada para o encontro. O que ela nos traz é inevitável, já é, e vai ter que ser, com dor ou sem dor… então, melhor sem dor, não é?

 

Chove Chuva

Chove Chuva

Tenho feito um trabalho de desapego há alguns anos e cada vez mais tenho me desconectado das personas que pensei ser. Tudo não passava de ilusão, jogos mentais… As coisas que eu acreditava, o que eu falava, muitas chegaram até os dias atuais, outras se perderam porque não tinham força para se locomover. Mas não vejo nada disso, como uma “perda”. Nunca há perda, nunca há derrota, não existem ganhadores e perdedores, existem os que sabem conviver com as situações. Quando me revejo há vinte, dez anos, é como se tivesse vivido 100 anos. Muito do que ainda faço e sinto é um vício, advindo de um hábito, de uma educação torta, de um costume, mas desde pequeno eu sempre quis saber o por quê. Eu não aceitava o “é e acabou”, como muitas vezes ouvi. Eu queria saber e me sentia no direito curioso de perguntar. Mas a explicação não poderia ser só racional, precisava somar o racional e o irracional. Parece coisa demais para uma criança, mas era assim que eu era. Adultos tratam crianças como seres incapazes de sentir, mas é exatamente nesse período que formamos o nosso caráter. Os adultos deveriam ter mais cuidado ao brigarem na frente dos filhos. Você não imagina o que pode ocorrer na mente das crianças mais sensíveis. Nunca respeitei opiniões impostas, ordens sem coerência e desde cedo aprendi a duvidar. Para muitos, o VER, o APALPAR é a única coisa real. Para mim até o VER não vale nada, se não vier junto do conteúdo. Aparências não deveriam enganar ninguém, mas enganam.

 

Para falar sobre essa relação com a chuva é preciso ter muita confiança, pois é fácil ser julgado, como se eu estivesse inventando algo. Provavelmente se o leitor chegou até essa linha, é porque QUER acreditar. Mas esse é um passo inicial, é como aprender a andar. Tudo o que você precisa é SER. Não há aulas para isso, nem palavras definitivas, só posso repartir a experiência e ansiar para que todos compreendam e possam vivê-la. A relação que tenho com o fenômeno é tão pura, tão encantada, que não há nada que eu precise provar, nem para mim. A experiência não experimenta, ela É. Como escrevi antes, eu só sei dar amor e amo do fundo do meu coração. O céu reparte lágrimas de alegria e tristeza comigo, comunga em sua totalidade. Eu me sinto tão bem, que não há temor que possa me afligir.

Não me sinto só NUNCA, nada se perde à distância, não há falhas, só a certeza de que a chuva é o elo que une céu e terra, elo que não foi esquecido na bruma dos tempos e nem se desfez sob a bota do descrédito e do medo humano. Se damos as costas ao nosso íntimo, nos perdemos do todo. O que está dentro, está fora, sincronizado.

 

Chove Chuva (Jorge Ben Jor)

Chove Chuva
Chove sem parar.
Pois eu vou fazer uma prece
Prá Deus, nosso Senhor
Prá chuva parar
De molhar o meu divino amor.
Que é muito lindo
É mais que o infinito
É puro e belo
Inocente como a flor.
Por favor, chuva ruim
Não molhe mais
O meu amor assim.

 

Rain (Lennon / McCartney)

If the rain comes they run and hide their heads.
They might as well be dead,
If the rain comes, if the rain comes.
When the sun shines they slip into the shade,
And sip their lemonade,
When the sun shines, when the sun shines.
Rain, I don’t mind,
Shine, the weather’s fine.
I can show you that when it starts to rain,
Everything’s the same,
I can show you, I can show you.
Rain, I don’t mind,
Shine, the weather’s fine.
Can you hear me that when it rains and shines,
It’s just a state of mind,
Can you hear me, can you hear me?

 

A Angústia

 

Jean-Paul Sartre disse que “o homem é Angústia”em razão da responsabilidade das suas escolhas. No livro “A Idade da Razão” o filósofo afirma que a maior das liberdades é não ter o que escolher, “Não tenho escolha, por isso mesmo é que eu sou livre”.

Assinei um jornal que chegava todos os dias em casa religiosamente, mas depois de alguns anos, nunca mais encontrei tempo para lê-los. Os dias passavam e o bolo de papel só fazia crescer. Criei o hábito de tirar um dia a cada 15 para lê-los na carreira. Daí vocês imaginam a consequência: em seguida, como não encontrava mais tempo em 15 dias, comecei a lê-los uma vez por mês. Era uma situação tão bizarra, que me causava angústia. Eu me achava na obrigação de lê-los porque havia pago por eles, mas antes de começar a leitura, o coração já estava a mil, palpitando. Pensei, isso é ridículo. Fiz as perguntas básicas: Preciso ler jornal? Preciso mesmo saber de tudo? Quem é mais importante: eu ou o jornal?

Mathieu e Marcelle

Depois de obter as mesmas respostas, cortei o elo e a assinatura se foi junto. Me ligaram mil vezes perguntando o porquê do cancelamento e uma das vendedoras chegou a me agredir. Foi uma loucura.  Cortei o jornal e o hábito se foi, como se nunca tivesse existido. Hoje raramente leio jornal na internet, não consegui me adaptar, acho muito pesado. Em papel descia bem, mas na tela é péssimo, prefiro blogs específicos. Nem sei mais que show está acontecendo, que artista está de passagem pelo Brasil, que filme estreou, etc. Hoje, não busco nada, sei que o que me interessa, o que é importante para mim, me encontrará. Assisto quase todos os dias aos noticiários na TV e dou muitas risadas ao ver como tentam nos controlar com meias verdades e obviedades “aborrecentes”.

 

Mãos Atadas? Por quem?

Ficou claro que não podemos fazer mais do que nos é permitido pelo bolso, pela mente e pelo corpo. É bacana querer mais, mas de uma forma saudável. Projetar uma vida futura com mais dinheiro e tempo é muito bacana, mas é melhor começar do início, ou seja: primeiro se liberte do lixo excedente. Não estou chamando jornal de lixo, muito pelo contrário, eu amo estudar, mas até mesmo para dormir se precisa de tempo, então não precisaríamos de tempo para ler e de tempo para sermos felizes? Por que nunca sobra tempo para ler um bom livro e absorvê-lo na íntegra com dedicação e determinação? Porque na lista de prioridades o livro, a cultura, o aprendizado estão lá embaixo. Um amigo me perguntou certa vez: “Por que você estuda tanto? Isso era para o começo da sua vida, para a fase do aprendizado.”

Como em um romance, as duas vias precisam interagir e caminhar juntas e para isso é necessário tecer acordos. Há que saber negociar, não impor, como também é fundamental ter respeito. Não dá só para acreditar que amigos são aqueles que nunca discutem, que sempre concordam, que só são felicidade.

Você já se perguntou por que ninguém posta fotos tristes no facebook? Por que só aparecemos alegres e cercados de gente feliz?  Porque, no íntimo, por mais que busquemos a felicidade interna, só ansiamos pela ilusão das imagens externas. Não importa o que está dentro de nós, mas o que nós aparentamos. O externo se impõe sobre o interno, pois ninguém quer ficar perto de “perdedores” e “deprimidos” e sendo assim, é mister forçar a barra da alegria, que é facilmente associada ao sucesso, à realização.  E para alimentar o mundo externo da alegria exuberante há o riso farto, a cocaína, o álcool em excesso e o sexo desregrado, sempre compartilhados.

E por que usar desses expedientes tão simplórios para fingir uma coisa que não se é? Por causa da angústia, da falta de coragem de encarar o mundo.

Não era o jornal que me sufocava, mas eu mesmo. Para cortar o elo, só tive que me readaptar, o que implicou em ter que abrir mão de algo, nesse caso de uma assinatura de jornal.

A angústia acabou porque eu fui o senhor do meu destino, porque eu SOU o senhor do meu destino.

A Sincronicidade da Maçã (da Sincronicidade ao Insight)

 

A maçã, que simboliza a transgressão praticada por Adão e Eva no Jardim do Éden, também está ligada ao simbolismo da árvore, o eixo do mundo. As raízes da arbor inversa (árvore inversa) estão no céu, sendo Cristo o mais belo fruto enviado pelo céu à terra, representada por Maria. Na mitologia céltica, essa fruta simboliza a magia, a imortalidade e o conhecimento. Para o povo da Idade Média, a maçã possibilitava o acesso dos indivíduos à Ilha dos bem-aventurados. Já segundo a Igreja católica, somente depois da morte e da passagem pelo purgatório, os indivíduos purificados podem aspirar à felicidade eterna.

Eva, a companheira de Adão, ouviu os conselhos sussurrantes da serpente e passou a cantilena adiante. Alguns interpretam Eva como uma inocente útil, outros como uma dissimulada, que empregou o seu poder de persuasão para convencer a sua metade, para desvirtuar a sua consciência, iludindo-a com bonitas palavras.

Conscientemente ou não, todos são culpados: Adão por se deixar seduzir e Eva por encarnar o pecado.

Em latim as palavras mal e maçã, malum, são escritas da mesma forma. A maçã simboliza o pecado original, já o pão (corpo de Cristo), a redenção. A Virgem é considerada a segunda Eva, redimindo o pecado da primeira.

Adão, Eva, Maçã, Serpente, Árvore

A alegoria bíblica da mordida na maçã mostra que a raça humana optou por refazer o caminho – já feito – à luz. Adão e Eva simbolizam a inocência e o egoísmo das crianças, que dão as costas ao paraíso. Esse é o princípio do livre-arbítrio, algo que poucos falam: o princípio do egoísmo. A escolha pela maçã, pela liberdade, é também a opção pelo “erro”, falando rasteiramente, e pelo mal, que hoje assume várias formas dissimuladas e superficiais.

O mal tem muitas faces, tão delicadas e singelas como o bem. Se muitos odeiam em silêncio, por que parece ser tão difícil amar em paz? Aprendi a aceitar que certas coisas só podem ser modificadas com o tempo, que não posso convencer ninguém que não queira ser convencido, sei que muitas verdades não podem ser compartilhadas… Enfim, aprendi a aprender, não a prender, a não apreender.

Quando algo vai “mal” comigo, quando não consigo compreender com clareza porque ocorrem certas coisas, paro de pensar. E a reza me ajuda muito, pois basta começar a rezar em um local no qual possa expandir minha consciência, que tudo fica mais sereno e fácil de entender. É como se um peso saísse das minhas costas, tudo fica muito mais leve. Sou tomado por uma serenidade inexplicável, quase dopante, na qual minha mente entende tudo, sem julgamentos, em um local no qual posso conversar sem amarras e trocar ideias com o invisível. E geralmente o conselho é o mesmo: equilibre e prossiga. Alguns podem achar que eu rezo demais, mas cá entre nós, é melhor rezar do que amaldiçoar, é bem melhor rezar do que fofocar e é maravilhoso rezar ao invés de perder o seu tempo praticando o mal. É bem mais fácil assistir TV, todos sabemos, mas tudo é questão de prática. Se os jornais parassem de publicar notícias ruins, nós pararíamos de comprá-los, simplesmente porque as notícias ruins somos nós. Elas existem porque nós existimos. Nós somos atraídos pelo mal, que age como um imã e está em todos os lugares, no seu local de trabalho, na sua família, em você mesmo.

 

Por dentro tá que tá, mas como ninguém vê...

Quando há a necessidade de depurarmos uma história pregressa ou de depurar a nós mesmos, a dor ou a queda nunca estão descartadas. E só dói porque somos apegados, inclusive porque a sociedade, esse grande ser metamorfo, nos cobra uma atitude “social”, um procedimento de aparências. Para se tecer uma rede harmoniosa é necessário esclarecer as regras do jogo antes de jogarmos, é necessário expôr as coisas claramente sem altercações, sem alterações e certamente negociar. Se cada um de nós, não souber aceitar o pedido do outro, se considerarmos que todo pedido é uma ofensa, aí o negócio fica feio. E o mal está associado à palavra liberdade.

Quando os mais próximos me contam os seus problemas, de cara dá para perceber que a maioria só sabe culpar os outros e que não está pronta para abrir mão dos seus temores, de suas “liberdades” e principalmente dos seus prazeres. O mundo funciona em um equilíbrio no qual reina uma alternância de poder: se há sol, há chuva; se há noite, há dia; se há dias péssimos, há dias maravilhosos, mas nós não parecemos prontos para parar de ter prazer um dia sequer ou pelo menos, de intercalar as estações dos nossos prazeres. E quando falo em prazer, não falo em sexo apenas, mas em fumar um cigarrinho, em nunca elogiar, em nunca deixar de “pular o muro” para não perder oportunidades, em ser um tremendo egoísta puxa-saco, em criar fantasias que não existem, etc, etc e etc. Não dá para a gente estar certo o tempo inteiro, mas dá para se manter uma certa coerência, moldada pelos seus valores. Isso é, se você realmente compreende o que é ter valores. A grandeza dos atos não está na exibição, está na ação engendrada silenciosamente e os valores nunca são entes externos, eles se manifestam no dia-a-dia, em situações corriqueiras.

O lugar comum prega que toda sincronicidade é boa e só traz o bem. Isso é uma meia verdade. É verdade quando se diz que toda sincronicidade só traz o bem, mas a assertiva é falsa quando alardeia que todo bem é idôneo.  A sincronicidade te dá um toque, te empurra pra frente e te aconselha a encarar o desafio, isso ela faz bem. Agora, se você vai gostar de encarar a medusa, aí já são outros 500. A maçã pode ser linda externamente,  mas pode estar podre por dentro, envenenada com a mordida da cobra, com o toque da dúvida, da sugestão, da ilusão.

à espreita

Há um pensamento associado aos traficantes que diz: “Melhor reinar durante algum tempo do que ser escravo a vida inteira.” Agora altere a frase para: “Prefiro reinar no Inferno do que ser servo no céu.” Algo estranho? Pois é… tanto faz. Seja traficante, diabo ou um grande empresário, a mentalidade é a mesma: a pessoa que se hiper valoriza, que não aceita ser contrariada, que não vê os outros igualmente, que despreza o diferente e que só gosta de quem foi moldado à sua imagem e semelhança não depende de educação ou estudo.

O  anjo caído, aquele mesmo que rompeu com Deus, lutou contra quem ele considerava “tutelador”, para ser livre. A palavra liberdade pode significar muitas coisas, algumas bem estranhas. Então se liberdade é o desejo da maioria, por que há tanta demonização do anjo rebelde? Ninguém aqui está propondo que não podemos ser bonitos, nos vestir bem, comer bem, e nem amar bem, mas não se deve confundir alhos com bugalhos. A questão é simples: basta refletir e julgar o que é importante em sua vida e decidir. E as escolhas estão sempre ligadas a valores. Nesse caso, não dá mesmo para acender uma vela para Deus e outra para o diabo.

A alegoria da maçã sempre me remete ao casal, e nem tanto ao pecado, mesmo com todo o peso que a palavra carrega. Não acredito em pecado, que é a ação, porque quem o pratica, o agente, é acima de tudo um inconsciente, não exatamente um “pecador”, mas um ignorante que acredita no próprio egoísmo e não se sente culpado por isso.

A imagem do casal simboliza a união dos extremos, a não dualidade, o compromisso e a cumplicidade, a coesão que harmoniza, ou seja o ser uno que alavanca o poder das grandes sincronicidades. Mas o entendimento do significado da coesão não pode ser imposto a quem quer que seja porque não funciona. É como a palavra que se dá, mas que não se cumpre com milhares de desculpas. Toda desculpa parece ser boa o bastante para explicar a impossibilidade de cumprir a palavra empenhada.

Vivi histórias de família e de relacionamentos que me fizeram sofrer bastante, pessoas amadas que decidiram morder a maçã, mesmo sabendo que trariam sofrimento a todos, e posso afirmar que não deram a mínima. E não adiantava falar, eram palavras soltas ao vento. Só aprendemos essa dura lição na pele e se quer saber, dói e muito. E quem pode te ferir é exatamente quem mais você ama, porque está próximo. Essas pessoas que mais amamos e que decidem se trair, mais do que nos trair, embarcam em uma viagem ególatra, amparada por amigos do alheio, que também pregam o direito à liberdade, e como seres sociais que são, se apóiam mutuamente, até mesmo nas piores escolhas, acobertando os erros e expondo qualidades. A mordida dos nossos entes queridos ocorre por egoísmo, teimosia, ou por ignorância mesmo, mas não poupa ninguém.

A Melhor Descrição Do Que Vi Ao Me Deparar Com O Mal

Durante esses momentos de tensão, que duraram de meses a anos, as sincronicidades se recolheram, aguardaram para que mais luz entrasse no quarto escuro. Nessas fases, a sincronicidade deu mais espaço aos insights, percepções profundas sobre a realidade, um entendimento agudo sobre todas as coisas. E o que os insights me recomendaram é que eu deveria colocar a viola dentro do saco e dar tempo ao tempo. Isso foi muito difícil, porque a aceitação do inaceitável deixa marcas. Mas optei por me recolher, aceitei que o mundo é ilusão e que não se combate as trevas no campo delas. E a maior lição que tive que aprender é que eu não precisava me defender, eu simplesmente me calei, silenciei. Alguns anos depois, as sincronicidades voltaram firmes e fortes, lindas como a mais bela das maçãs, linda por fora e saborosa por dentro.

E o que aconteceu com essas pessoas que a morderam impunemente?

Como eu, todas cresceram por bem ou por mal.

 

A Maçã

(Composição: Raul Seixas / Paulo Coelho)

Se esse amor
Ficar entre nós dois
Vai ser tão pobre amor
Vai se gastar…

Se eu te amo e tu me amas
Um amor a dois profana
O amor de todos os mortais
Porque quem gosta de maçã
Irá gostar de todas
Porque todas são iguais…

Se eu te amo e tu me amas
E outro vem quando tu chamas
Como poderei te condenar
Infinita tua beleza
Como podes ficar presa
Que nem santa num altar…

Quando eu te escolhi
Para morar junto de mim
Eu quis ser tua alma
Ter seu corpo, tudo enfim
Mas compreendi
Que além de dois existem mais…

Amor só dura em liberdade
O ciúme é só vaidade
Sofro, mas eu vou te libertar
O que é que eu quero
Se eu te privo
Do que eu mais venero
Que é a beleza de deitar…

 

Sincronicidade da Proteção

Frequentei uma Fraternidade Mística nos anos 90, na qual aprendi a importância dos rituais. Em nossa vida diária, praticamos muitos deles: batizado, festa de 15 anos, aniversários, primeira comunhão, vestibular (Enem hoje), primeira namorada, primeiro emprego, etc. O ritual significa a passagem de uma fase para a outra, sempre superior e fartamente celebrada em conjunto pela sociedade. Mas o ritual só nos exprime a sua real importância quando você se conecta a ele, entendendo algo do seu significado. A superficialidade e o não entendimento te afastam do que o ritual tem de mais encantador, que é te fazer entender o fluxo e refluxo da existência.

 

Como Se Vê

Em 1995 me desliguei dessa Fraternidade, não por discordar totalmente dos seus métodos, mas por sentir firmemente que era chegada a hora de partir. Quando esse impulso de mudança toma conta de você, não se discute, não se pensa duas vezes. Mas é claro, toda mudança deve ser realizada com o maior respeito e transparência com todos os envolvidos diretos e indiretos. Toda ação gera uma reação, isso é básico e toda mudança gera oportunidades, “desperdiçáveis” ou não. Com o tempo aprendi que o mundo te empurra para a frente, sempre. Quem te empurra “para trás” é você e mais ninguém. Assim como a vida, o entendimento sobre os rituais, surge com o tempo, com a experiência e a maturidade. Você pode ter 80 anos e continuar sendo completamente cego, não há nada de novo nisso. Por isso, quando decido que a mudança é inevitável, a realizo às claras. Nunca fiz e nem faço nada na sombra, mesmo que socialmente se pague um preço caro por ser independente.

Subi ao escritório do fundador da Fraternidade para comunicar a minha saída e ouvi de sopetão: “Você veio dizer que está saindo, não é?”. Meio surpreso, pois não havia comentado sobre o assunto com ninguém, respondi que sim. Ele me disse: “Seu trabalho não é mais entre quatro paredes, o seu trabalho é no mundo.”

O que ele quis dizer com mundo? Refleti sobre esse assunto várias vezes, mas antes mesmo de chegar a alguma conclusão, o mundo me tragou inesperadamente. De uma maneira surreal, fui empurrado para uma viagem à Europa no ano seguinte. Havia ido no máximo à Argentina, nunca para outro continente, e nem tinha dinheiro para isso, mas as coisas foram ocorrendo em um frenesi de “coincidências” que desde o primeiro momento, deixaram claro que era para ir e ponto final. Você segue o fluxo ou não, a decisão é sua. Há que confiar, mas sem as amarras da ilusão. Quando você “se deixa levar” e segue o seu “destino”, nada de ruim pode te acontecer, pois esse é o seu caminho e o de mais ninguém, porém isso também não quer dizer que problemas não ocorrerão. A sincronicidade te diz para seguir adiante, para viver a sua história e o melhor aspecto de todos: para finalizá-la. Porém a sincronicidade não te diz que a experiência será um mar de rosas, ainda mais que você lidará com pessoas que não te entendem, ou respeitam e elas, apesar de tudo, são necessárias para te testar, são os teus testadores, os teus sparrings e você deve agradecer por isso. A viagem à Europa não foi um mar de rosas, mas era a oportunidade de visitar a Lusitânia, a terra dos meus avós paternos. Soube, de coração, que não deveria abrir mão da oportunidade. Entre vários pontos altos e baixos, tive um encontro muito bonito e inesperado em Portugal não com uma pessoa, mas com a mãe simbólica de todos nós, a Virgem, que se tornaria, de certa maneira, uma grande amiga. Não me estenderei sobre esse encontro agora, mas o farei brevemente. É realmente uma história muito bonita que espero compartilhar de coração.

Antes de aterrissar em Portugal, estive um mês em Londres. Relato isso porque as histórias que conto agora, ocorridas em 2010, 14 anos depois, provam que não há ponto sem nó nessa vida. Estamos sempre sendo protegidos e acarinhados, mesmo que achemos que não.

 

O Valor do Gesto Interno

Entre julho e início de agosto de 2010, fiz uma novena. Como o silêncio é bom companheiro faço algumas meditações caminhando e costumeiramente rezo de madrugada. Escolhi como local para a novena, a imagem da Virgem que há em Ipanema na Praça N. Senhora da Paz, que fica do lado de fora da igreja, o que facilita o meu trabalho. Os irmãos evangélicos não adoram imagens, eu também não, por mais estranho que pareça. Explico: quando rezo em frente a uma “imagem”, não penso nela como um objeto físico, mas como um “facilitador”, ajo nos moldes de uma “técnica” que me permita projetar meus pensamentos ou minha consciência para um patamar superior, um mar de energias mais livre, onde os pensamentos possam fluir sem amarras, mais conectados com o todo, o que me permite ter uma noção mais clara do que “eu quero”, do “eu posso” e do que “é possível”. Não penso na imagem como um ser “vivo”, mas também não a desrespeito, como não desrespeito a bandeira nacional, que por sinal é uma imagem e um símbolo.

Muitos creem que rezar não vale a pena, mas desejar a mulher dos outros também é uma espécie de “reza” (que é ativada como um mantra), assim como ambicionar um emprego melhor ou invejar alguém. Reza é apenas um nome. Troque essa palavra por conversa, diálogo, pedido, reflexão e tire o valor “negativo” – se houver – da mesma. No final das contas, rezas são conversas entre você e o Eu Superior e tudo se resume a diálogo e esperança. Há que experimentar para compreender, testar o erro e o acerto para seguir adiante, optar com razão e emoção pelo o que é importante em nossas vidas.

Essa é a história.

Me dirigi à imagem às 1h30 de uma sexta para sábado para dar início à novena. A imagem da Virgem fica do lado de fora da igreja, em frente a um velário externo.

Apesar da hora, sexta é sexta e vários jovens caçadores, levemente alcoolizados e com uma energia sexual palpável passavam de tempos em tempos perto de mim, a alguns metros, sem se aproximarem. Todos gritavam ou gargalhavam, sem dar a mínima para o estranho que rezava, pois afinal de contas, a rua é de todos. Dentro de uma igreja se comportariam condignamente, do lado de fora é a lei do cão, que cada um brigue pelo seu espaço. Alguns minutos depois, um grupo de três se aproximou, enquanto eu acendia uma vela no velário. Eram 2 meninos e 1 menina. Pelo jeito que se aproximaram era óbvio que não eram daqui, refleti. Ainda mais a essa hora. Começaram a falar entre si e eu perguntei: “Vocês são ingleses?” Eles disseram que sim. A menina disse que gostaria de deixar um donativo na igreja e eu respondi que o local estava fechado.  Eles me perguntaram algumas coisas, se eu tinha religião, para que estava acendendo uma vela, enquanto eu tentava colocá-la em pé. Disse que o Brasil ainda era um país católico “parecido com a Irlanda”. Um dos meninos disse: “Minha mãe é irlandesa”. “Então você entende o significado da palavra FÉ?”, perguntei e ele respondeu “yeah”. Conversamos mais um pouquinho e eles se despediram. Agradeci a gentileza de terem conversado comigo, completando: “Nenhum brasileiro faria isso às 2 da manhã”.

 

Proteção

Após mais alguns minutos, me recordei da viagem à Inglaterra e Portugal. Só estive nesses dois países na Europa em 1996 e naquele momento, em Ipanema às 2 da manhã eu me senti novamente na Inglaterra através dos meninos e em Portugal através da imagem, vestida de azul e branco, posicionada atrás de mim. Apesar de nunca mais ter estado fisicamente nesses países, compreendi intensamente que a presença física não é de todo necessária, pois a energia da viagem há 14 anos, e o que eu havia aprendido com ela, estava ali de novo, mais física do que nunca, mais real do que poderia imaginar. Me arrepiei todo e meus olhos marejaram. Pensei “O elo daquela época não se desfez, está mais firme do que nunca e não é uma prisão, é uma benção”.

Ingenuamente, acreditamos mais na realidade física, dando testemunho ao TER do que ao ESTAR, em detrimento das entrelinhas da vida. O fato É, não precisa de julgamentos ou provas. Não é mágica que ilude a plateia, não é algo físico que precisa ser visto, tocado, só necessita ser vivido sem teorias. E a experiência é para sempre, não se desfaz, ela permanece se desenvolvendo, acrescendo. Nenhum elo do bem se rompe, se une a outro construindo uma corrente que se metamorfoseia, que não é sólida, é mutável, feita de elos coloridos, que se completam em si mesmos e se desdobram para muito além.

Não estamos sozinhos.

O encontro com os três jovens viajantes ingleses foi sentido como um evento sincronístico singelo e acarinhador. A mesma energia da viagem de 1996 estava ali e está aqui agora em 2010 me dizendo que o casamento íntimo é mais importante do que o casamento no papel, que o que se sente é mais importante do que o que se fala, que o real é íntimo e comumente não é expresso pois teme-se o julgamento. Mais vale enfrentar o perigo com verdades do que se poupar com mentiras. A verdade é perene, a mentira tem prazo de validade, assim como o tempo é senhor da razão. O tempo físico é uma quimera. A experiência é única e atemporal, não sofre influência do relógio, do mundo externo, nem das exterioridades.

E a Virgem me referendou em silêncio, após a vela ser acesa: “Eu continuo aqui com você, sempre”.

Sinc da Eleição

A Sincronicidade da EleiçãoMinha mãe faleceu há 4 anos. Sinto a sua falta até hoje, das suas broncas, da sua teimosia e da sua parcialidade. Sinto falta da sua humanidade, enfim. Mas é claro, ela era gente boa e me ensinou muito, mesmo que indiretamente, a não repetir certos comportamentos. No final da vida, ela teve que viver atrelada a uma cadeira de rodas e sem consciência. Foi um período triste, mas de um importante aprendizado.

Desde o começo da doença da mamãe, fiquei muito sensível em relação à idosos, principalmente aos mais dependentes.

Imagine o que é ter a cabeça funcionando e os músculos inativos…

 

Em 2010, tivemos uma eleição em dois turnos.

No primeiro turno, me dirigi à sessão eleitoral bem cedinho. Dois votantes à frente, uma filha tentava fazer a mãe de brancos cabelos brancos em uma cadeira de rodas se posicionar entre a urna e a parede. Incomodado, puxei o cabo que ligava a urna ao seu comando, preso com uma fita adesiva no chão, para abrir espaço para a cadeira, enquanto um dos coordenadores puxava a mesa para a frente. A filha da senhora agradeceu e eu sorri. Após cumprir o seu bom dever, a filha se foi levando a mãe na cadeira. Ela novamente me agradeceu. Falei: “Tudo pelas mamães.”

Segundo turno às 14h. Assim que cheguei à sessão, quem encontro? A filha e a senhora, porém a idosa estava com um andador e não mais na cadeira. Nos reconhecemos com um sorriso. “Fiz questão de votar”, a senhora disse. Minha reação natural foi beijar-lhe o rostinho, como se estivesse beijando o de minha mãe. Não perguntei se podia, apenas fiz, pois é isso o que sei dar: amor, mesmo que seja compreendido ou não. Muitas vezes dar amor é sentido como um insulto, mas eu não posso deixar de ser eu, ainda mais nesse quesito, só sei dar amor e viver o amor.

Por que nos encontramos novamente em horários diferentes? Por causa do amor, somente por causa do amor que nos une e não nos separa, que nos marca e não nos fere, que só harmoniza. Que só sincroniza.

 

Dê Um Rolê

( Moraes Moreira / Galvão)

Não se assuste pessoa
Se eu lhe disser que a vida é boa

Enquanto eles se batem
Dê um rolê e você vai ouvir
Apenas quem já dizia
Eu não tenho nada
antes de você ser eu sou

Eu sou, eu sou, eu sou amor
Da cabeça aos pés

E só tô beijando o rosto de quem dá valor
Pra quem vale mais o gosto do que cem mil réis
Eu sou, eu sou, eu sou amor
Da cabeça aos pés

Eu sou, eu sou, eu sou amor
Da cabeça aos pés